Domingo de manhã de sol acanhado sem pressa de acordar a cidade. Calcei as sandálias e balançando os bagos e peru fui pegar uma proteína que bati com manga e coco para mim e a proteína para Roberto com o restante do tererê de garrafa que passou a beber por minha causa. Roberto dormiu aqui de novo — ainda esparramado de bruços, ocupava mais da metade da cama king.
Retornei à cama e recebeu a caneca dele se sentando na cabeceira da cama, esfregando o rosto com a outra mão. A barba grisalha toda amassada do sono tranqüilo, o cabelo curto bagunçado, olhos ainda meio inchados da noite. Sorriu daquele jeito lento quando me viu.
— Bom dia, seu programador — murmurou, voz rouca de quem acabou de acordar.— Tomei um gole. — Dormiu bem?
— Como pedra. — Ele deu um gole longo, fez um som de satisfação. — Essa cama é merecedora de nota de repúdio de tão confortável. E você ronca menos do que eu imaginava.
— Eu não ronco. Você ronca. Eu só ronco forte quando tô cansado.
Ele riu, a barriga tremendo de leve. Ficamos em silêncio um instante, só o barulho distante dos passarinhos nas árvores lá fora e o tic-tac do relógio de parede em porcelana Royal Fine na sala. Uma quietude boa, daquelas que não pedem pra ser preenchida imediatamente.
Roberto pousou a caneca no chão, se ajeitou melhor contra os travesseiros, me olhando de lado.
— Sabe… ontem à noite, depois que a gente transou… eu fiquei pensando numa coisa. — Ele coçou a barba devagar. — Você sempre fala que foder é só uma parte, que o que importa mesmo é a confiança, a lealdade, essas coisas. E eu concordo. Só que me perguntei um pouco… o que exatamente você considera “confiança a sério”?
Olhei pra caneca, pensando antes de responder. Ele esperou, paciente como sempre.
— Pra mim… — comecei devagar — relações verdadeiras não se medem só pela presença nos momentos bons, tipo sair pra comer pizza, ir no cinema, meter rola. Isso é fácil. O que pesa mesmo é quando a vida aperta. Quando minha irmã precisa de mais outra cirurgia, quando alguém da família se vai sem que eu tenha me despedido… quem você consegue que te estenda a mão na hora mais escura, amarga, profunda de desespero de toda vida, e se for às três da madrugada sabe mesmo que a outra pessoa vai dar um socorro e não vai jogar isso na cara depois? Quem você consegue contar um crime que cometeu e que repetiria porque reconhece o seu direito de odiar…
Ele assentiu devagar, olhos fixos em mim.
— E você sente isso assim? — me fitando e questionando na lata.
Respirei fundo.
— Sinto. Não é que eu já precisei te ligar às três da manhã pra pedir qualquer ajuda… ainda. Entretanto, sinto que poderia. E isso é difícil pra porra. — Fiz uma pausa. — Também sinto nos detalhes pequenos. Tipo você vir aqui numa terça só pra comer pizza e conversar sobre nada importante. Ou mandar mensagem perguntando se eu cheguei bem. Essas coisas vão fortalecendo. Mostram que existe tesão, há conveniência e também muito mais que isso.
Roberto ficou calado um instante, processando.
— Eu também sinto desse jeito aí. — Tipo… eu sei que posso te contar que tô com medo de alguma coisa no trabalho, ou que tô puto com algum dos meus filhos , ou que às vezes penso que talvez eu devesse ter feito escolhas diferentes na vida… e você não vai virar a cara, nem mudar de assunto. Você escuta. E depois fala o que pensa, começando amigável e opinando firme e franco. Isso é foda.
Sorri meio envergonhado.
— É porque eu gosto de conversas que vão agregar pra valer… tudo tem seu lugar e sua hora. Mas o que fica mesmo são os papos que revelam quem somos incondicionalmente. Reflexões, medos, planos, erros. Quando alguém se abre assim comigo, eu sinto que tô sendo respeitado. E eu só funciono nessa freqüência, Roberto. Quero que saibam quem eu sou — Ficou no passado as tentativas de me camuflar, de me subtrair.
Ele esticou a mão, apertou meu joelho.
— Eu me reconheço em você. — A voz saiu baixa, firme. — Sei que o homem que gosto, pensa demais, que calcula tudo, que tem medo de perder o controle… que quando confia, cuida bem. Que prioriza paz interior acima de tudo. E vejo o cara que me come devagar porque gosta da demora, porque gosta de me ver relaxar para possuir por completo. Tudo isso junto.
Senti um calor subir pelo peito. Não era só tesão. Satisfação pela conexão sólida.
— E você? — perguntei. — O que você quer que eu compreenda de você?
Ele pensou, coçando a barba.
— Que eu sou leal pra cacete. Que quando eu entro numa relação — amizade ou o que for — eu fico. Não fujo na primeira dificuldade. Que eu posso ser desajeitado pra falar de sentimento, mas que eu demonstro. Que eu quero te apoiar do mesmo jeito que você me apoia. E que… — ele hesitou, sorriu torto — …eu gosto de dividir sonhos com você. Tipo contar que eu penso na gente junto, em nem que seja só dois caras velhos cuidando de uns cachorros.
Ri baixo, emocionado sem querer admitir.
— Eu gosto de ouvir isso. Gosto de saber que você tem vontades. E gosto de poder dividir os meus também. Tipo… te contar que às vezes penso em passar mais tempo na fazenda. E que eu quero, sim, continuar construindo isso aqui com você — sem rótulo, sem pressa, só com respeito e verdade.
Ele puxou minha mão, entrelaçou os dedos grossos nos meus.
— Então a gente continua — disse simplesmente. — fazendo devagar. Como a gente gosta.
Fiquei olhando pra ele, sentindo o sol agora mais forte batendo na cama, aquecendo nossos corpos nus.
— É — respondi, apertando a mão dele de volta. — A gente continua.