O despertar não foi como nos filmes. Não teve música, nem corte de cena. Foi uma infiltração lenta de dor e uma sensação de que meu corpo não era meu. A primeira coisa que senti foi um aperto sufocante nas costelas. Tentei respirar fundo e não consegui; parecia que tinha uma cinta de ferro me esmagando.
Quando tentei levar a mão à testa pra segurar a batida da ressaca, senti um estalo seco na pálpebra. Meu olho esquerdo estava meio colado por uma crosta de rímel.
Abri o olho que sobrava e o teto da república parecia estar derretendo. Movi a perna e o som me deu um gelo na espinha: o shhh áspero de uma meia-calça de nylon roçando no lençol. Aquele barulho seco, de tecido sintético, não tinha nada a ver com o meu quarto.
Sentei rápido demais e o mundo girou. Olhei para baixo e vi o brilho cínico de mil paetês pretos no meu colo. Meus dedos estavam manchados de um esmalte vermelho descascado e tinha glitter grudado no meu braço como se eu tivesse explodido um carnaval em cima de mim.
— Puta merda... — minha voz saiu um lixo, toda arranhada.
Do meu lado, o Lucas se mexeu. O braço dele estava jogado quase em cima da minha coxa, que agora estava envolta naquele brilho barato. O pânico veio frio. Levantei, sentindo os meus dedos do pé em sapapatilhas, e me arrastei até o espelho do armário.
O que eu vi não era engraçado. Era um desastre.
Meu rosto parecia uma pintura borrada pela chuva. O rímel tinha escorrido em linhas pretas até o queixo e o batom rosa estava espalhado como se eu tivesse levado um soco na boca. No chão, a peruca loira parecia um bicho morto. Eu sentia o cheiro de cerveja e aquele odor metálico de maquiagem que parece que sela os poros da pele.
— Arthur? — a voz do Lucas veio abafada pelo travesseiro. — Que horas são, cara?
Travei. No reflexo, vi ele sentando na cama, todo descabelado e com o olho miúdo por causa da luz. Eu era um cara de 1,70m, vestido com um tubinho preto curto que subia cada vez que eu respirava.
— Cara... — Lucas soltou um suspiro, tipo um riso que ele tentou segurar, mas que no fundo tinha um pouco de pena. — Eles acabaram com você, né?
Virei devagar. O som das lantejoulas batendo umas nas outras era irritante.
— "Eles" quem, Lucas? Eu não lembro de nada depois que o Renan me deu aquele copo de plástico no quintal
Só lembro de gente rindo e alguém passando batom na minha cara.
Lucas desviou o olho, olhando para o chão.
— Foi o batismo da "mascote", Arthur. Você estava rindo também, no começo. Aí o pessoal da Engenharia trouxe esse vestido e disse que, se você aguentasse a noite toda com ele, não ia precisar pagar o fundo de festas.
Olhei para as minhas pernas. Senti um nó no estômago que não era só da bebida. Era o buraco na memória.
— Eu preciso tirar essa porra. Agora — falei, já sentindo o suor frio derreter o pó no meu rosto e virar uma lama cinzenta.
Fui direto para o banheiro e o choque de realidade bateu. Começaram a pipocar vídeos da noite anterior no celular e o Lucas falou:
— Apaga isso cara!
— E eu vou fazer o quê? Tenho que saber o que aconteceu Lucas! — Eu já estava ofegante, sentindo o tecido pinicar cada centímetro da minha pele.
Lucas parou na minha frente. Ele estava perto demais, dava pra sentir o calor do corpo dele e o cheiro de álcool. Ele olhou pro meu pescoço e a cara dele mudou. O riso sumiu. Ele ficou sério, meio estranho.
— Arthur — ele falou baixo, quase num sussurro. — Tem uma coisa que você precisa saber sobre como a gente veio parar aqui ontem à noite.
Senti os dedos do Lucas lutando com o metal frio nas minhas costas. O zíper estava enterrado no tecido e cada puxão dele fazia o vestido esmagar ainda mais minhas costelas.
— Calma, Lucas... tá prendendo na minha pele — reclamei, sentindo uma fisgada ardida.
— Eu tô tentando, porra, mas esse troço é vagabundo demais, o carrinho travou — ele resmungou, a voz vindo de cima do meu ombro, carregada daquele hálito quente de quem também não tinha escovado os dentes.
Eu estava ali, imóvel, encarando meu reflexo destruído no espelho enquanto sentia as mãos dele tateando minhas costas, tentando desesperadamente me livrar daquela vestido . A proximidade era absurda. Eu sentia o peito dele encostado nas minhas escápulas.
Foi quando o som cortou o ar.
BUM. BUM. BUM.
Três batidas na porta do quarto.
— Ô Cinderela! Acorda que o sapatinho de cristal tá aqui na mão do Renan! — Era a voz do Caio, um veterano do terceiro ano, projetada para o corredor inteiro ouvir.
Meu coração disparou tanto que achei que ia estourar o zíper por conta própria. Olhei pro Lucas pelo espelho. Ele arregalou os olhos, a mão ainda presa nas minhas costas.
— Abre aí, Arthur! O vídeo de você rebolando no colo do Lucas já tá rodando a engenharia toda— Outra voz, mais longe, gritou seguida de gargalhadas.
— Puta que pariu, Lucas... — sussurrei, o pânico subindo como um ácido. — Se eles entrarem agora e virem a gente assim... nesse estado...
Eu e Lucas ficamos estáticos dentro do quarto . Tinham três ou quatro caras na porta fazendo barulho, jogando latas vazias no chão.
— Cadê a nossa noiva? — a voz do Renan estava bem nítida— Arthur? Lucas? Eu sei que vocês tão aí!
Eu olhei para o Lucas, num pedido mudo de socorro. Eu estava com o vestido aberto nas costas, a meia-calça arriada , o rosto borrado e uma marca roxa no pescoço que qualquer um identificaria a um quilômetro de distância. Se eles abrissem aquela porta, a história deixaria de ser um trote engraçado e viraria o maior escândalo que aquela faculdade já viu.
Lucas colocou a mão na minha boca, sinalizando silêncio absoluto. Ele deu um passo para trás, ficando entre mim e a porta , tentando usar o próprio corpo como escudo.
— Sai daí, Lucas! Deixa a gente ver como ficou a produção! — O Renan deu um tapa na porta , que balançou, quase cedendo.
— O que a gente vai fazer agora Lucas?
Continua
