“Querida Diana…” Não, melhor tirar o ‘querida’. Passa uma impressão de afeto que eu não deveria sentir…
“Diana, é difícil encontrar as palavras para expressar o que venho guardando há meses. Mas acho que esta noite terei sucesso. Escrevo esta carta como um adeus. Estou te deixando e espero que você me esqueça. Peço até que volte de onde veio; será melhor para nós dois. Eu mesmo não posso sair desta cidadezinha onde nasci, construí minha vida e onde ministro para minha congregação. Minha esposa já sabe de tudo, e quero evitar que ela te veja, por medo de que ela perca a cabeça e tudo desmorone sob o peso do falatório.”
“Não era nem para eu estar aqui tão tarde! Vim apenas para dizer que tudo acabou. Mas, no momento em que você atendeu aquela porta, algo me possuiu e caí diante dos seus pés…”
Junior interrompeu a escrita. A caneta tremeu em sua mão enquanto a mente traidora viajou até o momento em que Diana abrira a porta naquela noite. Ele se viu novamente caindo de joelhos, os braços circulando os quadris dela com um desespero que beirava a adoração, o rosto colado ao tecido fino do vestido. O aroma doce de Diana era um feitiço que o desarmava, nublando sua moral e fazendo o Pastor esquecer cada mandamento que pregara durante toda a vida. Ele lembrou-se de como, naquele transe, suas mãos levantaram seu vestido, arrancaram sua calcinha, seus lábios beijaram e toda sua boca fizeram amor com o que se escondia debaixo daquele rabo de saia. As mãos dela encontraram seus cabelos, puxando-o para um êxtase que ele nunca conhecera na santidade dos seus dias, antes de a conhecer.
“Mas deixo esta carta. Está dito aqui o que tenho para dizer. Acabou, Diana! Estou te deixando. Pronto, está dito! Minha decisão está tomada. Sou um homem, Diana; sou casado, sou um Pastor, um líder e um espelho para minha comunidade. Quero voltar a viver a vida de um homem normal, como vivia antes de você aparecer…”
Novamente, o pensamento dele escapou do papel e voltou ao dia em que a conheceu. Diana havia entrado em sua loja de sapatos no centro. Junior a recepcionou com a cortesia de sempre, mas sentiu um choque elétrico no momento em que seus olhos se cruzaram. O tempo pareceu dilatar sob o teto da loja. Ele trouxe todos os saltos do estoque apenas para ter o privilégio de vê-la calçar cada um deles.
— Você é nova na cidade, né? — ele perguntou, tentando recuperar o fôlego. — Sim, cheguei hoje!
— Veio a passeio?
— Bem… Não. Estou me mudando para cá.
— Nossa… Você não parece o tipo de mulher que se mudaria para uma cidadezinha pacata como a nossa.
— E que tipo de mulher eu pareço? — ela provocou, fixando o olhar nele.
— Ah… Perdão, senhorita, não quis ofender! É que você é jovem. Seu jeito de se expressar e se portar me passa o ar de alguém que não suportaria o marasmo daqui.
— Entendo… — ela sorriu, e aquele sorriso foi o início da sua queda.
— A cidade é bonita, mas os olhares me incomodam. Sinto um certo receio por ser uma mulher de cor em uma cidade do interior no sul. Parece que sou a única aqui.
— Compreendo… Mas a maioria não olha por maldade. É que você realmente chama a atenção por ser maravilhosa… Desculpe! Não sei o que deu em mim para falar algo assim. Sou um homem casado!
— Sem problema, entendi o que quis dizer — ela riu, e Junior sentiu o rosto queimar de uma vergonha que já era desejo.
“Eu era apenas um vendedor despreocupado. Até que você chegou com aquele sorriso. Entrou no meu céu calmo como um relâmpago. Você é uma mulher de tanta presença, algo que nunca vi pessoalmente em toda a minha vida. Você me enfeitiçou. Minha mulher sentiu ciúmes de você assim que te viu no culto. Você me desconcertou com aquele olhar provocador enquanto eu discursava no altar.”
“Sempre fui um exemplo, um santo desde garoto. Você me chamou à sua casa para que eu lhe ensinasse a Bíblia, mas foi você quem me ensinou a pecar.”
A memória daquela primeira tarde na casa dela o atingiu como um soco. Diana exalava uma sexualidade natural em cada gesto. Com seu vestido leve, que remetia à beleza rústica de uma 'Gabriela Cravo e Canela', ela o envolveu sem esforço. Em pouco tempo, Junior a possuía na cozinha, em cima da mesa, com a Bíblia aberta e esquecida ao lado, antes de ser conduzido por ela até o quarto.
“Você fez de mim um escravo. Eu não conseguia segurar a vontade de senti-la. Fiquei viciado no pecado. De repente, eu estava inventando desculpas para Carmela para ficar fora até tarde. Cheguei ao ponto de você me chamar dentro da igreja e eu sair correndo para te encontrar. Meu Deus! Virei seu fantoche, colocando em risco minha imagem e meu casamento. Mas acabou! Vou te esquecer. Minha esposa vai me perdoar e seguiremos em frente.”
“Carmela disse que você fez um 'trabalho' espiritual em mim. Sabia que ela foi a uma macumbeira? Jesus, Diana! Minha mulher consultando o oculto por sua causa! Ela me fez prometer que não a deixaria. Se houver algo, desfaça, pelo amor de Deus, se é que você me ama de verdade. Se não, vou orar até tirar você da minha cabeça! Está dito. Adeus!”
— O quê?! Diana…
— Vira homem, Junior! — a voz dela cortou o silêncio da sala.
— Diana! Quando você chegou aqui?
— Faz um tempo… Deu para ler toda essa baboseira que você escreveu.
— Não é baboseira. Se já leu, vou embora. Adeus!
Ele deu as costas, mas ela o abraçou por trás, deslizando a mão por dentro de sua calça com uma familiaridade que o paralisou.
— O que está fazendo?!
— Você mente para si mesmo, Junior. Mas isso aqui não mente. Você estava escrevendo e pensando em nós. Pensando em MIM!
Ele a afastou, mas o corpo tremia.
— Sim! Estava mesmo. Que Deus me livre dessa doença… desse PECADO! Minha carne é fraca…
— Lembra quando fizemos amor pela primeira vez? Você me perguntou o que eu vim fazer aqui. O que eu respondi?
— Acho que você brincou que veio me pegar para você…
— Não foi brincadeira. Eu vim te buscar. Você é meu! Antes de vir para cá, fui a uma cartomante. Ela me disse que eu encontraria minha alma gêmea em uma loja de sapatos. O destino não erra! É o que Deus quer para nós. Você será meu por bem ou por mal. Você diz que acabou, mas passa uma semana e está de volta à minha porta. Não é a primeira vez esse seu drama...
— Chega, Diana! Por Jesus, me deixe em paz! Minha esposa sabe de tudo, não posso mais traí-la. Adeus…
Diana avançou, derrubando-o no chão. Montada sobre ele, desferiu murros em seu peito, chorando de raiva.
— Você disse que orava há anos por um filho com a Carmela e nada aconteceu. Isso não é um sinal de que ela não é para você? Mas Deus quis que você tivesse um filho COMIGO!
— Como assim… Diana! Você está falando sério?
— Estou grávida, Junior. Faz uma semana que sei.
— Por que não me disse antes?
— A cartomante disse para guardar uma informação importante para o momento certo… e o momento é este.
Ela se levantou e foi correndo pegar o teste.
— Meu Jesus, é verdade… — os olhos de Junior ficaram em espanto e logo brilharam ao saber que teria um filho.
— Vem comigo para a Bahia. Esquece esta cidade, a igreja, os seus pais. Deixa sua esposa seguir a vida dela. Caso contrário, você só estará adiando o destino! Venha ser feliz comigo e seu filho!
Junior caiu de joelhos e a abraçou pelo quadril, como fizera ao chegar, encostando o rosto em sua barriga. O celular tocou. Era Carmela.
— Desliga, meu amor — sussurrou Diana.
— Fica comigo esta noite. Amanhã você resolve tudo e partimos.
Ele hesitou por um segundo, o último suspiro de sua antiga vida, e desligou. Momentos depois, a voz de Carmela ecoou no portão, furiosa.
— Vagabunda! Devolve meu marido, sua bruxa!
— Fica quieto, Junior. Eu resolvo — disse Diana, indo até a janela.
— Que gritaria é essa na frente da minha casa?
— Sua puta! Mande meu marido para casa agora!
— Ele não quer! Ele é um homem crescido que veio com as próprias pernas. Você só está passando vergonha, Carmela. Vá para casa. Amanhã ele resolve isso com você.
Após gritos e ameaças, Carmela partiu em meio a buzinas e choro.
— Ela já foi, querido… — Diana acariciou o rosto dele.
— Amanhã pegamos suas coisas. Sei que você não consegue mais viver sem mim. Foda-se esta cidade.
O celular tocou novamente. Desta vez, Junior não hesitou: arremessou o aparelho contra a parede. O vidro estilhaçou, selando a ruptura definitiva. Ele a ergueu com força e ela o envolveu com suas pernas, e faminta, colou sua boca na dele agarrando seus cabelos e a levou para o quarto.
Lá, entre o suor e o desejo, os dois em papai e mãe, ele se levantou de joelhos e segurou os pés dela, sentindo a pele contra o rosto, um fetiche que o ancorava naquele momento.
— Seus pés transpiram um pouco… — ele comentou, num transe absoluto, na memória de um dos momentos na loja quando se conheceram.
— Mas é lógico! — ela riu, ao repetir esse momento.
— Eu diria até que é… fisio-lógico! — Junior riu de si mesmo.
— Foi nessa piada que tive certeza que você seria meu
— Repete, amor… Que eu sou seu — Junior voltou a penetrar e ficar colado ao seu rosto e a beijá-la.
— Você é TODO meu. — ela sussurrou no ouvido dele, mordendo-lhe o lóbulo e agarrando sua bunda o fazendo entrar mais fundo dentro de si em êxtase.
FIM