Felipe chegou com a esposa e os filhos. Cumprimentou todo mundo com um sorriso de comercial de pasta de dente. Quando chegou minha vez, apertou com força a minha mão e deu tapinhas no meu ombro.
“E aí, meu irmão? Como tá o Uber? Já tá milionário?”
Foi tão difícil dar um sorriso de volta para ele, que minha cara doía.
“Tô na luta, irmão.”
“Sabe o que eu admiro em você, João? Essa sua capacidade de se virar com pouco. Eu, se fosse você, já tinha desistido. Mas você… aguenta firme, né? Um verdadeiro guerreiro. Mas preciso falar uma coisa séria com você.”
Fuzilei ele com os olhos, incapaz de continuar sendo falso. Não tinha as mesmas capacidades dele e da minha mulher. Sorte minha que ele era tão metido a besta que nem reparou, continuando seu monólogo.
“Não pode só trabalhar e deixar a peteca cair, irmão. Tem que manter o ritmo em casa também, sabe? Senão daqui a pouco a Lê tá falando em ‘abrir o relacionamento’, essas modinhas… e aí você fica com um par de chifres bem grandão na cabeça.” Ele riu do próprio comentário e passou o braço pelo meu ombro, como se estivesse me dando um conselho de vida, e não se exibindo e marcando território. “Mulher como ela precisa de atenção constante, de um cara que não canse no primeiro tempo, que coma ela todo dia. Você entende, né? Eu só tô falando isso porque te quero bem.”
Senti o sangue subir quente até as orelhas, mas respirei fundo. Forcei a voz a sair calma, quase amigável.
“Valeu pelo toque, Felipe. Realmente… importante saber que você tá de olho na minha vida sexual.” Fiz uma pausa curta, olhando direto nos olhos dele. “Mas fica tranquilo. A Lê tá bem atendida. Muito bem atendida, aliás, a gente tá fazendo todo dia basicamente.”
Era uma mentira, e talvez ele soubesse. Mas foi impagável a expressão de desgosto que ele deixou escapar. Foi rápida, quase imperceptível, mas eu vi. Um músculo minúsculo no canto da boca tremeu por meio segundo, como se a ideia de eu tocar nela fosse uma afronta. O filho da puta se achava dono da minha esposa.
“Todo dia, é?” ele repetiu, forçando um sorriso bem apertado. “Que bom, irmão. Que bom mesmo. Energia é tudo nessa vida.”
Deu uma risadinha curta e passou a mão no meu cabelo como se eu fosse um cachorro. Depois se afastou, já procurando outra vítima pra impressionar com aquele sorriso de revista Caras.
Eu fiquei ali uns segundos, contando até dez na cabeça pra não jogar uma lata de cerveja na cara dele. Mas, consegui me acalmar. Cumprimentei a tia da Letícia, que chegou trazendo um bolo caseiro que ninguém pediu. Sorri, agradeci, fiz piadinha sobre o açúcar que ia deixar as crianças loucas a noite inteira. Depois conversei com um pai de um amiguinho do Pedro, falando de futebol, do preço da gasolina, da merda que tá o país. Tudo automático. Eu era uma máquina de socialização no piloto automático.
De vez em quando eu olhava pros lados. Letícia circulava, servindo suco, ajeitando o cabelo das filhas de outras pessoas, rindo com as outras mães. Carinha de santa. Bundinha balançando de leve no vestido florido cada vez que ela se mexia. Felipe também rodava, abraçando, dando tapinha nas costas, fazendo as pessoas rirem. Pelo menos, os dois não estavam interagindo na minha frente, se não eu não sei se conseguiria aguentar.
Se um forasteiro chegasse naquela festa, nunca imaginaria os segredos terríveis que se escondiam naquele salão.
O palhaço chegou. As crianças enlouqueceram. Pedro veio correndo me puxar pela mão: “Pai! Pai! Vem ver, ele vai fazer mágica!”
Sentei numa cadeira de plástico, coloquei Pedro no colo e fingi prestar atenção no show. Ri quando era pra rir. Aplaudi. Até deixei o palhaço me chamar pro meio do círculo pra fazer uma brincadeira.
Mas enquanto o palhaço fazia o número com os balões, eu comecei a olhar devagar pelo salão. Contando cabeças. Procurando.
Letícia não estava mais perto da mesa de doces.
Felipe também não estava mais no salão.
O coração deu uma batida mais forte, mas mantive a cara de paisagem. Esperei o palhaço inflar um cachorro de balão pra dar pro meu filho, e levantei devagar, coloquei o menino no chão com cuidado.
“Fica aqui com a tia, campeão. O pai vai pegar alguma coisa pra você beber.”
Ele nem prestou atenção, já hipnotizado pelo próximo truque.
Saí do salão. O corredor do prédio estava vazio, só o eco distante da musiquinha infantil vazando pela porta. Caminhei devagar até a área de serviço, onde fica o banheiro dos funcionários. A porta estava fechada. Luz acesa lá dentro.
Ouvi as risadas. Eles estavam lá.
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