Um conto sujo, marginal, grotesco e sem redenção
Advertência ao Leitor
Este conto contém descrições extremas de violência, sexo explícito, linguagem crua, temas de degradação humana, uso de drogas, gore e imagens perturbadoras. É uma obra de ficção destinada a leitores adultos que toleram narrativas transgressivas e grotescas. O conteúdo pode causar desconforto, repulsa ou ofensa, abordando realidades marginais de forma crua e sem censura. Não é recomendado para menores de 18 anos, pessoas sensíveis ou leitores que buscam histórias com redenção ou moralidade. Prossiga por sua própria conta e risco.
Categorias: Literatura marginal, realismo sujo, grotesco, transgressão, horror urbano, erotismo extremo, decadência social
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Chovia mijo do céu. Não era uma chuva comum, mas um vapor fétido que subia das calçadas esburacadas do centro velho, impregnadas de urina seca, fezes humanas espalhadas e restos de comida estragada. A névoa pegajosa voltava ao chão, misturando-se ao fedor de escapamento de carros velhos queimando óleo, mofo entranhado nas rachaduras das paredes, fritura rançosa de pastelarias imundas e o cheiro metálico de sangue seco nas esquinas. A Cracolândia não era apenas um lugar — era uma entidade viva, pulsante, com um hálito que misturava tétano, morte e imundície.
Rubi, Suelen e Tatinha eram as rainhas daquele inferno. Três espectros femininos que caminhavam com a alma exposta, nuas por dentro, onde nenhum trapo podia esconder a devastação. Suas roupas — se é que podiam ser chamadas assim — eram farrapos encharcados de fluidos corporais: urina azeda, sêmen ressecado, sangue menstrual, e suor que parecia ter sido destilado em um alambique de desgraça. Cada uma carregava sua própria marca de danação, como se o destino tivesse esculpido suas histórias com uma faca cega.
Suelen, a matriarca da imundície, tinha 36 anos, mas parecia ter vivido um século. Suas tetas pequenas e caídas balançavam como sacos de areia murchos, a pele coberta de crostas de feridas e espinhas inflamadas. Uma cicatriz grotesca, irregular, cortava seu abdômen do umbigo ao púbis — lembrança de um aborto improvisado, feito numa garagem imunda com uma colher de pedreiro enferrujada, um chá de buchinha do norte, e um litro de cachaça como anestésico. Ela carregava o peso de quem já havia parido e perdido mais filhos do que conseguia contar, cada um deixando uma marca invisível, mas sentida, como um vazio que gritava.
Rubi era a mais bruta. Muda desde que um tiro de raspão rasgou sua garganta aos 19 anos e fudeu as cordas vocais, ela falava com os olhos — olhos que uivavam, olhos que agrediam. Seus gestos eram uma promessa de caos: ou ela te fodia, ou te destruía. Seus cabelos negros, emaranhados como ninhos de ratos, cheiravam a vômito, e sua pele, coberta de tatuagens mal feitas, parecia um mapa de batalhas perdidas. Rubi não pedia — ela tomava. E naquela noite, ela estava faminta.
Tatinha era o esqueleto vivo do trio. Com 37 quilos, seu corpo parecia um experimento de laboratório que deu errado. Sua pele esticada sobre os ossos lembrava um rato dissecado, com veias pulsando como minhocas sob a superfície. O único dente que lhe restava — um incisivo amarelado, torto como uma lápide quebrada — era sua arma. Quando chapada, ela mastigava cacos de vidro, engolindo o próprio sangue com um sorriso psicótico. Tatinha não vivia; ela sobrevivia, como uma barata que se recusa a morrer mesmo depois de esmagada e envenenada com Baygon.
Aquela noite tinha um cheiro diferente. Um cheiro de gozo preso, de cio animal, de carne em decomposição. As três sentiam o tesão subindo como uma febre, começando nos calcanhares rachados, atravessando o útero como uma facada e se instalando no cérebro como um verme de porco, onde a razão já havia sido devorada por anos fumando pedra, bebendo cachaça e fudendo até rasgar as entranhas.
— “Vamo pro Sete Palito…” — grunhiu Suelen, coçando o rego do cu com uma tampinha de garrafa enferrujada que encontrou no chão. — “Quero piroca de caminhoneiro, daquela que cheira a sebo de virilha e pus de doença venérea.” Sua voz era rouca, como se cada palavra tivesse que rasgar a garganta para sair.
Elas marcharam pelas ruas tortuosas, chutando latas amassadas, garrafas quebradas e carcaças de pombos mortos eletrocutados pelos fios desencapados dos postes. Uivavam como lobas, rindo de um jeito selvagem que fazia os mendigos se encolherem nos cantos e os cachorros de rua fugirem com o rabo entre as pernas. A Cracolândia as conhecia. A Cracolândia as temia.
O Bar do Sete Palito era o coração pulsante da podridão. Um buraco fétido, com paredes tão encardidas que pareciam pintadas com graxa e regurgito. O ventilador de teto, quebrado havia anos, pendia como uma forca. O cheiro era uma mistura sufocante de carniça, cachaça barata, azedume de cecê, ovo de barata, e algo indefinível, como se a própria morte tivesse passado ali e deixado seu perfume. As cadeiras, amarradas com arames, rangiam sob o peso de corpos que já haviam desistido de si mesmos. Uma televisão antiga, com a tela manchada de fuligem, exibia um jogo da terceira divisão sem som, enquanto um rádio quebrado cuspia estática misturada com hinos evangélicos.
Quando as três entraram, o bar parou. O silêncio caiu como uma guilhotina. Homens barbudos, com rostos calejados e olhos fundos, seguravam suas garrafas de Brahma como se fossem armas em um bar do velho oeste. Eram homens que já haviam matado, roubado, estuprado, cagado em cima de bíblias e queimado suas próprias promessas. Mas ali, diante de Rubi, Suelen e Tatinha, eles hesitaram. Porque aquelas mulheres eram mais do que humanas — eram demônios de carne e osso, demônios que fediam mais do que o pior pesadelo deles.
Tatinha foi a primeira a agir. Subiu no balcão com a agilidade de uma lagartixa, abriu as pernas com força e gritou, com sua voz estridente como um prego arranhando metal:
— “AÍ, SEUS FILHOS DA PUTA, QUEM VEM PRIMEIRO? TÔ COM O CU MAIS FEDIDO QUE O RIO TIETÊ, COÇANDO MAIS QUE FERIDA DE SARNA!”
O bar explodiu em risadas nervosas, mas ninguém se mexeu. Não ainda. Rubi, enquanto isso, se jogou no chão imundo, esfregando a buceta no assoalho pegajoso, ronronando como uma gata raivosa. O chão, coberto de restos de cerveja, cinzas de cigarro e algo que parecia ser catarro misturado com sangue, grudava em sua pele como uma segunda camada. Ela não se importava. Pelo contrário, parecia gostar. Ronronava de olhos fechados.
Suelen, com um gesto teatral, puxou o vestido — um trapo rasgado que uma vez tinha sido vermelho — até a cintura, exibindo um matagal de pelos pubianos endurecidos por sujeira e secreções alheias. Um absorvente usado, colado na virilha como uma medalha de guerra, pendia frouxo, pingando um líquido escuro que preferiam não ter visto. Ela riu, um som gutural que parecia vir do fundo de um esgoto, e cuspiu no chão.
E então, como se um fio invisível tivesse sido cortado, eles vieram. Todos.
A orgia começou desajeitada, como um tropeço bêbado, mas logo virou uma avalanche carnal de picas e bucetas se encontrando. Braços peludos agarravam coxas ossudas, dedos calejados rasgavam trapos e entravam em cus, pirocas sebentas entravam em bocas sem dentes. Um caminhoneiro barbudo chupava o suvaco peludo de Rubi, murmurando que “cheirava a infância” enquanto lágrimas escorriam por seu rosto sujo. Outro, com uma tatuagem de Nossa Senhora no peito, enfiava um pepino japonês em Suelen, chamando-a de “mainha” com um fervor religioso. Tatinha, girando como uma galinha de macumba possuída, tinha três dedos estranhos enfiados no seu cu, dois na boca e um pé descalço esfregando o pau de um velho que tossia sangue.
Lubrificante? Uma mistura de maionese vencida, banha de porco e cuspe. Preservativo? Camisinhas usadas achadas no banheiro da espelunca, amarradas com barbante ou pedaços de sacola plástica. A trilha sonora era um caos profano: gemidos guturais, tosses secas, gritos abafados, latidos de um cachorro perdido que entrou no bar por engano, e o hino evangélico “Deus é Fiel” vazando do rádio, como uma piada cruel do destino.
O ar estava pesado, quente e úmido. O cheiro era insuportável: uma mistura de porra, sangue menstrual e algo que lembrava buceta mal lavada e cu recém cagado. Mas ninguém parava. Ninguém queria parar. Era como se o bar inteiro tivesse sido possuído por um demônio coletivo, uma força que transformava homens e mulheres em animais, em máquinas de foder, morder, lamber, destruir.
E então, veio o clímax da noite. O momento em que a insanidade ultrapassou todos os limites.
Suelen começou a menstruar. O sangue escorreu grosso, negro, com um cheiro ferroso que cortava o ar como uma faca. Ela não se encolheu. Pelo contrário, recolheu o sangue com as mãos, lambendo os dedos como se fosse mel. Então, com um sorriso demoníaco, caminhou até um caminhoneiro careca que segurava uma Bíblia no colo, os olhos arregalados de terror e excitação. Ela passou os dedos ensanguentados na testa dele, traçando uma cruz profana, e sussurrou:
— “Aceita a hóstia carnal, irmão…”
O homem tremeu. Seu corpo convulsionou, e ele gozou na calça sem ao menos tocar o próprio pau. A Bíblia caiu no chão, aberta numa página de Salmos, agora manchada de sangue e cerveja.
Rubi, não querendo ficar para trás, pegou um celular velho, com a tela rachada, e o enfiou inteiro na buceta. O aparelho, milagrosamente ainda funcionando, gravava suas entranhas, captando a escuridão quente e pulsante da sua xoxota — uma caverna viva, úmida, que parecia engolir a luz. Ela ria, um som mudo que ecoava em sua garganta destruída, enquanto o celular vibrava com notificações de mensagens não lidas dentro dela.
Tatinha, escalando um freezer quebrado, mijou de cócoras em cima da multidão, um jato amarelo e fétido que respingava nos rostos abaixo. Ela gritou, com a voz rasgada pelo crack e pela loucura:
— “HOJE TÊM CARNAVAL DE CU, SEUS ARROMBADOS!”
O bar virou um pandemônio. Gente chorava, gente vomitava, gente fodia em cima do vômito. Um homem desmaiou, sufocado pelo cheiro, mas ninguém parou para ajudar. Outro, com uma faca enferrujada, cortou a própria mão e esfregou o sangue no rosto de Suelen, como se fosse uma oferenda. Uma mulher desconhecida, que até então apenas observava, começou a se masturbar com uma garrafa quebrada, gritando versículos bíblicos enquanto o vidro rasgava sua pele por dentro.
Quando o sol raiou, o Bar do Sete Palito estava em ruínas. O chão era um pântano de camisinhas estouradas, dentes arrancados, sangue coagulado, garrafas quebradas, pequenas poças de porra e dejetos humanos. Um caminhoneiro jazia morto, o rosto frio enterrado no cu de Rubi, com um sorriso congelado nos lábios. Ninguém sabia se ele tinha sufocado ou apenas desistido de viver.
As três mulheres, exaustas, sentaram no balcão, dividindo um cigarro de maconha amassado que encontraram no chão. Não trocaram palavras. Não precisavam. Seus olhos diziam tudo: elas eram as donas daquele inferno, e o inferno as amava por isso.
O vídeo da noite, gravado pelo celular de Rubi, viralizou em 48 horas. Intitulado “AS TRÊS PORCAS DO APOCALIPSE — A CRACOLÂNDIA E O ORGASMO IMUNDO”, foi banido de todas as redes sociais, mas não antes de ser baixado, compartilhado e guardado nos cantos mais escuros da internet. Quem viu, nunca esqueceu. Quem não viu, agradeceu.
E a Cracolândia? Ela continuou ali, respirando, fedendo, esperando pela próxima noite em que o céu choveria mijo fedido outra vez.
Um Ano Após o Sete Palito
Um ano se passou desde a orgia apocalíptica no Bar do Sete Palito, aquele ritual profano que transformou Suelen, Rubi e Tatinha em lendas vivas da Cracolândia. O vídeo, “AS TRÊS PORCAS DO APOCALIPSE,” viralizou como uma praga digital, banido de todas as plataformas, mas eternizado em servidores obscuros e celulares roubados de viciados, traficantes e curiosos mórbidos. A Cracolândia não mudou — continuava sendo um monstro de concreto que respirava fedor, vomitava desespero e engolia qualquer traço de humanidade. Mas as três mulheres, as rainhas do esgoto, seguiram caminhos que o destino, com sua faca cega, esculpiu em suas carnes marcadas pela selvageria.
Suelen, a Matriarca Devorada
Suelen, a rainha do esgoto, não sobreviveu por muito tempo após o Sete Palito. A cicatriz grotesca que cortava seu abdômen, do umbigo ao púbis, tornou-se uma ferida aberta, infeccionada pelo constante uso de seringas sujas e pela vida no lixo. O crack, seu deus e carrasco, cobrou seu preço. Meses depois da orgia, ela foi encontrada num beco, deitada num colchão sujo, o corpo coberto de crostas, pus e larvas. A infecção havia consumido suas entranhas, e o sangue menstrual, que ela outrora exibia como um troféu, agora misturava-se ao pus que escorria de suas pernas. Suelen morreu com um cachimbo na mão, os olhos abertos, ainda desafiadores, como se cuspisse na cara da morte.
Mas sua lenda não morreu. Os viciados da Cracolândia falavam dela como uma santa profana, uma mártir do crack que reinou sobre o caos. Diziam que seu espírito ainda vagava pelos becos, uma sombra rouca que sussurrava: “Lambam meu cu, seus putos.” Em noites de chuva ácida, alguns juravam ver sua silhueta, com o vestido rasgado e a cicatriz brilhando, fumando crack entre os ratos e as seringas. Suelen não encontrou redenção, nem queria. Ela era a Cracolândia, e a Cracolândia a engoliu, como engolia tudo.
Rubi, a Loba Silenciosa
Rubi, a loba muda, sobreviveu, mas não sem marcas. A orgia no Sete Palito foi o ápice de sua fúria silenciosa, mas também o começo de sua queda. A faca enferrujada que ela sempre carregava, manchada de sangue seco, tornou-se uma extensão de seu corpo. Meses após a noite apocalíptica, ela foi vista em conflitos cada vez mais violentos. Matou um traficante que tentou roubar suas pedras, cravando a faca no pescoço dele até o sangue espirrar como uma fonte. Mas a violência a consumiu. Numa briga com uma gangue rival, levou uma facada no peito, bem acima da tatuagem torta de um punhal. O sangue jorrou, misturando-se ao suor, mas Rubi não caiu. Ela riu, sem som, os olhos latindo, e cortou a mão do agressor antes de fugir, cambaleando pelos becos.
Hoje, Rubi é uma sombra errante, vagando pelas periferias de São Paulo, longe da Cracolândia. Dizem que ela sobrevive como uma loba solitária, roubando para comprar crack, fodendo por uma pedra ou por puro ódio. Sua mudez é sua arma, e seus olhos ainda uivam, assustando até os mais endurecidos. Numa noite, um viciado jurou tê-la visto num terreno baldio, de quatro, fazendo uma DP com dois mendigos que fodiam seus buracos enquanto cortava a própria coxa, o sangue pingando no chão. “Ela não é humana,” ele murmurou, tremendo. Rubi não buscava redenção, nem fuga. Ela era a fera que a Cracolândia criou, e carrega o inferno dentro de si, onde quer que vá.
Tatinha, a Caveira Eterna
Tatinha, a caveira risonha, era a única que parecia imune ao destino. Seu corpo ossudo, agora com 34 quilos e o dente torto brilhando como uma lápide, desafiava a lógica. Um ano após o Sete Palito, ela ainda reinava na Cracolândia, mais barata do que nunca, rastejando entre os escombros com uma energia demoníaca. O crack a consumia, mas ela consumia o crack com a mesma voracidade, como se fosse um pacto com o diabo. Sua risada estridente, que cortava o ar como uma faca, era um hino de resistência. Tatinha não apenas sobrevivia — ela prosperava no caos, uma rainha sem coroa, mas com um trono de seringas e lixo.
Numa noite recente, Tatinha foi vista num beco, liderando uma orgia improvisada com um grupo de viciados e traficantes. Deitada num pneu furado, com uma garrafa de cachaça enfiada no cu, ela ria enquanto um homem chupava seus pés rachados, lambendo o pus das feridas. “Fode até o osso das minhas costelas, seu escroto,” ela gritava, mijando em cima dele, o jato amarelo de pus de gonorréia respingando no rosto imundo. Outro viciado enfiou uma seringa usada na buceta dela, injetando um líquido sujo enquanto ela gozava, o corpo tremendo como se fosse explodir. Tatinha pegou uma pedra de crack, esfregou na buceta e jogou para o grupo. “Fumem a minha xoxota suja, seus arrombados,” ela disse, rindo, o dente torto brilhando na luz fraca.
Mas Tatinha também carregava suas cicatrizes. O crack havia corroído seu corpo ainda mais, deixando-a com a pele tão fina que as veias pareciam prestes a estourar. Uma infecção no braço, causada por uma agulha suja, quase a matou, mas ela sobreviveu, cortando a carne infeccionada com um caco de vidro e rindo enquanto o sangue escorria. “O capeta me quer, mas vai ser quando eu quiser,” ela disse a um viciado, cuspindo no chão. Tatinha não buscava redenção, nem fuga. Ela era a Cracolândia, sua risada era o som do inferno, e ela planejava rir até o fim.
O Legado do Sete Palito
O Bar do Sete Palito nunca se recuperou da orgia apocalíptica. As paredes, manchadas de sangue, porra e vômito, foram derrubadas meses depois, e o terreno virou mais um ponto de tráfico e putaria. Mas a lenda das três mulheres sobreviveu. Os viciados falavam delas com uma mistura de medo e reverência, como se fossem santas de um culto pagão. “As porcas do apocalipse,” chamavam-nas, contando histórias exageradas sobre a noite em que o bar virou um templo profano. Alguns diziam que o vídeo ainda circulava, assistido em celulares, em becos escuros, por olhos vidrados de pedra e luxúria.
Suelen, Rubi e Tatinha não mudaram a Cracolândia, porque a Cracolândia não muda. Ela é um monstro eterno, engolindo corpos e almas, cuspindo apenas ossos e histórias. Mas as três mulheres deixaram sua marca, um rastro de sangue, mijo e crack que ninguém podia ignorar. Elas não encontraram redenção, nem queriam. Não encontraram esperança, porque a esperança era uma piada que elas cuspiam no chão. Elas eram as rainhas do esgoto, do caos, do apocalipse, e seu reinado, mesmo que fragmentado, continuava a ecoar nos becos fétidos da cidade.
Naquela noite, um ano após o Sete Palito, a Cracolândia respirava, fedendo, como sempre. Um viciado, sentado num pneu furado, fumava crack e murmurava: “Elas eram o capeta em carne, pelanca e osso.” Outro, tossindo sangue, riu e disse: “E a gente lambeu o cu do capeta.” A chuva ácida caía, o fedor subia, e a Cracolândia seguia viva, esperando a próxima missa negra, a próxima lenda, a próxima porca do apocalipse.
