O Barman e o Confeiteiro (Capítulo 2)

Um conto erótico de R. Valentim
Categoria: Heterossexual
Contém 2424 palavras
Data: 10/03/2026 19:19:07

Capítulo 2

Ykaro

Dois dias. Fazia exatamente quarenta e oito horas que eu havia trocado o inferno da minha antiga vida pelo cheiro constante de baunilha e canela.

A dinâmica com o Adriano era, no mínimo, curiosa. Nós éramos como dois fantasmas dividindo o mesmo teto, cruzando-nos apenas nos breves momentos em que nossos horários colidiam. Ele trabalhava do meio-dia até o fim da tarde naquele call center que parecia sugar a alma dele. Eu saía no início da noite para o pub e voltava de madrugada, quando a casa já estava mergulhada no escuro e o único som era a respiração pesada dele vinda do quarto da frente.

Apesar de mal nos vermos, a convivência era estranhamente pacífica. Eu lavava a louça que ele deixava, passava um pano no chão quando percebia que o açúcar das receitas tinha deixado a cozinha grudando, e deixava o café pronto antes dele acordar. Para um cara que passou os últimos anos sendo tratado como um objeto de luxo pago para satisfazer caprichos alheios, limpar a casa de um confeiteiro de óculos redondos era o mais próximo que eu já tinha chegado da paz.

Era terça-feira, minha folga. Acordei perto das dez da manhã. A casa estava silenciosa; Adriano já havia saído. Espreguicei-me, sentindo os músculos das costas estalarem, e decidi que usaria a manhã para reabastecer a despensa. Vesti uma calça jeans desbotada, uma camiseta branca qualquer e saí caminhando até o mercado do bairro.

O sol de Fortaleza já estava castigando o asfalto. O mercado não era grande, o tipo de lugar onde os corredores são apertados e cheiram a produtos de limpeza baratos e frutas maduras. Eu estava no corredor dos enlatados, calculando mentalmente quanto do meu dinheiro suado sobraria depois de pagar a minha parte das contas do Adriano, quando o ar ao meu redor mudou.

Foi o perfume. Um floral amadeirado, absurdamente caro, que não pertencia àquele bairro. Meu estômago revirou antes mesmo de eu me virar.

— Ykaro? Meu Deus, é você mesmo?

Gelei. O pacote de café quase escorregou da minha mão. Virei-me devagar, torcendo para que minha mente estivesse me pregando uma peça. Não estava.

Lá estava ela. Helena.

Loira, pele impecavelmente branca, olhos claros que sempre pareciam estar avaliando o preço de tudo ao redor. Filha de pai rico, casada com um marido ainda mais rico, e a mulher que havia me transformado na mercadoria mais cara da alta sociedade cearense. Ela estava deslocada ali, segurando uma garrafa de água mineral importada, usando roupas que pagariam o aluguel do Adriano por um ano.

— Helena — minha voz saiu mais áspera do que eu planejava. — O que você tá fazendo tão longe da sua bolha?

Ela sorriu, aquele sorriso predatório disfarçado de simpatia, e se aproximou. Fazia quase um ano que não nos víamos.

— Eu vim ver um imóvel comercial que meu marido comprou aqui perto. Mas confesso que a viagem valeu a pena só por esse encontro. Olhe para você... — Os olhos dela desceram pelo meu peito, mapeando as tatuagens que ela conhecia tão bem, até a linha da minha calça. — Continua um pecado.

Dei um passo para trás, instintivamente.

— O que você quer, Helena? Eu tô fora daquela vida. Acabou.

A lembrança do que eu fazia com ela — e para ela — invadiu minha mente com um gosto amargo. Helena não era apenas uma cliente que me bancava em um loft de luxo. Ela era a mulher que havia me pago uma quantia obscena para tirar a virgindade da própria filha antes que a garota se casasse com o namorado da escola. Na época, anestesiado pelo dinheiro e pela manipulação de Alexandra, eu fiz. Hoje, a lembrança me dava ânsia de vômito.

— Calma, querido. Não precisa ficar na defensiva — ela ronronou, tocando de leve meu braço. — Eu entendo. Mas você sumiu. Alexandra enlouqueceu quando você desapareceu do mapa.

O nome de Alexandra fez meus músculos travarem.

— Ela tá atrás de mim?

— Não mais. Pelo menos, não que eu saiba — Helena suspirou, adotando um ar de confidência. — Eu cortei relações com ela. A obsessão que ela tinha por você passou dos limites, Ykaro. Eu não me misturo com gente que perde a classe daquele jeito.

Eu não acreditava em uma palavra do que ela dizia, mas assenti lentamente.

— Se você tá precisando de ajuda... financeira — ela continuou, a voz baixando uma oitava. — Eu ainda lembro muito bem do que você é capaz. Ninguém nunca me fez chegar lá como você, Ykaro. Ninguém. Posso te ajudar como uma... amiga.

O orgulho queimou no meu peito. A ideia de voltar a ser o brinquedo dela me dava nojo.

— Agradeço a oferta, Helena. Mas eu tô bem. Tenho um emprego de verdade agora. Não preciso do seu dinheiro.

Ela estreitou os olhos, percebendo a barreira de concreto que eu havia erguido, mas a máscara de mulher compreensiva não caiu.

— Tudo bem. Eu respeito sua escolha. Mas pelo menos me passe seu número novo. Só como amigos, Ykaro. Para o caso de você precisar.

Pensei em recusar, mas a sobrevivência nas ruas me ensinou uma regra básica: mantenha seus inimigos perto. Se ela soubesse algo sobre os passos da Alexandra, eu precisaria saber. Ditei os números a contragosto, paguei minhas compras e saí do mercado com a sensação de que havia sujeira debaixo da minha pele.

Voltei para casa e passei a tarde inteira esfregando o chão e limpando azulejos, tentando exorcizar o perfume da Helena das minhas narinas. Dormi um pouco no final da tarde, um sono pesado e sem sonhos.

Quando a noite caiu, peguei minha moto e cortei a cidade até o apartamento da Stella. Desde que eu havia começado no pub, aquele lugar tinha se tornado meu segundo refúgio.

Stella abriu a porta e o resto do mundo desapareceu. Ela usava apenas uma calcinha de renda preta e uma baby look branca que mal cobria os seios fartos. Os cabelos ruivos cacheados estavam soltos, uma bagunça selvagem que combinava com o sorriso malicioso que ela me deu.

Não dissemos uma palavra. Eu a peguei no colo assim que fechei a porta com o pé. As pernas dela envolveram minha cintura, e eu a prensei contra a parede do corredor, devorando a boca dela. O gosto de Stella era real, quente e honesto. Não havia dinheiro envolvido, não havia cobranças. Havia apenas tesão puro.

Carreguei-a até o quarto e a joguei na cama. Tirei minha roupa em segundos, e o olhar que ela lançou para a minha ereção foi o suficiente para incendiar o quarto. Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Anos lendo corpos me tornaram um especialista, mas com a Stella, eu não precisava atuar.

Desci beijando seu abdômen, puxando a calcinha de renda pelos dentes. Quando me encaixei entre as pernas dela, Stella arfou, cravando as unhas nos lençóis. Meu sexo oral era focado, implacável. Eu queria apagar o dia ruim da minha memória usando o prazer dela. Minha língua encontrou o ritmo perfeito, provocando, chupando, até o corpo dela inteira arquear na cama, os gemidos preenchendo o quarto enquanto ela gozava a primeira vez, tremendo contra a minha boca.

Subi pelo corpo dela, ofegante. Antes que eu pudesse pegar a camisinha, ela me empurrou de costas para o colchão. Stella assumiu o controle. Ela rasgou o invólucro, desenrolou o látex sobre o meu pau, que latejava grosso e pesado, e sentou de uma vez.

O som do impacto dos nossos corpos ecoou. Ela cavalgava como se a vida dela dependesse daquilo, os seios balançando sob a blusa curta, os olhos fechados em puro êxtase. Segurei a cintura dela, ajudando no impulso, até que a impaciência me venceu. Inverti as posições.

Deixei-a de quatro, as mãos dela agarradas ao travesseiro. Segurei os cachos ruivos na nuca, puxando levemente para trás enquanto eu metia fundo, com força. O atrito, o calor, a respiração errática dela... Tudo era intenso demais.

— Ykaro... porra... — ela gemia, a voz embargada.

Quando o meu limite chegou, eu não quis o látex. Puxei para fora num movimento rápido, arranquei a camisinha e me masturbei nas últimas estocadas, rápido, sentindo o alívio queimar enquanto minha porra quente banhava a pele suada das costas e dos glúteos dela. Caí ao lado dela, o peito subindo e descendo freneticamente, enquanto ela ria baixo, ainda recuperando o fôlego.

A segunda rodada aconteceu meia hora depois, prensados contra o azulejo do box do banheiro, a água quente lavando o suor e os fluidos, os gemidos dela ecoando pelo banheiro enquanto eu a fodia contra a parede.

Mais tarde, estávamos deitados na cama. Eu vestia apenas minha calça jeans desabotoada, e ela estava enrolada no lençol. O quarto cheirava a sexo e vinho barato. Um filme qualquer passava na TV no mudo. Eu me sentia leve. O encontro com a Helena parecia ter acontecido em outra vida.

Foi então que Stella desenhou círculos no meu peito com a ponta do dedo e soltou a bomba.

— O Luan me procurou hoje.

Minha mão, que acariciava o cabelo dela, parou. Meu coração deu um baque estranho.

— Ele mandou mensagem — ela continuou, a voz suave, mas carregada de uma hesitação que eu conhecia bem. — Disse que quer conversar. Quer tentar de novo, Ykaro. De verdade, dessa vez.

Um sentimento ácido, frio e afiado, desceu pela minha garganta. Ciúmes. Era uma sensação ridícula e nova. No meu passado, eu dividia mulheres com os maridos delas, com os amantes delas. Eu nunca me importei. Mas a Stella... a Stella era minha paz. Era a garota que me acolheu quando eu não era ninguém.

Eu olhei para o rosto dela. Vi a esperança mal contida brilhando naqueles olhos. Stella nunca mentiu para mim. Nossa relação era clara: éramos amigos que fodiam muito bem. Eu sempre soube que o gigante com cara de bravo era o dono daquele coração.

Eu poderia dizer para ela não ir. Poderia dizer que Luan era um otário por não valorizar a mulher foda que ela era. Mas eu não era egoísta a esse ponto.

Engoli a queimação no peito, forcei um sorriso de canto e beijei a testa dela.

— Então vai ouvir o que ele tem a dizer, ruiva. Dá uma segunda chance pro cara. Se ele vacilar de novo, eu mesmo quebro a cara dele.

Ela sorriu, aliviada, e me abraçou apertado. Por fora, eu era o amigo compreensivo. Por dentro, eu estava queimando de raiva por perder o único porto seguro que eu tinha.

Saí da casa da Stella de madrugada. O vento frio no rosto durante o trajeto de moto não ajudou a esfriar minha cabeça. Quando estacionei na frente da casa do Adriano, só queria a minha cama.

Destranquei a porta em silêncio. A sala estava iluminada apenas pelo brilho azulado da televisão. Adriano já devia estar no décimo sono. Mas o sofá não estava vazio.

Luan estava esparramado ali. Sem camisa, usando apenas uma bermuda de moletom, os braços cruzados atrás da cabeça. Adriano já tinha me avisado que os amigos tinham cópia da chave e viviam ali, então não me assustei com a invasão.

Parei por um segundo. A luz da TV destacava cada músculo daquele corpo imenso e retinto. O peitoral largo, o abdômen definido. Luan era um tanque de guerra, absurdamente intimidador e inegavelmente bonito. Mas o ciúme que ainda formigava nas minhas veias falou mais alto que a admiração. Aquele era o cara que fazia a Stella chorar e sorrir na mesma intensidade.

Ele virou o rosto para mim. A expressão era fechada, desconfiada, como sempre ficava quando eu estava por perto.

— E aí — murmurei, seco, indo em direção ao corredor.

— E aí. — A voz grave dele respondeu no mesmo tom.

Dei dois passos no corredor escuro, mas a imagem da Stella com os olhos cheios de esperança me atingiu. Parei. Eu não devia me meter. Eu era o inquilino, o cara com um passado fodido. Mas eu dei meia-volta.

Parei na frente do sofá, enfiando as mãos nos bolsos da calça.

— Qual é a sua com a Stella? — perguntei, sem rodeios.

Luan não se mexeu imediatamente. Ele apenas me encarou de baixo para cima, avaliando o tom da minha voz. Surpreendentemente, ele não explodiu. A postura defensiva pareceu vacilar por um segundo, e ele soltou um suspiro pesado, sentando-se no sofá e apoiando os cotovelos nos joelhos enormes. A hostilidade deu lugar a um cansaço genuíno.

— Eu a amo — Luan respondeu. Simples assim. Sem ironia, sem briga. Era como se, no fundo daquela sala escura, fôssemos apenas dois caras cansados.

— Então o que te impede, porra? — rebati, franzindo a testa. — A garota é louca por você. Você tem ela na mão e fica jogando fora.

Luan esfregou o rosto com as mãos grandes.

— Não é tão simples, Ykaro. — Ele desviou o olhar para o chão. — Eu cresci na igreja. Meu pai era tudo pra mim. Quando ele morreu, eu tive que virar o homem da casa. Tive que ser o exemplo, a rocha. Tem coisas... tem um peso na minha cabeça que me sabota. Eu olho pra ela, pra tudo o que ela é, e a culpa cristã bate. Eu sinto que tô errando com a minha mãe, com o que eu aprendi, e acabo descontando nela. Eu me afasto antes de fazer merda, mas acabo machucando ela do mesmo jeito.

Fiquei em silêncio, processando a confissão. O brutamontes era só um cara engaiolado na própria cabeça. Eu conhecia o sentimento de estar preso a expectativas do passado. Mas não ia passar a mão na cabeça dele.

Dei um passo à frente, a expressão dura.

— Olha pra mim, Luan. — Ele ergueu os olhos. — Eu não conheço sua mãe, não ligo pra sua igreja e não dou a mínima pros seus traumas. Mas eu conheço a Stella. E vou te falar muito sério: se você não mudar o jeito que a sua cabeça funciona, você vai perder ela. E não vai ter oração no mundo que traga ela de volta quando ela cansar de ser a sua dúvida.

Ele não respondeu. Apenas continuou me encarando, o maxilar travado, absorvendo o soco no estômago que eram as minhas palavras.

Deixei-o ali, sozinho com os próprios demônios e com o brilho da TV, e caminhei para o meu quarto. Fechei a porta atrás de mim, encostei as costas na madeira e deixei o corpo escorregar até o chão. Eu tinha feito o certo. Tinha empurrado a garota que eu queria para os braços do cara que ela amava.

O problema de fazer a coisa certa é que, às vezes, ela tem um gosto amargo do caralho.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive R Valentim a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.
Foto de perfil de R ValentimR ValentimContos: 179Seguidores: 115Seguindo: 3Mensagem não recebo mensagens por aqui apenas por e-mail: rvalentim.autor@gmail.com

Comentários