Dias antes, Carlos comentou casualmente no jantar:
— Mãe… no feriado eu vou ficar na casa da Julia. Talvez eu nem durma em casa, tá?
A mãe levantou os olhos, curiosa — mas com aquele meio sorriso que mistura orgulho e imaginação.
— Tudo bem, filho. Aproveita. Juventude é pra isso mesmo.
O tom dela tinha algo implícito. Uma suposição doce, quase divertida. Carlos percebeu… e preferiu não corrigir. Limitou-se a sorrir e concordar.
Por dentro, era outro tipo de expectativa que o fazia contar os dias.
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Na véspera, dedicou-se aos detalhes.
Como nadava com frequência, já estava acostumado a manter o corpo com poucos pelos, mas ainda assim fez questão de se cuidar com mais atenção. Banho demorado, pele bem hidratada, unhas aparadas, tudo organizado.
Arrumou uma mochila com algumas roupas básicas — peças que sabia que provavelmente nem usaria.
— Só pra manter a história coerente — murmurou, rindo sozinho.
Dormiu pouco naquela noite.
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O despertador tocou cedo.
O coração já estava acelerado antes mesmo de abrir os olhos.
Tomou um banho rápido, vestiu roupas simples e saiu ainda com o ar fresco da manhã envolvendo a rua. O trajeto até o apartamento parecia mais curto do que nunca.
Quando finalmente chegou e apertou o interfone, as mãos estavam levemente suadas.
A porta se abriu.
A amiga apareceu com um sorriso largo — daqueles que tranquilizam só de existir.
— Você veio mesmo — ela disse, divertida.
Carlos entrou, fechando a porta atrás de si, olhando ao redor como se estivesse atravessando uma fronteira invisível.
— Eu tô nervoso — confessou, quase sussurrando.
Ela se aproximou, segurou os ombros dele com firmeza suave.
— Ei… respira. Aqui é meu espaço. Seguro. Hoje não tem pressa, não tem susto, não tem câmera de portão.
Ele soltou uma risada tímida.
— E se eu travar?
— Eu destravo você. — Ela piscou. — Confia em mim, tá? Hoje é sobre você se sentir bem. Nada além disso.
O olhar dela era sério, acolhedor.
Carlos assentiu.
Então ela apontou para o corredor.
— Primeiro passo: banheiro. Eu já deixei tudo preparado. Quero que você tome um banho bem demorado. Usa os sabonetes, os cremes, tudo. Se olha no espelho. Se sente. Sem correria.
Ele franziu a testa, curioso.
— Tudo… preparado?
— Tudo. E quando você terminar, tem uma surpresa te esperando ali dentro.
Carlos caminhou até o banheiro quase em câmera lenta.
Ao abrir a porta, percebeu o cuidado.
Sobre a pia, sabonetes perfumados, esfoliante, hidratantes organizados. Toalhas macias dobradas. No gancho, um roupão rosa delicado.
E, cuidadosamente dobrada sobre a bancada, uma lingerie clara, de renda fina, discreta e elegante.
Ele passou os dedos pelo tecido, sentindo o coração bater mais forte.
Do lado de fora, a amiga falou em tom leve:
— Sem pressa. Eu tô aqui. Hoje é um dia inesquecível, lembra?
Carlos fechou a porta.
A água começou a cair, quente e constante, enquanto ele respirava fundo, entendendo que estava prestes a atravessar mais um limite — não imposto por medo, mas escolhido por vontade.
E, pela primeira vez, a transformação não seria escondida.
Seria vivida.