Ele acordou com o sol da manhã filtrando-se pelas frestas da cortina, aquecendo sua pele exposta como um amante gentil e persistente. Aos 41 anos, seu corpo e onde os deuses habitam e anjos protegem — absorvia o calor com gratidão, os raios traçando linhas douradas sobre os antebraços e o peito nu. Ele se espreguiçou na cama larga, sentindo o lençol ainda morno do lado onde Roberto havia dormido, mas agora vazio. A noite anterior havia sido uma entrega lenta e profunda, como sempre, sem pressa, guiada pela reciprocidade e pela lealdade que ele tanto cuidava. Roberto já havia saído cedo para o trabalho na transportadora, deixando apenas o eco de seu cheiro amadeirado no ar.
Ele se levantou, vestindo uma boxer cor Terra de Siena Natural a crer no anúncio do fabricante, e saiu para a varanda da casa lembrando da fazenda. O vento o recebeu como um beijo suave, roçando suas maçãs da face e desarrumando os cabelos longos e sedosos, carregando o aroma fresco de chuvarada e terra úmida. Ele inspirou fundo, deixando que o ar o envolvesse, elevando-o em uma sensação de plenitude. Ali, longe do bulício de conversas e fora de timelines de redes sociais, lá na fazenda ele é dono de um santuário ainda maior, um testemunho vivo dos princípios que o guiaram: disciplina, paciência e a construção de bases sólidas, sem atalhos ou ilusões passageiras. Cada hectare foi comprado devido a anos de esforço no trabalho burocrático, de escolhas que priorizavam a estabilidade sobre o efêmero, a paz interior sobre o risco desnecessário.
Caminhando pela casa, ele recordou as plantações se desenvolvendo sob o sol generoso. As fileiras de plantas e árvores erguiam-se vigorosas, folhas verdes balançando ao vento, prometendo colheitas que se traduziriam em mais recursos — financeiros e em autonomia e segurança. Sempre consciente do privilégio de possuir aquela terra. Não era mera propriedade; era uma extensão de si mesmo, nutrida pela mesma reticência calculada que aplicava em suas relações. Aqui, as sementes que outros plantaram na última safra e anos atrás floresciam, ecoando a paciência com que cultivava laços como o de Roberto: sem forçar, mas permitindo que o tempo revelasse a profundidade.
Mais adiante, na área de reserva legal — aquele trecho intocado de mata nativa que ele preservava com rigor, de acordo com a Lei e a própria ética — o vento ganhava força, sussurrando segredos entre as árvores altas. Ali por onde o sol dardejava e nos feriados longos distante da cidade, ele podia passear e pernoitar ao relento, armando uma barraca simples e assim se deitando sob as estrelas. A mata testemunhava esses momentos: noites em que o silêncio o incensava, elevando-o acima das trivialidades urbanas, recordando-o do equilíbrio que buscava. Contra um tronco antigo, era fácil o vento beijá-lo como um velho amigo, e refletir sobre o caminho percorrido — de volta a Franca após doze anos, mais forte, mais centrado.
De repente, nuvens se acumularam no horizonte, e mais uma chuvarada fina começou a cair, açoitando a casa como um sexo oral no meio do dia de expediente, refrescante e revigorante. Ele saiu ao quintal como quem sente a necessidade de mais beijos, ergueu o rosto, deixando as gotas escorrerem por sua pele, misturando-se ao suor sutil que o sol havia evocado. A água o envolvia, purificando, elevando-o em uma dança elemental. Ele riu baixo, sentindo-se incensado pela natureza — um privilégio raro, conquistado por princípios inabaláveis. Ali, com a chuva o abraçando e o vento o soprando, ele se sabia o dono e também guardião, guiado por uma maturidade que tolerava o imprevisível sem perder o controle.
Enquanto a chuva se intensificava, ele voltou devagar para a casa, o corpo restaurado, a mente clara. Roberto deixaria alguma mensagem mais tarde, sorriu para si mesmo, sabendo que, envolto nessa vida que construíra, ele seguia firme, elevado por cada elemento que o tocava — sol, vento, chuva, terra — e consciente do equilíbrio precioso que alcançara.