O silêncio que se seguiu à minha pergunta foi preenchido apenas pelo som da nossa respiração e pelo peso das palavras de Yan. Ele me olhou fixamente, com um brilho de compreensão nos olhos que me incomodava.
— O que você quer dizer com isso, Yan? — questionei, sentindo um nó se formar na garganta.
— Quando você diz que o Arthuro vai se sentir desesperado se souber que a gente não está mais ficando?
Yan soltou uma risada nasalada, carregada de uma sabedoria que parecia vir de quem observa as coisas de fora.
— Ah, Bernardo... eu sentia que o fato de eu estar com você era uma opção segura para o Arthuro. Você e ele... — Ele fez uma pausa, inclinando o corpo para frente.
— Naquele dia que rolou nós três, deu para perceber que você e ele têm uma conexão. Uma química que não se explica.
Senti meu coração falhar uma batida.
— Eu... — tentei começar, mas ele me cortou.
— Eu não sei se vocês realmente interromperam o que quer que estivesse rolando, mas ele... Eu não sei — Yan continuou, e eu permaneci em silêncio, a mente viajando para cada olhar trocado com o Arthuro.
— Mas eu sei que o jeito que o Arthuro te olha é um jeito de cuidado, de carinho. E eu confesso para você, Bernardo... eu queria que ele me olhasse assim também.
Ele riu novamente, uma risada tingida de uma ponta de inveja saudável.
— Se ele me olhasse dessa forma, eu já tinha dado para ele, com certeza.
— Para com isso, Yan! — bati no banco com a palma da mão, um impulso para dispersar a tensão que crescia.
Nesse movimento, nossos corpos se aproximaram bruscamente. Ficamos cara a cara, nossas testas grudadas, o calor da pele dele emanando contra a minha. O hálito de Yan misturava-se ao meu, e o mundo ao redor pareceu desaparecer.
— É verdade, Bernardo. Eu já teria dado para ele — ele sussurrou, a voz vibrando rente aos meus lábios. — E eu acho que... eu gosto muito de você.
— Eu sei disso — respondi, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos.
— Sabe? — ele provocou.
— Porque eu estou falando que ele gosta de você como homem, não somente como amigo.
— É? Você acha? — perguntei, sentindo o magnetismo entre nós tornar-se insuportável.
Nesse momento, Yan roubou um selinho. Foi o gatilho. Eu correspondi, e o beijo transformou-se em algo profundo e urgente. Minha mão começou a percorrer o corpo dele, subindo pela sua cintura, sentindo a textura da sua camiseta, enquanto a dele descia pelas minhas costas, apertando-me contra ele.
— Não torna isso mais difícil... — murmurei entre os beijos, sentindo o desejo lutar contra a minha decisão de terminar tudo aquilo.
— Eu não quero tornar nada difícil — ele respondeu, mas abriu os olhos, encarando-me com uma seriedade cortante.
— O Arthuro gosta de você, Bernardo. Só você não enxerga isso. Desde o dia que eu vi vocês dois juntos, estava nítido. Até me causava um pouco de ciúmes. Mas... você também gosta dele, né?
Parei. Respirei fundo, sentindo o peso daquela pergunta.
— Yan... é complicado. O Arthuro e o irmão dele são meus melhores amigos. Eles são sobrinhos do meu ex, o Miguel. Nós éramos quatro amigos inseparáveis por anos. Eu acho que isso que você vê é a amizade que a gente tem de uma vida inteira.
Yan riu, balançando a cabeça negativamente.
— Não é isso não. Com o tempo você vai ver. E quando você contar que a gente não está mais ficando, ele vai se desesperar. Porque eu era a ponte segura. Ele sabia que eu nunca iria te machucar.
— Eu também sei disso, Yan. Sei que você é um cara incrível.
Yan respirou fundo, aceitando o inevitável.
— Tudo bem. Eu não vou implorar por isso. Mas, se em algum momento você mudar de opinião e quiser...
— Ele se inclinou, deu um beijo no meu rosto, segurou minha mão e a beijou com reverência.
— Eu vou estar aqui, tá?
— Tudo bem. Vamos... eu preciso ir para casa — disse, sentindo que se ficasse ali mais um minuto, eu voltaria atrás.
— A gente nem foi na praça — ele comentou, desapontado.
— Estou um pouco cansado — justifiquei.
Ele assentiu. No caminho de volta, o trajeto foi rápido. Deitei minha cabeça no ombro de Yan, sentindo o balanço do carro e o cheiro do perfume dele uma última vez como meu. Ele dirigiu rápido, mas o silêncio no carro era preenchido por tudo o que não tínhamos dito.
Quando ele parou em frente à minha casa, o clima pesou. Antes que eu saísse, ele me olhou com uma fome contida.
— Um último beijo?
Não consegui negar. Começamos um beijo lento, uma exploração minuciosa de lábios e línguas. A mão de Yan percorria meu peito, descendo pelo meu abdômen, enquanto a minha se perdia nos cabelos da nuca dele. Sorríamos entre os beijos, uma despedida doce e amarga. O beijo não terminava; a gente parava para respirar e voltava a se selar com mais força.
A mão dele desceu até o meu quadril e repousou em cima do meu pau, sentindo a rigidez através do tecido da bermuda.
— Você está duro, né? Pena que você não quer me comer agora... — ele sussurrou com malícia.
— Não é assim, Yan... — tentei dizer, a voz falhando pelo tesão.
— Tudo bem — ele me deu um selinho final, soltou-se de mim e abriu a porta do carro.
— Se cuida, tá?
Ele pegou minha mão novamente e a beijou.
— Se você quiser qualquer coisa, só me procurar — eu disse, olhando no fundo dos olhos dele.
Dei um beijo no canto da boca dele, um gesto carregado de promessa e despedida.
— Você também se cuida, tá?
Saí do carro. Ouvi o som do motor se afastando enquanto eu caminhava para dentro de casa. Entrei no meu quarto e a tristeza me atingiu. Era uma decisão consciente, o melhor a ser feito, mas o vazio na cama e o eco das palavras de Yan sobre o Arthuro me deixaram inquieto. Eu tinha encerrado um ciclo com o Yan, mas sentia que o furacão com o Arthuro estava apenas começando a ganhar força.
O silêncio do meu quarto, após o som do carro do Yan desaparecer totalmente da minha cabeça, parecia pesar toneladas. Eu estava deitado na minha cama, olhando para o teto onde as sombras da noite começavam a desenhar formas abstratas, mas minha mente era um campo de batalha. Uma sensação de tristeza, densa e pegajosa, grudava na minha pele como o suor daquela noite de diversão que eu vinha colecionando.
Havia um arrependimento latente, mas eu sabia que era um sentimento egoísta. Era o medo de perder o porto seguro que o Yan representava. Minha vida havia se transformado em um tabuleiro complexo: tinha o Yan com sua entrega emocional, o Jonas com sua presença marcante, o Arthur e o Arthuro, os gêmeos que orbitavam meus pensamentos de formas tão distintas. E claro, o Lucas, com quem eu tinha acabado de dividir momentos naquela madrugada implacável.
— Eu preciso resolver com o Arthur... — sussurrei para o escuro, a voz falhando.
— Mas não sei se tenho forças para isso agora.
A dúvida era um veneno lento. Eu não sabia se o afastava para me proteger ou se o trazia para perto para me incendiar de vez. Foi nesse momento de paralisia que o meu celular vibrou sobre o lençol. A luz azulada cortou a penumbra do quarto, ferindo meus olhos cansados. Era uma notificação do Yan.
Meus dedos hesitaram. Cada músculo do meu corpo, ainda dolorido e sensibilizado pelas mãos dele que percorreram minha pele minutos atrás no carro, reagiu ao ver o nome dele na tela. Abri a mensagem com o coração batendo na garganta.
Yan: "Já cheguei, obrigado por tudo. Eu queria até escrever mais coisas para você... queria te dizer muitas coisas, mas acho que ficou nítido para você o quanto eu senti. E, como eu já disse a você, Bernardo, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me procura. Não vai ser fácil esquecer você. E talvez nem seja isso que eu queira. Se cuida, tá?"
Li e reli aquelas palavras. A vulnerabilidade dele era desarmante. Eu conseguia quase sentir o hálito dele, o cheiro de homem que ele deixou impregnado na minha camiseta, e a lembrança do seu beijo lento no canto da minha boca antes de eu sair do carro. Aquela mão que subiu pela minha coxa e sentiu o meu pau latejar de desejo proibido... o Yan sabia me ler como ninguém.
Comecei a escrever uma resposta. Os dedos voavam pelo teclado, tentando explicar o que nem eu entendia. Iniciei um áudio, querendo que ele ouvisse a minha voz embargada, querendo confessar que também estava sendo difícil para mim. Mas o som da minha própria respiração pesada no gravador me assustou. Apaguei tudo. O silêncio era a resposta mais segura, embora a mais dolorida. Simplesmente curti a mensagem com um coração. Um símbolo vermelho, pequeno e solitário, que resumia o carinho que eu sentia, mas que não era suficiente para nos manter juntos.
Ainda com o WhatsApp aberto, meus olhos deslizaram para o contato do Arthuro. A conversa com o Yan tinha despertado em mim uma urgência elétrica. Eu precisava dele. Precisava olhar no fundo daqueles olhos que, segundo o Yan, me olhavam com um cuidado de homem. Mas eu sabia que aquela conversa não poderia ser fria, filtrada por uma tela de vidro. Tinha que ser pele na pele, olho no olho.
Mandei uma mensagem rápida, tentando soar casual, apesar do tremor interno:
—"Arthuro, por que você não passou aqui em casa para buscar a chave da moto hoje? Enfim... amanhã, domingo, você está intimado a vir almoçar aqui em casa. Minha mãe faz questão de você estar presente. Não aceito não como resposta."
Para minha surpresa, o status de Onlinr apareceu imediatamente. Ele estava acordado. Ele estava lá, talvez pensando em mim tanto quanto eu nele. A resposta veio em segundos:
Arthuro: "Oi, Bêr! Tudo bem? Amanhã eu passo aí, com certeza. Eu não fui buscar a chave para ir pegar a moto porque estou me sentindo muito cansado, a noite foi intensa... Mas amanhã, sem falta, eu passo na sua casa para almoçar com vocês e pego a chave. E depois do almoço, eu vou até a casa do Lucas buscar a moto. O que você acha de ir comigo?"
O convite dele fez meu estômago dar um solavanco. Ir com ele buscar a moto significava tempo a sós. Significava o trajeto de volta, talvez eu colado nas costas dele, sentindo o calor do seu corpo através da roupa, o vento batendo e a adrenalina de estarmos sozinhos após uma noite de tantas trocas.
—"Pode ser, eu vou sim, sem problemas."
Arthuro: "Tudo bem então, tá? Boa noite para você. Eu já estou indo nessa, vou descansar de verdade agora. Beijos."
—"Tá ok, sem problema algum. Bom descanso."
Assim que fechei a conversa, uma exaustão avassaladora tomou conta de mim. Não era apenas cansaço físico; era o peso daquelas escolhas, das mãos que me tocaram e das bocas que eu beijei. Levantei-me da cama como se estivesse carregando o mundo nos ombros.
Fui ao banheiro, tirei a roupa diante do espelho e observei as marcas da noite. Minha pele parecia mais sensível, o toque da água do chuveiro era quase erótico contra o meu corpo. Lembrei da mão do Yan percorrendo meu abdômen, e da forma como o Murilo me desjava no banheiro. Eu era um mapa de desejos e conflitos.
Voltei para a cama, o corpo nu sob o lençol fresco. Não sentia fome. Não sentia sede. Apenas um desejo profundo de apagar, de silenciar as vozes de Yan e Arthuro que duelavam na minha cabeça. Fechei os olhos e o sono veio como uma onda negra, arrastando-me para longe da realidade.
Dormi sem interrupções, um sono pesado e sem sonhos que pudesse lembrar. Quando meus olhos se abriram, o quarto estava banhado por uma luz suave e matinal. O relógio marcava 07:00 da manhã de domingo.
O dia do almoço. O dia do Arthuro.
Sentei-me na cama, o silêncio da manhã sendo quebrado apenas pelo canto dos pássaros lá fora. O ar estava fresco, e a expectativa para o que aconteceria naquele domingo começava a latejar no meu baixo ventre. Eu sabia que, quando o Arthuro cruzasse aquela porta, as coisas não seriam mais as mesmas.
O domingo amanheceu com uma claridade mansa, mas para mim, cada raio de sol que atravessava a janela parecia um holofote sobre as escolhas que eu vinha fazendo. O desejo de acordar de vez me levou direto para a cozinha, onde o aroma do café recém-passado já dominava o ambiente. Minha mãe, com aquela disposição que eu nunca soube de onde vinha, já estava na ativa.
— Mãe? Ainda por aí hoje? — gritei, observando-a através da janela da cozinha enquanto ela persistia na limpeza daquela kitnet nos fundos.
— É, filho! — respondeu ela, sem parar o movimento. — Estou só terminando alguns ajustes para deixar tudo certo, tudo limpo. Quero deixar organizado para caso apareça algum inquilino logo.
Assenti, sentindo o calor da caneca de café contra as palmas das minhas mãos. O líquido preto e amargo desceu despertando meus sentidos, mas minha mente ainda estava enevoada.
Minha mãe pediu que eu fosse a feira comprar algumas coisas, logo aceitei a missão de ir à feira às 11 horas e, naquele intervalo de calmaria doméstica, peguei o celular. O nome do Arthuro brilhava na tela. Enviei um áudio, minha voz ainda carregada pela rouquidão do sono e por uma preguiça deliciosa que parecia esticar cada palavra.
— Bom dia, Arthuro... olha que preguiça. Já acordou? Como é que você está? Olha, minha mãe te intimou, espero que não tenha esquecido do almoço de hoje. Eu vou precisar ir na feira pelas 11h, mas qualquer coisa você pode chegar aqui e me esperar, tá bom?
A resposta dele veio como um relâmpago, quebrando o silêncio da manhã.
— Bom dia, Bêr! Não pensei que você estaria acordado tão cedo, não. Se você quiser, a gente pode fazer o seguinte: podemos ir na casa do Lucas agora pela manhã, às 9h, buscar a moto. Vamos de Uber e voltamos de moto, aí já passamos na feira. Que tal?
O convite era perfeito. Era a oportunidade de estarmos a sós antes do almoço. Combinei tudo, verifique a lista de compras da feira e senti uma onda de adrenalina percorrer minha espinha.
Subi para o quarto com o coração acelerado. Antes de qualquer coisa, precisava tirar de cima de mim os vestígios da noite anterior. No banheiro, a luz branca destacava cada detalhe do meu corpo no espelho. Eu me olhei demoradamente enquanto escovava os dentes. Havia uma vibração diferente na minha pele.
Entrei no chuveiro e deixei a água morna, quase quente, envolver meus ombros. Quando o vapor começou a subir, as lembranças vieram como uma enxurrada. Fechei os olhos e, por um instante, não era a água que eu sentia, mas as mãos do Yan percorrendo meu abdômen no carro, a firmeza dos seus dedos, a urgência daquele último beijo. Depois, a imagem mudou para o Murilo naquele lugar, o corpo dele contra o meu naquela privada, a entrega absoluta e vulgar que tínhamos compartilhado.
Passei o sabonete pelo peito, e minha mão deslizou para baixo. Lembrei do Lucas. A imagem dele no palco, tocando pagode, e depois a lembrança daquela piroca gigante que ele carrega. Sorri sozinho sob o chuveiro, sentindo meu pau reagir à memória tátil daquela noite. Aquele é um peso que eu acho que dava até para encarar, pensei com um prazer proibido, sentindo a textura da minha própria pele sensibilizada pela água.
Saí do banho e me vesti com uma simplicidade estratégica. Uma bermuda de tactel que marcava levemente o quadril, uma camisa branca de algodão fino que contrastava com a minha pele ainda quente do banho, e chinelos. Passei o perfume que eu sabia que o Arthuro notaria, ajeitei o cabelo rapidamente com aquela vaidade de quem sabe que está sendo observado. Eu estava pronto, exalando uma mistura de frescor matinal e o segredo das horas passadas.
Desci as escadas e peguei a lista na mesa. Eram poucas coisas: frutas, legumes, coisas para a semana. Minha mãe entrou na cozinha, limpando as mãos no avental.
— Mãe, vou sair com o Arthuro em alguns minutos. Vamos buscar a moto dele antes de irmos à feira — avisei, tentando parecer casual.
Ela me olhou com aquele sorriso que me desarmava.
— Tudo bem, filho. Eu gosto dessa amizade de vocês dois. Mas... vem cá rapidinho.
Aproximei-me, sentindo que o tom de voz dela tinha mudado. Sentamos à mesa da cozinha, o sol entrando pelas janelas e iluminando o rosto dela. Ela segurou minha mão por um segundo, olhou no fundo dos meus olhos e soltou a pergunta que eu menos esperava, mas que mais temia:
— Filho... você e o Arthuro... — Ela fez uma pausa dramática, um brilho de curiosidade e cuidado no olhar. — Você gosta dele?
O mundo pareceu parar por um segundo. A pergunta ficou suspensa no ar, entre o cheiro do café e a expectativa do encontro. Eu senti o sangue subir para as minhas bochechas. Gostar? O que era gostar dentro daquele caos de sentimentos que eu nutria por ele, pelo irmão, e por todos os outros?
— O que tem o Arthuro, mãe? — tentei ganhar tempo, mas o sorriso dela dizia que ela já sabia que a resposta era muito mais complexa do que uma simples amizade.
— Eu vejo como você fica quando ele está por perto, Bernardo. E vejo como ele te olha. Eu só quero saber... se você gosta dele de um jeito diferente.
Fiquei mudo, a imagem do Arthuro chegando em minutos para buscar aquela moto, para me fazer colar o peito nas costas dele, queimando na minha mente. A sensualidade daquela amizade era um segredo que eu não sabia se estava pronto para confessar, nem para mim mesmo, nem para ela.
— Bom, mãe, é óbvio que eu gosto do Arthuro, assim como eu gosto do Arthur, como eu gosto da senhora, gosto do papai — respondi, tentando erguer uma barreira de obviedade para esconder a confusão que me habitava.
Ela soltou uma risada curta, aquela risada de quem conhece os labirintos do meu coração melhor do que eu.
— Meu filho, você entendeu o que eu te perguntei? Eu estou te perguntando se você gosta dele como um possível namorado.
— Mãe, o Arthuro é meu melhor amigo! — exclamei, sentindo meu rosto esquentar.
— O Miguel também era seu melhor amigo, filho. E vocês namoraram, fizeram um casal lindo. Vocês eram muito bonitos juntos.
Respirei fundo, sentindo o peso da comparação. O passado com o Miguel era uma sombra que sempre projetava expectativas sobre o meu presente.
— Mãe, eu estou entendendo onde você quer chegar, mas o Arthuro é um homem hétero e eu sou um homem gay.
Ela sorriu, um sorriso enigmático, quase piedoso.
— Bom, filho, eu acho que essa resposta que você deu já basta... porém, não é isso que eu vejo. Tudo bem?
Rimos juntos, mas o xeque-mate dela ficou ecoando. Minha mãe tinha um radar para desejos reprimidos que me assustava. Quando o celular vibrou com o aviso de que o Arthuro estava chegando, senti um alívio misturado com uma urgência elétrica. Peguei a chave da moto, me despedi e saí.
O Uber já estava parado. Abri a porta e o vi. O Arthuro estava impecável. Enquanto eu usava um estilo mais despojado de chinelos, ele vestia um conjunto esportivo preto, ajustado ao corpo atlético, realçando a largura dos ombros e a musculatura dos braços que eu tanto conhecia. O cabelo ainda estava úmido, exalando um frescor de banho recém-tomado.
— Oi, Bêr. Bom dia — ele disse, com aquele sorriso que iluminava o interior do carro.
Ele se inclinou e me deu um beijo no rosto. Senti o calor da pele dele e o cheiro de sabonete.
— Como você está? Dormiu bem? — ele perguntou, enquanto o carro seguia.
— Deu para descansar — respondi, ajeitando-me no banco, sentindo meu corpo reagir à proximidade dele.
— Mas eu queria tanto uma massagem... estou com uma dorzinha aqui nas costas.
— É só você pedir, Bêr — ele sussurrou, a voz baixando um tom, tornando-se perigosamente carinhosa.
— Eu vou fazer no seu ombro agora, durante a viagem.
Ele esticou o braço e começou a apertar o meu trapézio com uma pressão firme, certeira. Seus dedos eram fortes, e cada movimento parecia desfazer não apenas os nós musculares, mas também as minhas defesas.
— Ai, obrigado... — suspirei, fechando os olhos.
— Depois, quando chegarmos, eu melhoro essa massagem — ele prometeu, com uma malícia que me fez arrepiar.
Pousei a cabeça no ombro dele, sentindo o tecido da sua camisa contra a minha bochecha. Ele respirou fundo perto do meu cabelo.
— Esse perfume? — ele perguntou.
— Que tem? É o que eu gosto... — murmurei.
— É sim... — ele riu e beijou a minha testa, um gesto de carinho que carregava uma tensão silenciosa.
Chegamos à casa do Lucas em vinte minutos que pareceram voar. Quando o Arthuro ia tocar a campainha, o Lucas já abria o portão. Ele estava totalmente à vontade: apenas um calção largo, sem camisa e de chinelo.
Meus olhos traíram minha discrição. Olhei de cima a baixo, lembrando inevitavelmente da noite anterior. Sem a camisa, o peitoral do Lucas era largo, com a pele impecável e alguns pelos que desciam em direção ao elástico do calção, que pendia baixo no quadril.
— É assim que você recebe visita? — o Arthuro brincou.
— Ah, que nada, cara, relaxa — o Lucas respondeu, rindo.
— Bom dia — eu disse, aproximando-me para um abraço e um beijo no rosto. O corpo dele estava quente do sol da manhã. Senti o volume do calção roçar levemente na minha perna e desviei o olhar, mas o Lucas percebeu.
— O que foi, Bernardo? — ele provocou, rindo.
— Não é nada... é estranho — tentei disfarçar.
— O que é estranho? — ele insistiu.
O Arthuro, que não perdia uma oportunidade, disparou:
— É estranho te ver de roupa, né? Depois de ver aquela porra grandona que você tem aí no meio das pernas...
Caímos na risada, uma gargalhada que misturava a vulgaridade da noite passada com a descontração do domingo. Pegamos a moto e, na hora da despedida, o Lucas me puxou para mais um abraço.
— Seu perfume... é gostoso — ele murmurou no meu ouvido.
— Eu também sou gostoso — respondi, num impulso de audácia.
O Lucas ficou visivelmente sem jeito.
— Ah... mas eu nunca provei.
— E nem vai provar, tá? Vambora! Vamos, Bernardo! — o Arthuro cortou, com um tom de ciúme que ele tentou mascarar com uma risada, mas que ficou nítido no modo como me puxou para a moto.
Subi na moto e, assim que o Arthuro arrancou, eu o abracei com uma força que eu não sabia que tinha. Colei meu peito nas costas dele, sentindo a vibração do motor entre as minhas pernas e o calor do corpo dele através da camisa preta. Repousei a cabeça no ombro dele, fechando os olhos e deixando o vento lavar os pensamentos sobre o Yan, o Murilo e o próprio Lucas. Naquele momento, só existia a estrada e o Arthuro.
Minha cabeça viajou. A sensação de estar ali, grudado nele, era uma mistura de segurança e um desejo latente que começava a pulsar no meu corpo.
— A gente está chegando — ele avisou, mas percebeu que ainda era cedo para a feira.
Paramos no sinal e ele se virou um pouco. — Quer passar num lugar antes?
— Onde?
— Se eu fizer a curva aqui, a gente consegue passar na praia. Que que tu acha?
— Eu não dispenso praia, você sabe disso.
Ele manobrou a moto com habilidade e logo o cheiro de maresia substituiu o cheiro da cidade. Estacionamos perto de um quiosque. O sol refletia no mar, criando um cenário perfeito para a tensão que nos cercava.
— Vamos tomar uma água de coco antes — ele sugeriu, caminhando em direção às mesas.
Sentamos de frente para o mar. O Arthuro se recostou na cadeira, esticando as pernas, e o calção esportivo dele subiu um pouco, revelando as coxas grossas e definidas. Ele me olhava com uma intensidade que fazia o ar parecer mais denso.
— Sabe, Bêr... — ele começou, pegando o canudo da água de coco e olhando para o horizonte.
— Aquela conversa sobre o Lucas... e sobre o jeito que você me olha... às vezes eu acho que a gente está brincando com fogo. E você sabe que eu não gosto de me queimar sozinho.
A sensualidade daquela fala, dita ali, sob a luz do dia, era um convite perigoso. O domingo estava apenas começando, e a água de coco era apenas o preâmbulo de algo muito mais profundo que estava para acontecer.
Decidimos nos levantar e caminhamos lado a lado, o som do mar quebrando ao fundo servindo de trilha sonora para o que eu estava prestes a soltar. Sentamos na areia, o calor do sol começando a queimar levemente os ombros, e a vista infinita do oceano à nossa frente parecia ironizar o quão pequeno eu me sentia diante daquela situação.
— Arthur, eu decidi não ficar mais com o Yan — soltei de uma vez, sentindo um peso sair das minhas costas, mas um novo se instalar no meu peito ao ver a reação dele.
Ele parou, o canudo da água de coco ainda entre os lábios, e me olhou com uma surpresa que durou apenas um segundo.
— Como assim? — ele perguntou, a voz calma, mas os olhos vasculhando os meus. — Vocês pareciam... bem.
— Ontem a gente se encontrou. Eu fui conversar com ele e decidi que é melhor não ficarmos mais juntos. O Yan é um homem incrível, você sabe disso, mas... meu coração não estava com ele. Você entende?
Arthuro soltou uma risada curta, uma mistura de alívio e cinismo.
— Entendo. Ele realmente é incrível, apesar dos deslizes e de ser um tanto expansivo demais em alguns momentos. Mas, se vocês estão bem com isso, que bom. Só que... — Ele se inclinou, a proximidade fazendo meu pulso acelerar.
— Por que essa decisão agora, Bernardo? Foi por causa de mim?
A pergunta veio direta, sem filtros, como um soco no estômago. O olhar dele estava fixo, uma âncora me prendendo ali na areia.
— Eu prefiro não responder, Arthuro — murmurei, desviando os olhos para a espuma das ondas.
— Eu gostaria que fosse por causa de mim — ele sibilou, com uma arrogância charmosa que só ele tinha.
Ele deixou o coco de lado na areia, ignorando o mundo ao redor. Suas mãos, grandes e quentes, seguraram meu rosto com uma possessividade que me fez estremecer. Ele me puxou para um beijo — não um beijo de despedida, mas um de afirmação. Seus lábios tinham o gosto doce da água de coco e a urgência de quem esperava por aquele momento desde que nos conhecemos.
— Não precisa ter medo de falar nada — ele sussurrou contra a minha boca, a respiração quente se misturando à minha. — Você sabe que eu gosto de você. E espero que isso seja recíproco.
— Eu também gosto de você, Arthuro... mas tenho medo — confessei, sentindo o calor do corpo dele irradiar para o meu.
— Tudo o que vivemos nesses últimos dias... vai chegar uma hora que você vai sentir vontade, né?
— Vontade de quê? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Vontade de ficar com uma mulher, Arthuro. Você sempre ficou com mulheres. É o seu histórico, é o seu mundo.
Ele riu, uma risada gutural que vibrou no peito dele, onde eu repousava a mão.
— Ah, Bêr... se você me der tudo o que eu preciso, eu não vou sentir vontade de mais ninguém. Nunca.
— E o que você precisa? — desafiei, olhando nos olhos dele.
Ele se aproximou tanto que nossos narizes se roçaram.
— Cuidado, carinho, sexo... muito sexo. Sexo de verdade, do jeito que só a gente sabe fazer — a voz dele desceu para um registro quase inaudível, carregado de uma promessa erótica que fez meu baixo ventre latejar.
— Eu acho que esse muito sexo talvez eu não dê conta — brinquei, tentando aliviar a tensão, mas ele apenas beijou minha testa com carinho.
— Eu acho que você dá conta, sim. E sobra.
O clima mudou quando ele trouxe o nome do Lucas de volta à conversa.
— E você e o Lucas? — ele soltou, a mandíbula levemente travada.
— O Lucas é só um amigo de trabalho, Arthuro. E eu sei que foi você que incentivou aquilo na outra noite. Eu não gostei que isso acontecesse, você sabe — respondi, sentindo uma ponta de irritação.
— Tudo bem, mas eu achei que você tinha que aproveitar aquele momento, já que você também disse que eu tinha que aproveitar com a Cíntia — ele se justificou, mas o brilho nos olhos dele não era de arrependimento.
— Existiam outros modos de eu aproveitar — retruquei.
— É, existiam outros modos. E eu busquei um deles agora, né? — Ele sorriu, voltando a me olhar com aquela intensidade de quem está prestes a devorar algo.
Ele segurou minha mão e começou a traçar círculos na palma, um gesto simples que, diante daquela imensidão do mar, parecia o prelúdio de uma entrega total. A pele dele contra a minha, a areia grudada levemente em nossos tornozelos, e a conversa que agora derivava para o que faríamos assim que as portas de casa se fechassem.
— A gente... — ele começou, hesitando por um segundo.
— O quê? A gente? — perguntei, sentindo que o nosso dia estava prestes a ser escrita com fluidos e sussurros.
— A gente precisa de um tempo só nosso depois desse almoço, Bernardo. Sem Lucas, sem Yan, sem ninguém. Só eu e você, perdidos em algum lugar onde eu possa te mostrar exatamente por que eu vou vai sentir falta de mais ninguém.
O modo como ele disse te mostrar não deixou dúvidas. O Arthuro estava me reivindicando. E, enquanto o sol subia no céu de domingo, eu percebi que a feira e o almoço eram apenas obstáculos entre mim e a consumação daquele desejo que estava prestes a explodir.
A risada que soltei diante da audácia do Arthuro foi nervosa, carregada de uma eletricidade que subia pelas minhas pernas e se concentrava exatamente onde o desejo dói. Eu o olhei, sentindo a brisa marinha bagunçar meu cabelo, mas meus olhos estavam fixos na boca dele, naquela expressão de quem não estava mais disposto a brincar de preliminares mentais.
— É, a gente precisa desse momento, com certeza — respondi, minha voz baixando para um tom quase confidencial.
— Tem muita coisa que a gente precisa fazer juntos, Arthuro. Coisas que o tempo e os outros não deixaram.
Ele se inclinou mais, o cheiro de maresia e do perfume dele criando uma névoa inebriante ao meu redor.
— Eu ainda não te comi, Bêr. — ele soltou, a palavra comi saindo crua, vulgar, sem o verniz da amizade.
— Eu ainda não estive totalmente dentro de você. E eu quero muito isso, porra. Já faz muito tempo que eu imagino o aperto do teu corpo me recebendo.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. A imagem dele me possuindo, a força bruta que eu sabia que ele tinha sendo descarregada em mim, era um pensamento que eu alimentava em segredo.
— Por isso que você estava quase atacando o Lucas naquela noite, né? — provoquei, tentando manter o controle.
— Estava descontando nele?
Arthuro soltou uma gargalhada curta, balançando a cabeça.
— Não, não tem nada a ver. Não é isso. O que eu quero é com você. Eu quero você, Bernardo. Só você.
— Hoje vai ser praticamente impossível, Arthuro — lamentei, lembrando do compromisso. — Minha mãe pediu especificamente para eu ficar em casa nesse almoço. Ela está desconfiada, quer tempo em família.
— E depois do almoço? Tem tempo — ele insistiu, a mão dele subindo pela minha coxa, um toque firme que queimava através do tecido da bermuda.
— À tarde, a gente pode ir em um lugar que eu conheço. Um hotel, um lugar só nosso. Eu prometo que à noite eu te entrego em casa.
— Arthuro, amanhã eu trabalho! — exclamei, embora a ideia já estivesse criando raízes na minha mente. — E olha tudo o que a gente fez nas últimas noites... Não é possível que você ainda tenha disposição.
Ele riu, um som vitorioso, e segurou minha mão com força, guiando-a para cima da perna dele.
— Para você, eu tenho muita.
Senti o volume sob o tecido da bermuda dele. Estava rígido, pulsante, uma prova inegável de que o que ele dizia era a mais pura verdade. Minha mão desceu pela brecha da bermuda, sentindo o calor da pele e a tensão do músculo da coxa dele.
— Ai, caraca... eu estou bem excitado — ele confessou, os olhos escurecendo.
— Dá para ver... e para sentir — respondi, sentindo meu próprio corpo responder instantaneamente. O latejar meu corpo era uma agonia deliciosa.
— Queria realmente que você sentisse agora, do jeito certo — ele murmurou, a voz rouca de desejo.
— Mas aqui não tem como.
— Por isso, depois do almoço, você dá um jeito. Eu já estou de moto e acho que nada vai nos impedir.
— Só se você fizer aquela massagem que você me deve — desafiei, lembrando da promessa no carro.
— Tá... eu faço uma massagem que você nunca mais vai esquecer — ele sibilou, os dedos apertando levemente minha mão contra a perna dele.
— Vou te tocar de um jeito e de uma maneira que você vai adorar. Vou te deixar mole na minha mão antes de te comer.
Olhei a hora no celular, tentando recuperar um pouco de sanidade. O domingo avançava e a lista da feira ainda estava no meu bolso.
— Vamos? — chamei.
— Já? Agora? — ele perguntou, com um brilho de malícia, como se sugerisse que poderíamos resolver ali mesmo.
— Não, Arthuro! Vamos passar para comprar as coisas da minha mãe. Já vai dar o horário e precisamos chegar no máximo meio-dia lá em casa.
Nos levantamos da areia, limpando o resto de brisa e poeira dos nossos corpos. Antes que eu pudesse dar o primeiro passo em direção ao asfalto, o Arthuro segurou minha cintura com as duas mãos, me puxando para ele com uma firmeza que não aceitava resistência. Nossos corpos se colaram.
O calor dele atravessando a roupa, a ereção dele pressionada contra o meu abdômen.
— Você aceita o meu convite? — ele perguntou, prendendo meu olhar.
Tentei desviar o olhar, a timidez lutando contra a vontade, mas ele me puxou pelo queixo, me dando um selinho demorado, molhado, que me deixou sem ar.
— Aceita?
— Vou tentar dar um jeito, mas eu não prometo, Arthuro — sussurrei, sentindo o mundo girar.
Ele me deu outro beijo, dessa vez mais profundo, sua língua reivindicando meu espaço.
— Você vai dar um jeito de estarmos juntos hoje, Bernardo. Eu sei que você quer tanto quanto eu.
— Tá... eu dou um jeito — cedi, vencido pelo desejo que transbordava. — A gente se fala depois do almoço.
Ele riu, satisfeito, e apertou minha cintura uma última vez antes de me soltar. Caminhamos em direção à moto, o sol agora brilhando forte sobre nós. Jogamos os cocos fora e subimos na moto. Montei atrás dele, colando meu peito nas suas costas largas, sentindo o cheiro de sol e de homem que emanava dele.
O motor rugiu e partimos em direção à feira. No trajeto, eu não conseguia pensar em legumes ou frutas; minha mente estava presa na imagem do Arthuro, na massagem prometida e na certeza de que, finalmente, o Arthuro estaria dentro de mim, preenchendo cada parte do meu corpo. A cada curva, a cada vez que o corpo dele se inclinava e eu tinha que me apertar contra ele, eu sentia que o domingo seria o dia em que o leite derramado ganharia um significado totalmente novo.
A feira estava em seu auge. O barulho dos feirantes, o cheiro de coentro fresco e o calor que emanava do asfalto criavam uma cacofonia de sensações. O Arthuro estacionou a moto e, por um instante, o brilho do sol destacou a musculatura dos seus braços. Eu segurava a lista como se fosse um escudo contra a tensão que ainda vibrava entre nós dois.
— Fica na fila do pastel que eu vou comprando as coisas rápido, tudo bem? — sugeri, tentando focar na missão.
— Você não prefere que a gente vá junto? — ele perguntou, com aquele olhar de quem não queria perder nem um segundo da minha presença.
— Eu compro isso aqui rápido na primeira barraca que aparecer. São só doze itens. Me liga quando terminar, vou estar na barraca de tapioca. Amo tapioca.
Ele riu, uma risada que parecia um carinho.
— Tá, eu vou comprar os pastéis e pedir caldo de cana para nós dois.
Fui rápido. Em seis barracas, a sacola já pesava. Mas o peso maior era o da expectativa. Senti mãos firmes espalmando minha cintura por trás, um toque que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. O calor das palmas do Arthuro atravessou minha camisa branca, e ele colou o peito nas minhas costas ali mesmo, entre as verduras, legumes e temperos.
— Me encontrou rápido — murmurei, sentindo o hálito dele perto do meu pescoço.
— É fácil, você é alto, esqueceu? — Ele riu, pegando as bolsas mais pesadas da minha mão com uma cavalheirismo que me fazia derreter. — Falta muito?
— Só os temperos e a tapioca.
Terminamos as compras e voltamos para a moto. Ali, encostados no veículo, vivemos um momento de pausa. Ele trouxe o pastel de queijo com goiabada — Romeu e Julieta, exatamente como eu gostava.
— Você lembra bem de tudo o que eu gosto, né? — provoquei, mordendo o pastel enquanto o caldo de cana gelado descia refrescando a garganta.
— Lembro de cada detalhe, Bêr. Principalmente do seu beijo — ele sussurrou no meu ouvido, aproveitando o barulho da rua para ser vulgar e doce ao mesmo tempo.
— Vamos para casa. Quero começar a planejar como vou tirar essa roupa de você mais tarde. — Disse Arthuro entre um sorriso e outro...
Seguimos para casa. O trajeto foi curto, mas o contato físico na moto era uma tortura deliciosa. Chegamos e ele estacionou no quintal. Eu peguei apenas a sacola da tapioca, enquanto ele, carregando todas as outras compras com aquela facilidade de homem forte, me seguia.
Abri a porta e dei de cara com meu pai na sala. Ele estava com um sorriso largo, quase triunfante.
— Voltou, filho! — ele exclamou, com uma voz estranhamente alta, como se estivesse anunciando nossa chegada para alguém nos fundos da casa.
— Oi, Arthuro! Chega aqui, rapaz!
— Oi, pai. Já voltamos — respondi, pegando as bolsas do Arthur para levar à cozinha.
— Mãe?
— Ela está lá na cozinha, filho! — meu pai respondeu, sem tirar o sorriso do rosto.
Fui em direção à cozinha, o Arthuro logo atrás de mim. Minha mãe apareceu na porta, radiante.
— Ah, obrigado, filho! Deixa que eu guardo. Oi, Arthuro, senta aí, meu querido!
— Ela nos abraçou, mas havia um brilho de conspiração nos olhos dela que eu não consegui decifrar de imediato.
Sentamos no sofá. Eu e o Arthuro de um lado, meu pai no outro sofá. O clima era de uma alegria contagiante, mas havia algo no ar, uma vibração de segredo.
— Nossa, minha mãe está demorando com essa água, né? — comentei, sentindo minha garganta seca pela mistura de pastel e desejo.
— Ela foi agora, Bêr, calma. — o Arthuro disse, mas eu já estava me levantando.
— Vou lá buscar.
Caminhei em direção à saída da cozinha. O corredor parecia mais longo do que o normal. No momento em que eu ia entrar, uma silhueta surgiu vindo em minha direção.
Meus pés travaram no chão. O ar fugiu dos meus pulmões. O Arthuro, que havia se levantado logo atrás de mim, também paralisou. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som do meu coração batendo contra as costelas.
A pessoa que saía da cozinha não era minha mãe. Era um homem. Um homem que eu conhecia em cada centímetro, cada curva, cada cheiro. Ele estava ali, com um sorriso de quem sabia exatamente o impacto que estava causando. O olhar dele brilhou ao me encontrar, uma mistura de saudade e uma possessividade que fez meus joelhos tremerem.
— Você... — minha voz saiu num sussurro trêmulo, carregado de uma surpresa que transbordava felicidade, mas também um pânico delicioso.
— Você está aqui? Como assim? Você...
Olhei para o Arthuro e vi que ele também estava em choque, mas um sorriso largo já começava a se desenhar em seu rosto. Meus pais, lá atrás, começaram a rir, celebrando o sucesso da surpresa.
A luz do meio-dia entrava pela porta, iluminando o rosto do recém-chegado. A pele bronzeada, o porte atlético, os olhos que pareciam ler minha alma e a promessa de que o que estava por vir naquela tarde seria muito maior do que qualquer plano que tínhamos feito na feira.
Era o retorno que eu não esperava, o reencontro que mudaria as regras do jogo. A surpresa estava completa, e o desejo, agora, tinha um novo e poderoso elemento para se alimentar.
— Surpresa, Bernardo — ele disse, a voz ecoando como música, enquanto se aproximava para o que eu sabia que seria o primeiro de muitos confrontos de pele e alma daquele domingo.