A minha antiga vida morreu não com um grito, mas com o som de uma fechadura a rodar. Por ordem de Valquíria, o meu apartamento foi esvaziado. Um caminhão de mudanças levou os móveis que eu ainda estava a pagar; o resto — as minhas roupas de homem, os meus diplomas, as fotografias de infância — foi simplesmente deixado no lixo. Valquíria não queria "contaminações" do passado na sua nova realidade. Quando entreguei as chaves ao senhorio, a conta bancária de André estava a zeros. Eu não era mais um cidadão; era um fantasma que Valquíria acolhera por "caridade".
A minha nova residência não era o quarto de hóspedes luxuoso onde recuperei das cirurgias. Assim que me recuperei do batismo na cruz, Valquíria levou-me pelos corredores de serviço até um pequeno anexo atrás da cozinha, o antigo quarto da empregada. Era um espaço minúsculo, com uma cama de solteiro estreita, um pequeno armário e uma secretária de metal. O chão era de azulejo frio e o cheiro a produtos de limpeza era constante.
— Este é o teu lugar, Andrea — disse ela, enquanto eu observava o espaço exíguo. — Aqui serás útil. De manhã, serves o meu pequeno-almoço e o das minhas visitas. Durante o dia, geres a contabilidade da minha rede. À noite... à noite pertences-me da forma que eu decidir.
Foi então que descobri a verdadeira extensão do império de Valquíria. Ela não era apenas uma executiva de sucesso; era a "Madame" de uma rede clandestina chamada A Casa das Sombras. Do meu pequeno quartinho, entre lavar pratos e polir a prata, eu processava os pagamentos de dezenas de propriedades. Valquíria geria desde bordéis de baixo calão até "maisons" de altíssimo luxo, onde garotas cis e trans viviam sob o seu domínio absoluto. Eu via os números: milhões de reais circulavam pelas minhas mãos, mas eu não podia tocar num cêntimo. Eu era a submissa administrativa, a guardiã dos segredos que a mantinham no topo.
No escritório da empresa, um novo funcionário já ocupava a minha antiga secretária. Eu fora apagada do mundo corporativo. Agora, o meu uniforme era um vestido de laca rosa extremamente curto, saltos agulha que torturavam os meus pés e um avental de renda branca que servia apenas para sublinhar a minha humilhação enquanto servia café aos investidores de Valquíria na sua sala de estar.
Certa tarde, Valquíria entrou no meu quartinho. O seu olhar era gélido e triunfante. Ela trazia uma pasta de couro e uma pequena adaga decorativa.
— Está na hora de fechar o teu ciclo de transição, Andrea. Já não podes ser metade de nada. Assina.
Ela atirou os papéis sobre a secretária de metal. Eu estava exausta, com as costas a arder devido às tarefas domésticas e as pernas a tremer pelos saltos. Sem ler, confiando nela como um animal confia no seu dono, assinei onde ela indicava. Com um movimento rápido, ela pegou na adaga, fez um pequeno corte no meu polegar e pressionou-o sobre a minha assinatura em cada página. O sangue manchou o papel branco.
Só depois ela me permitiu ouvir o que eu tinha assinado.
— Acabaste de assinar a tua renúncia total, minha boneca. Legalmente, passaste todos os teus bens e direitos para o meu nome. Mais do que isso, reconheceste uma dívida pessoal comigo de três milhões de euros, referente a "custos de manutenção e procedimentos estéticos". Como nunca terás como pagar, serás minha propriedade até ao fim da tua vida. E o mais importante... — ela sorriu, mostrando um documento específico — ... assinaste o consentimento para a tua orquiectomia total. Amanhã, livramo-nos do que resta da tua masculinidade.
A cirurgia foi um sucesso absoluto. No hospital privado de Ricardo, fui tratada como uma peça de exposição. Enquanto eu estava na mesa de operações, Ricardo comentava com os seus assistentes sobre a "perfeição da feminização" que Valquíria desenhara. Quando acordei, senti um vazio indescritível entre as pernas. A dor era aguda, mas a sensação de que a última âncora que me prendia ao André tinha sido cortada trazia uma paz perversa.
Um ano passou.
O espelho do meu quartinho agora refletia uma criatura que eu mal reconhecia. O protocolo rígido de hormonas e treinos com Ricardo esculpira o meu corpo num triângulo perfeito: os meus ombros eram finos e delicados, o meu tórax estreito servia apenas de base para os meus seios de silicone, que agora pareciam ainda maiores e mais imponentes. Mas abaixo da cintura, eu era uma explosão de curvas. As minhas pernas eram grossas e torneadas, e os meus glúteos, expandidos por bioplastia e exercícios exaustivos, tinham um volume que desafiava a gravidade.
O meu cabelo, outrora curto e sem vida, agora caía em cascatas de caracóis negros até ao meio das costas. Valquíria era obcecada pelo meu cabelo.
— É raro ver uma sissy com caracóis tão perfeitos e longos — dizia ela, enquanto me obrigava a passar horas a escová-los e a aplicar óleos caros. — O crescimento é lento, mas o resultado é o de uma boneca de porcelana.
Eu vivia para lhe dar orgulho. Quando ela recebia convidados, eu era o centro das atenções. Eu não falava; apenas servia, agachando-me de forma a exibir as minhas novas curvas, sentindo os olhares de desejo e nojo dos homens e a inveja fria das mulheres. Eu era a sissy perfeita, a gerente das sombras, a escrava de sangue.
No entanto, o equilíbrio da minha servidão foi abalado numa noite de tempestade. Valquíria chegou a casa mais cedo, acompanhada por um homem que eu nunca vira, mas que parecia ter mais autoridade do que qualquer outro convidado anterior. Ele não me olhou com desejo; olhou-me com a frieza de um inspetor de qualidade.
— É esta? — perguntou ele, a voz rouca.
— Sim — respondeu Valquíria, segurando o meu queixo e forçando-me a olhar para ele. — Andrea, este é o Comendador. Ele é o verdadeiro dono da Casa das Sombras. E ele decidiu que o teu trabalho no quartinho acabou.
O meu coração disparou. Eu pensei que estivesse segura na minha pequena cela de serviço.
— A tua transição física está terminada, Andrea — continuou o Comendador, aproximando-se e tocando nos meus cabelos longos com uma mão enluvada. — Mas a tua utilidade apenas começou. Valquíria preparou-te bem, mas agora vais descobrir o que realmente significa ser o ativo principal do nosso mercado mais exclusivo. Faz as malas. Vais para a Ilha.
Eu olhei para Valquíria, procurando socorro, mas ela apenas sorriu com uma satisfação cruel. Eu fora treinada para ser a boneca dela, mas agora percebia que Valquíria era apenas a artesã de um monstro muito maior. O que seria "A Ilha"? E que tipo de serviço esperavam de uma sissy que já não tinha nada a perder, nem mesmo o seu próprio sangue?
