Aquele Cara (Um Dominador Frio) - Parte Única

Da série Aquele Cara
Um conto erótico de Tales
Categoria: Homossexual
Contém 4753 palavras
Data: 08/03/2026 21:39:15
Última revisão: 08/03/2026 23:16:00

Boa noite. Segue a última parte. Muito drama, zero sexo. Vou ficar algumas semanas sem postar devido a correria do dia a dia. Logo volto a postar.

A semana passou bem rápido. No geral todas as pessoas estranharam meu corte de cabelo e o meu rosto sem barba, inclusive minha família. Ainda mais quando troquei as fotos das redes sociais e do telefone. Confesso que estranhei de mais por um tempo também. Levou um tempo até não me assustar ao olhar no espelho. Via meu rosto como ele é depois de muito tempo. Aquilo era estranho, para dizer o mínimo.

Mas em uma coisa ele estava certo, aquele era eu, não tinha porque me envergonhar.

Inevitavelmente lembrava do Renan sempre que olhava no espelho. Ou quando alguém comentava meu novo visual. Por algum motivo me fez sentir muito mais submisso, por mais que fosse algo totalmente a parte do sexo. Renan me fazia sentir dele. Me sentia como se não estivesse sozinho, como se tivesse alguém comigo o tempo todo.

As vezes me olhava no espelho imaginando a possibilidade de usar bigode. No caso dele com aquele rosto quadrado e o queixo largo ficava lindo, o que não era o meu caso.

Naquela semana, em específico, Renan parecia ter tirado a semana para ficar no meu pé. Um dos dias ele apareceu do nada para irmos almoçar juntos. Novamente ele estava de farda. Fomos em um restaurante do centro mesmo. Parecia estressado nesse dia, irritadiço com algo que havia acontecido mas que ele não podia me falar. Reclamou bastante de algumas coisas que aconteceram no dia. Nesse dia tive de aturar o estresse dele.

Saímos noutro dia para comprar umas roupas novas. Nesse dia de fato ele comprou para mim algumas camisas novas, a sua maioria camisa social ou polo, um sapatênis, um mocassim e uma sandália de couro. Disse que agora sim, a partir desse dia, estaria totalmente a cara dele.

Não houve muito tempo para questionar, apenas acatei o que ele falou antes de tomar um esporro ou um tapa. As roupas em si eram bem simples, a camisa polos era sem qualquer detalhe, com bolso no peito com um emblema bem pequeno, naquele tecido grosso. As camisas sociais eram em geral de manga curta, com bolso e simples. A sandália era de couro marrom, sem fivela. Ele me disse que próxima vez que saísse a noite com meus amigos faria questão que fosse com a minha nova sandália. Queria ver as pessoas comentarem em primeira mão. Eu nunca entendi esse lance das roupas, mas vi que não tinha muita escolha quanto a isso.

Renan também disse que queria encontrar com meus amigos para mudar a impressão ruim que tinham dele. Sendo assim marcamos para a semana que vem um encontro. Ele disse que fazia questão de mudar a impressão de padrão fútil e narcisista que fizeram dele. Insiste que eles não achavam isso, mas mudar a cabeça dele para qualquer coisa era muito dificil.

Na sexta feira ele foi me buscar no curso. Nesse dia o estressado e sem paciência era eu. Sexta-feira geralmente eu ficava exausto e ainda tinha que trabalhar sábado sim e sábado não. Confesso que estava cansado. Ele deu um selinho quando me viu e ficou me olhando. Ele parecia vir do treino. Estava usando uma camiseta regata preta, short e tênis. Estava um pouco suado, com um cheiro razoável de suor. Os braços musculosos dele segurando o volante. O bigode havia crescido mais e ele estava mais lindo que nunca.

- Está irritado? - perguntou ele.

- Cansado – respondi. - E com muita fome, vamos comer algo?

- Eu já comprei para você – disse ele me entregando um saco de papel cheio de coisas que estava atrás do banco do passageiro. Tinha hambúrguer, batata frita e refrigerante.

Aquilo me alegrou.

- Vai me deixar gordo assim – disse para ele enquanto comia as batatas fritas.

Ele sorriu.

- Mais gostoso – disse ele com os olhos no trânsito.

- É sério – disse para ele com a boca cheia. - Preciso tirar um tempo para ir para a academia. Na relação só o senhor é gostoso.

- Você é gostoso – disse ele achando graça. - E suas prioridades atualmente são seus estudos e eu.

Eu ri enquanto comia.

- O senhor em segundo lugar? Achei que estaria em primeiro – disse para ele rindo.

Ele achou graça daquilo. Continuei comendo olhando a rua, ele colocou uma mão na minha coxa.

- Seus estudos sempre em primeiro lugar – disse ele.

- Por quê? - disse achando graça, querendo provocar ele. - Os dominadores que conheci achavam que a prioridade deviam ser eles. Sempre achei graça disso, era tipo eles na terra e Deus no céu.

Renan deu uma risada.

- Eu quero muito que você tenha uma base financeira sólida – disse ele tranquilo. - Um concurso talvez ou um emprego que lhe garanta uma boa renda.

- Bem… isso é algo que eu quero também – disse para ele, um tanto confuso, agora abria o hambúrguer. - Mas não consigo entender porque isso é importante para o senhor.

Ele suspirou e focou na rua, ficando calado um tempo.

- Tudo que cerca a sua vida é importante para mim – disse ele.

Sorri e não disse nada.

- E também sabe que meu trabalho gera alguns riscos – disse ele depois de um tempo. - Se algo acontecer comigo e eu não estiver mais aqui, não quero que fique desamparado.

Olhei para ele sério na mesma hora. Aquilo me trouxe um sentimento muito ruim.

- Não vai acontecer nada – disse ele amenizando. - Mas é um risco estressadinho, devemos ao menos tratar como um cenário possível, mesmo que com chances muito baixas.

Eu fiquei sem falar nada por um tempo.

- Eu sei, tem só dois meses que estamos juntos, mas eu imagino uma vida com você… Já planejo muitas coisas para nós. Mas confesso que devia ter abordado esse assunto mais para frente…

- Não é isso, eu também imagino uma vida com o senhor – disse interrompendo ele. - Mas nunca cogitei te perder. Ainda mais… desse jeito, de uma forma violenta.

Ele sorriu com a boca fechada, as covinhas aparecendo na bochecha, os olhos brilhando.

- É só uma hipótese, Estressadinho. Eu vou ficar bem aqui te colocando na linha por muito tempo – disse ele feliz.

- Ja aconteceu alguma vez? - perguntei para ele.

- O quê?

Encarei ele sem dizer nada.

Ele suspirou.

- Duas vezes, e em uma tomei um tiro de raspão. Salvo isso, mais nada – disse.

Fiquei em choque. Um tiro de raspão. Meu Deus. Poderia ter perdido ele antes mesmo de conhecê-lo. Um mar de cenários terríveis começaram a rondar a minha mente.

- Não fiquei preocupado, eu disse apenas porque estamos juntos – disse Renan com a voz tranquila, um tanto compreensiva. - É importante ter esse tipo de conversa. Mas não deveria ter abordado isso tão cedo.

Ver aquele rosto lindo alegre era uma das coisas que mais gostava, mas sinceramente a mera hipótese de perder ele dessa forma me deixou com um sentimento estranho. Não sei porque senti o que senti. Em outro momento ficaria admirando aquela lindeza toda, agora só consegui ficar preocupado. Não disse nada, apenas olhei ele dirigindo. Ele me olhou e sorriu.

- Olha lá ele todo preocupado comigo – disse ainda sorrindo mantendo o olhar.

- Eu não estou preocupado – disse sério olhando nos olhos dele, mantive o olhar por uns segundos e desviei. Que ódio! Como pude viver a vida inteira e não saber que desviava o olhar quando mentia. Eu sou muito lerdo. Quantas vezes já fui pego na mentira e não sabia.

Ele riu.

- Muito fofo você – disse ele voltando o olhar pra rua. - Não queria te deixar preocupado.

- Fiquei um pouco, é verdade – disse para ele. Agora voltava para as minhas batatas.

- Não fique – disse ele. - E come suas coisas aí antes que esfriem.

Ele me deixou em casa poucos minutos depois. Naquela noite, deitado na cama, olhava o teto um tanto pensativo. Ele não falou isso por acaso. Acho que ele disse como um aviso para eu saber exatamente com quem estou me relacionando e possíveis implicações sobre isso. No começo do relacionado, no caso uns dois meses, é possível considerar isso e não seguir adiante. Outra coisa que pude deduzir é que ele aparentemente pretende levar a relação comigo a sério.

[...]

Ele havia me buscado o trabalho sexta feira. Eu não tive aula nesse dia então resolvi passar a noite com ele, mas aparentemente os planos eram outros. Assim que entrei no carro ele pediu para que fossemos na casa dele para eu tomar banho e trocar de roupa, pois precisava me levar um lugar. De acordo com ele não poderia ir de uniforme pois o lugar ficava e uma área mais cara da cidade.

Dito e feito. Tomei banho e tirei o uniforme. Coloquei uma das roupas que ele havia me dado. Camisa de botão azul-marinho, jeans e o sapato mocassim. Ele não estava vestido muito diferente, salvo a camisa polo na mesma cor que estava usando.

Fiquei curioso enquanto íamos. Perguntei onde era e ele ficou um pouco tenso. Ele parecia um pouco ansioso enquanto olhava para a rua dirigindo. Estava usando um perfume muito gostoso que tomou conta do carro.

- Onde o senhor está me levando? – perguntei cheio de curiosidade, insistindo em uma resposta.

Ele ficou um tempo sem responder. O carro estava silencioso. O cheiro gostoso dele tornando o ambiente ainda mais agradável.

- Vamos encontrar o João – disse Renan por fim, sem olhar para mim.

- O que!? - perguntei estarrecido me voltando para ele. Meu estômago gelou na hora.

- Isso mesmo, ele quer se desculpar com você, achei que hoje seria uma boa oportunidade – disse Renan.

- Não deveria me perguntar antes? - questionei.

- Não, não preciso de pedir permissão para nada – disse Renan ainda olhando o trânsito. Seu tom de voz era calmo, mas firme e autoritário, como sempre.

- Eu não vou ir lá! - disse irritado.

Ele não disse nada.

- Renan!

Ele me olhou sério, um tanto irritado. Não gostava que eu o chamasse de Renan, somente de senhor.

- Eu não quero ver o João de novo, não gosto dele e não me esqueci o que ele fez comigo – disse com raiva.

- Ele quer te pedir desculpas somente – disse Renan com o tom de voz firme. - Você decide se vai aceitar ou não as desculpas, mas nós vamos.

- O cara mentiu, tentou te enganar, tentou me enganar, me agrediu, me chamou de bicha e de feio e você quer que eu encontre com ele. Uma pessoa que evidentemente não gosta de mim – disse explodindo.

- Fala baixo comigo – disse ele olhar para mim. A voz calma como o habitual um pouco mais elevada, o rosto naquela expressão séria de sempre. - O perdão lava a alma, Estressadinho. Nós três precisamos por um ponto final nessa história.

- Eu não vou ir Renan – disse irritado, quase gritando com ele. - Se insistir em me levar eu desço aqui mesmo e vou embora!

- Você vai sim – disse Renan elevando o tom de voz, que soou mais autoritário e mandão. - Você vai onde eu mandar você ir entendeu? Você vai ir na porra do bar, vai sentar na porra da cadeira e vai ouvir o que ele tem para dizer. Se não quiser aceitar as desculpas vai ser uma questão sua. Mas nós dois colocaremos um ponto final nessa história hoje. E se chamar de Renan de novo eu sento a mão na sua cara, sabe que não gosto.

Eu fiquei calado na hora, meus olhos ficaram cheios de lágrimas.

- Entenda uma coisa, você não manda em absolutamente nada nessa relação. Então se eu disse que você vai, você vai e ponto final. Se quiser brigar comigo pode brigar, dentro do carro, depois que estivermos voltando. Lá vai se comportar, falar baixo e ser educado com o João. Estamos entendido?

Eu não disse nada, a vontade que estava era de abrir a porta e ir embora.

- Estamos entendidos? - perguntou ele agora parecendo irritado.

- Sim, senhor – disse somente.

- Ótimo – disse ele voltando para o trânsito. - Não me importo se você for chorar. Fiquei à vontade, mas quem vai ficar com os olhos vermelhos lá não será eu.

Virei para o lado chateado com ele, com uma dose a mais de irritação. Segurei o choro e não deixei lágrima alguma cair. Não tive coragem de desafiar ele novamente. Em outros momentos iriamos possivelmente terminar por ele estar me colocando nessa situação, ou brigar um apontando o dedo para o outro. Hoje não, ele me daria uns tapas no carro mesmo e me faria ir do mesmo jeito. De fatos sentia que ele era a autoridade na relação e ela sobrepunha sobre mim.

Ficamos calados no carro com um clima péssimo. Depois de um tempo calado, alguns minutos talvez, ele colocou a mão na minha coxa. Ele apertou um pouco como um sinal de carinho. Recusei a olhar para ele, o olhar ainda fixo na rua.

- A gente precisa por um ponto final nessa história, Estressadinho – disse ele com a mão na minha coxa, o tom de voz compreensivo. - Ressentimento é um dos piores sentimentos que o ser humano pode ter dentro de si. Adoece a gente. Você guarda as coisas dentro de você e isso me preocupa. Por mais que esteja bravo, num futuro vai me agradecer por essa noite.

Respirei fundo e não disse nada. Eu costumava ser impulsivo e respondia tudo na ponta da língua. Não impulsivo a ponto de agredir pessoas ou de falar coisas as quais me arrependo. Mas como podem ter notado, eu geralmente respondo a altura. Mas com ele estava aprendendo a engolir as palavras na hora da raiva. Na verdade ele impunha isso. Não disse nada, não olhei para ele, apenas olhei a rua e ignorei totalmente a presença dele.

Chegamos em um bar bem bonito na área nobre da cidade, depois de uns vinte minutos. Era um bar rústico bem seleto, daqueles que eu jamais pensaria em entrar. Ele foi a minha frente. Estava lindo como sempre, apesar de eu estar com raiva dele, pois uma coisa não tem nada a ver com a outra. A camisa dele estava justa, evidenciando os peitos musculosos dele e os braços. Segui ele observando bem o lugar, quando não me perdia nas costas largas dele

Tudo ali era tudo muito harmonizado e um tanto silencioso, com pessoas em algumas mesas ocupadas conversando baixo. O ambiente tinha um tom claro, mesclado com os detalhes de madeira que compunha a bancada do bar, os pilares e o teto. Todas as mesas estavam forradas com um forro branco e um delicado jarro com rosas no meio.

Segui ele até um canto mais reservado, afastado das outras mesas ocupadas até que ele parou. Ele observou bem a última mesa, mais ao canto, próximo uma enorme janela. João estava lá. Quando o vi senti meu sangue ferver, a ansiedade explodiu em mim como se estômago ardesse.

- Melhora essa cara – ordenou Renan, parando no meio do caminho. - Parece vai atacar alguém.

- Eu não sou frio como o senhor, que fica com esse rosto inexpressivo diante do estresse.

- É algo que deveria aprender – rebateu ele.

- É o que realmente quer? Um submisso frio? - disparei para ele. - Você geralmente é assim, um dominador frio que parece não sentir nada. Posso tentar ser também.

Ele não disse nada por alguns segundos.

- Não… - disse Renan. - Gosto de você assim… Não seja como eu – aquilo saiu um pouco carregado de amargura.

- Não acredito que está me colocando para falar com o seu ex depois de tudo que aconteceu – disse profundamente chateado. Ainda estávamos parado no meio do caminho e isso chamou a atenção de João. Acredito que possa ter chamado atenção de todos ali.

- Ele quer se desculpar, só isso - disse Renan sério.

- Ele foi agressivo, manipulador, me ofendeu... – disse para Renan. - E ainda me coloca nessa situação. Imagina como estou sentindo?

- Eu sei como está se sentindo, você aguenta - disse Renan. - O João quer se desculpar, ele está doente…

- Transtorno não é doença, saberia se lesse um pouco mais – disse para Renan acidez - E ser doente não te isenta das suas responsabilidades. Além de policial você é advogado, deveria saber disso antes de tentar justificar as ações dele.

Renan respirou fundo tentando se manter paciente.

- Chega! Vamos agora – ordenou Renan sério. - E seja educado, é uma ordem.

- Vamos acabar com isso de uma vez, mas saiba que estou muito chateado, não esperava isso de você – disse para ele indo para a mesa onde João estava.

Renan me olhou preocupado quando passei por ele, talvez estivesse arrependido da decisão de me levar nesse encontro.

Fomos até a mesa onde João estava. Ele provavelmente percebeu a animosidade entre eu e Renan, o que deixou o clima ainda mais tenso. Cheguei até a mesa, olhei para ele, puxei a cadeira e sentei. Renan veio logo em seguida e sentou do meu lado.

O clima estava péssimo. Olhei para João que parecia totalmente impaciente e incomodado. Ele estava usando uma camisa social branca de manga comprida, com dois botoes abertos. Os antebraços estavam apoiados na mesa, os dedos das mãos grande e cheias de veias aparentes estavam entrelaçados. João era um homem muito alto, com braços grandes e musculosos e ombros largos. Agora, com calma e longe da adrenalina do nosso desastroso primeiro encontro, pude observar melhor sua aparência. Aparentava ter uns trinta e cinco anos. Ele tinha o tom de pele marrom escuro semelhante ao de Jorge. A cabeça estava totalmente raspada. O rosto era muito bonito, com olhos cor de café, sobrancelhas expressivas, lábios grossos. As mandíbulas eram bem desenhadas e o queixo era quadrado, com uma covinha. A barba estava feita. Pelo jeito que estava vestindo apostaria que ele é um advogado.

- Oi… tudo bem? - disse ele depois que me sentei sem dizer nada. Ele sorriu sem graça e pude ver um sorriso largo, com dentes muito brancos e alinhados. João era lindo, tão lindo quanto Renan. Os dois de fato fazia um lindo casal, o que não melhorou em nada o meu estado de humor naquele lugar. Na verdade a constatação que João era um deus grego na forma humana e ex do Renan me deixou mais puto com a situação.

- Olá, João – disse com tom de voz seco.

- Oi – disse Renan pegando o cardápio. Ele manteve a capa de indiferença que parecia sempre usar. Renan provavelmente estava ansioso com a situação, mas o rosto transparecia calma e indiferença. No fundo sabia que ele se preparava para a briga terrível que iríamos ter.

Um momento de silêncio constrangedor se seguiu por um tempo até que João falou. A voz dele tinha um timbre forte, mas de modo geral parecia gentil.

- Vou direto ao ponto, queria me desculpar com você pelo que aconteceu – disse João me olhando nos olhos. Os olhos dele eram intensos e expressivos. João era o tipo de pessoa fácil de ler. Ele parecia de fato pedir desculpas.

Olhei para ele sério.

- Só isso? - perguntei para ele.

- Só isso – disse ele. - Não existe nenhuma justificativa para o que eu fiz, a forma que agi e as coisas que falei. Por favor me desculpe – disse ele baixando a cabeça.

Fiquei um tempo calado, sem dizer nada.

- Sei que nesses dias eu agi de uma forma muito irresponsável tanto com você quanto com o Renan – continuou ele uma vez que eu não disse nada. - Tentei separar vocês dois, fiz ameaças ao Renan, que iam desde em colocar fim em tudo a ir no trabalho dele falar que ele é gay para todo mundo. Tentei te manipular e te fazer acreditar que estava mentindo para você, te ofendi e ainda te agredi. Por favor, me desculpe. Não existe justificava para a forma que agi recentemente.

Naquele ponto os meus sentimentos aliviaram. Isso aconteceu contra minha vontade. Acho que até mesmo me semblante mudou. Fiquei até surpreso com as palavras dele. Eu respirei fundo e senti que ele estava sendo honesto. Ou talvez ele fosse um excelente mentiroso, mas minha intuição não dizia isso.

- Tudo bem – disse para ele. - Vamos esquecer isso. Pagina virada João.

- O Renan me disse que te falou sobre… bem… o meu…

- Ele me falou que você tem boderline, bipolaridade e toda essa coisa que mexe com você e o seu humor – disse para ele sério. - Relaxa, meu irmão passa por isso também. Imagino como as coisas devem ser.

Ele pareceu aliviado.

- O Renan me falou dele – disse ele. - Não estou tentando justificar nada. A partir do momento que não fiz o tratamento corretamente e parei de tomar os remédios, meu humor oscilou e eu entrei no estado de mania. Fiquei mais de um mês sem me medicar. Fui totalmente negligente e isso resultou na situação toda com o Renan e com você. Mais com você.

- De fato foi mesmo – disse olhando para ele. O tom de voz firme. - Meu irmão vivia aprontando dessas e deixava a gente doido.

João ficou meio desconcertado, logo desviou o olhar.

- Eu fiquei em choque com medo de perder o Renan – disse João para mim. - Ele foi a única pessoa que não me abandonou nos piores momentos da minha vida. Isso me deixou com esse receio. Sei que tudo foi coisa da minha cabeça, ele nunca me deixaria sozinho, mesmo com raiva de mim – disse João, e pude sentir certa satisfação nisso. - Pode ficar tranquilo, não tenho nenhum interesse no Renan além da amizade – ele se apressou em concluir a ultima frase.

- São águas passadas, João – disse para ele. Nessa hora engoli o orgulho, ignorando o fato dele ter me sacudido e agredido na semana anterior, mentido, me chamado de bicha e relativizando minha aparência, ou seja, me chamado de feio. - Mas não faça isso de novo – disse apontando o dedo para ele. - Nada de ficar atirando as pessoas de um lado para o outro.

João respirou aliviado.

- Pode ficar tranquilo – disse João. - Nunca mais isso vai acontecer, eu juro.

Aparentemente você e o Renan adoram jurar, pensei.

- Então tá bom – disse para ele.

Renan estava calado e parecia uma estátua. Até tinha me esquecido que ele estava ao meu lado.

- Agora sim estou aliviado – disse João sorrindo. - Sei que você está tranquilo.

- Por quê? - perguntei ele.

- Sua testa não está franzida, está com o semblante relaxado – disse João me reparando. - Quando sentou aqui parecia que ia me bater a qualquer momento.

Mais um para ficar lendo minha mente, pensei irritado. Pois era exatamente a minha vontade.

- Advogado? - perguntei para ele mudando de assunto.

- Tenho cara de advogado? – perguntou ele sorrindo, cheio de si.

- É a cara de um advogado – disse ainda sério.

- Ele é – disse Renan saindo do estado petrificado. - Um dos bons.

- Estava falando com o Renan, eu odeio direito administrativo – disse para João tentando mudar o assunto. Não queria que a pauta ficasse em mim. - Muito complicado.

- É uma matéria recorrente em concurso público – disse João chamando o garçom. - Vai tentar algum?

- Estou estudando – disse para ele.

- Concurso você faz até passar – disse ele. - Uma hora as matérias começam a ficar fáceis.

- Espero que chegue logo nessa fase – disse para ele.

O garçom chegou e ele pediu um suco.

- Vão querer algo? - perguntou João.

- Uma caipirinha por favor – disse Renan.

- O sen… você está dirigindo – disse para Renan. Meu tom de voz estava mais calmo e senti que estava mais relaxado de fato. Renan também percebeu isso e, mesmo com o rosto livre de expressão, pude ver um olhar aliviado.

- É para você, estressadinho – disse Renan com seu jeito sério carinhoso. - Para mim pode trazer um suco de limão.

Olhei para pelo canto dos olhos desconfiado.

- Por quê? - foi a única coisa que consegui dizer, a irritação transferida com exatidão nas palavras.

- Ele está com medo de você brigar com ele – disse João achando graça. - Ele não te falou que eu estava aqui não é?

- Me falou quando estávamos no carro. Além de tudo me obrigou a vir aqui – disse olhando para o João. - Nada contra você.

Renan se mexeu incomodado na cadeira.

João deu uma risada.

- Na verdade tudo contra – disse ele rindo. - Eu não teria vindo se fosse você. O Renan é assim mesmo, adora nos colocar em situações desagradáveis. Mas ele disse que você era uma boa pessoa e que aceitaria as desculpas. Disse que ficaria irritado e que inicialmente a sensação seria que ia passar por cima da mesa e me agredir. Mas depois ficaria tudo bem. Disse que você é muito bonzinho e não guarda sentimentos ruins de ninguém.

- Ele disse, foi? – perguntei olhando irritado para ele pelos cantos dos olhos novamente. Renan se mexeu incomodado na cadeira, não dizendo nada. - Ele está dizendo coisas de mais sobre mim.

João sorriu.

- Mas fica de boa João, é passado. Se tivesse cerveja aqui a gente até brindava com você – disse para João. De fato estava mais calmo e, bem, não tinha muito para onde correr diante daquela situação que o Renan provocou.

- Eu acho que é melhor evitar o álcool por enquanto – disse ele João.

- Vocês se conhecem há muito tempo, é? - perguntei para João.

- Alguns anos – respondeu.

- Me conte algo constrangedor dele então – perguntei para João curioso.

Ele deu uma risada. Pela primeira vez nesses dois meses pude jurar que vi as bochechas do Renan corar.

- Isso é uma idiotice sem tamanho, acho que já podemos ir embora, Estressadinho – disse Renan me chamando. - Desculpadas dadas, desculpas aceitas… boa noite João...

- Não – disse para Renan apressado. - Agora eu quero ouvir, eu e João já tivemos nossa quota de constrangimento e vergonha alheia nessa noite.

- Por onde eu começo, deixa eu pensar – disse João animado.

- Saudade de quando vocês dois gostavam de mim – disse Renan se encolhendo na cadeira.

- Bem… Já que tivemos torta de climão com o meu surto, vamos adicionar camadas e deixar o nosso coleguinha com vergonha – disse João um olhar alegre para o Renan. - Acho que você vai gostar, Sr. Estressadinho – disse João para mim.

- Não se atreva João… - disse Renan num tom de voz perigoso. - E não chame ele assim, só eu posso chamar.

- Quando você não atendeu ele, no sábado, ele começou a chorar – disse João.

Aquilo me pegou de surpresa, olhei para Renan e vi que ele estava todo vermelho. Nunca tinha visto ele tão envergonhado.

- CALA A BOCA Ô INFERNO! - esbravejou Renan para João, que sorriu.

- Essa fortaleza fria e sem sentimentos, cheio de disciplina, que não chora, o homem que resolve tudo… O Renan ficou em pânico quando você desligou o celular e não falou com ele…

- Vamos embora, Estressadinho… - disse Renan tentando se levantar.

- Eu quero ouvir o que ele tem pra dizer – disse sorrindo segurando a coxa do Renan para mantê-lo sentado. Ver Renan daquele jeito era bem prazeroso.

- Eles já tinham ministrado a quetiapina, eu estava mais relaxado e estava começando a ficar com sono. Renan estava ao medo lado apavorado segurando o celular. Achei que estava preocupado comigo e até me senti mal por isso, mas quando ele falou que você desligou o telefone começou a chorar. Quase precisou ser medicado também.

- Exagero – disse Renan com nojo.

- Exagero? Confesso que eu nunca tinha te visto chorar – disse João achando graça. - Muito tempo junto com ele e nunca vi uma lágrima. Eu nem sabia que você sabia chorar. Sempre foi frio com as coisas.

- A caipirinha – disse o Garçom aparecendo do nada, entregando um copo largo.

- Gracas a Deus! – disse Renan pegando a caipirinha nervoso, ele colocou o canudo na boca e puxei o copo.

- Está dirigindo, sem álcool hoje – disse pegando o copo dele, dei um gole na caipirinha e estava horrível. - Continue João.

- Ele ficou me ameaçando falando comigo que se você não falasse mais com ele que nunca iria me perdoar. Acabou comigo. Eu estava quase dormindo com o efeito do remédio enquanto ele me xingava todo – disse João sorrindo, olhando Renan.

- Estava com medo de me perder, olha só – disse rindo olhando o Renan constrangido, achei isso fofo dele.

- João… você… - disse Renan com um sinal negativo cheio de nojo, olhando João com desprezo.

João de um sorriso largo, mostrando todos os dentes, os olhos quase fechados. Era um sorriso feliz.

- Ele não foi embora está vendo – disse João feliz. - Ele me desculpou, está tudo bem.

Eu estava genuinamente feliz, sorrindo de uma orelha a outra. Renan estava desconcertado, o rosto corado. Ele estava com tanta vergonha que parecia ter esquecido como se fala. Foi a primeira vez que o vi assim, e o motivo era eu. Sentia que ele gostava de mim, agora eu tinha certeza disso.

E outra coisa era certa, essa noite foi muito importante, pois o João viria se tornar uma das pessoas mais importantes da minha vida.

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