Eu cheguei em casa quase uma da manhã. Andei naquele bairro sem saber para onde ia até encontrar uma lanchonete, onde percebi que meu celular estava quase sem bateria. Não consegui pedir um carro pelo app, pois quando ainda estava procurando o celular desligou. Vi que a rua era movimentada e quando vi passando um ônibus para o centro entrei. Pensei em voltar ao bar onde meus amigos estavam mas desisti da ideia e fui para casa. Estava muito irritado com tudo e não queria falar com ninguém.
Estava me sentindo a pessoa mais idiota do mundo. Me abri com ele, falei das minhas inseguranças, acreditei nele e de repente: o ex aparece na casa dele e ainda me agride. O cara simplesmente me arremessou como se eu fosse uma daquelas cadeiras de plástico de bar copo-sujo. Quando caí havia batido o cotovelo no chão e estava doendo. Aquela dor latejante.
Liguei o celular quando deu um mínimo de carga ao chegar em casa. Haviam diversas chamadas do Renan e várias mensagens, áudios e SMS. Ver aquilo me irritou mais ainda.
Quando ele viu que eu recebi as mensagens me ligou, eu recusei na mesma hora.
“Está tudo bem? Me atende” – disse ele pela mensagem.
“Cheguei casa agora, eu vou dormir, falamos amanhã”.
“Você se machucou? Bateu a cabeça?”
“Não, boa noite Renan”.
Desliguei o telefone irritado. Pude ver que ele digitava algo mas não cheguei a receber a mensagem. Não estava de fato machucado, estava um pouco dolorido somente. Mas falando sério, estava envergonhado. O cara apareceu do nada ali. Que situação humilhante. O Renan mentindo com a cara mais limpa.
Estava muito impaciente e não conseguiria dormir. Acho que ficaria chateado depois, talvez quando o sangue esfriasse, mas agora a vontade era de bater no Renan e no João. Mas obviamente não seria possível nenhuma das duas coisas. O João parecia ser vinte centímetros mais alto que eu, musculoso e havia me jogado no ar como sem qualquer dificuldade e o Renan além de musculoso e evidentemente mais forte que eu andava armado. E sejamos sinceros eu nem sabia brigar. Poderia falar com o Jorge, ele era o amigo que geralmente defendia os amigos mais fracos, mas diante de tudo fiquei com medo de contar para ele e ele querer tirar satisfação com o Renan.
O sentimento que tive foi de impotência e vergonha.
Fui para debaixo do chuveiro e fiquei quase meia hora deixando a água quente cair. Sentei no chão e fiquei pensando em tudo que aconteceu tentando me acalmar. Como pude ser tão idiota de acreditar naquela ladainha do Renan. No final das contas o Jorge estava certo. Esse pessoal padrão não é de confiança.
No dia seguinte fui trabalhar cedo, era sábado e início de mês então a loja estaria abarrotada de gente. Ao menos trabalhar me faria esquecer a provável tristeza que sentia, pois a raiva ia amenizar e o sentimento de traição viria a tona.
Jorge veio animado conversar comigo falando que era dia de fazer muito dinheiro com comissão. Montei uma máscara de indiferença e não deixei transparecer que estava chateado com tudo. Meu cotovelo ainda doía por conta do arremesso que sofri na noite anterior e meu antebraço ralado era visível. Ser erguido do chão daquele jeito me trouxe um sentimento de impotência tão grande que hora me deixava triste, hora me deixava puto da vida e hora me fazia me sentir a pessoa inútil de toda. Eu nem revidei – e ainda bem que não fiz isso, porque João estava transtornado e podeira machucar de verdade. Aquele comportamento dele não podia ser normal.
O dia passou lento e custoso, com clientes insuportáveis pedindo trocas e desconto o tempo inteiro. Vontade de mandar todo mundo tomar no cú, mas as contas no final do mês me impediram. Jorge veio até mim umas duas vezes perguntar se estava tudo bem. Renan me mandava uma mensagem a cada fez minutos. Mandou prints de conversas que eu nem quis olhar. Um hora ele disse “eu vou ai quando estiver saindo do seu trabalho”.
“NÃO!”
Respondi irritado para ele.
“EU NÃO QUERO TE VER RENAN”.
“Por favor, foi um mal-entendido, deixa eu ao menos te explicar o que aconteceu?”
“EU NUNCA NA MINHA VIDA PASSEI POR UMA SITUAÇÃO TÃO HUMILHANTE”.
“Eu terminei com o João”.
“Me disse que fez isso há quase um mês!”
“Eu já tinha terminado com ele, eu não menti.”
“Então por que não negou quando ele falou que estava com ele?”
“É complicado, deixa eu conversar com você… Você vai entender”
Eu deliguei o telefone irritado mais irritado que antes. Complicado? Que porra era essa? Ou está namorando ou não está! Voltei a trabalhar mais irritado que antes. Meus olhos marejados, pensei que na raiva começaria a chorar.
Durante o horário de almoço eu fui dar uma volta para espairecer, ainda estava irritado com tudo que aconteceu. Me sentia um verdadeiro idiota nessa história toda. Mas algo no meu subconsciente me dizia para deixar ele falar, dar a ele ao menos o direito de se explicar. Seria justo com ele, mesmo que ele não tivesse sido honesto comigo.
Sentei na praça, respirei fundo e liguei para ele. Ele atendeu no primeiro toque.
- Oi – disse ele com urgência.
- Oi Renan – disse para ele respirando fundo.
- Tudo bem? - perguntou ele.
- Eu pareço alguém bem Renan? - perguntei com a irritação transcrita na voz.
- Eu vou reformular – disse ele. - Você se machucou? Bateu a cabeça?
Fiquei calado um tempo, a irritação oscilando entre desanimo, raiva e chateação.
- Meu cotovelo está um pouco roxo, nada de mais – disse para ele. - Inchou um pouco e está dolorido. Também ralei os antebraços no chão. De resto tudo bem. Não bati a cabeça.
- Graças a Deus – disse ele aliviado. O alívio era nítido em sua voz. - Não quebrou nada?
- Não.
- Foi ao médico…
- Está tudo bem Renan, o que você quer? - perguntei impaciente.
- Por que me atendeu se não quer falar comigo? - perguntou ele preocupado.
- Tecnicamente eu te liguei – disse para Renan. - Acho que por mais babaca que você seja, ao menos devo dar a você o direito de explicar e falar a verdade.
- Eu não menti para você, eu e João não estamos mais juntos – disse ele e aquilo me irritou.
- Então por que não disse isso perto dele quando eu perguntei? - perguntei ele. - Se fosse verdade deveria ter dito “não”.
- Ele estava descontrolado, fiquei com medo dele querer agredir você de novo – disse Renan. - Se ele fosse para cima de você de novo não ia acabar bem. Eu terminei com ele, eu juro, nós não temos nada.
- Me desculpe mas não acredito.
- Você viu os prints que mandei? - perguntou ele.
- Não.
- Veja-os, eu vou esperar. Olha ai agora – disse Renan apressado. - São várias mensagens dele pedindo para voltar. São da data que nos reencontramos até essa semana. Ele não aceitou o término e ficou do jeito que ficou.
Olhei algumas imagens. Era verdade. Haviam mensagens e áudios do João pedindo para voltar. A maioria ele ignorou mas algumas ele respondeu, falando que não podiam continuar juntos, que seria ideal não se verem por um tempo.
Eu suspirei cansado.
- Está vendo, eu não menti para você – disse Renan do outro lado da linha ainda com ares apressado e ansioso. - Deixa eu te ver hoje, eu levo o celular e deixo você ver para ter certeza do que estou falando. Eu posso ser muitas coisas, mas eu não sou mentiroso.
- Não muda o fato que um ex seu me agrediu – disse para ele.
- O João tem Transtorno de Personalidade Boderline e Bipolaridade – disse ele. Eu respirei fundo quando ouvi. - Esse transtorno…
- Eu sei o que é Renan, meu irmão também tem, ao menos o Boderline – disse para ele casando. Enquanto falava com ele via os prints e de fato ele perguntava ao João se ele estava tomando os medicamentos. Tinha ameaças do João em várias mensagens.
- Então deve saber…
- Meu irmão não arremessa pessoas de um lado para o outro – disse para ele.
- Eu posso terminar uma frase antes de você me interromper? - perguntou dele impaciente.
- Pode…
- Então, ele meio que surtou ontem – disse Renan. - Fiquei com medo na hora. Não foi a primeira vez que o João apronta uma dessas comigo, mas agredir alguém, nunca aconteceu. Ainda mais você. Fiquei puto na hora, com medo. Eu não sou uma pessoa que sente medo nada Estressadinho. Mas eu fiquei com medo ontem. Pensei que tivesse batido a cabeça no degrau da porta, que poderia ter tido um concussão e não foi ao hospital. Eu fiquei com muito medo de algo acontecer com você. Depois que foi embora briguei feio com o João e depois fui com ele no CAPS. Ele precisava ser medicado porque estava totalmente fora de si.
Por algum motivo fui ficando mais calmo. Era informação de mais na minha cabeça.
- Eu estou bem, não bati a cabeça – reforcei.
- Podemos nos ver? Eu te busco quando sair do trabalho e a gente conversa.
Olhei a rua movimentada desanimado.
- Podemos Renan – disse para ele. - Mas não me espere na porta do trabalho, vamos nos encontrar na pracinha umas cinco horas. Acho que devo demorar para sair hoje.
- Não gosto que me chama de Renan, mas Ok.
[…]
Eu sai do serviço mais tarde como era esperado. Trabalhei mal o dia todo, irritado e sem paciência. Jorge percebeu que eu não estava bem, mas respeitou o fato de não querer conversar. Estava usando o uniforme da empresa, que era uma camisa social, calça jeans e sapato social preto. Estava suado e todo pregando. Estava com olheiras fundos devido a péssima noite de sono, estava com azia e não tinha comigo nada desde o café da manhã. Resumindo, estava visivelmente péssimo.
Renan não parecia mentir, de fato. Pelos prints deu para ver que ele falava para o João tomar os remédios, falou que não poderiam mais continuar juntos, que a relação entre os dois estava totalmente desgastada. Perguntou se ele estava indo a terapia e tomando os remédios. João por sua vez mandava áudios, pedia para voltar. Fazia ameaças de tirar a própria vida caso não reatassem. Em outras mensagens dizia que não estava comendo, que não estava trabalhando, que só chorava o dia todo. Que situação terrível o Renan tinha se metido. E paralelamente me metendo também nessa história.
Meu irmão também tinha Transtorno de Personalidade Boderline. Ele sofria muito. A pessoa não vive em paz consigo mesma, é como se ela vivesse no limite. Já fui para o CAPS com ele algumas vezes e entendo bem o fato do Renan ter ido também. De repente fiquei com pena do João. Ir na casa do namorado, agredir pessoas, gritar aquela hora da noite. Isso era muito vexatório. Quando a crise passasse ele iria se sentir muito mal com tudo. Ao menos meu irmão entrava em um estado de depressão profunda nos dias que se seguiam.
Com meu irmão não foi diferente, quando ele divorciou ele teve um momento muito complicado. Falava em tirar a própria vida o tempo todo. Todo mundo lá em casa ficava em alerta. Ele perdeu o emprego, não consegui manter contato com ninguém, os amigos se afastaram, ele chorava o dia todo. O tratamento demorou e hoje ele seguia a vida dele, mas não posso negar que vê-lo naquele estado era deprimente. Se Renan de fato gostava de João, talvez estivesse genuinamente preocupado com ele.
Isso apenas complicava o que sentia dentro de mim. Desconfiança, pena, raiva, vergonha… Eram tantas emoções que não sabia o que sentia exatamente. Um lado meu queria sentir muita raiva e xingar e gritar com Renan, outro entendia o quão complexa a situação era.
Quando cheguei na pracinha ele estava sentado olhando o celular. Estava usando calça jeans, sapato social e camisa polo. Quando me aproximei ele me viu. Geralmente ele sorria quando me via, agora ficou sério, deu para ver que não estava bem.
- Oi – disse ele ansioso.
- Oi – disse me sentando no banco.
Estava escurecendo, com o céu tomado por nuvens escuras, mas a previsão dizia que não iria chover. A praça ficava em um bairro bem movimentado ao lado do centro da cidade, então carros passavam de um lado para outro, mesmo sendo sábado. A praça era grande e bem arborizada, onde estávamos sentados tinha uma árvore grande com raízes retorcidas que racharam o chão. O chão parecia muito úmido e sujo de terra, com lodo nos cantos e rente as rachaduras. Um galho grosso e frondoso passava por cima do banco onde estávamos, o que deixava o ambiente com menos claridade. Tudo cheirava mato molhado.
- Como está o braço? – perguntou ele voltando olhar.
- Está bem – disse para ele. Ele pegou o meu braço e olhou. Apertou meu cotovelo e senti uma leve e dor.
- Não é um “ai” de algo trincado ou quebrado – disse ele aliviado. - Ralou um pouco também – disse olhando as esfoliações provocadas pela queda.
- Eu te disse, está tudo bem – disse para ele tentando amenizar a preocupação dele. - Só arranhões.
- Vontade de bater no João – disse ele colocando as duas mão no rosto. Estava visivelmente cansado.
- Fica tranquilo – disse para ele. - Já passou.
Ele pegou o celular, desbloqueou e me entregou.
- Vê ai todas as conversas, tudo que conversei com o João – disse Renan, a tela estava na conversa dele com o João. - Tem datas, áudios, tudo que te falei. Ele mentiu quando disse que estávamos namorando. Queria que você acreditasse nisso para não ficar mais comigo.
- Eu acredito em você – disse empurrando a mão dele, recusando o celular. - Meu irmão já teve alguns momentos de depressão severa e de impulsividade, sei como é lidar com essas coisas. Me disse que ele ainda é bipolar, ai complica mais ainda.
Renan suspirou aliviado.
- Ele está bem? - perguntei.
- Chorou bastante depois que você saiu – disse Renan. Pela primeira vez desde que o conheci vi seu rosto triste. Os olhos azuis-claros estavam aquosos, o olhar estava quebrado e olheiras fundas marcavam seu rosto. - Eu nunca vi ele daquele jeito.
- Eu imagino.
Ficamos um tempo calado.
- Eu esperava muita coisa de você – disse Renan olhando a rua. - Compreensão não era uma delas.
- Não me coloque nesse patamar de bom moço, eu ainda estou com raiva – disse para ele olhando a rua. - O fato do meu irmão passar por algo semelhante me deu uma visão diferente do ocorrido. Talvez a reação fosse diferente em outras circunstâncias.
- Eu não acho isso – disse olhando para cima. Nesse momento o vento suave soprava em nossos rostos.
Me deu muita vontade de abraçar ele na hora. Ver ele daquele jeito partia meu coração. Mas contive o impulso. Eu também estava mal com tudo aquilo. Sendo muito honesto com vocês eu tive muita sorte do João não me agredir diretamente, digo, com socos e chutes. Se isso tivesse acontecido eu provavelmente estaria muito machucado.
- Me desculpe pelo ocorrido, não esperava que isso fosse ocorrer – disse Renan depois de um tempo. O tom de voz desanimado.
- Tudo bem, não foi culpa sua o que aconteceu.
- Eu sei que não foi, mas não consigo não me sentir culpado – disse ele respirando fundo. - Até agora você não entendeu a gravidade do que aconteceu, Estressadinho. João de jogou longe, você caiu perto do degrau da porta da cozinha. Poderia ter batido a cabeça na quina e tudo que aconteceu ter sido muito mais grave. Poderia ter se ferido gravemente...
- Fica bem – disse interrompendo para ele. - Graças a Deus nada disso aconteceu.
Ele de acalmou.
- E nós estamos bem? - perguntou ele com demasiada expectativa no tom de voz.
Eu não respondi por um tempo, e senti a ansiedade dele aumentar.
- Eu pensei bastante Renan, não sei se quero continuar com você – disse para ele. Ele não me olhou. O olhar se manteve fixo no chão.
- Por quê? Tivemos um problema, eu sei. Mas essas coisas acontecem – disse Renan determinado. - A gente não pode desistir no primeiro conflito.
Eu pensei um tempo.
- Aparentemente vocês dois têm coisas para resolver. Esse cara me agrediu. Dessa vez foi um arremesso, amanhã pode ser outra coisa. E como você disse poderia te sido muito mais grave do que de fato foi. Eu confesso que nem tinha pensado nisso. E ele poderia ter me dado um soco, me ferido com algo – disse para ele. - Sendo muito honesto Renan eu estou com medo desse tipo de coisa acontecer de novo.
Ele continuou olhando para o chão e não disse nada por um tempo. Ver ele daquele jeito fazia meu coração se quebrar. Realmente as coisas não pareciam ser culpa dele. Mas o meu ponto não era errado. O João era instável e se tivesse outra crise de ciumes poderia me procurar novamente.
- Você gosta de mim? - perguntou ele.
Eu não respondi um tempo. O silêncio incômodo se instaurou.
- Gosta? - insistiu ele.
- Gosto – disse. - Muito, mais do que achei que gostava.
- Então confie em mim, o João não vai fazer isso de novo – disse Renan. Ele era muito sério e inexpressivo, mas ali podia ver algo que soava quase como uma súplica. - Ele está muito arrependido. Isso poderia ter acabado muito mal. Ele ainda pode ser processado, perder o réu primário. Se você batesse a cabeça naquela desgraça de degrau poderia ter se ferido gravemente. Ele ficou em pânico. Ele queria te ver hoje, queria se desculpar com você. Os sentimentos das pessoas ficam mais intensos quando elas tem esse transtorno e – disse ele. Logo ele se apressou em dizer: - Não estou defendendo ele, longe disso, o que ele fez foi errado, muito errado. Mas eu sei que ele sofre com isso. Ontem ele viu que depois que ele tocou em você não existia chance alguma de reatarmos qualquer coisa. Na verdade ele ficou com medo de eu me afastar dele.
Por um tempo eu não disse nada, fiquei apenas olhando a rua. Minha cabeça estava cheia. Ele se aproximou de mim, eu coloquei a cabeça no ombro dele.
- Eu entendo – disse para ele. - E eu acredito que você acredita no que disse. Mas não pode falar pelo João. Se ele surtar de novo? Ele tem o dobro do meu tamanho, eu não saberia nem me defender dele, ele me tirou do chão como se eu não tivesse peso. Renan… se ele tivesse ido para cima mim ao invés de me jogar para longe ele teria me machucado muito e eu sinceramente tenho medo da SUA reação a isso. É disso que estou com medo. Dessa confusão toda.
- Isso não vai acontecer de novo, eu juro pela minha vida que isso não vai acontecer de novo – disse Renan. - Precisa confirmar em mim.
Fiquei um tempo calado. Meu coração estava pesado, a azia tomando conta de mim. Estava horrível estar ali ao lado com esse sentimento. Eu olhei para ele tentando procurar uma resposta.
- Confia em mim... – disse ele me olhando nos olhos, o tom de voz em súplica.
Respirei fundo olhando para ele, seu rosto estava cheio de expectativa aguardando uma resposta. Porra, eu queria ficar com ele. Meu estômago embrulhava com a simples ideia de colocar um fim em tudo ali. A razão me dizia que era o correto, os sentimentos me diziam o contrário.
- E como ficam as coisas com o João? – perguntei para ele. - Vai se afastar dele?
Ele colocou as duas mão tampando o rosto, parecei exausto antes de responder.
- Por favor não me pede isso – disse ele em súplica. - Eu não posso deixá-lo sozinho.
Eu não disse nada.
- Eu quero ficar com você, muito – disse Renan. - Mas eu não posso deixar o João. Não agora. Ele não tem ninguém. Todos que ele gostava se afastaram dele, inclusive a família. Se eu deixar ele agora eu tenho medo do que pode acontecer com ele, dele tentar alguma coisa...
- Ele gosta de você Renan – disse com o tom de voz firme. - Corre algum risco de vocês voltarem? De ter alguma recaída? - eu me sentia a pessoa mais idiota do mundo perguntando aquilo. Um mentiroso falaria que não, uma pessoa honesta também. Mas eu queria ouvir, olhando nos olhos dele.
- Nunca – disse Renan. - Não existe nenhuma chance disso acontecer. Eu quero você Estressadinho, só você. E o João sabe disso. Ontem ele viu que não existe nenhuma chance de reatarmos. Ele entendeu que eu quero você e vou me afastar dele se ele ficar contra isso.
Eu suspirei naquele momento. Estava aliviado por não ter sido traído, mas triste com a situação toda.
- Oh vida difícil – disse para ele. Renan me voltou o olhar e eu forcei um sorriso, sem muito sucesso.. - Eu quero distância dele. Não quero ver ele de novo.
Ele passou um braço por cima do meu ombro e me puxou para mais perto dele. Depois suspirou aliviado também. Pude ver ele se relaxando ao meu lado.
- Eu achei que ia te perder, Estressadinho – disse ele me fazendo carinho no braço.
- Hoje não – disse para ele pensando se eu teria que aturar o ex dele na minha vida. Meu Deus, só eu mesmo para me envolver com esse tipo de situação. Eu sou muito trouxa.
- Espero que nunca – disse ele me olhando e reparando no meu rosto. - Está com o semblante abatido, parece cansado – ele reparava no meu rosto como se estivesse vendo ele pela primeira vez naquele dia. Ele fez um carinho na minha bochecha. Eu estava péssimo.
- Vejo o mesmo – disse para ele. - Está cheio de olheiras.
- Trabalhei muito ontem, estava exausto. Ai passei a noite toda acordado com o João no CAPS. Sinceramente estou muito cansado. Só quero dormir.
- Eu também…
Ele me envolveu em seus braços e me beijou. E aquele foi o melhor beijo que ele me deu. Um beijo intenso, dominante, mas também apaixonado. Coloquei a mão no rosto dele enquanto ele me beijava com muita vontade, ele me envolvia com seus braços como se eu fosse fugir dali, parecia que ele queria me segurar como se eu fosse sair correndo a qualquer momento. O cheiro dele me envolveu, aquele cheiro único dele. O beijo dele sempre me invadia, me deixando sem fôlego. O beijo dele era salgado, tinha um gosto único. Podia ficar ali por quanto tempo ele quisesse. Quando ele parou olhei nos olhos dele, aqueles olhos lindos. Eu fiquei surpreso por ele ter me beijado na rua. Ele era muito discreto, ainda mais por ser militar e ter a chance de se deparar com algum colega por ali.
- Você é lindo – disse ele. - Como pode pensar que teria vergonha de você?
Fiquei um pouco envergonhado me lembrando que perguntei isso para ele. Senti minhas bochechas arderem.
- Esquece isso – disse para ele.
- Eu nunca vou esquecer – disse Renan. - Eu achei fofo você todo preocupado.
Ele sorriu, provavelmente vendo meu rubor nas bochechas.
- Eu… eu… - fiquei sem saber o que dizer. Que vergonha que senti ao me lembrar daquilo. Meu rosto seguiu ardendo.
- Pode ser honesto com você? - perguntou ele.
- Deve, sempre – disse para ele.
- Eu falei com o João que não deixaria ele sozinho, prometi isso a ele – disse Renan sério, mas com ares de alívio na voz. - Mas deixei claro para ele que se você fosse embora da minha vida eu nunca o perdoaria. Nem a minha amizade mais ele voltaria a ter. Por isso ele ficou com tanto medo – ele deu uma pausa. - Eu não consigo me imaginar perdendo você Estressadinho. Você não tem faz ideia de como eu me senti essa noite. Fiquei com medo de você acreditar na mentira dele.
Aquilo me deixou surpreso.
- Não posso dizer que inicialmente não acreditei – disse para ele.
- Eu sei, por isso fiquei apavorado – disse ele.
- Apavorado? Por mim – não pude deixar de sorri.
- Lógico, tá doido? Temos muita coisa para viver ainda – disse ele me olhando de forma intensa. - E não aceitaria de forma alguma alguém atrapalhar isso. Demorei a vida toda para te achar.
Eu sorri.
- Pois diga ao João para ele então para ficar com o coração tranquilo, eu não vou a lugar nenhum.
[…]
Agora meu coração estava leve, muito leve. Não houve traição, não teve mentira da parte dele. Só uma situação bem esquisita com um ex estranho. Mas fato era que estávamos bem. Talvez em um filme a gente fosse se beijar loucamente e transar em todos os cômodos da casa. Mas na vida real foi um tanto anticlímax quando cheguei na casa dele. Ambos estávamos exaustos. A gente tomou banho, comemos uma coisa gostosa e antes das oito da noite estávamos dormindo.
A grande pergunta que ficou na minha cabeça era: será que depois desse ocorrido, que envolveu sentimentos, mentira, frustração, raiva, briga, ele seria mais dominador comigo? Ou seria o contrário, aos pouco a gente caminhando para uma relação comum? Não cheguei a perguntar ele. Essa dúvida que tive só o tempo vai responder.