— Vou deixar vocês sozinhos para conversarem — o produtor disse, já juntando as coisas e indo em direção à porta. — Mas a gente está com uma certa urgência no casting. Preciso de uma resposta agora: sim ou não.
A porta mal se fechou, e Ana virou para mim, ansiosa por aquele momento.
— E aí? — ela perguntou, sorrindo. — O que você achou, amor? Não tem como a gente recusar, né?
Passei a mão na testa antes de responder.
— Você está falando sério? Aquela apresentação foi a coisa mais insana que eu já vi na vida.
— Ah, Bre… eu acho que você está levando tudo muito ao pé da letra. Ele quis chocar a gente, só isso. No fim, vai ser um realityzinho tipo Ilha da Tentação, De Férias com o Ex… nada demais.
— Ana — eu disse, sentindo a voz endurecer —, imagina sua mãe ligando a TV e te vendo ali, sendo sarrada à força por um estranho.
— Você não prestou atenção em nada da reunião, Breno?! — rebateu, revirando os olhos para mim. — O programa não vai passar em streaming nenhum, nem em TV aberta. É só para assinantes, num site que quase ninguém conhece aqui no Brasil.
— Sim — respondi, sem pensar muito. — Igual ao reality do Ítalo Santos.
— Aí, Breno… que comparação esdrúxula.
Aproveitei a brecha.
— Pensa bem, amor. Se eles fizerem dez por cento do que prometeram naqueles slides, isso vira caso de polícia.
— Você precisa ser sempre tão exagerado?
— Amor, acho que você não está levando em conta todos os riscos — eu disse, forçando uma calma quase científica, porque precisava que ela desse razão à lógica. — Basta uma palavra fora do lugar ou um corte maldoso na edição, e nossa imagem vai embora para sempre.
Ana ficou em silêncio por um instante. Vi os olhos marejarem antes mesmo de a primeira lágrima cair.
Eu não estava preparado para aquele golpe.
— Breno… — ela disse. — Seu problema não é o programa. O problema é que você não confia em mim.
Abri a boca para responder, mas ela não deixou.
— Você está inventando esses cenários absurdos porque, no fundo, acha que eu não daria conta — continuou, limpando o rosto com as costas da mão. — Que eu perderia o controle. Que eu faria alguma merda se tivesse a chance.
— Não é isso — falei rápido demais. Soou defensivo até para mim.
Ana cruzou os braços, respirando fundo.
— É exatamente isso, sim. Você vai deixar essa oportunidade passar porque acha que alguma coisa vai acontecer. Porque você não acredita que eu sei dizer não.
Quis me explicar. Dizer que não era medo de traição. Que era medo da exposição, do julgamento, da perda de controle.
Mas nada saiu. As palavras simplesmente não se organizaram.
Ana assentiu sozinha, como se meu silêncio já fosse uma resposta.
— No fundo, Breno — ela disse, me olhando direto — você não está dizendo não para o reality. Está dizendo não para mim.
Senti o chão sumir debaixo dos meus pés.
O tom da conversa tinha mudado de forma abrupta. Era como se a gente já estivesse tendo a nossa primeira discussão como participantes do reality.
E eu estava vivendo a minha própria escolha de Sofia.
Se dissesse não, minha esposa sairia daquela sala com a certeza de que eu não confiava nela. A frustração e o ressentimento poderiam ser a gota d’água de um casamento que já vinha sendo testado desde que perdi o emprego.
Se dissesse sim, abriria mão de qualquer controle sobre a minha própria vida.
E eu não queria nem pensar no que faria caso Ana não resistisse à tentação…
Entre a cruz e a espada, apenas acenei com a cabeça. Ana entendeu.
Éramos os mais novos participantes da Casa do Ricardão.
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