A semana havia sido um turbilhão para Júnior, mas não pelos motivos que Sheila imaginava. Enquanto ele, metodicamente, monitorava os relatórios de desempenho da SUBLIME à distância, o verdadeiro motor de sua mente estava em outra órbita. Cada número analisado, cada estratégia traçada, era permeado pela imagem dos olhos verdes de Eduardo, pelo som de sua risada despreocupada, e, inevitavelmente, pela sensação da pele quente dos seus pés sob suas mãos. Aquele par de meias, cuidadosamente guardado no fundo de sua gaveta, era um lembrete físico da "conexão" inusitada que havia se estabelecido na semana anterior.
Ao estacionar o carro em frente à clínica, uma semana depois daquele almoço inusitado, Júnior sentiu uma familiar mistura de profissionalismo e uma pontada de nervosismo quase juvenil. A fachada da SUBLIME, com suas cores vibrantes e o burburinho de clientes, parecia mais acolhedora do que nunca, confirmando o sucesso de suas estratégias.
Ananda o recebeu com um sorriso mais aberto e vibrante desta vez. — Júnior! Que bom te ver! — ela exclamou, com uma energia contagiosa. — A clínica está bombando, você não tem ideia! Mamãe está radiante, e até a gente aqui está correndo para dar conta!
Júnior sorriu, um profissionalismo fácil cobrindo a ansiedade que sentia. — Ótimas notícias, Ananda! Fico feliz em ouvir que tudo está indo tão bem. Onde está a Sheila? Gostaria de conversar com ela sobre os próximos passos.
— Na sala dela, como sempre. — Ananda respondeu, apontando para o corredor enquanto atendia o telefone com a outra mão. — Acho que ela nem teve tempo de respirar essa semana, com tanta coisa acontecendo!
A reunião com Sheila foi, como previsto, produtiva e animadora. Os resultados falavam por si: a clínica havia experimentado um crescimento notável, superando as expectativas, e o otimismo da proprietária era mais do que palpável; era quase eufórico. Sheila elogiava a dedicação de Júnior, sua visão estratégica apurada e sua capacidade de aliviar o peso de suas responsabilidades.
— Júnior, você tem sido um anjo na clínica, de verdade! — Sheila disse, um sorriso genuíno e relaxado iluminando seu rosto, algo que Júnior não via desde o primeiro encontro. — Não só a clínica, que está um sucesso graças ao seu empenho e suas ideias... — Ela gesticulou com as mãos, visivelmente mais leve. — ...mas até o clima em casa parece ter melhorado. É como se o peso das minhas preocupações na empresa tivesse diminuído, e isso reverberasse em tudo. Não sei o que eu faria sem a sua ajuda profissional, Júnior. Você caiu do céu para salvar a clínica!
Júnior sentiu um calor no peito, um rubor inevitável subindo-lhe pelas maçãs. Ele pigarreou, tentando disfarçar a intensidade de seus próprios sentimentos. Era a validação que ele não sabia que procurava, a confirmação de que sua influência profissional estava sendo notada, elevando-o a um papel quase indispensável. Sua "doce servidão" encontrava um novo terreno, mais amplo e igualmente satisfatório. — Ah, que isso, Sheila. — ele respondeu, com a voz um pouco mais rouca do que gostaria. — Faz parte do trabalho, sabe? Ajudo no que posso para o bem-estar de todos, o que reflete diretamente no ambiente da clínica.
Sheila assentiu, distraidamente, já voltando a olhar para os papéis em sua mesa, sua mente já no próximo desafio da clínica. — Enfim, preciso resolver umas coisas urgentes aqui na clínica. Tenho uma reunião com fornecedores que vai se estender um pouco mais. Você se importa de usar a casa de novo? Eduardo deve chegar da escola em breve, e Afonso pode estar por lá também.
O coração de Júnior deu um pulo. "Eduardo deve chegar em breve." A casa. Sozinhos. Aquele cenário se desdobrando novamente, mas agora com uma semana de fantasias acumuladas. — Sem problemas, Sheila. A casa é ótima para focar, e é sempre um prazer ajudar. Fique tranquila.
Pouco depois, Júnior estava novamente na casa ao lado. O cheiro de casa, de vida, e agora, inegavelmente, o cheiro de... Eduardo, permeava o ar. Ele tentou se concentrar no MacBook, abrindo os arquivos de dados e gráficos, mas seus olhos, de forma autônoma, vasculhavam o ambiente. Perto do sofá, as mesmas Havaianas brancas estavam ali, jogadas de forma displicente. Por um instante, ele teve o impulso de pegá-las novamente, de verificar as marcas, de sentir o peso, mas se conteve. "Foco, Júnior," ele se repreendeu, mas o sorriso interno, um misto de antecipação e excitação, era inevitável.
O relógio marcava quinze para as duas quando a porta da frente se abriu com um leve rangido, quebrando o silêncio que, mais uma vez, Júnior não conseguiu manter. Eduardo entrou, um fone de ouvido branco pendurado em seu pescoço, o boné virado para trás, e uma mochila jogada sem cerimônia no chão ao lado do sofá. Ele vestia uma camiseta desbotada do Real Madrid e uma samba-canção de basquete, que expunha quase completamente suas pernas fortes e bronzeadas. Ao ver Júnior, ele apenas acenou com a cabeça, um "e aí" meio abafado, e se jogou no sofá com um suspiro dramático, como se carregasse o peso do mundo.
Júnior piscou, a tela do MacBook à sua frente perdendo o foco momentaneamente. O boné virado para trás, a camiseta desbotada, a samba-canção... Tudo nele exalava uma despreocupação quase afrontosa, um contraste gritante com a postura sempre controlada de Júnior. Ele sentiu o rubor em suas maçãs do rosto, a mesma reação juvenil que o pegava desprevenido toda vez que Eduardo o fazia sentir algo mais do que o profissionalismo exigia.
Eduardo não se moveu do sofá, mas inclinou a cabeça para o lado, o fone de ouvido ainda pendurado, e virou-se na direção de Júnior, uma expressão de cansaço misturada com uma leve irritação em seu rosto de traços jovens. Os olhos verdes, que Júnior havia tanto fantasiado, agora pareciam um pouco opacos, fixos nele com uma impaciência estudada.
— E então? — a voz de Eduardo soou baixa, um pouco arrastada, como quem não tem paciência para rodeios. — O que você está esperando para vir fazer a massagem nos meus pés? Acha que eles vão se massagear sozinhos depois de um dia inteiro na escola?
Júnior sentiu um arrepio familiar, a mesma onda elétrica que o havia percorrido na semana anterior, mas agora com uma intensidade eletrizante. A ordem veio explícita, quase agressiva, e para Júnior, era a música mais doce. Ele engoliu em seco, um misto de surpresa e um desejo ainda mais forte de agradar o inundando. Aquelas palavras, ditas com tamanha folga e convicção, eram a confirmação de que sua doçura havia sido notada, e aceita.
Ele obedeceu prontamente. Fechou o MacBook e colocou-o cuidadosamente sobre a mesa. Com movimentos que tentavam ser controlados, mas que denunciavam a euforia que o invadia, Júnior se aproximou do sofá onde Eduardo estava largado. O aroma do futsal, já familiar, invadiu suas narinas. A euforia de Júnior deu lugar a uma pontada de desapontamento, rapidamente engolida. Ele obedeceu. Sem mais delongas, Júnior se ajoelhou diante do sofá. Com um suspiro quase inaudível, ficou de frente para o primeiro pé de Eduardo, bem próximo ao seu rosto e começou a massageá-lo.
Enquanto Eduardo vasculhava seu celular, com os fones de ouvido agora em seus ouvidos, tocando uma música que Júnior mal podia ouvir, este começou a massagem. Os dedos de Júnior moveram-se com a precisão de um artista, pressionando os pontos certos, deslizando pela planta do pé, pelos arcos, entre os dedos. A cada movimento, ele esperava um sinal, uma palavra, um gemido de satisfação. Mas Eduardo permaneceu calado, os olhos fixos na tela, apenas o polegar da mão que não estava sendo massageada deslizando pelo display.
Júnior observou o rosto de Eduardo. Não havia o sorriso preguiçoso de antes, nem a gratidão verbal. Os olhos verdes estavam focados, a testa ligeiramente franzida em concentração na música e no celular. Não era uma expressão de amizade, nem de calor, mas de pura e simples expectativa de serviço. Júnior percebeu, com uma pontada de ansiedade, que Eduardo não estava ali para amigos hoje. Estava ali para ser servido. E ele, Júnior, era o serviçal.
A massagem continuou em silêncio, apenas o som abafado da música vindo dos fones de Eduardo. Júnior concentrava-se em cada nervura, cada músculo, buscando o ponto exato para aliviar a tensão. De repente, a voz de Eduardo quebrou o silêncio, sem desviar o olhar do celular.
— Mais pro lado. — murmurou, o tom neutro.
Júnior ajustou o movimento.
— Agora, mais forte. — A instrução veio, seca.
Júnior obedeceu, aplicando mais pressão, sentindo a resposta do músculo tenso sob seu polegar. Eduardo não ofereceu mais nenhuma palavra de incentivo, apenas a orientação esparsa, como um comandante dando ordens a um subordinado eficiente. A cada toque, Júnior se sentia mais entregue, mais focado na tarefa de agradar.
Quando Júnior estava quase terminando o primeiro pé, Eduardo, sem preâmbulos, virou o rosto para ele, a música ainda ecoando de seus fones, mas seus olhos verdes fixos nos de Júnior, com uma intensidade que fez o coração de Júnior falhar uma batida.
— Júnior, onde você mora? — a pergunta veio abrupta, direta, sem o menor sinal de curiosidade casual.
Júnior gelou. A pergunta, tão inesperada e invasiva, pegou-o desprevenido. Ele nunca havia sequer considerado que Eduardo pudesse se importar com tal detalhe. Gaguejou um pouco antes de responder, o rubor espalhando-se rapidamente por seu rosto.
— Na... na rua dos Buritis, sabe? Perto do parque, aqui em Goiânia mesmo. É um prédio.
Eduardo inclinou a cabeça, um sorriso lento e presunçoso brincando em seus lábios. Os olhos verdes pareciam se divertir com o desconforto de Júnior. — Ah, sim. Conheço. — Ele fez uma pausa, e o silêncio que se seguiu pareceu eterno para Júnior. — Que bom. Porque qualquer dia desses eu apareço lá na sua casa para ver se encontro minha meia.
O sangue de Júnior sumiu do rosto. Ele sentiu o corpo inteiro enrijecer, a respiração presa na garganta. Sua mente, um turbilhão. A meia. A meia do treino de futsal, a que ele guardara secretamente. Eduardo sabia? Como? O pânico, gelado e avassalador, o atingiu em cheio.
— C-como assim, Eduardo? — Júnior balbuciou, a voz quase inaudível, as mãos suadas pairando sobre o pé de Eduardo.
Eduardo finalmente tirou os fones de ouvido, os olhos semicerrados avaliando a reação de Júnior com uma calma quase cruel. Um sorriso lento e presunçoso alargou-se em seus lábios.
— Ah, Júnior, você realmente achou que eu não notaria? Que eu não lembraria? — Eduardo questionou, a voz baixa, mas carregada de uma perspicácia fria. — Todas as minhas roupas estavam na máquina, limpas e cheirosas, prontas para usar. Exceto por uma. Minha meia esportiva preta com listras brancas, a que eu usei no futebol da semana passada. A única que sumiu da lavanderia depois que você "ajudou" a recolher minhas coisas da primeira vez. A única que não estava entre as limpas que Ananda me trouxe.
Júnior recuou instintivamente, o rosto pálido e a confissão silenciosa estampada em seus olhos arregalados. Ele sentiu o calor subir por seu pescoço, o rubor se espalhando como uma queimadura. Não havia desculpa, não havia como negar. Aquele segredo íntimo, um tesouro particular de sua devoção, estava exposto, revelado pela astúcia casual de Eduardo. O choque era avassalador, misturado a uma pontada perversa de excitação por ter sido descoberto.
Eduardo observava a cena com um brilho de triunfo nos olhos. Ele sabia que havia acertado em cheio. A expressão de Júnior, uma mistura de vergonha, medo e uma estranha adoração, era o que ele esperava.
— E então? — Eduardo perguntou, a voz agora um pouco mais grave, abandonando completamente o tom de desinteresse. Ele removeu o primeiro pé da mesa de centro, fazendo com que nada impedisse Júnior de olhá-lo nos olhos. — Não vai falar nada?
Júnior tentou articular algo, mas as palavras se embolaram em sua garganta seca. Ele balançou a cabeça ligeiramente, os olhos baixos, incapaz de encarar o olhar penetrante de Eduardo. Era demais. A humilhação era profunda, mas a sensação de ser compreendido em seu segredo mais oculto era igualmente potente.
— S-sim, Eduardo. É... é verdade. Eu... eu guardei sua meia. — a voz de Júnior saiu num fio de som, um sussurro de confissão. — Eu sei que foi errado. E-eu posso devolver.
Eduardo riu, um som seco e que enviou um calafrio pela espinha de Júnior. — Devolver? — ele repetiu, o escárnio evidente. — E por que você a pegou, Júnior? Por que você guardou uma meia suja, que para mim não significava nada além de sujeira, e para você... o que ela é para você?
Júnior levantou o olhar, seus olhos marejados se encontrando com os de Eduardo. Era agora ou nunca. A verdade, por mais estranha que fosse, precisava ser dita. — É... é um lembrete. — ele começou, a voz ainda trêmula, mas ganhando um fio de coragem. — Um lembrete de você. De sua força, de sua vitalidade. Do seu cheiro... da sua... presença. Eu sei que é estranho, mas... ela me faz sentir... conectado. É a minha forma de... de estar perto.
Eduardo permaneceu imóvel, o semblante neutro, absorvendo cada palavra. O que antes era um sorriso presunçoso deu lugar a uma expressão pensativa, quase calculista. Ele esticou a perna novamente, mas desta vez, não para apoiar o pé na mesa de centro, e sim para colocá-lo, descalço, próximo ao rosto de Júnior, que ainda estava ajoelhado. O pé de Eduardo, com seus arranhões e manchas de terra, agora repousava ali, macio e quente.
— Entendi. — Eduardo disse, a voz quase um sussurro, mas carregada de uma autoridade que Júnior nunca havia presenciado. — Então, você gosta dos meus pés, não é? Do meu cheiro? De estar conectado a mim?
Júnior assentiu, os olhos fixos no pé de Eduardo, um pavor misturado com um desejo avassalador.
— Bom. — Eduardo continuou, os olhos verdes cintilando com um novo tipo de poder. — Então, já que você gosta tanto de estar "conectado"... continue a massagem. E desta vez, eu quero que você me mostre o quanto você gosta. De verdade. Sem segredos. E se você quiser manter minha meia, vai ter que merecer. Cada centímetro.
Júnior não precisou de mais palavras. Ele pegou o pé de Eduardo com ambas as mãos, seus dedos tremendo, e começou a massageá-lo com um fervor renovado, uma devoção que ia além da simples tarefa. As palavras de Eduardo não eram uma punição, mas um desafio, uma promessa. Ele havia sido descoberto, mas também, de alguma forma, aceito. A doçura da servidão, agora, tinha um novo sabor. O polegar de Júnior deslizou com mais intensidade pela planta do pé de Eduardo, cravando-se nos pontos de tensão com uma precisão instintiva. Seus olhos, antes cheios de pavor, agora brilhavam com uma determinação feroz, fixos na pele de Eduardo, absorvendo cada detalhe – a curva do arco, a textura das solas, os pequenos calos que denunciavam a vitalidade jovem. Ele não estava apenas massageando; estava adorando, uma performance de sua devoção mais íntima. Cada fibra de seu ser estava concentrada em transmitir, através de suas mãos, o desejo e a submissão que as palavras mal podiam expressar. O cheiro de futsal, de pele, de uma energia juvenil, invadia suas narinas, e Júnior sentia um estranho êxtase por estar tão perto, por ser permitido tocar, por ser comandado.
Eduardo, que havia reclinado a cabeça no encosto do sofá, abriu um dos olhos, observando Júnior com um sorriso lento e perverso. O tom de desinteresse havia desaparecido completamente, substituído por uma satisfação evidente, quase cruel. Ele esticou os dedos do pé, e Júnior imediatamente respondeu com um movimento sutil, massageando entre cada um deles, com a língua ligeiramente para fora, concentrado na tarefa.
"Ele sabe", pensou Júnior, a mente em um turbilhão. "Ele sabia o tempo todo. Ele me testou." E a percepção dessa manipulação, do jogo de poder que Eduardo havia orquestrado desde o início, não o assustou; ao contrário, aprofundou a estranha e viciante atração que sentia. Era como se Eduardo fosse o mestre que ele, Júnior, sempre buscou, mas nunca teve a coragem de admitir. Aquele controle, sutil e agora explícito, era uma libertação.
— Muito bem, Júnior. — a voz de Eduardo soou novamente, mais forte, mais clara, quase um sussurro no ouvido de Júnior, que se inclinou para ouvir. — Parece que você realmente entende. — Ele puxou o pé ligeiramente, forçando Júnior a se aproximar ainda mais, quase deitando a cabeça em seu colo. — Mas ainda não é o suficiente para merecer minha meia. Para merecê-la... você vai ter que me mostrar o quanto você a deseja. O quanto você me deseja. Agora.
Júnior engoliu em seco, os olhos marejados de uma ânsia indescritível. A prova. A chance de finalmente selar sua doçura, sua servidão.
Eduardo deu um leve tapinha na bochecha de Júnior, um gesto que não foi violento, mas carregado de autoridade. — Levanta essa cabeça, Júnior. E me olhe nos olhos. — Ordenou.
Júnior ergueu a cabeça, os olhos fixos nos de Eduardo. Aqueles olhos verdes, antes apenas curiosos, agora tinham um brilho de desafio, de poder.
Eduardo soltou um suspiro, o sorriso de escárnio voltando aos lábios, misturado a um certo cansaço. — Minha mãe... ela tá reclamando de novo do meu quarto. Você não tem ideia da zona que aquilo tá. Roupas jogadas, livros espalhados, copo de suco com formiga... E ela ameaçou cortar a minha mesada se eu não arrumar. E proibir de sair no fim de semana. E você sabe como é mãe, quando ela pira, não tem quem segure.
Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos de Júnior, com uma expectativa silenciosa. — Como você é meu... escravo, e gosta tanto de me ajudar com as coisas mais... íntimas, acho que você pode me ajudar com essa "guerra". A bagunça é minha, claro, mas pelo visto você gosta dela. Então... quero que você vá lá no meu quarto e dê um jeito naquela bagunça. Faça tudo brilhar. Entendeu?
Júnior piscou, a mente processando a nova ordem. A meia, a intimidade, tudo deu lugar a uma tarefa doméstica. O contraste era brutal, quase cômico para qualquer observador externo. Mas para ele, não havia comédia, apenas um novo comando. A humilhação de ter que limpar o quarto de um adolescente, ele, um executivo respeitado, era palpável. No entanto, uma estranha faísca de satisfação acendeu-se. Era uma prova. Uma forma de agradar. Mais uma.
— Sim, Eduardo. Entendido. — Júnior respondeu, a voz rouca, mas firme. — Eu... eu arrumarei seu quarto.
Eduardo sorriu, um sorriso vitorioso. — Ótimo. E faça direito. Não quero ter que ir lá depois.
Júnior se levantou, as pernas um pouco dormentes da posição ajoelhada, mas o corpo inteiro energizado por um novo propósito. A sala parecia encolher, o ambiente de trabalho no MacBook, agora inerte, tornou-se insignificante. Havia uma missão, uma ordem a ser cumprida. Ele caminhou, quase flutuando, em direção ao corredor que levava aos quartos, o aroma de futsal de Eduardo guiando-o como um farol.
Ao abrir a porta do quarto de Eduardo, Júnior se viu diante do caos descrito. Roupas sujas formavam pequenas montanhas no chão, livros e cadernos estavam espalhados pela escrivaninha, misturados a embalagens vazias de salgadinhos e restos de doces. A cama, desarrumada, ostentava um emaranhado de lençóis e cobertores, e, ao lado, uma coleção de copos e garrafas vazios aguardava. Uma teia de aranha discreta adornava o canto do teto, e a poeira cobria as superfícies como um manto. O cheiro era uma mistura de adolescente, futsal e desorganização, mas para Júnior, era o cheiro de Eduardo, e isso era mais do que suficiente.
Ele respirou fundo, absorvendo cada detalhe. O executivo meticuloso, conhecido por sua organização impecável em planilhas e relatórios, agora enfrentava uma desordem de outra natureza. Havia algo de perversamente excitante na tarefa. Não era seu escritório, não era sua responsabilidade "profissional", mas era a responsabilidade que Eduardo lhe dera. Era uma forma de servir que ia além dos números, tocando no íntimo do dia a dia do seu "Mestre".
Júnior começou pelo básico. Recolheu as roupas, separando-as em pilhas de sujas e as que pareciam apenas desdobradas, imaginando qual seria a preferência de Eduardo. Dobrou as camisetas, alinhou as calças, com uma reverência quase religiosa por cada peça de vestuário que tocava. Varreu o chão, retirando os restos de comida e a poeira, cada movimento uma purificação. Limpou a escrivaninha, organizando os livros e cadernos em pilhas ordenadas, os copos vazios levados à cozinha. A cama foi feita com um esmero que beirava o obsessivo, os lençóis esticados e os travesseiros fofos, transformando o caos em um santuário de ordem.
A cada objeto que tocava, Júnior sentia uma conexão mais profunda com Eduardo. Um tênis sujo de grama, um boné virado para trás, um livro escolar com anotações rabiscadas – cada item era uma peça do quebra-cabeça da vida de Eduardo, e Júnior estava ali, montando-o com devoção. Ele se permitiu o luxo de um sorriso enquanto imaginava Eduardo, despreocupado em seu sofá, alheio à "guerra" que Júnior travava em seu nome.
Enquanto limpava, seus olhos vasculhavam cada canto do quarto, com uma intenção oculta. "No fundo do armário, talvez. Junto com as minhas coisas sujas." As palavras de Eduardo ecoavam em sua mente. Ele buscou, com um misto de esperança e temor, nos cantos mais esquecidos, sob as pilhas de roupas, entre os livros. Mas, por mais que procurasse, a tão desejada meia não aparecia. A frustração, contida, era uma pequena pontada no peito. No entanto, o quarto estava impecável. Brilhando. Pronto para a inspeção de Eduardo.
Com um último olhar satisfeito para o quarto transformado, Júnior saiu, fechando a porta suavemente. O contraste entre o caos de antes e a ordem de agora era gritante, um testemunho silencioso de sua servidão. Ele caminhou de volta para a sala, sentindo o aroma de limpeza misturado ao perfume natural de Eduardo. Encontrou Eduardo na mesma posição no sofá, os olhos ainda fixos no celular, os fones de ouvido de volta aos ouvidos.
Júnior parou a alguns metros, hesitando. Ele não podia interromper. Devia esperar. O silêncio da sala, que antes era uma tela em branco para sua mente divagar, agora era um palco de expectativa. Ele se ajoelhou novamente, em silêncio, os olhos fixos nos pés de Eduardo, aguardando o momento certo para anunciar a conclusão da tarefa.
O tempo se arrastou. Minutos que pareceram uma eternidade. Finalmente, Eduardo pareceu notar sua presença. Ele tirou os fones de ouvido e levantou os olhos, um brilho de curiosidade em seu olhar.
— E então? — perguntou Eduardo, com a mesma voz arrastada de antes, mas agora com um tom de quem sabe que será agradado. — A "guerra" terminou?