Ana me chamou na noite anterior ao começo do programa para “discutir estratégias”.
Ela não queria ser vista como a chata do programa, a esposa fechada que estragaria as dinâmicas. O plano era deixar o flerte existir de forma controlada: rir, brincar, provocar um pouco — mas sempre marcando limites claros. Nada de cruzar linhas que, para ela, ainda significavam respeito ao nosso casamento.
Parecia que ela já tinha pensado em tudo e, honestamente, dada a loucura que estávamos nos propondo a viver, fazia sentido. Minha única pergunta era quais linhas eram essas.
Ana demorou para responder, olhando para baixo, pensativa. Achei até estranho ela não ter aquela resposta na ponta da língua.
— Beijo de língua e sexo. O que você acha?
Não parecia o suficiente para proteger minha sanidade. Mas não consegui pensar em nenhum outro limite. Aceitei.
Quando o grande dia chegou, meu corpo estava em estado de alerta máximo.
Um carro da produção nos buscou em casa e nos deixou na entrada do estúdio pouco depois das oito da manhã. Um galpão enorme, cercado por caminhões, cabos, geradores e pessoas andando apressadas para lá e para cá.
Não sei por quê, mas na minha cabeça a gente gravaria numa casa normal, não num set profissional. Ali não parecia um lugar onde pessoas fossem viver por duas semanas, e sim uma fábrica.
A produção apenas avisou que a primeira cena a ser gravada seria a despedida, antes de nos separar, e mandar cada um para o seu camarim para trocar de roupa e se maquiar.
As roupas que eu usaria durante o programa já estavam preparadas. Parecia o armário de um personagem da Turma da Mônica: várias peças exatamente iguais. Camisa preta, calça preta, sapato preto. Em todos os dias de gravação eu teria que usar aquele uniforme. Coloquei a roupa, me olhei no espelho e tive a sensação de que estava me vestindo para um velório.
Mas, não tive nem tempo de processar esse sentimento, porque, mal terminei de me vestir, um assistente me puxou para a sala onde aconteceria a despedida.
Ao ver a sala, tive que me controlar para não começar a rir.
No centro, um sofá claro. À frente, duas câmeras já posicionadas, prontas para capturar tudo o que eu e minha esposa diríamos antes de nos separarmos.
Tinha algo naquela sala — aquele sofá claro, aquele enquadramento — que me lembrava imediatamente os pornôs do Casting Couch. Se eu estivesse certo, a qualquer momento o Johnny Sins surgiria ali, me oferecendo um emprego, caso eu deixasse ele comer o meu rabo.
Sentei no sofá e esperei, até que minha esposa apareceu. Por alguns segundos, não consegui associar aquela imagem à mulher com quem eu dividia a vida havia mais de dez anos. Ela estava linda e gostosa, como sempre — só não parecia mais a minha Ana.
Vestia um vestido vermelho, curto demais, a ponto de parecer que havia sido embalada a vácuo. Nos pés, um escarpim preto, com um salto muito mais alto do que qualquer coisa que eu já tivesse visto ela usar. Uma maquiagem pesada, como se estivesse indo a um casamento. E, para finalizar, um colar com uma esmeralda gigante bem no meio do peito, forçando o olhar a permanecer preso no decote.
Quando nossos olhos se encontraram, Ana sorriu. Eu me levantei, dei um beijo leve na bochecha dela — para não estragar a maquiagem recém-feita — e nos sentamos juntos no sofá. Ficamos de mãos dadas em silêncio por alguns segundos, sem saber como agir naquela situação.
— Não sei como vou aguentar ficar tanto tempo sem você — disse, recitando o discurso que havia preparado na minha cabeça.
Ana me abraçou e beijou meu rosto várias e várias vezes.
— Eu vou morrer de saudades — respondeu —, mas vai dar tudo certo. Logo, logo a gente vai estar junto de novo.
Um cara da produção pediu para a gente se afastar um pouco. Explicou que, naquela posição, era difícil ter um enquadramento bom dos nossos rostos. E pediu para Ana repetir o que tinha acabado de dizer.
— Eu vou morrer de saudades… mas vai dar tudo certo, tá bom? — Ana repetiu, de uma forma bem mais mecânica do que a primeira vez.
Senti invadido. Era como se eu fosse, ao mesmo tempo, um ator de novela e um animal de zoológico. Ficamos novamente em silêncio.
— Não esquece de mim e da nossa pequena, tá? — disse, tentando não me emocionar. — Promete que não vai fazer nenhuma besteira?
As palavras mal saíram da minha boca e eu já estava arrependido. Tinha acabado de externalizar um medo que tentava fingir que não existia, até para mim mesmo.
Ana começou a chorar. Segurando meu rosto com as duas mãos, disse:
— Eu te amo. Não tem nenhuma chance de eu fazer qualquer besteira.
A produção avisou que o nosso tempo havia acabado.
Caminhamos juntos até fora do estúdio, em direção à limusine que a levaria para a Casa do Ricardão.
As câmeras seguindo cada passo que a gente dava.
Abri a porta para ela entrar no carro. Duas das esposas já estavam lá dentro, conversando alto, como se a limusine fosse levá-las para uma festa.
Nos beijamos.
Eu nem lembrava qual tinha sido a última vez que a gente havia se beijado de uma forma tão intensa quanto aquela.
A produção avisou novamente que nosso tempo havia se esgotado.
Ana entrou no carro, ajeitou o vestido e deu um último sorriso para mim antes da experiência começar.
E, com o coração na mão, fechei a porta.
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