Os meninos estavam jogando bola. Um time sem camisa, apenas o calção da farda. Eram os garotos do terceiro ano, para mim, Samantha e Reis, nosso trio, era uma oportunidade de fingir que éramos muito experientes em matéria de homem.
- Zoe, olha para o Caio, que negão lindo, - Samantha disse babando. - Vocês não ficam imaginando...
Eu estava olhando era para o Alan, goleiro, a cabeça quase tocando no ferro da rede de tão alto, os cabelos colados na testa e o suor escorrendo pelo peitoral. Os braços com muques visíveis e as veias saltadas não muito e uma graminha de pelos baixos na altura da barriga e do calção.
Reis respondeu a Samantha:
- Mulher, foge. Dizem que é do tamanho de um cotovelo, grosso e grande. Claudinha disse que aguentou a pulso para não passar vergonha.
Eu mal as escutava porque tinha tido a impressão de que o Alan havia piscado para mim. O nome da minha vizinha, porém cortou minha atenção:
- Claudinha do primeiro A? - perguntei sem acreditar. - Mas Claudia é da minha idade, fizemos o nono ano juntas!
Reis passou o braço por cima do meu ombro e olhando para o campo, disse com um tom de experiência e autoridade:
- Mana, homem não perdoa não. Viu a miséria que fizeram com a Alicinha?
Samantha havia corrido para pegar uma garrafa de água para o Caio, enquanto nossa amiga corria auxiliada pela rampa lateral. Reis continuou a contar a fofoca, repetida porque havia sido o assunto da semana. Era quase um jogo entre amigas, Reis contava a história, eu reagia como se fosse a primeira vez que ouvia aquilo:
- Ela foi acreditando que ia dar para o Romário, quando chegou lá tinha mais três caras esperando por ela. A família obrigou a denunciar mas a própria Alicinha contou que mesmo sem saber antes, quando estava la, aceitou dar para os quatro de vez. Adiantou nada, os caras maiores se lascaram. Mas como te disse homem não perdoa. Acho a lei sacana em punir desse jeito... Você não acha?
Eu estava era trocando olhares com o Alan que bebia água enquanto piscava para mim, eu acenei de leve com a mão frouxa. Nossa aula de educação física terminava antes de a partida encerrar porque o time masculino estava treinando para o campeonato municipal. Alan fez sinal com os dedos para a gente conversar depois, senti minhas bochechas arder.
Acho que a Reis estava tão interessada nas fofocas da escola que mal percebia esses movimentos ou fingia não perceber. Quando saímos da escola, eu segui sozinha em direção a minha casa, ouvia alguns assobios pelo caminho, principalmente dos motoqueiros e uns serventes de pedreiro me assustando com suas palavras sujas. Eu olhava para o chão com vergonha de olhar para eles.
Meu pai era caminhoneiro e volta e meia deixava os colegas estacionar em frente da nossa casa. Eles entravam e saiam pelo beco lateral o tempo todo para usar um banheiro que dava no quintal, separado por um muro. Havia shampoo, sabonete, e água a vontade. Nesse muro havia uma abertura dando passagem a nossa casa. Então, era comum depois dos banhos deles, virem almoçar ou jantar na nossa casa.
Meu pai e mãe, tinham a maior confiança neles.
A maior parte dos amigos do meu pai, eram homens com a média da idade dele, quarenta e dois, quarenta e cinco por aí. Mamãe trabalhava em duas alfaiatarias de marca, era muito ágil na máquina e no corte. Por isso quase não ficava em casa.
Os amigos de papai brincavam comigo mas eram sempre muito carinhosos e respeitadores.
Mas sem entender bem o porquê isso mudou!!
Eu acredito que tudo começou a desandar quando, após chegar da escola com os pensamentos em Alan, sonhando com um romance de filme de comedia romântica, não percebi a Scania azul do Milton na frente de casa.
Entrei como de costume, tirei a roupa e só de calcinha e sutiã, corri para o quintal, onde ficava o chuveirão do nosso lado.
Eu tirei o sitiã e a calcinha, liguei o chuveiro e fui lavando a cabeça, abaixada para deixar o shampoo sair.
- Puta que pariu! - escutei pensando que era o vizinho do outro lado.
A ideia de que alguém estivesse me olhando por cima do muro me distraiu e quando virei lá estava...
Milton, negão, barriga meio alterada braços grossos como o pescoço, estava com a camisa no ombro. Eu gritei. Ele continou parado me olhando mordedo o lábio. Catei minha toalha do varal cobrindo meus seios e corri para dentro de casa. Com os braços e pernas trêmulos. Nem dormi, imaginando a bronca de mamãe ou papai, porém, nada disseram.
No dia seguinte, Sejão e Mareta, apareceram na hora do almoço tive que improvisar alguma coisa. Meu pai estava viajando, entrando no estado de Minas, havia feito uma chamada de vídeo avisando da carga nova.
Serjão era calvo mas ainda conservava cabelo por baixo do bonê era da mesma cor dos pelos da barba e próximo ao pescoço sempre que se aproximava de mim eu sentia aquele cheiro dele, que não era de sujeito mas também não era cheiroso como perfume. Mesmo assim era agradavel por falta de uma palavra melhor.
Ele estava espojado na cadeira da cozinha, comentando uma coisa que eu nunca tinha ouvido eles falando na minha frente antes:
- Eu meti a vara, - disse firme - era uma cabritinha assim igual a Zoe, magra com o rabão. Coloquei de quatro, e meti cacete para dentro.
Eu ficava vermelha ouvindo essas coisas mas continuei lavando a louça e de olho no fogão, o Mareta meio gordo, meio forte, alto, também usava boné, tirou para coçar a cabeça raspada, ele disse:
- Rapaz nunca mais furei uma novinha assim. Sabe que não pago puta né?
Serjão bateu na mesa:
- Essa né puta não, quer dizer, até é, senta que faz miséria! Mas é uma gostosinha da zona rural. Doida para eu levar ela embora.
Mareta levantou para pegar um copo de vidro na pia, enquanto eu lavava uma colher. Ele ficou bem rente as minhas costas, passou o braço por cima do meu ombro, e encheu o copo. Roçou de leve o braço em mim, e abriu a geladeira.
- E esse rango Zoe, sai hoje ainda? - Serjão perguntou. - Vou bater uma ducha lá fora antes.
Serjão era alto, nem magrelo, nem gordo, nem malhado, aquele tipo de homem que parece não ter problema com peso, era pardo, queimado de sol. Ele tirou a camisa ali mesmo, e jogou para mim pegar, pedindo para eu lavar. Confesso, que aspirei um pouco daquele cheiro dele e me surpreendi com a sensação estranha.
Quando o Sejão saiu de vez, o Mareta se aproximou mais e disse:
- Curte cheiro de macho, Zoe? - gargalhou. - São os hormônios com as fêmeas isso é natural, biológico...
Eu larguei a camisa em cima da quina da cadeira. O celular tocou no quarto, quando fui atender, era a noticia de um acidente envolvendo meu pai.
