A rainha da choppada

Um conto erótico de Michele cdzinha
Categoria: Crossdresser
Contém 1045 palavras
Data: 04/03/2026 16:13:33
Assuntos: crossdresser

O despertar não foi como nos filmes. Não teve música, nem corte de cena. Foi uma infiltração lenta de dor e uma sensação de que meu corpo não era meu. A primeira coisa que senti foi um aperto sufocante nas costelas. Tentei respirar fundo e não consegui; parecia que tinha uma cinta de ferro me esmagando.

​Quando tentei levar a mão à testa pra segurar a batida da ressaca, senti um estalo seco na pálpebra. Meu olho esquerdo estava meio colado por uma crosta de rímel.

​Abri o olho que sobrava e o teto da república parecia estar derretendo. Movi a perna e o som me deu um gelo na espinha: o shhh áspero de uma meia-calça de nylon roçando no lençol. Aquele barulho seco, de tecido sintético, não tinha nada a ver com o meu quarto.

​Sentei rápido demais e o mundo girou. Olhei para baixo e vi o brilho cínico de mil paetês pretos no meu colo. Meus dedos estavam manchados de um esmalte vermelho descascado e tinha glitter grudado no meu braço como se eu tivesse explodido um carnaval em cima de mim.

​— Puta merda... — minha voz saiu um lixo, toda arranhada.

​Do meu lado, o Lucas se mexeu. O braço dele estava jogado quase em cima da minha coxa, que agora estava envolta naquele brilho barato. O pânico veio frio. Levantei, sentindo os meus dedos do pé em sapapatilhas, e me arrastei até o espelho do armário.

​O que eu vi não era engraçado. Era um desastre.

​Meu rosto parecia uma pintura borrada pela chuva. O rímel tinha escorrido em linhas pretas até o queixo e o batom rosa estava espalhado como se eu tivesse levado um soco na boca. No chão, a peruca loira parecia um bicho morto. Eu sentia o cheiro de cerveja e aquele odor metálico de maquiagem que parece que sela os poros da pele.

​— Arthur? — a voz do Lucas veio abafada pelo travesseiro. — Que horas são, cara?

​Travei. No reflexo, vi ele sentando na cama, todo descabelado e com o olho miúdo por causa da luz. Eu era um cara de 1,70m, vestido com um tubinho preto curto que subia cada vez que eu respirava.

​— Cara... — Lucas soltou um suspiro, tipo um riso que ele tentou segurar, mas que no fundo tinha um pouco de pena. — Eles acabaram com você, né?

​Virei devagar. O som das lantejoulas batendo umas nas outras era irritante.

​— "Eles" quem, Lucas? Eu não lembro de nada depois que o Renan me deu aquele copo de plástico no quintal

Só lembro de gente rindo e alguém passando batom na minha cara.

​Lucas desviou o olho, olhando para o chão.

​— Foi o batismo da "mascote", Arthur. Você estava rindo também, no começo. Aí o pessoal da Engenharia trouxe esse vestido e disse que, se você aguentasse a noite toda com ele, não ia precisar pagar o fundo de festas.

​Olhei para as minhas pernas. Senti um nó no estômago que não era só da bebida. Era o buraco na memória.

​— Eu preciso tirar essa porra. Agora — falei, já sentindo o suor frio derreter o pó no meu rosto e virar uma lama cinzenta.

​Fui direto para o banheiro e o choque de realidade bateu. Começaram a pipocar vídeos da noite anterior no celular e o Lucas falou:

— Apaga isso cara!

​— E eu vou fazer o quê? Tenho que saber o que aconteceu Lucas! — Eu já estava ofegante, sentindo o tecido pinicar cada centímetro da minha pele.

​Lucas parou na minha frente. Ele estava perto demais, dava pra sentir o calor do corpo dele e o cheiro de álcool. Ele olhou pro meu pescoço e a cara dele mudou. O riso sumiu. Ele ficou sério, meio estranho.

​— Arthur — ele falou baixo, quase num sussurro. — Tem uma coisa que você precisa saber sobre como a gente veio parar aqui ontem à noite.

Senti os dedos do Lucas lutando com o metal frio nas minhas costas. O zíper estava enterrado no tecido e cada puxão dele fazia o vestido esmagar ainda mais minhas costelas.

​— Calma, Lucas... tá prendendo na minha pele — reclamei, sentindo uma fisgada ardida.

​— Eu tô tentando, porra, mas esse troço é vagabundo demais, o carrinho travou — ele resmungou, a voz vindo de cima do meu ombro, carregada daquele hálito quente de quem também não tinha escovado os dentes.

​Eu estava ali, imóvel, encarando meu reflexo destruído no espelho enquanto sentia as mãos dele tateando minhas costas, tentando desesperadamente me livrar daquela vestido . A proximidade era absurda. Eu sentia o peito dele encostado nas minhas escápulas.

​Foi quando o som cortou o ar.

​BUM. BUM. BUM.

​Três batidas na porta do quarto.

​— Ô Cinderela! Acorda que o sapatinho de cristal tá aqui na mão do Renan! — Era a voz do Caio, um veterano do terceiro ano, projetada para o corredor inteiro ouvir.

​Meu coração disparou tanto que achei que ia estourar o zíper por conta própria. Olhei pro Lucas pelo espelho. Ele arregalou os olhos, a mão ainda presa nas minhas costas.

​— Abre aí, Arthur! O vídeo de você rebolando no colo do Lucas já tá rodando a engenharia toda— Outra voz, mais longe, gritou seguida de gargalhadas.

​— Puta que pariu, Lucas... — sussurrei, o pânico subindo como um ácido. — Se eles entrarem agora e virem a gente assim... nesse estado...

​Eu e Lucas ficamos estáticos dentro do quarto . Tinham três ou quatro caras na porta fazendo barulho, jogando latas vazias no chão.

​— Cadê a nossa noiva? — a voz do Renan estava bem nítida— Arthur? Lucas? Eu sei que vocês tão aí!

​Eu olhei para o Lucas, num pedido mudo de socorro. Eu estava com o vestido aberto nas costas, a meia-calça arriada , o rosto borrado e uma marca roxa no pescoço que qualquer um identificaria a um quilômetro de distância. Se eles abrissem aquela porta, a história deixaria de ser um trote engraçado e viraria o maior escândalo que aquela faculdade já viu.

​Lucas colocou a mão na minha boca, sinalizando silêncio absoluto. Ele deu um passo para trás, ficando entre mim e a porta , tentando usar o próprio corpo como escudo.

​— Sai daí, Lucas! Deixa a gente ver como ficou a produção! — O Renan deu um tapa na porta , que balançou, quase cedendo.

— O que a gente vai fazer agora Lucas?

Continua

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