Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 32 — Depois do Leite Derramado!

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 6201 palavras
Data: 05/03/2026 20:33:54

​O silêncio do meu quarto era quase sólido quando minhas pálpebras finalmente pesaram menos que o chumbo. O sol, implacável, filtrava-se pelas frestas da persiana, desenhando linhas douradas de poeira suspensa no ar que pareciam flutuar ao ritmo da minha respiração ainda pesada. Quando estiquei o braço para alcançar o celular na mesa de cabeceira, senti cada fibra muscular protestar; era um cansaço bom, uma rigidez que trazia a memória tátil daquela privada fria e do calor visceral do Murilo sobre mim.

​14:00.

​O número brilhava na tela, acusando o quanto meu corpo havia se desligado do mundo. A cabeça ainda latejava levemente, um eco distante da mistura de bebidas e do cigarro do Douglas que impregnara meus pulmões. Sentei-me na beira da cama, sentindo o lençol roçar na pele ainda sensibilizada. Havia uma espécie de ressaca moral e física que não era negativa, mas sim uma névoa que me deixava tonto, desconectado da realidade doméstica daquela tarde de domingo.

​Levantei-me com lentidão. Cada passo até o banheiro era um lembrete: a pressão do corpo do Murilo sobre o meu, o impacto rítmico da foda bruta, o cheiro de suor e sêmen que agora, felizmente, já havia sido substituído pelo cheiro do sabonete que usamos no banho rápido naquele lugar. Entrei no chuveiro e deixei a água morna escorrer, fechando os olhos e tentando organizar as peças do quebra-cabeça que goi aquela noite.

​Vesti uma bermuda de tecido leve e uma camiseta velha, nada que apertasse ou incomodasse. Desci as escadas sentindo a casa silenciosa. O vazio do andar de baixo sugeria que meu pai e minha mãe talvez tivessem saído, mas o estalo característico de uma porta e um burburinho abafado me levaram até a cozinha. A porta que dava para os fundos estava entreaberta.

​Ao sair, o brilho do sol me obrigou a fechar os olhos por um segundo. No fundo do quintal, onde as duas kitnets de aluguel ficavam, vi o vulto da minha mãe. Ela estava com um balde e alguns panos, movendo-se com aquela energia calma de quem cuida do que é seu.

​— Mãe? — chamei, minha voz saindo um pouco mais rouca do que eu esperava. — Por que você está limpando aí? O que está acontecendo?

​Ela se virou, enxugando o suor da testa com o antebraço, e abriu um sorriso doce, mas carregado daquela perspicácia que só as mães têm.

​— Nada, filho. É que a gente sempre precisa fazer a limpeza dessas casas de trás, sabe? Deixar tudo em ordem, caso alguém precise. Às vezes o tempo passa e a poeira toma conta de tudo — ela explicou, soltando o pano dentro do balde com um som úmido.

​Aproximei-me, sentindo o cheiro de desinfetante misturado ao cheiro de jardim. Ela me analisou de cima a baixo por um instante, o olhar demorando-se nos meus olhos ainda um pouco avermelhados pelo sono e pelo cansaço.

​— Você chegou tarde, né, filho? — ela soltou, com um tom de voz que não era de bronca, mas de constatação. Eu dei um risinho , coçando a nuca. Ela não parou por aí: — Quer dizer, chegou pela manhã, né? Eu ouvi o barulho nas escadas.

​— É... eu saí durante a noite, acabei aproveitando um pouco mais do que planejava. Estava com o pessoal — respondi, tentando manter a voz estável enquanto flashes da foda no banheiro passavam pela minha mente.

​— Você merece, filho. Trabalha tanto, se esforça... — ela disse, voltando-se para o batente da porta.

— Eu já estou terminando aqui. A gente já almoçou faz tempo. O seu está na geladeira, é só colocar no micro-ondas, tudo bem?

​— Tá bom, mãe. Obrigado.

​Fiz menção de voltar para dentro, sentindo o estômago reclamar pela primeira vez, mas a voz dela me deteve novamente.

​— Filho? — ela me chamou. Eu me virei de costas, parando no meio do caminho. — Você tem algum plano para amanhã?

​— Amanhã? Não, mãe... a princípio não. Por quê?

​— Que bom. Eu gostaria que você ficasse em casa amanhã. Queria que a gente passasse um tempo em família de novo, sabe? Sinto falta de ver você por aqui sem aquela pressa toda.

​Olhei para ela e, por um momento, a culpa de estar tão imerso naquele submundo de caos e segredos pesou. Ela tinha razão. Eu andava orbitando outros planetas, outras peles, outras camas.

​— Tá bom, mãe. Sem problemas. Eu entendi... eu preciso passar mais tempo aqui mesmo.

​— É, eu acho que você precisa — ela concluiu, com um aceno final antes de entrar na kitnet.

​Voltei para a cozinha, o silêncio da casa agora parecendo mais pesado após a conversa. Esquentei a comida, mas minha mente não estava no sabor do feijão ou da carne. Eu estava de volta em tudo que aconteceu. De volta ao momento em que vi o Yan e o Arthur dividindo aquele espaço, aquela energia dentro do carro. A imagem do Arthuro me entregando a chave da moto, o sorriso de quem tinha segredos por baixo daquela aparência de bom moço, e a tensão que pairava sobre nós.

​Peguei o celular que estava sobre a mesa. A tela brilhou, refletindo meu rosto cansado. O peso daquela noite ainda não tinha sido totalmente processado, e havia fios soltos que eu precisava puxar.

​Quer saber? Eu acho que vou resolver isso agora, pensei.

​Abri a lista de contatos. Meus dedos hesitaram por um segundo sobre o nome do Yan. Havia muito o que ser dito, ou talvez, muito o que ser esclarecido de uma forma que só nós dois entendêssemos. A lembrança do Yan no carro com o Arthur, enquanto o show do Lucas rolava, me deu o impulso que faltava. Eu precisava saber os detalhes daquela cena.

Sentado na beira da cama, com o peso da noite anterior ainda ancorado nos meus ombros, encarei o nome de Yan na tela. A curiosidade sobre o que ele e Arthur haviam compartilhado no isolamento daquele carro, sob o som abafado do pagode, era um comichão que eu não conseguia mais ignorar. Sem racionalizar, meus dedos agiram por conta própria e eu apertei o ícone de ligar.

​O sinal de chamada mal completou o primeiro toque. Ele atendeu com uma prontidão que me sobressaltou.

​— Bernardo? — A voz dele veio do outro lado, um pouco mais grave do que o normal, carregando uma mistura de surpresa e um leve tom de urgência.

​— Oi, Yan. Boa tarde — respondi, tentando manter a voz estável, apesar do turbilhão interno.

​— Oi... Por que você sumiu, cara? — O tom dele mudou para uma cobrança suave, mas nítida. — Você simplesmente não respondeu nenhuma das minhas mensagens.

​Senti um vinco se formar na minha testa.

— Que mensagens, Yan? Eu não vi nada.

​— Como que mensagens? — Ele soltou um suspiro frustrado. — Eu te mandei várias, logo depois que você foi embora , e você me deixou no vácuo total.

​— Espera um minuto — pedi, afastando o celular do ouvido por um segundo. Deslizei a barra de notificações e só então a ficha caiu: o ícone do Wi-Fi e dos dados móveis estavam apagados. Lembrei-me do estado em que cheguei em casa; a única coisa que minha coordenação motora permitiu foi espetar o cabo do carregador e desabar no colchão.

— Puta merda, Yan... Desculpa. Minha internet estava desligada o tempo todo. Eu só liguei o telefone na tomada e apaguei. Não vi nada.

​Houve uma pausa do outro lado da linha. Senti o alívio dele atravessar a ligação.

— Ah... entendi. Eu já estava ficando preocupado, achei que tinha acontecido alguma coisa ou que você tinha ficado puto com algo.

​— Eu que deveria dizer isso — retruquei, esboçando um sorriso contido. — Eu fiquei preocupado com você, na verdade. Ontem, quando te deixamos, você estava bem pra lá de Bagdá, Yan. Estava muito bêbado. Você lembra de metade do que aconteceu?

​Ele soltou uma risada curta, aquela risada de quem sabe que passou do ponto mas não se arrepende.

— Eu lembro... lembro de bastante coisa, na verdade. Mas relaxa, eu já estou bem. Já estou acostumado com essas ressacas, meu corpo se recupera rápido.

​— Que bom — respondi, sentindo o terreno mais seguro para o que eu realmente queria. — Mas escuta, você tem planos para hoje? O que vai fazer agora à tarde?

​— Não, nada planejado. Estou só vegetando aqui em casa, por quê?

​Respirei fundo, visualizando o encontro.

— Tem como a gente se encontrar em uma sorveteria aqui perto? É um lugar tranquilo, aqui no bairro.

​— Tem sim... mas por que esse convite de repente? — O tom dele ficou curioso, quase instigante.

​— Ah... eu queria conversar com você — falei, fazendo uma pausa dramática. — Gostaria de conversar com você pessoalmente. Tem coisas de ontem que precisam ser ditas olho no olho.

​Ouvi o som dele puxando o ar, uma respiração pesada que denunciava que ele sabia exatamente sobre o que eu queria falar: o carro, o Arthur, a tensão.

— Tá... entendi. Eu vou me arrumar aqui. Dentro de mais ou menos uma hora a gente se encontra lá. Pode ser?

​— Perfeito. Eu te mando o endereço exato por mensagem agora mesmo. Pelas 15:40 a gente se vê lá. É bem perto da minha casa, então não tem erro.

— Quer que eu passe aí de carro para te buscar? — Yan ofereceu carona, querendo ser gentil.

​— Olha, não precisa, Yan. São só duas ruas aqui de casa, eu consigo chegar rápido e a caminhada vai me ajudar a terminar de acordar. Já te mando o endereço da minha localização também se precisar, mas a gente se vê lá.

​— Tá bom então. Se cuida, Yan. A gente se fala.

​— Se cuida você também. Beijos.

​O clique do encerramento da chamada ecoou no quarto silencioso. No segundo seguinte, liguei a internet. O aparelho quase vibrou fora da minha mão com a enxurrada de notificações que represaram durante horas.

​Antes de abrir qualquer chat, meu olhar foi atraído para algo na mesa de cabeceira. Entre o copo d'água vazio e o abajur, um objeto metálico brilhava sob o sol da tarde: a chave da moto de Arthuro.

​— Caramba... — murmurei para as paredes. — A chave ficou comigo.

​Aquele pedaço de metal era mais do que um esquecimento; era o pretexto perfeito para um próximo encontro, ou talvez a prova de quão bagunçada foi a nossa despedida.

​Voltei minha atenção para o celular. O WhatsApp estava um caos. Havia mensagens de Lucas, perguntando se eu tinha morrido; mensagens de Arthuro; e, para minha surpresa, um número não salvo com uma mensagem que me fez arquear as sobrancelhas:

​"Oi! É o Murilo. Salva meu número aí. Depois me mando um Oi direito pra gente conversar, tá bom? 😉"

​Senti uma descarga elétrica percorrer minha espinha ao ler o nome dele. O Murilo, o cara que eu tinha dominado de forma tão visceral. Prontamente, salvei o contato como Murilo e digitei uma resposta curta, tentando não parecer ansioso demais: "Oi Murilo! Salvo aqui. Pode mandar quando quiser, estou à vontade."

​Deixei o aparelho de lado e fui me trocar. Escolhi algo casual, mas que me deixasse bem: uma bermuda jeans que ajustava bem ao corpo e uma camiseta básica escura. Eu precisava estar apresentável para o Yan.

Depois de me vestir, encarei meu reflexo no espelho do quarto uma última vez. Meus olhos ainda denunciavam a noite em claro, mas havia algo na minha expressão que eu não conseguia definir: uma mistura de expectativa e cansaço. Notei que meu cabelo não estava ajudando; os fios pareciam ter vida própria depois de tanta bagunça e suor. Sem paciência para tentar domá-los, peguei um boné escuro na prateleira e o ajustei na cabeça, escondendo a evidência da minha noite desregrada.

​Com o celular novamente em mãos, as notificações pareciam queimar a tela. O áudio do Arthuro já estava lá há algum tempo. Dei o play e a voz dele preencheu o silêncio do quarto:

​— Oi Bêr, boa tarde. Cara, eu deixei a chave da minha moto com você ou com o Lucas? Verifica com ele pra mim, por favor, eu não tenho o contato dele aqui e não lembro onde deixei...

​Soltei um suspiro pesado, rindo mentalmente da situação. "Você não perde a cabeça porque está grudada no pescoço", pensei, enquanto olhava para o objeto metálico sobre a minha mesa de cabeceira. Pressionei o ícone do microfone para responder:

​— Oi Arthuro, então... a chave da moto está comigo sim. Você me entregou quando a gente entrou no Uber. Olha só, se você precisar dela agora, eu estou saindo de casa, mas vou deixar com a minha mãe. Qualquer coisa você pode passar aqui e buscar com ela, sem erro. Sobre o contato do Lucas, pra você combinar de buscar a moto, eu já te encaminho aqui agora. Qualquer coisa, é só me dar um grito.

​Arthuro foi rápido. Em poucos segundos, um "👍" apareceu na conversa, acompanhado de dois emojis: 😘❤️.

O clima entre nós parecia leve, o que me deu um breve alívio antes de enfrentar a próxima conversa: a de Arthur.

​O que ele me mandou era o típico Arthur: curto, direto e levemente impaciente.

— Ei, tá aí? Cadê você?

​Minha paciência para os joguinhos dele estava no limite. Digitei com certa rispidez:

— Diga agora, Arthur. O que é que você quer?

​Enquanto aguardava a resposta dele, voltei para a conversa do Yan. Havia uma sequência de mensagens ali que eu mal tinha lido. Ignorei o conteúdo anterior, provavelmente cobranças pelo meu sumiço, e apenas encaminhei o endereço da sorveteria.

— Quando você for sair de casa, me avisa — escrevi, sendo prático.

A resposta veio quase imediata:

— Ok, vou sair dentro de 15 minutos.

Respondi com um simples:

— Tudo bem, já já estou saindo também.

​Mas o Arthur não me deixava em paz. O celular vibrou novamente.

— Tá fazendo o quê? Tá por onde? — ele perguntou.

— Ué, estou em casa, por quê? — devolvi.

— Nada, só queria saber se está tudo bem com você.

​Bufei. A preocupação dele parecia tardia ou apenas uma sonda para saber se eu estava disponível.

— Está tudo sim, tudo certo. Mas agora eu estou resolvendo algumas coisas importantes. Depois a gente se fala melhor, Arthur — escrevi, tentando encerrar o assunto.

— Tudo bem — ele respondeu de forma seca.

​Mas eu senti que precisava deixar um gancho. O que tinha acontecido no carro ainda estava atravessado na minha garganta.

— É, depois a gente conversa melhor, Arthur. Eu estou precisando falar com você de verdade, adicionei, deixando no ar que o assunto seria sério.

Ele apenas colocou:

— Tudo bem, quando você quiser, é só me chamar.

— Ok, se cuida. — finalizei.

​Guardei o celular no bolso, peguei minha carteira e a chave da moto do Arthuro. Desci as escadas e encontrei minha mãe na sala, terminando suas tarefas.

​— Mãe, eu preciso resolver algumas coisas na rua — comecei, aproximando-me dela.

— Vou deixar essa chave aqui no móvel da sala, é do Arthuro. Se ele passar por aqui, você entrega pra ele por gentileza?

​Ela me olhou com uma sobrancelha arqueada, limpando as mãos no avental.

— Entrego sim, filho, sem problema... mas eu pensei que você fosse ficar em casa hoje.

​— É, eu vou ficar, mas preciso resolver essas coisas antes, são importantes — expliquei, tentando não dar muitos detalhes.

​— Tudo bem... mas amanhã você vai estar em casa, né? Sem falta para o nosso almoço — ela reforçou, com aquele olhar que não aceita não como resposta.

​Aproximei-me e dei um beijo no seu rosto.

— Você sabe, mãe... promessa é dívida. Estarei aqui.

​Ela sorriu, satisfeita, mas antes que eu cruzasse a porta, ela completou:

— Filho, se você quiser... — ela fez uma pausa.

— Se quiser, você pode chamar o Arthuro para almoçar com a gente amanhã. O que acha?

​Parei com a mão na maçaneta, surpreso.

— O Arthuro, mãe?

— É... se você quiser, tá bom? Ele é um bom rapaz.

​— Tá bom, mãe... depois eu vejo isso — respondi, querendo sair logo.

​Saí de casa e o sol das 15:15 ainda estava forte. Decidi ir caminhando. A sorveteria não era longe e eu precisava desse tempo para organizar meus pensamentos e permitir que o Yan chegasse. Caminhei devagar, sentindo o ar quente e o movimento de sábado no bairro.

​Cheguei ao local às 15:28. A sorveteria estava quase vazia, apenas o som baixo de um rádio e o zumbido das geladeiras. Escolhi uma mesa estratégica, ao fundo mas com visão para a entrada. Pedi uma água de coco gelada. O líquido desceu refrescando minha garganta seca, enquanto eu batia os dedos na mesa, ansioso.

​O celular vibrou. Era o Yan.

— Já estou chegando. Na verdade, só vou estacionar o carro e já entro. Estou aqui fora.

​Respirei fundo, ajeitando o boné e sentando com as costas eretas.

— Ainda bem que ele chegou — pensei.

Agora não havia mais mensagens, nem chaves, nem distrações. Era apenas eu e o Yan, e a verdade sobre o que aconteceu naquele carro estava prestes a ser servida junto com o sorvete.

​O movimento da rua ecoava para dentro da sorveteria, um espaço amplo e aberto, onde a brisa quente da tarde circulava livremente entre as mesas. Meus olhos estavam fixos na calçada até que vi a silhueta dele se aproximando. Yan estava deslumbrante. Ele parecia ter deixado para trás aquela rigidez cotidiana para adotar um estilo despojado que o tornava perigosamente interessante. Vestia uma camisa de tecido leve, entreaberta nos primeiros botões, revelando o início do peitoral que eu sabia ser quente. Os óculos escuros escondiam seus olhos, mas a postura exalava uma confiança que me fez ajeitar a coluna na cadeira instantaneamente.

​Assim que ele entrou, seus olhos me buscaram entre as poucas mesas ocupadas. Um sorriso de canto surgiu em seus lábios e ele caminhou em minha direção com uma elegância natural. Levantei-me para recebê-lo e, no momento em que nos aproximamos, o abraço foi inevitável. Senti o perfume dele algo cítrico, misturado ao cheiro de pele limpa e sol, invadiu meus sentidos. Quando nos afastamos apenas o suficiente para nossos olhares se cruzarem, ele não hesitou: inclinou o rosto e me deu um selinho demorado, um toque úmido e macio que serviu como um lembrete elétrico de tudo o que tínhamos vivido até aquele momento.

​— Oi, Ber. Boa tarde — ele disse, a voz aveludada, enquanto deslizava os óculos escuros para o topo da cabeça, revelando olhos que brilhavam com uma malícia contida.

​— Oi, Yan. Vamos sentar... precisamos mesmo conversar — respondi, tentando manter o foco diante daquela presença avassaladora.

​Sentamo-nos frente a frente na mesa de metal. A sorveteria estava calma, com o som do trânsito ao fundo e o zumbido dos freezers. Yan recostou-se na cadeira, me analisando de um jeito que me fazia sentir como se ele estivesse me despindo ali mesmo, à vista de quem passasse pela calçada.

​— Tudo bem — ele começou, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos.

— O que tem de tão importante que você precisava falar comigo pessoalmente?

​Antes que eu pudesse responder, ele fez um sinal discreto para a garçonete que passava pelo balcão central.

— Só um minuto, Ber. Moça, por favor, me traga uma torta de sorvete.

​Eu não contive a risada, observando o jeito dele.

— Sério que você vai comer isso agora, Yan? — debochei, vendo o brilho sacana nos olhos dele.

​— Ah, eu preciso de um doce, Bernardo. Meu corpo está pedindo açúcar para compensar o desgaste de ontem — ele retrucou, com um sorriso que dizia muito mais do que as palavras.

​— Sei... depois você diz quem é que está de ressaca — provoquei, bebendo um gole da minha água de coco e sentindo o gelo refrescar a garganta.

​Ele ficou em silêncio por um momento, a expressão tornando-se um pouco mais séria, embora o desejo ainda estivesse ali, latejando em seu olhar. Ele inclinou-se para frente, invadindo meu espaço pessoal por sobre a mesa.

— Então, voltando ao ponto principal... o que você quer falar?

​Respirei fundo. O momento de enrolar tinha acabado.

— Yan, eu não vou fazer rodeios e nem tenho por que esconder as coisas de você. Mas... mesmo que a gente não tenha uma relação oficial, ou melhor, relação a gente tem, mas não temos um relacionamento prévio, algo com rótulos...

​Ele soltou uma risadinha curta e me interrompeu brusco, mas com um brilho de inteligência no olhar.

— Eu já sei o que você quer falar, Bernardo. Você... — ele fez uma pausa, os olhos fixos nos meus.

— Você ficou com ciúmes, né? Percebeu que o seu amigo estava me dando atenção demais e isso te cutucou ai dentro.

​Fiquei por um segundo sem reação, pego pela franqueza dele.

— Como assim, Yan?

Ele deu um sorriso vitorioso, recostando-se na cadeira enquanto a torta de sorvete era colocada na mesa.

— Ah, Bernardo, eu sei que você não é bobo. Você deve ter sacado, né? O irmão do Arthuro não saía de cima de mim. O clima entre a gente no bar estava... digamos, bem próximo para quem acabou de me conhecer.

​Senti uma onda de calor subir pelo meu pescoço. A imagem deles dois trancados naquele carro, enquanto o pagode do Lucas rolava, tornou-se vívida demais na minha mente.

— Tá, mas... mesmo que ele não saísse de cima de você — comecei, tentando manter a voz firme —, você passou boa parte da noite naquele barzinho tentando investir no Lucas. Você estava jogando em várias frentes.

​Yan riu, uma gargalhada baixa e rouca.

— É... também, também. Não vou negar que o Lucas é um prato cheio.

​— Então — continuei, encarando-o seriamente —, tem a ver com isso também. Mas eu quero ser muito sincero com você, Yan. E se você puder me escutar primeiro, sem me cortar, eu vou te agradecer. Porque o que eu sinto e o que eu vi não é tão difícil de entender, mas eu preciso que você entenda a minha perspectiva.

​Ele se calou, deixando a colher de lado por um instante. Ele apenas cruzou os braços e fixou aquele olhar penetrante em mim, esperando que eu abrisse o jogo. A sorveteria aberta parecia pequena demais para a tensão que agora nos envolvia.

​O ar entre nós parecia ter se tornado mais denso, como se cada palavra minha estivesse retirando o oxigênio do ambiente. Eu retomei as rédeas da fala, sentindo o peso da honestidade no peito. Olhei bem no fundo dos olhos do Yan, vendo o brilho da inteligência dele se misturar com uma expectativa silenciosa.

​— Yan... eu disse que não ia rodear, mas não tem como falar disso sem te dar o devido valor — comecei, minha voz saindo baixa, mas firme.

— Você é uma pessoa incrível. Sério. Aquele dia na praia, com você e o Arthuro, eu me senti tão vivo, tão bem... E na sua casa, quando você preparou aquele jantar... aquilo mexeu comigo. Foram poucos os momentos na minha vida em que eu me senti tão genuinamente acolhido em tão pouco tempo.

​Ele me observava sem piscar, a postura de quem absorvia cada sílaba.

​— Mas... a gente nunca afirmou nada, né? — continuei, sentindo o calor do sol da tarde na minha pele.

— Eu sempre quis ser livre, e deixei isso claro pra você. O que aconteceu ontem... se aconteceu algo... é o de menos. Você estava livre ali. Seja o que rolou entre você e o Arthur no carro, ou aquele selinho que você arrancou do Lucas no palco...

​Ao mencionar o Lucas, o Yan soltou uma risada curta, relaxando os ombros. Ele descruzou os braços e, num movimento lento e carregado de uma intimidade que me fez estremecer, estendeu a mão sobre a mesa. Seus dedos tocaram os meus, subindo pela minha pele até segurar minha mão com firmeza. Ele a levou aos lábios e depositou um beijo suave, porém demorado, no dorso da minha mão, mantendo o contato visual.

​— Pode falar, Bernardo. Para com isso. Você sabe os seus princípios quando tem que ser — ele murmurou contra minha pele, o hálito quente quase tátil.

Respirei fundo, tentando não me perder naquele toque que já começava a despertar meu corpo.

— Eu não vou ficar contando história, Yan. O ponto é que... eu acho que a gente precisa parar de ficar. Tudo isso foi maravilhoso, foi bom pra mim e acredito que pra você também, mas precisamos finalizar essa etapa. Quero que sejamos amigos, mas quero que seja somente amizade. E não é por causa de ontem, não é por ciúmes. É porque a minha vida está tomando outros rumos. Sinto que alguns ciclos precisam se encerrar para que outros se transformem.

​O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante do trânsito. O Yan ouviu tudo atentamente, sem desviar o olhar, a mão ainda segurando a minha, o polegar dele fazendo carícias circulares e lentas na minha palma, um movimento que subia uma corrente elétrica pelo meu braço.

​— Tem certeza? — ele perguntou, a voz agora um pouco mais grave.

— É realmente isso que você quer?

​— Tenho certeza, Yan. Eu gosto de você. Te conhecer foi, e está sendo, uma grande descoberta. Parar de ficar é a minha forma de garantir que eu te mantenha na minha vida. Eu quero essa amizade limpa.

​Ele deu um sorriso triste, mas carregado de admiração.

— Bernardo... você é inteligente demais. Só de te olhar eu já fico feliz. Eu adorei cada segundo do que vivemos nesse curto espaço de tempo. E eu não posso fazer nada além de respeitar a sua escolha. Se você quer que seja assim, vai ser assim.

​Ele fez uma pausa, e o carinho na minha mão tornou-se mais possessivo, os dedos dele apertando os meus.

— Porém, eu não vou mentir — ele continuou, inclinando-se mais para frente, a voz baixando para um tom confessional e perigosamente erótico. — Eu olho para você agora e a minha única vontade é te beijar. Meu corpo reage só de sentir o seu cheiro aqui perto.

​Ele baixou o olhar para os meus lábios e depois para o meu pescoço, e eu senti meus próprios músculos se contraírem.

— Minha vontade agora... é tirar a sua roupa, tirar a minha e te dar aqui mesmo, em cima dessa mesa, sem me importar com quem está olhando — ele disse, com uma crueza que fez meu sangue ferver.

​Eu ri, meio nervoso, meio excitado pela audácia dele.

— Yan... por favor.

​— É sério, Ber — ele insistiu, os olhos queimando de desejo.

— Você é um homem foda que entrou na minha vida e eu não quero te deixar ir embora assim tão fácil. Eu tenho como lutar por isso que você acabou de colocar?

— Tenho como reverter essa situação e ainda ser presente na sua vida de alguma forma? —

​Ele aproximou o rosto do meu, o espaço entre nós reduzido a quase nada.

Eu conseguia ver as nuances nas íris dele, a dilatação das pupilas provocada pelo tesão que ele não fazia questão de esconder.

— Eu tenho a possibilidade de continuar presente, de continuar te beijando, te sentindo, compartilhando momentos... ou essa porta está realmente fechada, Ber?

​Ele me olhou nos olhos com uma intensidade que parecia despir minha alma, enquanto sua perna, por baixo da mesa, roçava levemente o a minha, um toque proibido, sensual e carregado de uma promessa que fazia o "não" que eu tinha acabado de dizer vacilar perigosamente na minha garganta.

O ar na sorveteria parecia vibrar com a confissão do Yan. Por alguns segundos, quando ele me lançou aquela pergunta carregada de esperança e tesão, eu senti o peso da minha própria consciência. Recuei o corpo levemente, tentando erguer uma barreira emocional que o toque dele no meu joelho insistia em derrubar.

​— Yan... não vamos tornar isso mais difícil do que já é — comecei, sentindo minha voz lutar para permanecer firme enquanto o polegar dele continuava a desenhar círculos na minha palma.

— Eu não posso te dar um ponto final definitivo, não posso dizer que eternamente nada vai acontecer entre a gente. O futuro é incerto. Mas agora, como eu te disse, a minha vida está tomando outros rumos... e eu acho que a sua também, né?

​Ele soltou uma risada baixa, uma vibração que pareceu ressoar na base da minha coluna.

— Como assim? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha, o olhar fixo no meu.

​— Ah, não sei... você parece estar mais maduro hoje — retruquei, sustentando o olhar. — Apesar de que ontem você estava extremamente irredutível, quase indomável.

​Ele riu de novo, uma diversão genuína dançando em seus olhos.

— Por quê? O que eu fiz de tão grave?

​— Yan, você dançou em cima de um palco, você insistiu para beijar um colega meu de trabalho na frente de todo mundo, você simplesmente se jogou... — Fiz uma pausa, deixando o clima pesar.

— E você saiu no meio de tudo aquilo e foi para dentro de um carro junto com o Arthur, sabe-se lá para fazer o quê.

​O sorriso dele se alargou, tornando-se algo mais sombrio, mais carnal. Ele inclinou o rosto para o lado, me analisando com uma curiosidade quase predatória.

— Você quer saber o que aconteceu entre eu e o Arthur lá dentro, Bernardo? É isso?

​Encarei-o, sentindo a curiosidade me corroer por dentro.

— Se você quiser contar... — respondi, tentando manter a indiferença, embora minhas mãos estivessem suando.

​Ele se aproximou mais, o hálito agora chegando ao meu rosto com um cheiro leve do sorvete de chocolate que ele começara a provar.

— A gente ficou — ele soltou, a voz baixando para um sussurro que era quase um gemido. — Mas foi... ah, foi rápido. Só uma mamada.

​Senti um soco de calor no baixo ventre. A crueza daquelas palavras me pegou desprevenido.

— Como assim? — perguntei, as sobrancelhas arqueadas.

​— Bernardo, ele é um gato. Ele é praticamente a cópia do Arthuro... e você sabe que eu tenho uma vontade absurda de dar para o Arthuro também, né? — Ele disse isso com uma naturalidade que beirava o cinismo.

​— Não... eu não sabia disso — menti, me fazendo de desentendido enquanto sentia meu pau latejar dentro da bermuda jeans.

​— Para, Bernardo. Tá na minha cara isso, mas não finge que não sabe — ele brincou, voltando a ficar sério por um instante.

— A gente só deu uns beijos, um amasso forte ali no banco, e ele me deixou mamar ele. Foi gostoso... o gosto dele é bom, a urgência dele era viciante.

​— É... imagino. Você voltou depois tudo isso bem felizinho — comentei, sentindo um ciúme estranho, mas excitante, misturar-se à conversa.

​Yan parou o movimento da mão por um segundo segurando firme, fixando os olhos nos meus com uma profundidade nova.

— Mas isso te incomoda? — ele perguntou, a voz suave. — Isso te ajudou nessa decisão de encerrar o nosso ciclo? Saber que eu estava com ele enquanto você estava com outros?

​— Não, Yan — respondi, suspirando. — Eu já tinha pensado nisso antes de a noite terminar. Como eu disse, minha vida está mudando, meus objetivos agora são outros.

​Ele recostou-se na cadeira, mas não soltou minha mão. O contato permanecia elétrico.

— Então quer dizer que agora o Bernardo tem objetivos... — ele provocou, com um brilho malicioso.

— Isso significa que você tem objetivo com alguém específico?

​Senti um sorriso involuntário surgir nos meus lábios. A imagem do Arthuro, da intensidade daquela madrugada e do mistério que envolvia, passou rapidamente pela minha mente.

— Não exatamente — respondi, fazendo um suspense. — Mas eu também não descarto a possibilidade.

​O Yan apertou minha mão com força, um gesto que era metade carinho, metade posse.

— Você é foda, Bernardo — ele sussurrou, a voz carregada de um tesão que parecia pronto para transbordar ali mesmo, naquela mesa de sorveteria aberta. — Mesmo me dando um fora, você consegue me deixar com mais vontade de você do que antes.

​A sorveteria estava quase vazia agora. O sol começava a baixar, pintando o asfalto de laranja. O clima de despedida era real, mas a sensualidade que emanava daquelas confissões sobre o carro tornava o adeus quase impossível de ser executado. Cada detalhe do que ele descreveu — o beijo, o amasso, a mamada no escuro do carro enquanto o pagode tocava — parecia estar gravado na pele dele, e eu podia sentir isso no toque da sua mão.

As palavras do Yan ecoaram na sorveteria como um ponto final que eu mesmo havia escrito, mas que ainda doía ler. Abaixei a cabeça por um instante, sentindo um nó agridoce apertar minha garganta. A tristeza não era de arrependimento, mas de reconhecimento: estávamos matando algo vivo para que uma amizade pudesse nascer. Levantei o olhar, encontrando os olhos dele: aqueles olhos que já tinham me visto em momentos de entrega absoluta — e deixei a sinceridade fluir.

​— Obrigado, Yan — disse, a voz quase um sussurro.

— Obrigado pelas suas palavras, pelo momento... por ter deixado eu te conhecer de verdade. Obrigado por tanta coisa, até por aquilo que eu ainda não sei como nomear.

​Ele terminou de tomar o sorvete, limpando o canto da boca com um guardanapo, e me deu um sorriso que misturava resignação e carinho.

— Vamos dar uma volta de carro comigo? — ele sugeriu, levantando-se. — Considere como uma despedida.

​Eu ri, tentando quebrar o clima fúnebre.

— Despedida? Ninguém vai morrer, Yan. Ninguém está indo embora para sempre. A gente só não vai mais ficar, mas eu quero você presente na minha vida.

​— Eu sei, Ber... mas o sol já está indo embora — ele apontou para o horizonte, onde o céu de começava a ganhar tons de púrpura e laranja.

— Vi que tem uma praça aqui perto com umas barracas. Vamos até lá? Só para eu ter esse último momento nosso antes da transformação.

​Aceitei. Pagamos a conta e saímos para o ar ainda morno da tarde. O Yan, com aquele cavalheirismo despojado, fez questão de abrir a porta do carro para mim. Sentei-me no banco do carona, sentindo o estofado macio e o cheiro característico do perfume dele impregnado no veículo. Quando ele fechou a porta e sentou-se ao meu lado, o som do mundo lá fora foi abafado.

​— Eu gosto muito de você, sabia? — ele soltou, enquanto ligava o motor, mas sem tirar o carro do lugar ainda.

​— Eu também gosto bastante de você, Yan — respondi, olhando para o rosto dele.

​— Pena que só gostar não é o suficiente para manter isso, né? — Ele suspirou, as mãos repousando sobre o volante.

​— Mas é o suficiente para manter a nossa amizade — retruquei, tentando ser o pilar de lucidez ali.

​Ele riu, uma risada nervosa, e virou o corpo em minha direção, diminuindo a distância entre os bancos.

— Posso roubar um beijo seu? — O pedido foi quase infantil, mas o olhar dele era puramente carnal.

Eu não esperei que ele roubasse. Eu mesmo me inclinei e tomei os lábios do Yan. Foi um beijo lento, daqueles que se dá em quem se poderia namorar; profundo, exploratório. Segurei o rosto dele com as duas mãos, sentindo a textura da sua pele, enquanto nossas línguas se entrelaçavam em uma dança de despedida. Ele explorava cada canto da minha boca como se quisesse decorar o meu gosto pela última vez. Finalizei com um selinho demorado e me afastei um pouco.

​— Satisfeito? — perguntei, sentindo meus lábios formigarem.

​— Não... não estou satisfeito — ele admitiu, a respiração pesada.

​— É, mas é só isso. Acabou — sentenciei com um sorriso triste.

​Ele engatou a marcha e, em poucos minutos, estávamos na praça. O movimento era calmo, barracas de pipoca e doces se armando, mas o Yan não fez menção de descer. Estacionou sob a sombra de uma árvore frondosa e desligou o motor, deixando apenas o ar-condicionado suave mantendo o frescor lá dentro. Ficamos ali, naquele casulo de vidro, observando o movimento panorâmico da praça.

​— Posso te falar uma coisa? — ele quebrou o silêncio.

​— Claro.

​— Eu não estou triste com a sua decisão, por mais que eu quisesse mais. Estou até feliz porque você faz questão de me ter por perto.

​— Com certeza, Yan. Você é amigo do Arthuro, e o Arthuro é meu melhor amigo. Vamos nos ver sempre, em comemorações, saídas... não tem como fugir — brinquei.

​Ele ficou em silêncio por um momento, olhando para o painel, antes de lançar a pergunta que eu sabia que viria.

— Mas... tem alguém? Alguém no seu coração que te ajudou a tomar essa decisão agora?

​Pensei no Arthuro. Pensei no Arthur. Pensei em como a liberdade às vezes nos prende a pessoas específicas sem que percebamos.

— Sempre tem alguém, Yan. Quando a gente vive de maneira livre, o coração acaba elegendo alguns portos seguros.

​Ele soltou uma risada abafada e olhou para o teto do carro.

— Eu acho que o Arthuro não ia gostar nada de saber disso... se bem que...

​— Se bem que o quê? — instiguei, sentindo que havia algo vindo.

​O Yan soltou o cinto de segurança, um clique seco no silêncio do carro. Eu fiz o mesmo, sentindo a liberdade do movimento. Ele pegou minha mão novamente, apertando-a com uma urgência nova. O ar-condicionado soprava leve, mas a tensão dentro do carro era de febre.

​— Para ser sincero — ele começou, olhando fixamente para nossas mãos unidas —, eu acho que o Arthuro esconde muito mais do que você imagina, Bernardo. E talvez, só talvez, ele não seja o único que você deveria estar vigiando nesse jogo.

​Ele se aproximou mais, o olhar descendo para o meu colo e depois voltando para os meus olhos, uma faísca de segredo brilhando ali. A proximidade era perigosa; o cheiro de Yan, o espaço confinado do carro e a menção ao Arthuro criavam uma atmosfera onde a amizade parecia uma promessa muito difícil de cumprir naquele exato segundo.

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