O silêncio do meu quarto era quase sólido quando minhas pálpebras finalmente pesaram menos que o chumbo. O sol, implacável, filtrava-se pelas frestas da persiana, desenhando linhas douradas de poeira suspensa no ar que pareciam flutuar ao ritmo da minha respiração ainda pesada. Quando estiquei o braço para alcançar o celular na mesa de cabeceira, senti cada fibra muscular protestar; era um cansaço bom, uma rigidez que trazia a memória tátil daquela privada fria e do calor visceral do Murilo sobre mim.
14:00.
O número brilhava na tela, acusando o quanto meu corpo havia se desligado do mundo. A cabeça ainda latejava levemente, um eco distante da mistura de bebidas e do cigarro do Douglas que impregnara meus pulmões. Sentei-me na beira da cama, sentindo o lençol roçar na pele ainda sensibilizada. Havia uma espécie de ressaca moral e física que não era negativa, mas sim uma névoa que me deixava tonto, desconectado da realidade doméstica daquela tarde de domingo.
Levantei-me com lentidão. Cada passo até o banheiro era um lembrete: a pressão do corpo do Murilo sobre o meu, o impacto rítmico da foda bruta, o cheiro de suor e sêmen que agora, felizmente, já havia sido substituído pelo cheiro do sabonete que usamos no banho rápido naquele lugar. Entrei no chuveiro e deixei a água morna escorrer, fechando os olhos e tentando organizar as peças do quebra-cabeça que goi aquela noite.
Vesti uma bermuda de tecido leve e uma camiseta velha, nada que apertasse ou incomodasse. Desci as escadas sentindo a casa silenciosa. O vazio do andar de baixo sugeria que meu pai e minha mãe talvez tivessem saído, mas o estalo característico de uma porta e um burburinho abafado me levaram até a cozinha. A porta que dava para os fundos estava entreaberta.
Ao sair, o brilho do sol me obrigou a fechar os olhos por um segundo. No fundo do quintal, onde as duas kitnets de aluguel ficavam, vi o vulto da minha mãe. Ela estava com um balde e alguns panos, movendo-se com aquela energia calma de quem cuida do que é seu.
— Mãe? — chamei, minha voz saindo um pouco mais rouca do que eu esperava. — Por que você está limpando aí? O que está acontecendo?
Ela se virou, enxugando o suor da testa com o antebraço, e abriu um sorriso doce, mas carregado daquela perspicácia que só as mães têm.
— Nada, filho. É que a gente sempre precisa fazer a limpeza dessas casas de trás, sabe? Deixar tudo em ordem, caso alguém precise. Às vezes o tempo passa e a poeira toma conta de tudo — ela explicou, soltando o pano dentro do balde com um som úmido.
Aproximei-me, sentindo o cheiro de desinfetante misturado ao cheiro de jardim. Ela me analisou de cima a baixo por um instante, o olhar demorando-se nos meus olhos ainda um pouco avermelhados pelo sono e pelo cansaço.
— Você chegou tarde, né, filho? — ela soltou, com um tom de voz que não era de bronca, mas de constatação. Eu dei um risinho , coçando a nuca. Ela não parou por aí: — Quer dizer, chegou pela manhã, né? Eu ouvi o barulho nas escadas.
— É... eu saí durante a noite, acabei aproveitando um pouco mais do que planejava. Estava com o pessoal — respondi, tentando manter a voz estável enquanto flashes da foda no banheiro passavam pela minha mente.
— Você merece, filho. Trabalha tanto, se esforça... — ela disse, voltando-se para o batente da porta.
— Eu já estou terminando aqui. A gente já almoçou faz tempo. O seu está na geladeira, é só colocar no micro-ondas, tudo bem?
— Tá bom, mãe. Obrigado.
Fiz menção de voltar para dentro, sentindo o estômago reclamar pela primeira vez, mas a voz dela me deteve novamente.
— Filho? — ela me chamou. Eu me virei de costas, parando no meio do caminho. — Você tem algum plano para amanhã?
— Amanhã? Não, mãe... a princípio não. Por quê?
— Que bom. Eu gostaria que você ficasse em casa amanhã. Queria que a gente passasse um tempo em família de novo, sabe? Sinto falta de ver você por aqui sem aquela pressa toda.
Olhei para ela e, por um momento, a culpa de estar tão imerso naquele submundo de caos e segredos pesou. Ela tinha razão. Eu andava orbitando outros planetas, outras peles, outras camas.
— Tá bom, mãe. Sem problemas. Eu entendi... eu preciso passar mais tempo aqui mesmo.
— É, eu acho que você precisa — ela concluiu, com um aceno final antes de entrar na kitnet.
Voltei para a cozinha, o silêncio da casa agora parecendo mais pesado após a conversa. Esquentei a comida, mas minha mente não estava no sabor do feijão ou da carne. Eu estava de volta em tudo que aconteceu. De volta ao momento em que vi o Yan e o Arthur dividindo aquele espaço, aquela energia dentro do carro. A imagem do Arthuro me entregando a chave da moto, o sorriso de quem tinha segredos por baixo daquela aparência de bom moço, e a tensão que pairava sobre nós.
Peguei o celular que estava sobre a mesa. A tela brilhou, refletindo meu rosto cansado. O peso daquela noite ainda não tinha sido totalmente processado, e havia fios soltos que eu precisava puxar.
Quer saber? Eu acho que vou resolver isso agora, pensei.
Abri a lista de contatos. Meus dedos hesitaram por um segundo sobre o nome do Yan. Havia muito o que ser dito, ou talvez, muito o que ser esclarecido de uma forma que só nós dois entendêssemos. A lembrança do Yan no carro com o Arthur, enquanto o show do Lucas rolava, me deu o impulso que faltava. Eu precisava saber os detalhes daquela cena.
Sentado na beira da cama, com o peso da noite anterior ainda ancorado nos meus ombros, encarei o nome de Yan na tela. A curiosidade sobre o que ele e Arthur haviam compartilhado no isolamento daquele carro, sob o som abafado do pagode, era um comichão que eu não conseguia mais ignorar. Sem racionalizar, meus dedos agiram por conta própria e eu apertei o ícone de ligar.
O sinal de chamada mal completou o primeiro toque. Ele atendeu com uma prontidão que me sobressaltou.
— Bernardo? — A voz dele veio do outro lado, um pouco mais grave do que o normal, carregando uma mistura de surpresa e um leve tom de urgência.
— Oi, Yan. Boa tarde — respondi, tentando manter a voz estável, apesar do turbilhão interno.
— Oi... Por que você sumiu, cara? — O tom dele mudou para uma cobrança suave, mas nítida. — Você simplesmente não respondeu nenhuma das minhas mensagens.
Senti um vinco se formar na minha testa.
— Que mensagens, Yan? Eu não vi nada.
— Como que mensagens? — Ele soltou um suspiro frustrado. — Eu te mandei várias, logo depois que você foi embora , e você me deixou no vácuo total.
— Espera um minuto — pedi, afastando o celular do ouvido por um segundo. Deslizei a barra de notificações e só então a ficha caiu: o ícone do Wi-Fi e dos dados móveis estavam apagados. Lembrei-me do estado em que cheguei em casa; a única coisa que minha coordenação motora permitiu foi espetar o cabo do carregador e desabar no colchão.
— Puta merda, Yan... Desculpa. Minha internet estava desligada o tempo todo. Eu só liguei o telefone na tomada e apaguei. Não vi nada.
Houve uma pausa do outro lado da linha. Senti o alívio dele atravessar a ligação.
— Ah... entendi. Eu já estava ficando preocupado, achei que tinha acontecido alguma coisa ou que você tinha ficado puto com algo.
— Eu que deveria dizer isso — retruquei, esboçando um sorriso contido. — Eu fiquei preocupado com você, na verdade. Ontem, quando te deixamos, você estava bem pra lá de Bagdá, Yan. Estava muito bêbado. Você lembra de metade do que aconteceu?
Ele soltou uma risada curta, aquela risada de quem sabe que passou do ponto mas não se arrepende.
— Eu lembro... lembro de bastante coisa, na verdade. Mas relaxa, eu já estou bem. Já estou acostumado com essas ressacas, meu corpo se recupera rápido.
— Que bom — respondi, sentindo o terreno mais seguro para o que eu realmente queria. — Mas escuta, você tem planos para hoje? O que vai fazer agora à tarde?
— Não, nada planejado. Estou só vegetando aqui em casa, por quê?
Respirei fundo, visualizando o encontro.
— Tem como a gente se encontrar em uma sorveteria aqui perto? É um lugar tranquilo, aqui no bairro.
— Tem sim... mas por que esse convite de repente? — O tom dele ficou curioso, quase instigante.
— Ah... eu queria conversar com você — falei, fazendo uma pausa dramática. — Gostaria de conversar com você pessoalmente. Tem coisas de ontem que precisam ser ditas olho no olho.
Ouvi o som dele puxando o ar, uma respiração pesada que denunciava que ele sabia exatamente sobre o que eu queria falar: o carro, o Arthur, a tensão.
— Tá... entendi. Eu vou me arrumar aqui. Dentro de mais ou menos uma hora a gente se encontra lá. Pode ser?
— Perfeito. Eu te mando o endereço exato por mensagem agora mesmo. Pelas 15:40 a gente se vê lá. É bem perto da minha casa, então não tem erro.
— Quer que eu passe aí de carro para te buscar? — Yan ofereceu carona, querendo ser gentil.
— Olha, não precisa, Yan. São só duas ruas aqui de casa, eu consigo chegar rápido e a caminhada vai me ajudar a terminar de acordar. Já te mando o endereço da minha localização também se precisar, mas a gente se vê lá.
— Tá bom então. Se cuida, Yan. A gente se fala.
— Se cuida você também. Beijos.
O clique do encerramento da chamada ecoou no quarto silencioso. No segundo seguinte, liguei a internet. O aparelho quase vibrou fora da minha mão com a enxurrada de notificações que represaram durante horas.
Antes de abrir qualquer chat, meu olhar foi atraído para algo na mesa de cabeceira. Entre o copo d'água vazio e o abajur, um objeto metálico brilhava sob o sol da tarde: a chave da moto de Arthuro.
— Caramba... — murmurei para as paredes. — A chave ficou comigo.
Aquele pedaço de metal era mais do que um esquecimento; era o pretexto perfeito para um próximo encontro, ou talvez a prova de quão bagunçada foi a nossa despedida.
Voltei minha atenção para o celular. O WhatsApp estava um caos. Havia mensagens de Lucas, perguntando se eu tinha morrido; mensagens de Arthuro; e, para minha surpresa, um número não salvo com uma mensagem que me fez arquear as sobrancelhas:
"Oi! É o Murilo. Salva meu número aí. Depois me mando um Oi direito pra gente conversar, tá bom? 😉"
Senti uma descarga elétrica percorrer minha espinha ao ler o nome dele. O Murilo, o cara que eu tinha dominado de forma tão visceral. Prontamente, salvei o contato como Murilo e digitei uma resposta curta, tentando não parecer ansioso demais: "Oi Murilo! Salvo aqui. Pode mandar quando quiser, estou à vontade."
Deixei o aparelho de lado e fui me trocar. Escolhi algo casual, mas que me deixasse bem: uma bermuda jeans que ajustava bem ao corpo e uma camiseta básica escura. Eu precisava estar apresentável para o Yan.
Depois de me vestir, encarei meu reflexo no espelho do quarto uma última vez. Meus olhos ainda denunciavam a noite em claro, mas havia algo na minha expressão que eu não conseguia definir: uma mistura de expectativa e cansaço. Notei que meu cabelo não estava ajudando; os fios pareciam ter vida própria depois de tanta bagunça e suor. Sem paciência para tentar domá-los, peguei um boné escuro na prateleira e o ajustei na cabeça, escondendo a evidência da minha noite desregrada.
Com o celular novamente em mãos, as notificações pareciam queimar a tela. O áudio do Arthuro já estava lá há algum tempo. Dei o play e a voz dele preencheu o silêncio do quarto:
— Oi Bêr, boa tarde. Cara, eu deixei a chave da minha moto com você ou com o Lucas? Verifica com ele pra mim, por favor, eu não tenho o contato dele aqui e não lembro onde deixei...
Soltei um suspiro pesado, rindo mentalmente da situação. "Você não perde a cabeça porque está grudada no pescoço", pensei, enquanto olhava para o objeto metálico sobre a minha mesa de cabeceira. Pressionei o ícone do microfone para responder:
— Oi Arthuro, então... a chave da moto está comigo sim. Você me entregou quando a gente entrou no Uber. Olha só, se você precisar dela agora, eu estou saindo de casa, mas vou deixar com a minha mãe. Qualquer coisa você pode passar aqui e buscar com ela, sem erro. Sobre o contato do Lucas, pra você combinar de buscar a moto, eu já te encaminho aqui agora. Qualquer coisa, é só me dar um grito.
Arthuro foi rápido. Em poucos segundos, um "👍" apareceu na conversa, acompanhado de dois emojis: 😘❤️.
O clima entre nós parecia leve, o que me deu um breve alívio antes de enfrentar a próxima conversa: a de Arthur.
O que ele me mandou era o típico Arthur: curto, direto e levemente impaciente.
— Ei, tá aí? Cadê você?
Minha paciência para os joguinhos dele estava no limite. Digitei com certa rispidez:
— Diga agora, Arthur. O que é que você quer?
Enquanto aguardava a resposta dele, voltei para a conversa do Yan. Havia uma sequência de mensagens ali que eu mal tinha lido. Ignorei o conteúdo anterior, provavelmente cobranças pelo meu sumiço, e apenas encaminhei o endereço da sorveteria.
— Quando você for sair de casa, me avisa — escrevi, sendo prático.
A resposta veio quase imediata:
— Ok, vou sair dentro de 15 minutos.
Respondi com um simples:
— Tudo bem, já já estou saindo também.
Mas o Arthur não me deixava em paz. O celular vibrou novamente.
— Tá fazendo o quê? Tá por onde? — ele perguntou.
— Ué, estou em casa, por quê? — devolvi.
— Nada, só queria saber se está tudo bem com você.
Bufei. A preocupação dele parecia tardia ou apenas uma sonda para saber se eu estava disponível.
— Está tudo sim, tudo certo. Mas agora eu estou resolvendo algumas coisas importantes. Depois a gente se fala melhor, Arthur — escrevi, tentando encerrar o assunto.
— Tudo bem — ele respondeu de forma seca.
Mas eu senti que precisava deixar um gancho. O que tinha acontecido no carro ainda estava atravessado na minha garganta.
— É, depois a gente conversa melhor, Arthur. Eu estou precisando falar com você de verdade, adicionei, deixando no ar que o assunto seria sério.
Ele apenas colocou:
— Tudo bem, quando você quiser, é só me chamar.
— Ok, se cuida. — finalizei.
Guardei o celular no bolso, peguei minha carteira e a chave da moto do Arthuro. Desci as escadas e encontrei minha mãe na sala, terminando suas tarefas.
— Mãe, eu preciso resolver algumas coisas na rua — comecei, aproximando-me dela.
— Vou deixar essa chave aqui no móvel da sala, é do Arthuro. Se ele passar por aqui, você entrega pra ele por gentileza?
Ela me olhou com uma sobrancelha arqueada, limpando as mãos no avental.
— Entrego sim, filho, sem problema... mas eu pensei que você fosse ficar em casa hoje.
— É, eu vou ficar, mas preciso resolver essas coisas antes, são importantes — expliquei, tentando não dar muitos detalhes.
— Tudo bem... mas amanhã você vai estar em casa, né? Sem falta para o nosso almoço — ela reforçou, com aquele olhar que não aceita não como resposta.
Aproximei-me e dei um beijo no seu rosto.
— Você sabe, mãe... promessa é dívida. Estarei aqui.
Ela sorriu, satisfeita, mas antes que eu cruzasse a porta, ela completou:
— Filho, se você quiser... — ela fez uma pausa.
— Se quiser, você pode chamar o Arthuro para almoçar com a gente amanhã. O que acha?
Parei com a mão na maçaneta, surpreso.
— O Arthuro, mãe?
— É... se você quiser, tá bom? Ele é um bom rapaz.
— Tá bom, mãe... depois eu vejo isso — respondi, querendo sair logo.
Saí de casa e o sol das 15:15 ainda estava forte. Decidi ir caminhando. A sorveteria não era longe e eu precisava desse tempo para organizar meus pensamentos e permitir que o Yan chegasse. Caminhei devagar, sentindo o ar quente e o movimento de sábado no bairro.
Cheguei ao local às 15:28. A sorveteria estava quase vazia, apenas o som baixo de um rádio e o zumbido das geladeiras. Escolhi uma mesa estratégica, ao fundo mas com visão para a entrada. Pedi uma água de coco gelada. O líquido desceu refrescando minha garganta seca, enquanto eu batia os dedos na mesa, ansioso.
O celular vibrou. Era o Yan.
— Já estou chegando. Na verdade, só vou estacionar o carro e já entro. Estou aqui fora.
Respirei fundo, ajeitando o boné e sentando com as costas eretas.
— Ainda bem que ele chegou — pensei.
Agora não havia mais mensagens, nem chaves, nem distrações. Era apenas eu e o Yan, e a verdade sobre o que aconteceu naquele carro estava prestes a ser servida junto com o sorvete.
O movimento da rua ecoava para dentro da sorveteria, um espaço amplo e aberto, onde a brisa quente da tarde circulava livremente entre as mesas. Meus olhos estavam fixos na calçada até que vi a silhueta dele se aproximando. Yan estava deslumbrante. Ele parecia ter deixado para trás aquela rigidez cotidiana para adotar um estilo despojado que o tornava perigosamente interessante. Vestia uma camisa de tecido leve, entreaberta nos primeiros botões, revelando o início do peitoral que eu sabia ser quente. Os óculos escuros escondiam seus olhos, mas a postura exalava uma confiança que me fez ajeitar a coluna na cadeira instantaneamente.
Assim que ele entrou, seus olhos me buscaram entre as poucas mesas ocupadas. Um sorriso de canto surgiu em seus lábios e ele caminhou em minha direção com uma elegância natural. Levantei-me para recebê-lo e, no momento em que nos aproximamos, o abraço foi inevitável. Senti o perfume dele algo cítrico, misturado ao cheiro de pele limpa e sol, invadiu meus sentidos. Quando nos afastamos apenas o suficiente para nossos olhares se cruzarem, ele não hesitou: inclinou o rosto e me deu um selinho demorado, um toque úmido e macio que serviu como um lembrete elétrico de tudo o que tínhamos vivido até aquele momento.
— Oi, Ber. Boa tarde — ele disse, a voz aveludada, enquanto deslizava os óculos escuros para o topo da cabeça, revelando olhos que brilhavam com uma malícia contida.
— Oi, Yan. Vamos sentar... precisamos mesmo conversar — respondi, tentando manter o foco diante daquela presença avassaladora.
Sentamo-nos frente a frente na mesa de metal. A sorveteria estava calma, com o som do trânsito ao fundo e o zumbido dos freezers. Yan recostou-se na cadeira, me analisando de um jeito que me fazia sentir como se ele estivesse me despindo ali mesmo, à vista de quem passasse pela calçada.
— Tudo bem — ele começou, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos.
— O que tem de tão importante que você precisava falar comigo pessoalmente?
Antes que eu pudesse responder, ele fez um sinal discreto para a garçonete que passava pelo balcão central.
— Só um minuto, Ber. Moça, por favor, me traga uma torta de sorvete.
Eu não contive a risada, observando o jeito dele.
— Sério que você vai comer isso agora, Yan? — debochei, vendo o brilho sacana nos olhos dele.
— Ah, eu preciso de um doce, Bernardo. Meu corpo está pedindo açúcar para compensar o desgaste de ontem — ele retrucou, com um sorriso que dizia muito mais do que as palavras.
— Sei... depois você diz quem é que está de ressaca — provoquei, bebendo um gole da minha água de coco e sentindo o gelo refrescar a garganta.
Ele ficou em silêncio por um momento, a expressão tornando-se um pouco mais séria, embora o desejo ainda estivesse ali, latejando em seu olhar. Ele inclinou-se para frente, invadindo meu espaço pessoal por sobre a mesa.
— Então, voltando ao ponto principal... o que você quer falar?
Respirei fundo. O momento de enrolar tinha acabado.
— Yan, eu não vou fazer rodeios e nem tenho por que esconder as coisas de você. Mas... mesmo que a gente não tenha uma relação oficial, ou melhor, relação a gente tem, mas não temos um relacionamento prévio, algo com rótulos...
Ele soltou uma risadinha curta e me interrompeu brusco, mas com um brilho de inteligência no olhar.
— Eu já sei o que você quer falar, Bernardo. Você... — ele fez uma pausa, os olhos fixos nos meus.
— Você ficou com ciúmes, né? Percebeu que o seu amigo estava me dando atenção demais e isso te cutucou ai dentro.
Fiquei por um segundo sem reação, pego pela franqueza dele.
— Como assim, Yan?
Ele deu um sorriso vitorioso, recostando-se na cadeira enquanto a torta de sorvete era colocada na mesa.
— Ah, Bernardo, eu sei que você não é bobo. Você deve ter sacado, né? O irmão do Arthuro não saía de cima de mim. O clima entre a gente no bar estava... digamos, bem próximo para quem acabou de me conhecer.
Senti uma onda de calor subir pelo meu pescoço. A imagem deles dois trancados naquele carro, enquanto o pagode do Lucas rolava, tornou-se vívida demais na minha mente.
— Tá, mas... mesmo que ele não saísse de cima de você — comecei, tentando manter a voz firme —, você passou boa parte da noite naquele barzinho tentando investir no Lucas. Você estava jogando em várias frentes.
Yan riu, uma gargalhada baixa e rouca.
— É... também, também. Não vou negar que o Lucas é um prato cheio.
— Então — continuei, encarando-o seriamente —, tem a ver com isso também. Mas eu quero ser muito sincero com você, Yan. E se você puder me escutar primeiro, sem me cortar, eu vou te agradecer. Porque o que eu sinto e o que eu vi não é tão difícil de entender, mas eu preciso que você entenda a minha perspectiva.
Ele se calou, deixando a colher de lado por um instante. Ele apenas cruzou os braços e fixou aquele olhar penetrante em mim, esperando que eu abrisse o jogo. A sorveteria aberta parecia pequena demais para a tensão que agora nos envolvia.
O ar entre nós parecia ter se tornado mais denso, como se cada palavra minha estivesse retirando o oxigênio do ambiente. Eu retomei as rédeas da fala, sentindo o peso da honestidade no peito. Olhei bem no fundo dos olhos do Yan, vendo o brilho da inteligência dele se misturar com uma expectativa silenciosa.
— Yan... eu disse que não ia rodear, mas não tem como falar disso sem te dar o devido valor — comecei, minha voz saindo baixa, mas firme.
— Você é uma pessoa incrível. Sério. Aquele dia na praia, com você e o Arthuro, eu me senti tão vivo, tão bem... E na sua casa, quando você preparou aquele jantar... aquilo mexeu comigo. Foram poucos os momentos na minha vida em que eu me senti tão genuinamente acolhido em tão pouco tempo.
Ele me observava sem piscar, a postura de quem absorvia cada sílaba.
— Mas... a gente nunca afirmou nada, né? — continuei, sentindo o calor do sol da tarde na minha pele.
— Eu sempre quis ser livre, e deixei isso claro pra você. O que aconteceu ontem... se aconteceu algo... é o de menos. Você estava livre ali. Seja o que rolou entre você e o Arthur no carro, ou aquele selinho que você arrancou do Lucas no palco...
Ao mencionar o Lucas, o Yan soltou uma risada curta, relaxando os ombros. Ele descruzou os braços e, num movimento lento e carregado de uma intimidade que me fez estremecer, estendeu a mão sobre a mesa. Seus dedos tocaram os meus, subindo pela minha pele até segurar minha mão com firmeza. Ele a levou aos lábios e depositou um beijo suave, porém demorado, no dorso da minha mão, mantendo o contato visual.
— Pode falar, Bernardo. Para com isso. Você sabe os seus princípios quando tem que ser — ele murmurou contra minha pele, o hálito quente quase tátil.
Respirei fundo, tentando não me perder naquele toque que já começava a despertar meu corpo.
— Eu não vou ficar contando história, Yan. O ponto é que... eu acho que a gente precisa parar de ficar. Tudo isso foi maravilhoso, foi bom pra mim e acredito que pra você também, mas precisamos finalizar essa etapa. Quero que sejamos amigos, mas quero que seja somente amizade. E não é por causa de ontem, não é por ciúmes. É porque a minha vida está tomando outros rumos. Sinto que alguns ciclos precisam se encerrar para que outros se transformem.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante do trânsito. O Yan ouviu tudo atentamente, sem desviar o olhar, a mão ainda segurando a minha, o polegar dele fazendo carícias circulares e lentas na minha palma, um movimento que subia uma corrente elétrica pelo meu braço.
— Tem certeza? — ele perguntou, a voz agora um pouco mais grave.
— É realmente isso que você quer?
— Tenho certeza, Yan. Eu gosto de você. Te conhecer foi, e está sendo, uma grande descoberta. Parar de ficar é a minha forma de garantir que eu te mantenha na minha vida. Eu quero essa amizade limpa.
Ele deu um sorriso triste, mas carregado de admiração.
— Bernardo... você é inteligente demais. Só de te olhar eu já fico feliz. Eu adorei cada segundo do que vivemos nesse curto espaço de tempo. E eu não posso fazer nada além de respeitar a sua escolha. Se você quer que seja assim, vai ser assim.
Ele fez uma pausa, e o carinho na minha mão tornou-se mais possessivo, os dedos dele apertando os meus.
— Porém, eu não vou mentir — ele continuou, inclinando-se mais para frente, a voz baixando para um tom confessional e perigosamente erótico. — Eu olho para você agora e a minha única vontade é te beijar. Meu corpo reage só de sentir o seu cheiro aqui perto.
Ele baixou o olhar para os meus lábios e depois para o meu pescoço, e eu senti meus próprios músculos se contraírem.
— Minha vontade agora... é tirar a sua roupa, tirar a minha e te dar aqui mesmo, em cima dessa mesa, sem me importar com quem está olhando — ele disse, com uma crueza que fez meu sangue ferver.
Eu ri, meio nervoso, meio excitado pela audácia dele.
— Yan... por favor.
— É sério, Ber — ele insistiu, os olhos queimando de desejo.
— Você é um homem foda que entrou na minha vida e eu não quero te deixar ir embora assim tão fácil. Eu tenho como lutar por isso que você acabou de colocar?
— Tenho como reverter essa situação e ainda ser presente na sua vida de alguma forma? —
Ele aproximou o rosto do meu, o espaço entre nós reduzido a quase nada.
Eu conseguia ver as nuances nas íris dele, a dilatação das pupilas provocada pelo tesão que ele não fazia questão de esconder.
— Eu tenho a possibilidade de continuar presente, de continuar te beijando, te sentindo, compartilhando momentos... ou essa porta está realmente fechada, Ber?
Ele me olhou nos olhos com uma intensidade que parecia despir minha alma, enquanto sua perna, por baixo da mesa, roçava levemente o a minha, um toque proibido, sensual e carregado de uma promessa que fazia o "não" que eu tinha acabado de dizer vacilar perigosamente na minha garganta.
O ar na sorveteria parecia vibrar com a confissão do Yan. Por alguns segundos, quando ele me lançou aquela pergunta carregada de esperança e tesão, eu senti o peso da minha própria consciência. Recuei o corpo levemente, tentando erguer uma barreira emocional que o toque dele no meu joelho insistia em derrubar.
— Yan... não vamos tornar isso mais difícil do que já é — comecei, sentindo minha voz lutar para permanecer firme enquanto o polegar dele continuava a desenhar círculos na minha palma.
— Eu não posso te dar um ponto final definitivo, não posso dizer que eternamente nada vai acontecer entre a gente. O futuro é incerto. Mas agora, como eu te disse, a minha vida está tomando outros rumos... e eu acho que a sua também, né?
Ele soltou uma risada baixa, uma vibração que pareceu ressoar na base da minha coluna.
— Como assim? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha, o olhar fixo no meu.
— Ah, não sei... você parece estar mais maduro hoje — retruquei, sustentando o olhar. — Apesar de que ontem você estava extremamente irredutível, quase indomável.
Ele riu de novo, uma diversão genuína dançando em seus olhos.
— Por quê? O que eu fiz de tão grave?
— Yan, você dançou em cima de um palco, você insistiu para beijar um colega meu de trabalho na frente de todo mundo, você simplesmente se jogou... — Fiz uma pausa, deixando o clima pesar.
— E você saiu no meio de tudo aquilo e foi para dentro de um carro junto com o Arthur, sabe-se lá para fazer o quê.
O sorriso dele se alargou, tornando-se algo mais sombrio, mais carnal. Ele inclinou o rosto para o lado, me analisando com uma curiosidade quase predatória.
— Você quer saber o que aconteceu entre eu e o Arthur lá dentro, Bernardo? É isso?
Encarei-o, sentindo a curiosidade me corroer por dentro.
— Se você quiser contar... — respondi, tentando manter a indiferença, embora minhas mãos estivessem suando.
Ele se aproximou mais, o hálito agora chegando ao meu rosto com um cheiro leve do sorvete de chocolate que ele começara a provar.
— A gente ficou — ele soltou, a voz baixando para um sussurro que era quase um gemido. — Mas foi... ah, foi rápido. Só uma mamada.
Senti um soco de calor no baixo ventre. A crueza daquelas palavras me pegou desprevenido.
— Como assim? — perguntei, as sobrancelhas arqueadas.
— Bernardo, ele é um gato. Ele é praticamente a cópia do Arthuro... e você sabe que eu tenho uma vontade absurda de dar para o Arthuro também, né? — Ele disse isso com uma naturalidade que beirava o cinismo.
— Não... eu não sabia disso — menti, me fazendo de desentendido enquanto sentia meu pau latejar dentro da bermuda jeans.
— Para, Bernardo. Tá na minha cara isso, mas não finge que não sabe — ele brincou, voltando a ficar sério por um instante.
— A gente só deu uns beijos, um amasso forte ali no banco, e ele me deixou mamar ele. Foi gostoso... o gosto dele é bom, a urgência dele era viciante.
— É... imagino. Você voltou depois tudo isso bem felizinho — comentei, sentindo um ciúme estranho, mas excitante, misturar-se à conversa.
Yan parou o movimento da mão por um segundo segurando firme, fixando os olhos nos meus com uma profundidade nova.
— Mas isso te incomoda? — ele perguntou, a voz suave. — Isso te ajudou nessa decisão de encerrar o nosso ciclo? Saber que eu estava com ele enquanto você estava com outros?
— Não, Yan — respondi, suspirando. — Eu já tinha pensado nisso antes de a noite terminar. Como eu disse, minha vida está mudando, meus objetivos agora são outros.
Ele recostou-se na cadeira, mas não soltou minha mão. O contato permanecia elétrico.
— Então quer dizer que agora o Bernardo tem objetivos... — ele provocou, com um brilho malicioso.
— Isso significa que você tem objetivo com alguém específico?
Senti um sorriso involuntário surgir nos meus lábios. A imagem do Arthuro, da intensidade daquela madrugada e do mistério que envolvia, passou rapidamente pela minha mente.
— Não exatamente — respondi, fazendo um suspense. — Mas eu também não descarto a possibilidade.
O Yan apertou minha mão com força, um gesto que era metade carinho, metade posse.
— Você é foda, Bernardo — ele sussurrou, a voz carregada de um tesão que parecia pronto para transbordar ali mesmo, naquela mesa de sorveteria aberta. — Mesmo me dando um fora, você consegue me deixar com mais vontade de você do que antes.
A sorveteria estava quase vazia agora. O sol começava a baixar, pintando o asfalto de laranja. O clima de despedida era real, mas a sensualidade que emanava daquelas confissões sobre o carro tornava o adeus quase impossível de ser executado. Cada detalhe do que ele descreveu — o beijo, o amasso, a mamada no escuro do carro enquanto o pagode tocava — parecia estar gravado na pele dele, e eu podia sentir isso no toque da sua mão.
As palavras do Yan ecoaram na sorveteria como um ponto final que eu mesmo havia escrito, mas que ainda doía ler. Abaixei a cabeça por um instante, sentindo um nó agridoce apertar minha garganta. A tristeza não era de arrependimento, mas de reconhecimento: estávamos matando algo vivo para que uma amizade pudesse nascer. Levantei o olhar, encontrando os olhos dele: aqueles olhos que já tinham me visto em momentos de entrega absoluta — e deixei a sinceridade fluir.
— Obrigado, Yan — disse, a voz quase um sussurro.
— Obrigado pelas suas palavras, pelo momento... por ter deixado eu te conhecer de verdade. Obrigado por tanta coisa, até por aquilo que eu ainda não sei como nomear.
Ele terminou de tomar o sorvete, limpando o canto da boca com um guardanapo, e me deu um sorriso que misturava resignação e carinho.
— Vamos dar uma volta de carro comigo? — ele sugeriu, levantando-se. — Considere como uma despedida.
Eu ri, tentando quebrar o clima fúnebre.
— Despedida? Ninguém vai morrer, Yan. Ninguém está indo embora para sempre. A gente só não vai mais ficar, mas eu quero você presente na minha vida.
— Eu sei, Ber... mas o sol já está indo embora — ele apontou para o horizonte, onde o céu de começava a ganhar tons de púrpura e laranja.
— Vi que tem uma praça aqui perto com umas barracas. Vamos até lá? Só para eu ter esse último momento nosso antes da transformação.
Aceitei. Pagamos a conta e saímos para o ar ainda morno da tarde. O Yan, com aquele cavalheirismo despojado, fez questão de abrir a porta do carro para mim. Sentei-me no banco do carona, sentindo o estofado macio e o cheiro característico do perfume dele impregnado no veículo. Quando ele fechou a porta e sentou-se ao meu lado, o som do mundo lá fora foi abafado.
— Eu gosto muito de você, sabia? — ele soltou, enquanto ligava o motor, mas sem tirar o carro do lugar ainda.
— Eu também gosto bastante de você, Yan — respondi, olhando para o rosto dele.
— Pena que só gostar não é o suficiente para manter isso, né? — Ele suspirou, as mãos repousando sobre o volante.
— Mas é o suficiente para manter a nossa amizade — retruquei, tentando ser o pilar de lucidez ali.
Ele riu, uma risada nervosa, e virou o corpo em minha direção, diminuindo a distância entre os bancos.
— Posso roubar um beijo seu? — O pedido foi quase infantil, mas o olhar dele era puramente carnal.
Eu não esperei que ele roubasse. Eu mesmo me inclinei e tomei os lábios do Yan. Foi um beijo lento, daqueles que se dá em quem se poderia namorar; profundo, exploratório. Segurei o rosto dele com as duas mãos, sentindo a textura da sua pele, enquanto nossas línguas se entrelaçavam em uma dança de despedida. Ele explorava cada canto da minha boca como se quisesse decorar o meu gosto pela última vez. Finalizei com um selinho demorado e me afastei um pouco.
— Satisfeito? — perguntei, sentindo meus lábios formigarem.
— Não... não estou satisfeito — ele admitiu, a respiração pesada.
— É, mas é só isso. Acabou — sentenciei com um sorriso triste.
Ele engatou a marcha e, em poucos minutos, estávamos na praça. O movimento era calmo, barracas de pipoca e doces se armando, mas o Yan não fez menção de descer. Estacionou sob a sombra de uma árvore frondosa e desligou o motor, deixando apenas o ar-condicionado suave mantendo o frescor lá dentro. Ficamos ali, naquele casulo de vidro, observando o movimento panorâmico da praça.
— Posso te falar uma coisa? — ele quebrou o silêncio.
— Claro.
— Eu não estou triste com a sua decisão, por mais que eu quisesse mais. Estou até feliz porque você faz questão de me ter por perto.
— Com certeza, Yan. Você é amigo do Arthuro, e o Arthuro é meu melhor amigo. Vamos nos ver sempre, em comemorações, saídas... não tem como fugir — brinquei.
Ele ficou em silêncio por um momento, olhando para o painel, antes de lançar a pergunta que eu sabia que viria.
— Mas... tem alguém? Alguém no seu coração que te ajudou a tomar essa decisão agora?
Pensei no Arthuro. Pensei no Arthur. Pensei em como a liberdade às vezes nos prende a pessoas específicas sem que percebamos.
— Sempre tem alguém, Yan. Quando a gente vive de maneira livre, o coração acaba elegendo alguns portos seguros.
Ele soltou uma risada abafada e olhou para o teto do carro.
— Eu acho que o Arthuro não ia gostar nada de saber disso... se bem que...
— Se bem que o quê? — instiguei, sentindo que havia algo vindo.
O Yan soltou o cinto de segurança, um clique seco no silêncio do carro. Eu fiz o mesmo, sentindo a liberdade do movimento. Ele pegou minha mão novamente, apertando-a com uma urgência nova. O ar-condicionado soprava leve, mas a tensão dentro do carro era de febre.
— Para ser sincero — ele começou, olhando fixamente para nossas mãos unidas —, eu acho que o Arthuro esconde muito mais do que você imagina, Bernardo. E talvez, só talvez, ele não seja o único que você deveria estar vigiando nesse jogo.
Ele se aproximou mais, o olhar descendo para o meu colo e depois voltando para os meus olhos, uma faísca de segredo brilhando ali. A proximidade era perigosa; o cheiro de Yan, o espaço confinado do carro e a menção ao Arthuro criavam uma atmosfera onde a amizade parecia uma promessa muito difícil de cumprir naquele exato segundo.