Capítulo 1
Se você me visse na rua, mochila jogada nas costas, fones enfiados nos ouvidos, cantarolando baixinho com um sorrisinho bobo no rosto, ia jurar que sou só mais uma garota comum. Dezesseis anos, terminando o terceiro ano, cabeça cheia de vestibular, faculdade, balada, e aquele sonho clichê de arrumar um namorado de verdade, igual toda menina da minha idade.
Por fora tá tudo no lugar: loirinha de olhos cinza que grudam nos outros, rosto que pega luz sem esforço, sorriso que sai fácil. O corpo já se acertou direitinho — bunda redonda que deixa o jeans apertado na medida certa, peitos médios e durinhos enchendo a blusa do uniforme, pele lisinha sem um pelo, mãos finas que todo mundo fica elogiando. Eu sei que sou bonita. Os olhares vêm de todo canto: menino babando, menina comparando, tia no ônibus comentando com a amiga. Eu gosto. Gosto de sentir que sou desejada, que pareço perfeita. Mas por baixo dessa casca toda tem um medo que não me larga nunca.
Porque tem uma coisa que ninguém vê. No lugar onde deveria ter uma pepequinha bonitinha e discreta, tem um pau. E não é um qualquer. É grande, grosso, comprido demais pra caber direito em qualquer lugar. Às vezes parece que tem vida própria: acorda duro antes de mim, estica a calcinha até quase rasgar, pulsa do nada só porque eu lembrei do cheiro de alguém, ou de uma boca perto do meu pescoço, ou de uma mão apertando minha coxa de leve. Basta um pensamento e ele responde, cresce, lateja, pede atenção.
Eu queria ser normal. Queria poder comprar uma calcinha de renda preta na loja, experimentar na frente do espelho e saber que ela ia ficar perfeita sem nada esticando demais ou rasgando na costura. Queria entrar numa festa lotada, música alta, luz piscando, e dançar sem ficar calculando cada rebolada, sem me preocupar se o volume ia aparecer na saia curta ou na calça colada. Queria deixar alguém me tocar de verdade, sem ter que travar na hora e inventar uma desculpa esfarrapada tipo "tô de chico" ou "melhor a gente parar por aqui".
Mas tem uma parte safada e confusa dentro de mim que sente um tesão doido nisso tudo. Essa parte, gosta da força que ele tem quando endurece, da pulsação pesada que sobe pela barriga só de imaginar uma mão alheia ali, da sensação de ter algo tão grande e vivo entre as pernas, algo que ninguém espera numa garota loirinha toda pequenininha como eu. É assustador pra caralho e ao mesmo tempo me deixa molhada de um jeito que eu nem entendo direito! Molhada? É o hábito, eu quis dizer de pau duro. Melhor você ir se acostumando com isso também.
Eu nasci com uma condição genética diferente. Os médicos chamam de hermafroditismo verdadeiro, ou agora distúrbio do desenvolvimento sexual ovotesticular, DDS ovotesticular, sei lá. Por dentro eu tenho útero sim, ovários misturados com testículos, tudo bagunçado. Tenho ciclo menstrual, sinto cólica, inchaço, TPM, o pacote completo. Às vezes sai uma gotinha de sangue pelo pinto, misturada com um pouquinho de sêmen ou só sozinha, e é a coisa mais esquisita do mundo. Eu limpo rápido, finjo que não aconteceu, mas fico olhando pro espelho pensando como alguém pode ser tão fora do padrão assim. Não gosto de falar dos detalhes, não gosto de imaginar como meu corpo funciona por dentro. Eu só queria ser normal, ponto.
Namorar? Nem rola direito. Só se for com alguém que não saiba de nada, e mesmo assim eu travo antes de chegar perto. O máximo que eu já dei foram uns beijinhos na saída da escola, língua tímida, mão na cintura, e quando a coisa esquentava eu inventava qualquer coisa pra parar. Os meninos que descobriram... nossa, foi um inferno. Alguns riram na minha cara, outros ficaram com nojo de mim. Já apanhei por isso, sim. Um soco no estômago de um cara que eu achava que gostava de mim, depois ele espalhou pra todo mundo que eu era "aberração". Meninas, então... poucas vezes eu gostei de alguma, mas elas foram as mais cruéis. Uma delas me chamou de "falso" na frente de todo mundo, outra espalhou foto editada minha no grupo da turma. Elas olhavam com desprezo, como se eu tivesse escolhido ser assim.
Eu nunca pude tomar banho na academia, nunca fiquei de pijama na casa de amiga, nunca dormi em colônia de férias. Tudo era segredo trancado a sete chaves. Eu vivia mentindo, inventando desculpas, evitando qualquer situação que me obrigasse a tirar a roupa na frente de alguém. Até que no ano passado, depois de muita conversa chorada com meus pais, de terapia, de noites inteiras sem dormir pensando se valia a pena, eu decidi abrir o jogo. Tornar minha condição pública.
Contei pros meus amigos mais próximos primeiro, depois postei um texto longo no Instagram, expliquei o que era, mostrei os laudos médicos sem foto minha nua claro, só pra provar que não era mentira. Falei que nasci assim, que não escolhi, que dói pra caralho carregar isso sozinha. Esperei o pior, mas não foi nem tão ruim assim. Houve bloqueio em massa, unfollow, gente me chamando de doente mental nos comentários. Mas também veio mensagem de apoio, de gente que passava pelo mesmo, de meninas que me mandaram DM dizendo "obrigada por falar, eu me sinto menos sozinha agora". Foi um misto de alívio e pavor. Agora todo mundo sabe. Na escola ninguém mais finge que não vê quando eu cruzo as pernas na aula. Alguns olham com pena, outros com curiosidade doentia, poucos com respeito. Mas pelo menos não preciso mais mentir o tempo todo. O segredo acabou. E agora eu tenho que aprender a viver com ele exposto, o problema, não o pinto.
E aí... as garotas... quase todas que um dia entraram no banheiro comigo depois que eu contei viraram outra pessoa. Queriam me bater, cuspiram na minha cara, puxaram meu cabelo com força até doer, ou simplesmente pararam de falar comigo como se eu tivesse morrido. Eu ficava parada no corredor, olhando elas passarem e fingindo que não via os cochichos, os olhares de nojo. Uma delas, que eu considerava amiga, me mandou mensagem depois dizendo que "não conseguia mais olhar pra mim do mesmo jeito", como se eu fosse uma aberração que sujava o ar que ela respirava. Outra gritou no vestiário que eu era "uma fraude", que eu tava enganando todo mundo. Eu saía do banheiro com o coração na boca, lágrimas engolindo, mas sem deixar cair porque não ia dar esse gostinho pra ninguém.
A única pessoa que sempre soube de tudo, desde o começo, é a Jana. Ela mora aqui do lado de casa desde que a gente era criança, praticamente minha irmã de criação. A gente cresceu juntas, dividindo quarto, segredos, risadas.
Quando éramos pequenas, meus irmãos até viram uma vez ou outra, mas era tão escondido que minha mãe nunca deixava a gente se ver peladas depois dos cinco anos. "Pra não confundir a cabeça de criança", ela dizia. Então Jana foi a única que viu tudo sem julgamento, sem medo, sem nojo. Ela me ajudava a esconder na época, me emprestava calcinhas mais largas, me ajudava a achar um jeito de sentar de um jeito que não marcasse. Quando eu decidi contar pra todo mundo, ela foi a primeira que eu avisei. Ficou do meu lado no dia do post, segurando minha mão enquanto eu apertava o publicar.
Ainda segura hoje.
Os meninos que me conheciam antes... uns me fizeram de piada ambulante. Gritavam "ei, tem mais pau que eu hein" ou "ô travequinha" no recreio, riam alto pra todo mundo ouvir. Mas outros, coitados, começaram a correr atrás de mim de um jeito diferente. Mandavam DM pedindo foto, dizendo que achavam "interessante", que queriam "experimentar". Minha psicóloga já tinha me alertado isso: que muitos iam me ver como fetiche, como uma "novidade exótica". Que eu ia enfrentar o mesmo tipo de merda que as pessoas trans enfrentam – o desejo misturado com desprezo, a curiosidade doentia que não vê a pessoa, só o corpo diferente. E é verdade. Tem uns que me olham agora como se eu fosse um brinquedo proibido, e isso me dá nojo e um tesão confuso ao mesmo tempo.
E claro, os crentes. Esses são uma maravilha na terra, né? Vieram falar comigo na saída da escola, na porta de casa, no grupo da igreja que eu nem frequento mais. Disseram que eu era do diabo, que meu corpo era castigo por algum pecado da minha mãe, que eu precisava tomar hormônio pra "virar homem de vez". Como se um pau por si só determinasse quem eu sou. Gente, eu sou mulher. Uma bem fresca, por sinal. Gosto de saia rodada, de esmalte rosa, de perfume doce, de maquiagem leve que faz meus olhos cinza brilharem mais. Gosto de me sentir delicada, de ser chamada de linda, de dançar rebolando devagar. Não tem nada de homem em mim, só esse pedaço de carne que nasceu junto comigo e que eu não pedi. Mas eles não entendem. Pra eles é simples: pau = homem. E pronto, eu viro demônio na hora.
Eu fico olhando pro espelho às vezes, depois de um dia desses, e penso se algum dia vou conseguir ser só eu. Sem explicação, sem defesa, sem medo. Sem ter que provar que sou mulher de verdade. A Jana diz que sim, que o tempo vai filtrar quem merece ficar por perto. Mas enquanto isso, eu sigo cruzando as pernas na aula, sorrindo quando me olham torto, e guardando o tesão e o medo no mesmo lugar. Porque os dois andam juntos agora.
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