Capítulo 1
Adriano
Se alguém me dissesse que o fundo do poço tinha cheiro de rosas vermelhas e rodava pela cidade a quarenta por hora, eu teria rido. Mas lá estava eu, espremido no banco do fundo do meu terceiro ônibus da noite, segurando um buquê ridículo e gigante de rosas importadas que mal cabia no meu colo. Nos fones de ouvido, Gal Costa cantava Lágrimas Negras, o que era ironia pura, porque a única coisa que eu queria chorar era de ódio.
O ônibus sacolejou, e uma das rosas bateu no meu óculos, quase o derrubando. Suspirei, encostando a testa no vidro frio, e deixei a mente voltar para as últimas três horas. Onde foi que eu errei?
Leandro. Cinquenta anos, cardiologista, cheiro de perfume caro e um apartamento no bairro mais nobre da cidade. Estávamos saindo há dois meses. Eu achava que era um relacionamento; ele, pelo visto, achava que era caridade. A noite já tinha começado torta. Fui direto do call center para o restaurante francês absurdamente caro que ele escolheu. Eu me sentia um vira-lata de banho tomado no meio daquela gente engravatada, e o Leandro passou o jantar inteiro seco, monossilábico, checando o celular. Achei que fosse estresse do hospital. Fui burro.
Depois do jantar, fomos para o apartamento dele. O roteiro era o mesmo de sempre. Ele destrancou a porta, serviu um uísque para ele e, sem muita conversa, me puxou para o quarto. Não teve beijo apaixonado ou preliminares demoradas. Foi clínico. Mecânico.
Leandro me empurrou de bruços sobre os lençóis de algodão egípcio que custavam mais que o meu salário. Senti o peso do corpo dele sobre o meu, as mãos grandes e frias apertando minha cintura com força, sem nenhum traço de carinho. Quando ele entrou em mim, soltei um arquejo, mas ele não diminuiu o ritmo. Era quase como se estivesse cumprindo uma obrigação, as estocadas fortes, secas e ritmadas, ditando um compasso egoísta. Eu enterrei o rosto no travesseiro, esperando encontrar algum afeto naquilo, mas só sentia a fricção e o som da respiração pesada dele. Leandro era ativo, direto ao ponto e focado apenas no próprio prazer. Quando ele finalmente gozou com um gemido abafado, saiu de cima de mim quase imediatamente.
— Vai tomar um banho — foi a única coisa que ele disse, já puxando o lençol para se cobrir.
Eu fui. Lavei meu corpo sentindo um vazio estranho no peito. Quando voltei para o quarto, com a toalha na cintura, a cena parecia uma piada de mau gosto. Leandro estava vestido, segurando aquela monstruosidade de buquê de rosas e uma caixa de chocolates trufados.
— Adriano, você é um garoto ótimo — ele começou, e meu estômago despencou. — Mas não dá. Nossas realidades... nós somos muito diferentes. Você tem muito o que viver, e eu preciso de alguém que acompanhe meu ritmo.
Um belo pé na bunda com fita de cetim.
Agora, eu estava puto. Puto com ele, puto por ter acreditado que o amor vinha em embalagens luxuosas, puto por ter que pegar três ônibus para chegar ao pub e, principalmente, puto porque sabia exatamente o que ia ouvir.
Quando finalmente empurrei a porta de madeira do pub, o som de rock indie e o cheiro de cerveja me abraçaram. Não demorei a encontrar os dois no fundo do bar. Luan, imenso e com aquela postura de guarda-costas, e Caio, com uma camisa de seda e um olhar que me fuzilou assim que viu as flores.
Joguei o buquê na mesa e sentei de supetão.
— Nem comecem. — avisei, já sinalizando para o garçom.
— Eu não ia dizer nada — Caio ergueu as mãos, os anéis brilhando na meia-luz, um sorriso cínico nos lábios. — Eu só ia pontuar que eu avisei. Desde o dia um. O cara parecia seu sugar daddy, mas sem a parte do sugar.
— Caio, dá um tempo — Luan interveio, a voz grave cortando a ironia do amigo. Ele me olhou com compaixão e empurrou um copo de chope na minha direção. — Hoje é sábado, Dri. Ele é um idiota. Bebe. Bebe até esquecer que esse cara existe.
Eu não precisava que me pedissem duas vezes. Virei o copo.
Foi então que Stella apareceu. A garçonete ruiva de vinte e quatro anos era um acontecimento. O uniforme do pub parecia ter sido costurado no corpo dela, realçando cada sarda e curva que faziam qualquer um ali babar. Mas os olhos dela não estavam em mim. Estavam fixos no Luan.
— Mais uma rodada para os meninos? — ela perguntou, a voz aveludada, inclinando-se levemente na mesa. O decote discreto fez Luan engolir em seco e desviar o olhar para o próprio colo, a maldita culpa cristã dele estampada na testa.
— Sim, Stella. Traz o mais forte que tiverem — eu pedi, tentando ignorar a tensão palpável entre os dois.
Caio deu um sorrisinho maldoso, olhando de Stella para Luan. — Cuidado com o pecado, hein, Luanzão. A carne é fraca, mas a ruiva é forte.
Luan fechou a cara, murmurando algo inaudível. Stella apenas deu uma piscadela para mim e saiu rebolando em direção ao balcão. O que aconteceu depois da terceira ou quarta dose, honestamente, é um borrão. Só lembro de rir muito, chorar um pouco no ombro do Luan e de uma conversa confusa com a Stella perto do bar sobre contas atrasadas.
O inferno existe e ele se chama domingo de manhã.
Acordei com a sensação de que um trator tinha passado por cima da minha cabeça. A luz do sol entrava pela fresta da cortina como agulhas nos meus olhos. Tentei me mover na cama, mas meu corpo inteiro protestou. Foi então que senti.
Cheiro de café fresco.
Pisquei, confuso. Luan ou Caio deviam ter me trazido para casa e dormido no sofá. Me arrastei para fora da cama, vestindo apenas uma cueca samba-canção velha e uma camiseta amassada, e caminhei tropeçando pelo corredor.
— Luan, me diz que você fez aspirina com esse café... — murmurei, coçando o olho, enquanto entrava na cozinha.
Eu parei. Meu coração errou as batidas.
Não era o Luan. E não era o Caio.
Havia um homem na minha cozinha. E ele era enorme. Quase da altura do Luan, mas com uma presença muito mais crua. Ele estava de costas para mim, coando café, e — para o meu desespero total — sem camisa.
A pele clara das costas descia em um "V" perfeito até o cós da calça de moletom cinza que pendia perigosamente baixa nos quadris. Quando ele se virou ao som da minha voz, perdi o ar. O braço esquerdo dele era completamente fechado de tatuagens, uma arte escura e complexa que subia pelo ombro e invadia o peito musculoso. Mais tinta descia pelo abdômen definido, e eu juro que vi números tatuados ali, bem na linha onde o moletom começava, formando o que parecia ser um ano de nascimento.
Ele segurava a garrafa térmica e me olhou de cima a baixo com um par de olhos castanhos incrivelmente calmos.
— Bom dia — a voz dele era rouca, grave. — O café tá pronto. Tem filtro limpo se quiser.
Pânico. Puro e simples pânico.
— Eu... eu esqueci meu celular! — gaguejei, dando meia-volta tão rápido que quase escorreguei no piso de taco.
Corri de volta para o quarto, bati a porta e tranquei. Peguei o celular na mesa de cabeceira com as mãos trêmulas e abri o grupo As Três Espiãs Demais (nome cortesia do Caio, claro). Apertei o botão de chamada de vídeo em grupo.
Eles atenderam quase juntos. Caio estava com uma máscara de argila verde no rosto, e Luan parecia estar no meio de um treino matinal.
— Que foi, assombração? — Caio perguntou.
— Tem um homem gigante, tatuado e sem camisa na minha cozinha fazendo café! — eu sussurrei, gritando. — Quem é ele?! Vocês trouxeram um garoto de programa para mim?!
Luan parou de se mexer na tela, suspirando. — Dri. Você não lembra?
— Lembrar do quê?!
— Do Ykaro — Caio respondeu, revirando os olhos, fazendo a máscara rachar. — O barman do pub, amor. Amigo da Stella.
— O que ele tá fazendo na minha cozinha?!
— Você convidou ele pra morar aí, seu louco! — Caio deu uma risada. — Você chorou abraçado com a Stella dizendo que não ia conseguir pagar as contas da casa da sua vó. A Stella disse que o Ykaro tava precisando de um lugar urgente para sumir do radar. Vocês selaram o acordo com um shot de tequila.
Minha pressão caiu. Eu aluguei meu quarto vago. Para um deus grego tatuado. Bêbado.
— Respira, Adriano — Luan disse, calmo. — Ele é de boas. A Stella garantiu. Se você não quiser, vai lá e fala que foi erro da bebida.
Encerrei a ligação, sentando na beira da cama e cobrindo o rosto com as mãos. Eu tinha duas opções: expulsar o cara ou lidar com as consequências de ser um adulto falido.
Respirei fundo, ajeitei minha camisa amassada e destranquei a porta. Caminhei de volta para a cozinha com o que eu esperava ser alguma dignidade.
Ykaro agora estava encostado na pia, segurando uma caneca, comendo uma torrada. Ele me olhou, parecendo notar o meu desespero interno.
— Olha, eu sei que a gente fechou isso ontem de madrugada no meio do bar — ele disse, a voz suave, quebrando o gelo. — Se você tiver mudado de ideia, ou não lembrar, tudo bem. Eu pego minha mochila e a gente esquece que isso aconteceu. Zero problemas.
Olhei para ele. Para os cachos curtos bagunçados, para as tatuagens, para a calça de moletom. Pensei na minha conta bancária negativa e no Leandro me dizendo que eu "não acompanhava o ritmo".
Endireitei os ombros, sentindo meu metro e sessenta, e cruzei os braços.
— O quarto no fim do corredor é o seu — eu disse, tentando soar firme. — Só não mexe nas minhas formas de bolo e tenta usar uma camisa quando estiver cozinhando, pelo amor de Deus.
Um sorriso de canto apareceu nos lábios de Ykaro. Um sorriso que, percebi com pavor, fazia meu estômago dar piruetas que não tinham nada a ver com a ressaca.
— Fechado, confeiteiro.
