Esse conto é inspirado numa história real de um leitor, seu perfil no insta é @molequecavalo02
Se quiserem saber mais sobre os contos meu perfil é @dr.jakyll6
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Roberto sempre se orgulhou da sua rigidez. Aos trinta e quatro anos, professor de filosofia numa escola pública, ele via nos alunos não apenas mentes a serem moldadas, mas um reflexo do que a sociedade tinha de pior. Especialmente os repetentes. Especialmente os que achavam que a vida era um eterno recreio.
Kaique era o retrato perfeito disso. Dezoito anos, terceira repetência no primeiro ano do ensino médio. Negro, alto, forte, com um sorriso fácil que abria portas que ele nunca precisou empurrar. Andava sempre rodeado pelos colegas que riam das suas piadas, pelas meninas que disputavam um olhar, pelos amigos que o tratavam como líder. O típico malandro, o macho alpha da periferia que descobriu cedo que o mundo se dobrava ao seu charme.
E Roberto não suportava isso.
— Você está repetindo pela terceira vez, Kaique. Terceira. E ainda tem coragem de vir pra minha aula de braços cruzados, como se nada disso fosse problema seu, como se o tempo fosse infinito e você pudesse ficar aqui sentado eternamente sem aprender nada?
Kaique respondeu sem levantar os olhos do celular, os dedos deslizando pela tela com uma indiferença que parecia estudada:
— Tô aqui, não tô, professor? O senhor reclama se eu falto, reclama se eu venho. Então me explica qual é a boa, porque eu realmente não tô entendendo mais o que o senhor quer de mim.
— A boa é que você não aprende, não estuda, não faz absolutamente nada além de ocupar espaço e atrapalhar quem realmente tem interesse em estar aqui. A boa é que você repete pela terceira vez e age como se tivesse todo o tempo do mundo.
Kaique levantou a cabeça devagar, os olhos escuros encontrando os de Roberto com uma centelha de diversão, como se tudo aquilo fosse apenas um jogo e ele estivesse ganhando:
— O senhor me acha burro, professor? Pode falar, tô aqui pra ouvir. O senhor acha que eu não consigo aprender ou acha que eu simplesmente não quero?
— Eu acho que você escolhe não aprender. Todo santo dia você faz essa escolha. Senta lá no fundo, cruza os braços, mexe no celular e deixa claro que está aqui apenas porque é obrigado.
Kaique se recostou na cadeira, as pernas abertas, os braços largos apoiados na carteira ao lado numa postura que ocupava mais espaço do que precisava:
— Amante da sabedoria, né? Filosofia. O senhor ensina a gente a pensar, mas não ensina a viver. E viver é mais difícil do que pensar, professor. Qualquer um pode ficar aqui sentado teorizando sobre a vida, mas na hora de viver de verdade, de se virar no mundo, de lidar com o que aparece... aí é diferente.
Alguns alunos riram. Roberto apertou o giz na mão até sentir a ponta dos dedos doer:
— Sai da minha sala.
— Por quê? Eu não perguntei nada de mais. O senhor não gosta de perguntas? Não é essa a proposta da filosofia, questionar tudo?
— Sai. Agora.
Kaique levantou com uma lentidão estudada, pegou a mochila e foi até a porta. Antes de sair, virou-se com aquele sorriso que Roberto aprendera a odiar:
— Tá bom, professor. Mas um dia o senhor vai ver que saber viver é mais importante que saber pensar. E nesse dia, quem sabe o senhor me agradece por ter tentado te ensinar alguma coisa.
A porta bateu. A sala ficou em silêncio. Roberto respirou fundo e continuou a aula, mas a frase ficou com ele o resto do dia, martelando na cabeça enquanto ele tentava se convencer de que aquilo não passava de arrogância de um moleque que não sabia do que estava falando.
O ódio que Roberto sentia por Kaique era quase filosófico. O menino representava tudo o que ele combatia: a preguiça disfarçada de esperteza, a arrogância de quem nunca precisou se esforçar, o carisma que substituía o mérito. Roberto era branco, de cabelos castanhos e barba aparada, rosto quadrado de homem sério. Construiu tudo o que tinha estudando em livros enquanto os outros se divertiam. Ver um moleque como Kaique passar pela vida colhendo frutos que não plantou mexia com algo profundo, algo que ele preferia não examinar.
Quando Joana, sua esposa, começou a dar aula de história na mesma escola, Roberto sentiu orgulho. Ela era linda: morena clara, cabelos pretos lisos, olhos verdes escuros e grandes, boca de lábios carnudos que ele amava beijar. Tinha um corpo que o tempo tinha moldado com generosidade: peitos médios, barriga um pouco flácida mas sem gordura, pernas grossas e bunda grande que balançava quando ela caminhava pelos corredores. Baixinha, um metro e cinquenta e cinco de pura presença. Ao lado dele, um metro e setenta e oito de homem sério, formavam um casal bonito.
Joana começou a notar Kaique antes de Roberto perceber. Um dia comentou em casa que o menino tinha entrado na sala dela, ficado no fundo, ouvindo a aula sobre a Revolução Francesa sem perturbar, apenas olhando.
Roberto franziu a testa:
— Ele deve estar aprontando alguma coisa. Vai ver quer colar em alguma menina, ou talvez esteja de olho em alguma aluna. Não me surpreenderia.
— Pode ser — Joana concordou, mas havia algo no tom dela, uma hesitação que Roberto notou mas preferiu ignorar.
Na semana seguinte Kaique apareceu de novo. E na outra também. Sempre no fundo da sala de Joana, sempre quieto, sempre olhando.
— Ele me elogiou hoje — ela contou um dia, os olhos verdes brilhando de um jeito que Roberto não soube interpretar. — Disse que eu explico melhor que os outros professores. Que história é mais interessante que filosofia.
Roberto riu, sem graça:
— Ele está te provocando. Quer me atingir, só pode ser. Descobriu que você é minha mulher e agora fica nesse joguinho.
— Pode ser — ela repetiu, mordendo o lábio. — Mas foi gentil, Roberto. Até educado. Ele ficou depois da aula pra me agradecer pessoalmente. Disse que nunca tinha ouvido alguém falar daquela forma sobre o passado, que eu fazia parecer que ele estava lá.
— Educado? Kaique? — Roberto balançou a cabeça, incrédulo. — Esse menino não tem um pingo de educação. É folgado, malandro, vive cercado de mulher e amigo que puxa o saco. Deve estar fingindo ser bonzinho pra conseguir alguma coisa.
— Cercado de mulher? — Joana ergueu uma sobrancelha, um traço de curiosidade no olhar.
— Você não vê? No intervalo, no pátio. As meninas todas em volta. Ele escolhe uma por dia, parece. Deve achar que é rei só porque tem dezoito anos e corpo de homem feito.
Joana não respondeu. Mas naquela noite, enquanto Roberto lia um livro na cama, ela ficou um tempo a mais no banho, e ele ouviu a água caindo por muito tempo, pensando no que ela estaria imaginando lá dentro.
Foi numa segunda-feira que Kaique o abordou no corredor pela primeira vez. Roberto ia para a sala quando o menino surgiu na frente dele, sozinho, os amigos distantes, como se tivesse calculado o momento exato.
— Professor, posso perguntar uma coisa? A senhora Joana é sua mulher, né? A morena dos olhos verdes, que dá aula de história.
— É. E daí? O que você quer com isso?
— Nada não, nada não. Só que ela é bonita. Daquelas bonitas de verdade. Boca carnuda, olho verde, cabelo preto... O senhor deu sorte, hein? Muita sorte.
Roberto sentiu o sangue subir ao rosto num ímpeto que não conseguiu controlar:
— Vai pra sua sala. Agora.
— Tô indo, tô indo. Mas deixa eu só falar uma coisa antes.
E então Kaique inclinou a cabeça, aquele sorriso malicioso se abrindo devagar:
— O senhor já pensou como deve ser uma mulher daquelas na cama? Morena assim deve ser fogo puro. Deve ser daquelas que não sossega enquanto não gozar umas três vezes. O senhor já pensou nisso, professor?
E saiu assobiando, deixando Roberto parado no meio do corredor, os livros apertados contra o peito e uma imagem que não deveria estar ali: Joana nua, Joana se mexendo, Joana fazendo barulhos que ele conhecia bem, mas agora com outro rosto, outro corpo, outro homem.
Naquela noite contou a Joana, esperando indignação, esperando que ela ficasse tão furiosa quanto ele. Em vez disso, ela ficou em silêncio por um longo tempo, os olhos verdes fixos nele com uma intensidade que o desconcertou.
— Ele disse isso sobre mim? Sobre minha boca, sobre como eu devo ser na cama?
— Disse. Palavra por palavra. E ainda perguntou se eu já tinha pensado nisso.
— E você? — a voz dela saiu baixa, curiosa. — O que você fez quando ele disse isso?
— Não fiz nada né Joana, ele é um aluno, mas senti muita raiva. Ódio. Vontade de quebrar a cara dele.
— Só isso?
Roberto a olhou estranho e não respondeu, apenas deu uma risada ironica disse boa noite e foram dormir.
Na semana seguinte Kaique apareceu no estacionamento enquanto Roberto guardava as coisas no carro. Surgiu do nada, como se tivesse aparecido só pra isso.
— Professor, posso perguntar uma coisa íntima? Daquelas que a gente só pergunta quando ninguém tá ouvindo?
— Não. Não pode. Vai embora.
— Vou perguntar mesmo assim. A senhora Joana... ela geme alto? Quando vocês tão lá, na hora H, ela geme alto ou ela é daquelas mais quietinhas, que seguram o som?
Roberto virou-se, os punhos cerrados, o corpo tremendo de raiva:
— Você tá querendo morrer, menino? Tá querendo que eu perca minha cabeça de uma vez?
— Tô querendo saber, ué. É que mulher de boca carnuda geralmente geme alto. Boca assim foi feita pra gritar, pra pedir mais, pra implorar. O senhor já reparou nisso? Já parou pra pensar que tem mulher que foi feita pra ser ouvida?
Roberto avançou, mas Kaique deu um passo para trás, rindo, as mãos abertas em sinal de paz:
— Calma, professor, calma. Tô só conversando. Filosofia, não é? O senhor que ensina. Tô aprendendo sobre a natureza humana, sobre o que as pessoas sentem, sobre o que elas escondem.
E foi embora, deixando Roberto paralisado, o coração batendo tão forte que doía. E no meio da raiva, uma imagem surgiu: Joana gemendo. Não com ele. Com Kaique. Ele sacudiu a cabeça, tentando expulsar o pensamento, mas ele ficou, latejando, crescendo.
Naquela noite, enquanto jantavam, ele não conseguia olhar para Joana sem ver aquela cena. Ela percebeu algo diferente nele, o jeito como ele desviava o olhar, como ficava em silêncio.
— O que houve? — ela perguntou. — Aconteceu alguma coisa com o Kaique de novo?
Roberto contou. As palavras sobre ela gemer, sobre a boca dela ser feita pra gritar. Ela ouviu em silêncio, com olhar de curiosidade.
Naquela noite, na cama, Joana se deitou sobre ele de um jeito diferente. Mais lenta. Mais intensa. Enquanto se movia, sussurrou no ouvido dele:
— O que ele disse sobre eu gemer? Me conta tudo de novo.
Roberto fechou os olhos:
— Disse que mulher de boca carnuda geme alto. Disse que boca assim foi feita pra gritar, pra pedir mais, pra implorar.
— E você? Já pensou nisso? Em mim gemendo por outro homem? Em mim gritando o nome de outro?
Roberto não respondeu. Mas puxou Joana para mais perto e gozou com uma força que o assustou. Depois ficaram os dois deitados, e ele se perguntou por que aquela imagem o excitava tanto. Por que pensar em Joana com outro homem, justo com aquele moleque que ele odiava, fazia o pau dele endurecer daquele jeito. Era errado. Era nojento. Mas era forte, e ele não conseguia controlar.
Nos dias seguintes Joana passou a chegar da escola diferente. Mais quieta. Mas com um brilho nos olhos, uma curiosidade nova. E começou a contar coisas que antes não contava.
— Hoje ele fez uma pergunta na aula — disse um dia, os olhos verdes brilhando. — Sobre a Revolução Francesa, sobre o papel das mulheres naquela época. Mas o jeito que ele olhava pra mim enquanto falava, Roberto...
— Que jeito?
— Um jeito que parecia que ele tava vendo através da roupa. Como se soubesse exatamente o que tem debaixo. Como se estivesse imaginando. — Ela riu, sem graça. — Bobagem minha, claro. Deve ser impressão.
Mas não era bobagem, e os dois sabiam.
— Ele ficou depois da aula hoje — contou noutro dia, a voz mais baixa, mais íntima. — Disse que queria tirar uma dúvida. A dúvida era se eu já tinha lido um livro que ele viu na minha estante. Nem sei como ele sabe o que tem na minha estante, Roberto. Nem sei quando ele teve tempo de olhar.
— E você respondeu?
— Respondi. Falei sobre o livro, sobre o que eu achava. E ele disse que ia ler também, que queria conversar sobre depois, que queria entender por que eu gostava daquelas histórias. E enquanto falava, ele ficava me olhando, me olhando...
Roberto sentiu algo estranho. Não era exatamente ciúme. Era uma mistura de desconforto com outra coisa, algo quente que subia pela barriga. Ele odiava aquele moleque, mas não conseguia parar de pensar nele com Joana.
— Ele quer se aproximar de você. Tá na cara.
— Parece. — Ela mordeu o lábio, pensativa. — É estranho, Roberto. Ele é tão novo, mas tem uma presença... uma coisa que não dá pra ignorar.
— Que presença?
— Não sei explicar direito. Quando ele entra na sala, o ar muda. As meninas todas viram a cabeça, os meninos ficam mais quietos. Até eu, confesso, às vezes me pego olhando. Olhando sem querer.
Roberto engoliu seco:
— Olhando o quê, Joana?
Ela o encarou por um longo momento, os olhos verdes escuros procurando algo no rosto dele:
— Você quer saber mesmo? Quer ouvir?
Ele não respondeu. Mas não desviou o olhar.
— Os braços — ela disse, baixo. — O peito. O jeito que ele se move, como se o espaço todo fosse dele. E as meninas comentam, Roberto. Comentam entre elas, achando que eu não ouço.
— Comentam o quê?
— Que já viram no vestiário. Que ele não tem vergonha, que fica pelado na frente de todo mundo. Que é grande. Muito grande.
O ar pareceu faltar na sala. Roberto sentiu o coração disparar:
— Grande como?
— Não sei. Só sei o que elas dizem. Que é o maior que já viram. Que as mais velhas falam que nunca viram igual. Que deve ser coisa de outro mundo.
Naquela noite Roberto sonhou com Kaique. No sonho ele via Joana nua, de quatro, e Kaique atrás dela, grande, enorme, pronto para entrar. Joana olhava para Roberto enquanto Kaique a penetrava, e nos olhos dela não havia vergonha, só prazer, só entrega, só vontade. Roberto acordou com o coração disparado e o pau duro, uma ereção dolorosa de tão forte. Ao lado Joana dormia, mas seus lábios estavam entreabertos, como se sonhasse com a mesma coisa. Ele ficou olhando para ela, se perguntando o que estava acontecendo com ele. Como podia sentir tesão em ser corno? Como podia imaginar a mulher que amava sendo comida por outro e sentir o pau endurecer daquele jeito? Ele não se reconhecia mais.
Foi na semana seguinte que Roberto, sozinho em casa numa tarde em que Joana tinha ido visitar a mãe, sentou diante do computador com uma vergonha que queimava o rosto. Mexeu o mouse, abriu o navegador em modo anônimo, mas as mãos tremiam. Ele não sabia direito o que procurar. Pensou em "corno", mas apagou rápido, como se a palavra pudesse sujar a tela. Pensou em "esposa com outro", mas aquilo parecia errado demais. Digitou "hotwife" sem saber bem o que significava, apenas porque tinha visto a palavra em algum fórum uma vez.
Os resultados foram um choque. Vídeos, muitos vídeos, de mulheres casadas com outros homens enquanto o marido olhava, ou participava, ou apenas sabia. Ele clicou num, depois noutro, o coração batendo forte, o pau endurecendo de um jeito que ele não conseguia controlar. Passou horas assim, vendo cenas que nunca imaginou que existissem. Mulheres sendo comidas por homens mais novos, mais velhos, mais negros, mais dotados. Maridos filmando, maridos apenas olhando, maridos se masturbando no canto enquanto a mulher gozava com outro. Em alguns vídeos, os homens eram claramente superiores: maiores, mais fortes, mais viris. E as mulheres pareciam sentir mais prazer. Era isso que o fascinava? Era isso que o excitava? A ideia de que Joana podia sentir algo que ele não era capaz de dar?
Quando ouviu a chave na porta, fechou tudo num susto, o coração na boca. Joana entrou, cumprimentou distraída, foi para o banho. Roberto ficou sentado, suando, se sentindo o pior dos homens.
Dias depois Joana chegou em casa mais cedo. Roberto não estava no computador, mas ela precisava imprimir um trabalho e ligou a máquina. O histórico estava lá, aberto, porque ele tinha esquecido de limpar no afobamento da última vez. Ela viu. As palavras, os sites, os vídeos. Ficou paralisada por um momento, o coração disparado.
Quando Roberto chegou da cozinha, encontrou Joana sentada na cama, o olhar fixo nele, os olhos verdes brilhando de um jeito que ele não sabia interpretar.
— Senta — ela disse.
Ele sentiu o chão sumir. Sabia o que vinha.
— Você viu.
— Vi.
— Eu posso explicar, Joana. Eu sei que parece estranho, mas eu posso explicar.
— Explica então. Explica por que você tava vendo essas coisas. Explica o que passa na sua cabeça.
Ele não sabia por onde começar. Falou das provocações de Kaique, dos pensamentos que não controlava, da confusão na cabeça. Falou do sonho, da ereção, da vergonha. Falou da busca, da curiosidade, do medo. Falou de tudo, num fôlego só, as palavras saindo sem filtro.
Joana ouviu em silêncio. Depois perguntou:
— O que você sente quando vê esses vídeos, Roberto? Sente o quê, exatamente?
— Tesão. E vergonha. Medo também.
— Medo de quê?
— De querer isso. De querer ver você com outro. De descobrir que eu sou esse tipo de homem.
Ela o olhou por um longo tempo. Depois se levantou, veio até ele, sentou no seu colo, os olhos verdes fixos nos dele:
— Mostra um.
— O quê?
— Mostra um vídeo desses. Quero ver o que você viu. Quero entender.
Roberto hesitou, mas ela insistiu com os olhos. Ele ligou o computador, encontrou um dos vídeos, um casal com uma mulher morena, parecida com Joana, sendo comida por um homem negro enquanto o marido filmava.
Os dois assistiram em silêncio. Joana tinha a respiração presa, o corpo tenso. Roberto sentia o pau endurecer debaixo dela.
— Você gosta disso? — ela perguntou, a voz baixa.
— Não sei. Sinto coisa. Não sei explicar.
— Que coisa?
— Tesão. Medo. Vontade.
— Vontade de quê, Roberto?
Ele demorou a responder:
— Vontade de ver você assim. De ver você sentindo prazer desse jeito. De ver você completamente entregue.
Joana o beijou. Um beijo longo, profundo, que dizia mais do que palavras.
— Mostra outro.
Viram mais um. E outro. E em algum momento as roupas foram saindo, e eles transaram na frente do computador, as imagens passando ao lado, os gemidos das atrizes se misturando aos deles.
Depois Joana disse, a cabeça apoiada no peito dele:
— Você pensa nele, não pensa? No Kaique. Quando a gente transa, você pensa nele.
Roberto não negou:
— Penso.
— Eu também. — Ela mordeu o lábio, os olhos verdes brilhando. — Quando você conta as coisas que ele diz, as provocações, eu fico imaginando. Fico imaginando o jeito que ele me olha, o jeito que ele fala. E fico molhada, Roberto. Muito molhada.
— Você quer, Joana? Quer ele?
Ela não respondeu. Mas seus olhos verdes brilharam, e Roberto sentiu o pau endurecer de novo, só de pensar naquela possibilidade.
Foi a partir daí que as fantasias ganharam nome e rosto. Nas noites seguintes eles transavam e falavam de Kaique. Roberto descrevia o que ele imaginava: Kaique entrando na sala, Kaique olhando Joana, Kaique tirando a roupa devagar. Joana descrevia o que ela sentia quando ele se aproximava: o calor, o tremor, a vontade de ser tocada.
— Hoje ele chegou perto de mim depois da aula — ela contou numa noite, a voz quente no ouvido dele. — Chegou bem perto, Roberto, quase colado. Disse que eu tava cheirosa. Perguntou qual perfume eu usava.
— E você disse?
— Disse. Aí ele falou que combinava comigo. Que devia combinar com a minha pele também, que devia ser gostoso sentir a noite toda.
— E você, Joana? O que você sentiu?
— Eu fiquei sem respirar. Me deu uma tontura. Tive que me apoiar na mesa porque minhas pernas tremiam.
Roberto a puxou para perto, beijou com força. Estava com ciúme, mas estava com tesão, e não entendia como as duas coisas podiam coexistir.
— Ele perguntou se eu era feliz no casamento — contou noutro dia, os olhos verdes procurando a reação dele.
— O quê? Ele perguntou isso?
— Perguntou. Disse que me achava muito nova, muito bonita, pra estar presa a um homem só. Disse que mulher bonita devia ser aproveitada, devia ser desejada, devia ser comida por quem merece.
— E você respondeu?
— Eu disse que era feliz. Mas ele riu, aquele riso dele. Disse que eu tava mentindo, que meus olhos diziam outra coisa. Que meus olhos pediam mais.
Roberto sentiu uma pontada no peito. Será que os olhos dela diziam outra coisa? Será que ela realmente queria mais do que ele podia dar?
— E você, Joana? Quer ser aproveitada? Quer ser desejada por ele?
Ela demorou a responder, os olhos verdes fixos nos dele:
— Não sei o que quero. Só sei que quando ele olha pra mim, quando ele fala comigo daquele jeito, eu sinto coisas que não sinto há muito tempo.
— Que coisas?
— Vontade. Tesão. Medo também. Medo de querer demais. Medo de descobrir que eu posso querer coisas que não devia.
Numa noite, depois de mais um relato, Joana sentou no colo de Roberto, os cabelos pretos soltos, os olhos verdes incandescentes:
— Você fica de pau duro toda vez que eu falo dele. Sabia?
— Sei.
— E eu fico molhada. Toda vez que conto, fico lembrando do jeito que ele olha pra mim, do jeito que ele fala, do cheiro dele. E me molho toda.
Roberto a segurou pelos quadris, sentindo o calor dela:
— O que você quer, Joana? O que você realmente quer?
— Quero que você me coma imaginando ele. Quero você aqui, dentro de mim, mas pensando nele. Quero que você imagine ele me comendo enquanto me come.
— E você?
— Eu vou pensar nele também. Vamos pensar juntos. Vamos imaginar juntos.
Transaram assim, olho no olho, pensando no mesmo homem. Enquanto se movia dentro dela, Roberto sussurrava:
— O que ele faria com você? Me conta.
— Ele me pegaria com força — ela respondia, a voz rouca, os olhos fechados. — Me viraria de costas, me inclinaria na cama. Me comeria devagar, bem devagar, pra eu sentir cada centímetro entrando.
— E você?
— Eu gemeria, Roberto. Gritaria. Pediria mais, mais, mais.
— Mais o quê?
— Mais pau. Mais preto. Mais dele. Até esquecer meu nome.
Roberto gozava ouvindo aquilo. E Joana gozava junto, os dois no mesmo pensamento, na mesma fantasia. Depois ficavam abraçados, e ele pensava no que estava se tornando.
Mais um dia Joana chegou com os olhos brilhando de um jeito diferente, um brilho que ele já aprendera a reconhecer:
— Hoje ele me esperou na saída. Tava encostado na parede, me esperando. Disse que sonhou comigo.
Roberto sentiu o coração disparar:
— Sonhou o quê?
— Não disse. Só sorriu aquele sorriso, aquele que ele tem. E falou: "Um dia a senhora vai saber, professora. Um dia a senhora vai realizar meus sonhos."
— E você, Joana? O que sentiu?
— Medo. Tesão. Vontade de saber que sonhos eram aqueles. Vontade de realizar.
Roberto a puxou para a cama. Precisava dela. Precisava afogar aquilo em sexo. Mas enquanto a comia, só conseguia pensar em Kaique. No sonho de Kaique. No que Kaique faria com ela.
Eu estou perdido, pensou. Eu quero ver. Eu quero ver ele comendo ela. Eu quero ver ela gozando com ele. Eu quero ver. O que há de errado comigo?
Numa terça-feira qualquer Roberto estava na sala dos professores, corrigindo provas, quando ouviu passos atrás de si. Antes de virar, sentiu a presença. Um calor, um cheiro, uma densidade no ar que ele já conhecia.
— Professor.
Kaique estava ali, parado, as pernas abertas, os braços cruzados sobre o peito largo. Vestia a camisa do uniforme mal abotoada, mostrando um pedaço do peito escuro, e tinha aquele sorriso que Roberto aprendera a temer e desejar ao mesmo tempo.
— O que você quer aqui? Isso aqui é sala de professor. Você não tem permissão pra estar aqui.
— Eu sei. Vim falar com o senhor. É importante.
— Sobre o quê? Fala logo e some.
Kaique deu um passo à frente. Depois outro. Parou a menos de um metro, perto demais, os olhos escuros fixos nos de Roberto:
— Sobre a sua mulher. Sobre a senhora Joana.
Roberto levantou-se num impulso, a cadeira rangendo no chão:
— Não vem com esse papo. Já te avisei, já falei pra você parar. Não quero mais ouvir você falar dela.
— Avisou, avisou. — Kaique sorriu, aquele sorriso lento que parecia ter todo o tempo do mundo. — Mas o senhor não avisou ela, né? Ela continua me olhando, professor. Toda vez que eu passo no corredor, aqueles olhos verdes me seguem. Toda vez que eu entro na sala dela, ela fica diferente. Mais perto, mais atenta, mais presente.
— Você está delirando. Completamente delirando.
— Tô? — Kaique inclinou a cabeça, o sorriso ainda lá. — Então me explica uma coisa: por que o senhor fica nervoso toda vez que eu apareço? Por que pergunta pra ela sobre mim toda noite, quer saber o que eu fiz, o que eu falei? Por que vocês falam de mim na cama?
Roberto sentiu o chão sumir. Como ele sabia? Como podia saber aquilo? Aquilo era particular, era dele e de Joana, era segredo.
— Vim mostrar uma coisa, professor. Uma coisa que o senhor precisa ver.
Kaique levou a mão lentamente à frente da calça. Os dedos encontraram o volume, apertaram, modelaram. E então ele fez: apertou de verdade, de um jeito que o contorno ficou nítido, a forma desenhada no tecido. Era grande. Muito grande. Um volume que não deixava dúvidas, que prometia coisas que Roberto nunca seria capaz de oferecer.
— É isso — Kaique disse, a voz calma, controlada. — É isso que sua mulher quer ver. É isso que o senhor também quer ver. Toda vez que eu aperto assim, o senhor fica paralisado. Toda vez que eu mostro, o senhor não consegue desviar o olho.
Roberto não conseguia se mexer. Os olhos estavam pregados naquele lugar. O coração batia tão forte que doía. E o pau endureceu, traidor, nojento, ereto.
— Tá vendo? — Kaique riu, baixo. — Já tá de pau duro. O senhor já é corno, professor. Corno manso. E ainda nem aconteceu nada.
Nesse momento a porta se abriu.
Joana entrou com uma pilha de livros nos braços e parou. Os olhos verdes percorreram a cena num instante: Roberto paralisado, Kaique com a mão na calça, o volume exposto, a tensão no ar grossa o suficiente pra cortar.
Os livros escorregaram. Um, dois, três, caindo no chão com estrondos surdos. Ela não se moveu para pegá-los.
Kaique se virou para ela devagar, sem pressa, a mão ainda ali. Apertou mais uma vez, para que ela visse bem, para que não restasse dúvida, e então sorriu aquele sorriso:
— Boa tarde, professora. Desculpe o incomodo.
Saiu, deixando a porta aberta.
O silêncio foi absoluto. Roberto e Joana se encararam de lados opostos da sala. Ela tinha os olhos arregalados, a boca entreaberta, a respiração acelerada. Ele sentia o rosto em chamas, o corpo vibrando, o pau duro dentro da calça, impossível de esconder.
— Você viu — ele disse. Não era pergunta.
— Eu vi.
— Do tamanho que é.
— Grande.
Joana deu um passo à frente. Depois outro. Parou diante dele, tão perto que ele podia sentir o perfume dela misturado com algo mais, o cheiro do desejo, o cheiro da entrega.
— A gente precisa ir pra casa — ela disse, a voz estranhamente calma.
— Agora?
— Agora Roberto!
Saíram sem falar, deixando os livros no chão. Atravessaram o corredor, o pátio, o portão. No carro nenhum dos dois disse uma palavra. Mas a mão de Joana encontrou a perna de Roberto no caminho, os dedos apertando, e subiu até encontrar o volume duro dele. Ela sorriu, um sorriso pequeno, e apertou.
— Você também viu — ela murmurou.
— Vi.
— E gostou.
Não era pergunta. Roberto não respondeu. Mas não precisava.
Em casa mal fecharam a porta. Joana o puxou pela camisa, beijou-o com uma fome que ele nunca vira, uma urgência que parecia acumulada há semanas. Foram tropeçando até o quarto, arrancando roupas, as mãos procurando, os corpos se encontrando.
Na cama ela montou sobre ele, os cabelos pretos soltos, os olhos verdes incandescentes, os lábios carnudos entreabertos:
— Você viu, Roberto? Você viu o tamanho? Você viu o que ele tem?
Roberto a segurou pelos quadris, sentindo o calor dela, a umidade dela:
— Vi.
— Imagina — ela gemeu, fechando os olhos, a cabeça jogada para trás. — Imagina aquilo dentro de mim. Imagina aquilo me preenchendo. Imagina aquilo me abrindo.
Roberto a puxou para mais perto, os dedos cravados na pele morena. Ela se moveu sobre ele, lenta, intensa, e enquanto o fazia descrevia:
— Deve ser grosso, Roberto. Muito grosso. Deve entrar devagar, fazendo força, esticando tudo. Deve doer um pouco, mas do jeito que a gente gosta, do jeito que faz a gente sentir viva.
— Ele disse que você vai viciar — Roberto sussurrou, a voz falhando. — Disse que depois dele você não vai querer mais ninguém.
— Vou. Vou viciar. E você vai ver, Roberto. Você vai ver ele me comendo. Vai ver eu gozando. Vai ver eu pedindo mais, implorando mais. Vai ver eu esquecendo tudo.
— Joana...
— Ele vai me chamar de professora. "A senhora gosta, professora? Gosta de pau preto? Gosta de ser comida por negão?" E eu vou dizer que sim. Que gosto. Que quero mais. Que quero sempre.
Roberto gozou com violência, puxando Joana para si, sentindo ela tremer toda, gozando junto, os dois perdidos na mesma fantasia, no mesmo homem, na mesma entrega.
Ficaram abraçados, ofegantes, o silêncio preenchido apenas pela respiração pesada.
— A gente não devia — Roberto sussurrou depois de muito tempo.
— Devia não — ela concordou, a cabeça apoiada no peito dele. — Mas a gente vai.
Ele ficou pensando naquilo. A gente vai. Vai o quê? Vai deixar acontecer? Vai procurar? Vai ver ela sendo comida por ele? O pensamento deveria ser horrível, mas o pau endureceu de novo, teimoso, revelador.
O que há de errado comigo?, pensou. Eu deveria ter raiva. Eu deveria querer matar aquele moleque. Em vez disso fico duro. Em vez disso imagino. Em vez disso quero ver.
Joana sentiu ele endurecer dentro dela e riu baixo, aquele riso cúmplice:
— Tá vendo? Você também quer.
— Não quero.
— Quer sim. Seu pau não mente. Ele sabe o que quer, mesmo quando você não sabe.
Ela tinha razão. O pau dele não mentia. E Roberto começou a aceitar que talvez o corpo soubesse coisas que a mente se recusava a admitir.
Na escola, nos dias seguintes, Kaique passava por eles com a mesma tranquilidade. Às vezes parava, trocava algumas palavras banais. Outras apenas olhava, aquele olhar demorado, e seguia.
Numa tarde ele parou ao lado de Roberto no corredor, perto o bastante para que ninguém mais ouvisse, e sussurrou:
— E aí, corno? Já imaginou sua mulher comigo de novo essa noite? Já imaginou ela gemendo meu nome?
Roberto não respondeu. Mas não desviou o olhar.
Kaique sorriu, satisfeito:
— Tá aprendendo, professor. Tá aprendendo a ser o que você nasceu pra ser.
E seguiu seu caminho, deixando Roberto parado, o coração disparado, a mente cheia de imagens. Ele pensou em Joana, pensou em Kaique, pensou em si mesmo vendo os dois. E sentiu o pau endurecer mais uma vez.
Corno, pensou. É isso que eu sou. Ou é isso que eu vou ser. E o pior é que não consigo mais imaginar outra coisa. O pior é que não quero mais imaginar outra coisa.
A filosofia de Roberto não tinha resposta para aquilo. A história de Joana também não. Estavam escrevendo um capítulo novo, e nenhum livro, nenhuma teoria, nenhum pensamento os prepararia para o que vinha.