Na hora do almoço, Júlia pegou o celular e disse com naturalidade:
— Vou pedir comida pra gente. Mas já aviso… você que vai pegar.
Carol arregalou os olhos.
— Eu? Júlia, você tá louca? E se…
— E se nada. Você tá linda. Tá natural. Tá segura. Confia no que você tá vendo no espelho.
Carol respirou fundo, mas o coração já estava acelerado só de imaginar.
O pedido foi feito. Agora era esperar.
Cada notificação do aplicativo fazia o estômago gelar um pouco mais.
— Tá chegando — anunciou Júlia, divertida.
— Eu vou tremer.
— Tremendo ou não, você vai. E vai arrasar.
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A campainha tocou.
O som pareceu ecoar pelo apartamento inteiro.
Carol ficou imóvel por um segundo.
— Vai — Júlia sussurrou, sorrindo de incentivo.
Ela caminhou até a porta sentindo a rasteirinha tocar o chão de forma quase alta demais. Ajustou a blusinha. Passou a mão pelos cabelos ondulados.
Olhou pelo olho mágico.
Um rapaz jovem, mochila térmica nas costas. Até bonito.
O coração quase saiu pela boca.
Abriu a porta.
— Boa tarde… — disse, forçando suavidade na voz.
O entregador olhou para ela por um segundo a mais do que o necessário. Sorriu.
— Boa tarde. Pedido pra Júlia?
— Isso… obrigada.
Pegou as marmitas com cuidado para não deixar as mãos tremerem demais.
Ele ainda a encarava com um meio sorriso.
— Você é… amiga dela?
— Sou sim.
— Ah… — ele inclinou levemente a cabeça. — Então tá explicado.
Carol piscou, confusa.
— Explicado o quê?
Ele deu um sorriso rápido.
— Nada não. Só que a casa dela é bonita… agora eu vi que as visitas também são.
O rosto dela esquentou instantaneamente.
— Obrigada… — respondeu, quase sussurrando.
Quando estava fechando a porta, ele piscou discretamente.
A porta se fechou.
Silêncio.
Carol encostou as costas nela por um segundo, tentando processar o que tinha acabado de acontecer.
Júlia apareceu na sala com um sorriso enorme.
— Eu vi essa piscadinha!
— Júlia! — Carol levou a mão ao rosto. — Você viu?!
— Vi! Minha filha, você tá arrasando corações na entrega de marmita!
Carol começou a rir, ainda nervosa.
— Para! Eu quase deixei cair a comida!
— E ele ainda te elogiou. Se isso não é validação, eu não sei o que é.
Carol entrou na brincadeira:
— Olha… se for assim, talvez eu me saia bem com os homens mesmo, hein? — disse, rindo.
— Talvez? Eu tenho certeza!
As duas foram para a mesa.
Enquanto almoçavam, Júlia começou a dar pequenas dicas:
— Quando for se servir, movimentos mais suaves. Não precisa exagerar, é naturalidade.
— Eu fico com medo de parecer forçado.
— Então pensa menos no gesto e mais na intenção. Postura reta, ombros relaxados. E mastiga devagar, sem pressa.
Carol tentava aplicar tudo, rindo de si mesma quando exagerava sem perceber.
— Eu tô em aula intensiva — comentou.
— Curso completo, querida.
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Depois do almoço, foram para o sofá.
A TV ligada em volume baixo. Conversa leve. Risadas.
O corpo relaxou.
Sem perceber, acabaram cochilando.
Quando Carol abriu os olhos, a luz já estava diferente.
— Que horas são? — perguntou, ainda sonolenta.
Júlia olhou o celular.
— Quase 17h.
Carol sentou de repente.
— Nossa!
Júlia esticou os braços e sorriu de canto.
— Hora de se preparar pra noite.
O coração de Carol acelerou outra vez.
— Preparar… como assim?
Júlia levantou, caminhando em direção ao quarto.
— Eu disse que hoje era dia inteiro. A tarde foi leve. Mas a noite… — ela parou na porta e virou o rosto com um olhar misterioso — a noite pode ser especial.
Carol sentiu aquele friozinho conhecido na barriga.
O que será que Júlia estava planejando?
Ela levantou do sofá, ajeitou o cabelo e seguiu a amiga pelo corredor, sabendo que aquele dia ainda estava longe de terminar.