Formações e Transformações - Décimo Primeiro e Último Capítulo

Um conto erótico de Astrogildo Kabeça
Categoria: Grupal
Contém 4182 palavras
Data: 31/03/2026 20:38:05

(relato de Zeca)

- Cara... Você já sabe mais ou menos quando tudo começou, primeiramente nós quatro, Ângela e Ferdinando, sua mãe e Marcelo. Festas rolavam e todo mundo junto. Os casais estavam cada vez mais firmes, cada um tinha seu programa próprio, claro, mas depois começaram passeios em conjunto, principalmente depois que você foi embora, Helena ficou chateada e acabou passando mais tempo conosco. O que acontece é que passamos a conversar sobre nossos passados e todos ali tinham vivido momentos muito difíceis e conseguiram mudar o curso de suas vidas. O que vou contar a você foram situações muito complicadas que só fez nossos laços se potencializarem.

Nunca contei sobre meu passado. Meus pais tinham uma lojinha de confecções numa rua comercial conhecida. Morávamos do lado. Um dia, acordamos com cheiro forte e um grande fumaceiro, no meio da madrugada. Um sobrado tinha pegado fogo e atingiu vários estabelecimentos, inclusive o nosso. Saímos apressados pedindo socorro. O resultado foi que o fogo consumiu quase o quarteirão, incluindo nossa casa. Sem seguro, perdemos tudo. Fomos morar de favor na casa do meu tio, lá na rua. A casa de material de construção era dele. Ele era casado e pai de três filhos. Eu estava com uns dez anos na época. Pra encurtar... comecei a trabalhar nos fundos, carregando material que podia, pra não ser flagrado em trabalho infantil. Não tinhamos alternativa. Meu tio cobrava nosso empenho pelo favor. Meu pai trabalhava de graça, eu junto. Com o tempo, meu pai construia uma casinha pra gente com restos de material. Fazíamos mutirão pra erguer a pequena residência. Meu tio acabou falecendo após um infarto e a viúva queria vender o local. Meu pai fez um acordo, assumiu o local, e repassava a ela 70% dos lucros. Por isso eu trabalhava tanto. Você sabe... cansei de deixar você na praia porque recebia telefonemas de clientes reclamando de alguma peça defeituosa, passei algumas noites fechando a loja e indo consertar vazamento na casa dos outros. Foram 12 anos nessa. Até que ela também faleceu, os filhos nos queriam colocar pra fora, mas conseguimos na justiça a posse daquele estabelecimento, porque eles mesmos nunca venderam um prego lá. Meu pai era muito respeitado e conseguiu montar uma lojinha onde fui administrar. Eu trabalhava lá e rodava uber, não tinha vida. Até que apareceu Michele, que foi meu porto seguro. Com ela, trabalhamos duro, almoçava hot dog e jantava pão com ovo todos os dias, durante quase dois anos. Só comíamos bem quando passamos a ir na casa de Karina. Era nosso lazer ir pra lá. Daí, ampliamos o negócio, fiz parcerias com construtoras e hoje posso dizer que consegui de fato me reerguer.

A história de Michele você também conhece, muito pobre, morava numa casa humilde, seu pai tinha uma oficina toda escangalhada. Ela brincava com bonecas ganhas em Natal solidário. Vivia na rua o dia inteiro, e quando ia pra praia ia “traseirando” nos ônibus. Ela e amigas comiam creme cracker pra passar o dia. Elas chegaram a roubar roupas de brechó pra conseguirem se vestir. Trabalhou de empacotadora, em banca de jogo do bicho, e lava jato. Naquele dia que ficamos juntos pela primeira vez, ela estava trabalhando a semana toda num evento no Centro de Convenções, no credenciamento. Pegou o pagamento e foi nos encontrar, junto coma prima que também tava trabalhando. Ela disse que recebeu proposta de um empresário pra passar a noite com ela. Ela só foi pro boteco naquele dia porque você estava lá. Senão, o curso da história mudaria... Começamos a namorar e ela foi morar comigo. Passou dificuldades a meu lado tentando levar a lojinha pra frente. Ela passou a estudar T.I. pedalava quilometros pra ir e voltar do curso e ainda trabalhava na loja comigo. Hoje ela é profissional de T.I. e arrumou a oficina de seu pai.

Ângela era atendente num conservatório de música e morava num muquifo com todo tipo de gente. Conheceu um aluno que estudava piano e quando podia ensinava algo a ela. Ela dormia por lá no trabalho mesmo só pra esperar o cara chegar e passar algo pra ela antes do expediente. Foi pegando a manha do instrumento. Conheceu o pai de Karina, que era regente e foi dar aulas por lá. Ficaram juntos, Karina nasceu. Nisso, ela passou a aprender piano, enquanto ajudava a carregar instrumentos e limpá-los para orquestras. Ficava madrugadas tocando pianos que recostavam nos palcos após apresentações. O pai de Karina era depressivo, tomava fortes remédios e ficava dias sem sair do quarto. Ela passou a se apresentar para cuidar de Karina e ajudar a pagar a casa onde moram, pois o marido passava dias no quarto trancado.

Já Karina, passou a infância morando em diversas residências. Ângela tocava até tarde e não tinha condições de cuidá-la. Karina apanhou muito de pessoas que ela nem lembra. Era uma menina acuada, medrosa, sem laços afetivos duradouros. Ainda menina, estando sob guarda do pai, ouvia gritos horrorosos dele e presenciou tentativas mau sucedidas de pôr fim ao sofrimento que sentia. Ela chorava de fome em muitas madrugadas porque ele não ligava pra ela. Quando o pai de Karina faleceu, Ângela teve que entrar na justiça para conseguir o dinheiro que o conservatório e a direção da orquestra não estava pagando a ele pela condição psiquiátrica. Ela e Karina comeram miojo diversas vezes, no escuro, luz cortada, azulejos rachados, vazamentos e goteiras em todos os cantos, pra ver se mantinham aquela casa com a decisão judicial que veio anos depois. Nesse tempo, conheceu Ferdinando, flautista de um núcleo musical que passou a ajudar nas despesas. Quando as coisas melhoraram, reformaram a casa partiram pra um relacionamento aberto. Por isso tantas festas, para celebrarem a conquista daquela residência a duras penas.

Quando Ângela e Ferdinando foram pra Europa foi para serem músicos de estúdio. Ficavam horas e horas enfurnados e ainda faziam shows. Como ganhavam em euro, conseguiam pagar o colégio de Karina. Já Karina, morando só, tinha que se virar. Pra conseguir comida e pagar contas, ela ajudava uma diarista cujos patrões cederam um espaço a ela, próximo do bairro de Karina, para delivery de salgados. Ficava noites fritando pastéis. Quando ela namorou com você, ela ainda fazia isso, durante a semana. Quando ela foi pra Paris encontrar Ângela e Ferdinando, ela trabalhou como babá. Foi a mãe de uma menina que ela cuidava que passou a ela as técnicas de fotografia e depois de um ano lá, ela foi trabalhar no estúdio dessa mulher. O resto você já sabe.

Ferdinando era artista de rua, tocava em coletivos, semáforos, e dormia em pontos de ônibus. Nessa época, falava ele, morava em cima do sapato. Virou artista de circo, até se apresentar na porta de faculdades ele tentou. Foi numa universidade que, notaram ele tocando e fizeram uma proposta pra ele se exibir com flauta transversal junto a uma banda que tocava em um barzinho. Daí conheceu Ângela, que tocava num local ao lado. Fizeram um duo, passaram a tocar juntos e conquistaram o sucesso com o tempo.

Luan morou em um orfanato, nunca conheceu seus pais biológicos e sempre foi gordo, pois sofria de problemas na tireoide. Ninguem queria adotar um garoto nessas condições, até que foi morar nos fundos de uma instituição que cuidava de pessoas obesas e estudava num colégio comunitário ao lado. Lá, fazia serviços, entregas, e estudava à noite. Após uma reportagem de TV, ganhou bolsa no colégio onde vocês estudaram. Nessa época, morava com uma senhora aposentada cega que ele ajudava a se locomover. Conseguia roupas através de donativos de uma associação beneficente que ajudava ela. Após o falecimento dela, ele teve que morar em outro local, longe da escola onde vocês estudavam. Foi morar com quatro pessoas num cômodo ao lado de uma academia, onde passou a trabalhar limpando os equipamentos. Simpatizaram com ele e deixaram ele malhar por lá. Conheceu uma médica nutróloga que o ajudou e ele passou a lutar por uma mudança corporal. E se tornou o modelo que é hoje, e conseguiu muito trabalho após reencontrar Karina.

Marcelo foi coroinha e denunciou um padre que queria abusar dele. Com isso, teve que deixar o bairro onde morava. Trabalhou em lan house, vendeu quadros numa feira, até que foi ser auxiliar administrativo numa clínica médica. Aproveitou que havia uma escola pública por perto e foi fazer supletivo. Nessa época, morava com um colega num quarto sublocado num prédio próximo. Quando saia do colégio pra ir pra casa, notava pessoas já na fila para serem atendidas pelo SUS, gente sofrida. Ele passou a ajudar aquelas pessoas entregando fichas de atendimento. Se interessou pelo trabalho dos médicos que atendiam aquela população que chegava de madrugada pra ser atendida. Chegava cedo pra distribuir senhas e acompanhava pacientes mais graves. Se interessando mais pela profissão, passou a estudar com afinco nos momentos de folga e quando a clínica ficava mais esvaziada pela tarde. Foi aprovado no vestibular e tinha o privilégio de saber muita coisa acompanhando partes de consultas por ser estudante universitário. Se graduou, fez mestrado, doutorado, casou, separou e conheceu Helena.

A história de Helena você conhece. Veio morar numa república, conheceu seu pai, casou, teve você aos 19 anos. Foi morar com ele, ele foi preso, ela retornou com você por interior. Foi trabalhar como caixa de supermercado, chegava em casa tarde e ia estudar pra concurso. Você mesmo já me falou que sua avó lhe levava pra dormir e ela estava dormindo em cima das apostilas, exausta. Mesmo assim, ela fazia o dever de casa com você, cansadissima. Conseguiu trabalhar na prefeitura e deixava de comprar roupa ou ir pra festas pra pagar sua escola. Ajudou sua avó a cuidar de seu avô acamado, ajudava a equipe do prefeito com cerimonial e dormia em pé enquanto ele discursava. Deixava de fazer serviços extras a qual era imputada pelos secretários pra estudar pra algo melhor. E conseguiu, passou no concurso pra RF. Veio pra cá, fazia relatórios de colegas pra ganhar um extra e pagar seus estudos e a casa financiada. Conheceu pouquíssimos homens durante esse tempo, nenhum amor, até conhecer Marcelo.

Você é inteligente. Deve ter notado que aquelas pessoas não se enturmaram a toa. Cada uma tinha um histórico complicado e passou por transformações e isso nos uniu como nunca. Reuníamos pra contar histórias de superação, nos dávamos a mão e percebíamos que o fortalecimento entre os casais acabou formando uma corrente de vitoriosos na vida. E passamos a curtir juntos a glória de chegarmos onde chegamos. No inicio, ficamos impressionados como a vinculação entre a gente batia com momentos difíceis que todos passaram.

Tem mais um ponto, Lucão... Todo mundo ali passou a interagir, se conhecer, se apaixonar... através de você. Você... foi o ponto de intersecção entre todo mundo. Karina e Luan disseram que você, durante um intervalo entre aulas, os convidou para dividir um lanche com eles. A partir daí, vocês formaram o trio dos rejeitados, como eles falaram; eu conheci sua “irmã” através de você; Através de um convite de Karina ao retornar ao Brasil para um Natal na casa dela, sua mãe foi convidada a tiracolo para conhecer a mãe e o padrasto dela; lá, ela conheceu Marcelo. O cara que ficou de fora... era o elo de toda nossa aliança que aconteceu. Isso... nos deixou bem chateados. Helena ficou arrasada por você não poder ter estado conosco.

- Puxa vida, que coisa... Zeca, agora tenho certeza que não podia estar ao lado de todos. Desde aquela época eu sentia que não tinha ritmo pra estar com vocês. Agora vejo que também não tinha trajetória pessoal. Sempre fui um cara linear, não teria nada a acrescentar para formar essa corrente toda de interações e transformações pessoais. Não tinha uma companheira que participou dessa série de encontros, reencontros, paixões e diversões coletivas. Eu sempre fui uma pessoa que queria preservar as coisas, daí ter ficado meio de lado porque via que todos do meu círculo... escaparam do que que não consegui conservar.

- Porra, Lucão... sinto muito, cara. Com isso tudo você ficou só... perdido em outro local desconhecido... longe pra cacete... enquanto a gente... porra, velho, que bad...

- Não, Zeca! Eu me afastei pra me reconstruir! Passei pelo que passei pra provar que não tenho nada a provar pra ningúem! Eu renasci, conheci um amor verdadeiro, estou me sentindo bem como nunca porque sai da mesmice onde me encontrava! Era isso que eu queria. Não senti falta do que não vivi com vocês porque não era pra eu estar junto. Se fui o centro desse powerpoint, dessa unidade que vocês formaram é porque... estava no centro! Não estava coligado com os outros tópicos! É isso. Por isso contei tudo a você e foi maravilhoso ouvir isso. Agora sim me sinto disposto a encontrar todos. Não quero fazer parte de nada, quero possibilidade de um convívio sadio! Nada mais!

- Porra, Lucão, que felicidade você ter vencido, cara! Me dá um abraço aqui, parceiro.

Se despediram com Lucas ansioso por encontrar não só sua mãe, mas rever todos. Era chegada a hora.

Quando Zeca contou a novidade a Helena, ela quase caiu pra trás. Zeca contou que ele estava bem, a notícia era boa, e que a perspectiva era de reencontro e reconstrução. No dia seguinte, Helena e Lucas se encontraram após mais de dois anos. Abraços, choros, e juras de reconciliação, já que cada qual estava num universo diferente.

Lucas preparou o terreno no primeiro encontro pra dias depois revelar o que passou, do desaparecimento das garotas, envolvimento com drogas, a fuga pra um interior desconhecido e foi verdadeiro ao dizer que não se sentia à vontade pra estar com Helena e os outros. E que sim, estava abalado por não ter uma companhia já enturmada com os demais, o que era o caso de todos os casais. Todos tinham alguma ligação pretérita e uma história conjugal firme e desejos de suplantar adversidades cruéis e ele não. Não possuía qualquer mágoa pelo que passou pois a seta da vida aponta sempre pra frente. Helena entendeu.

- Mãe, eu não tinha estofo pra estar no seu grupo, mas saiba que você merecia mais do que nunca estar com eles. Zeca reviveu sua luta, desde que veio morar aqui até conhecer Marcelo e um amor genuíno com ele. Tudo verdadeiro. Vocês criaram um arranjo de casais autêntico e isso não me dizia respeito. Quando você me criou, gerou um cidadão, mas eu quem tinha que me tornar homem através do enfrentamento dos desafios que foram surgindo. Eu tenho orgulho de quem sou hoje, e não um magoado por um passado a qual não me sentia no direito de me envolver. Você foi pai e mãe pra mim. Só tenho que agradecer. Nunca sofri 10% do que vocês passaram!

- Filho, entendo você agora melhor, sei que foi muito cruel você não ter estado conosco, sinto muito. Desde que comecei meu relacionamento com Marcelo minha vida afetiva deu um up, me senti viva, enérgica, revigorada. Aprofundei minha amizade com Ângela e Feridinando e o aparecimento dos jovens - Karina, Luan, Michele, e Zeca - não minto: a convivência só cresceu, e queria você conosco, mas também entendi que como vivemos juntos o tempo todo, cada um merecia seu espaço, você já estava um homem feito, com capacidade pra discernir e fazer suas escolhas, e portanto, não identifiquei nenhum sinal de que você estaria tão chateado assim. Nesses últimos anos vivi intensamente, enquanto você estava passando por dificuldades. Me perdoe, mesmo! Nunca fui uma mãezona, protetora, sempre criei você pra se tornar autônomo o mais breve possível. E com o grupo, vivi uma juventude tardia, em quatro anos aproveitei o que não tinha aproveitado em 40 anos de vida! Fui praticamente arrebatada pela energia deles. E sendo bem honesta... quando as coisas se aprofundaram chegeui a comentar... que sua presença... eu teria um comportamento mais formal... Lucas, juro a você que não esperava que as relações se aprofundassem tanto, mas a história de vida de todos se tornou uma cola, todos repartindo um histórico difícil e assim passamos a celebrar a volta por cima de cada um.

- Mãe, não é culpa sua, definitivamente. Estava ranzinza, namorei uma menina e praticamente a usei pra me manter afastado. Pedi pra ir pro Acre justamente porque senti que a senhora tava em outra vibe, curtindo e aproveitando as coisas como devem ser. Do jeito que as coisas rolaram, eu não tinha condições es estar presente nessa relação toda entre vocês aí, mas agora pretendo que tudo seja diferente. Estou namorando a Jamile, e com certeza ela foi a minha maior incentivadora pra que tudo se regularizasse.

- Poxa, Lucas, que bom! Olha, vai ser ótimo você rever o pessoal agora porque... tudo indica que cada um vai pra seu lado. Todos estão com planos pessoais, então será bom você rever todos, que sempre perguntam por você. Não precisa esclarecer nada a eles, fica a seu critério.

Se abraçaram. Helena conheceu Jamile e as duas nutriram muita simpatia uma pela outra. Enfim, marcaram um almoço na casa de Ângela. Lucas foi recepcionado com muitos abraços, nunca mais tinham o visto. Apresentou Jamile, que foi logo acolhida.

Lucas percebeu que todos estavam diferentes, mais corados, com corpos malhados, bem dispostos, incluindo Helena, que estava jovial e com visual mais provocante. Ele percebeu a sinergia entre todos, os papos fluiam, havia um entrosamento latente entre eles.

Após o regabofe, Ângela e Ferdinando tocaram, todos cantaram, o clima tava bom. Lucas conversou com Karina, relembraram os velhos tempos de namoro, ele não sentia mais nada por ela - ao contrário de quando resolveu se afastar, tinha uma pontinha de mágoa pela expectativa negativa de um recomeço.

- Lucas, a Jamile é um show de simpatia! E as tranças dela? Lindas!

- Realmente. Ela é tudo.

- Olha, quando voltei pro Brasil e lhe convidei praquele Natal, queria retomar amizades mesmo, restabelecer vínculos com velhos amigos. Mas o trabalho pesou, correria, o reencontro com Luan... isso tudo acabou desviando meu projeto inicial. Achei que, sei lá, tinha algo mal resolvido que deixou você afastado.

- Karina, não nego que gostaria de preservar as coisas como eram, mas também notei que não havia clima pra eu participar de algo com vocês. Quando todos vocês passaram a se encontrarem e formarem esse núcleo, eu tava sem tesão, levando uma vidinha feijão com arroz, que vendo hoje, era medíocre. Portanto, fico feliz por ter superado as dificuldades que encontrei, como vocês.

- Puxa, Lucas que bom, é gratificante quando a gente derruba barreiras pra se sentir verdadeiramente revigorado, como você está hoje.

- Karina... deixa eu lhe perguntar uma coisa... ia perguntar ao Zeca, mas acho que ele ia me enrolar e você sempre foi mais direta... me responda... Esse entrosamento todo entre vocês... não tinha limite algum? Era... total?

- Você precisa mesmo saber disso?

- Quero passar a régua nesse assunto de não ter participado, ter me afastado, esse blablablá... pôr uma pedra nessa porra.

- Bem, respondendo sua pergunta: sim. As coisas aconteciam positivamente, tudo convergia, e quando todo mundo está bem, as coisas vão fluindo... a união era completa, integral. Era tudo magnético.

- Ok... sem recalque! Assunto enterrado.

Conversou muito com Luan, que explicou o porquê de não ter entrado em contato com ele quando começou a namorar Karina.

- Porra, Lucas, eu era outra pessoa, não era mais aquele gordinho do colégio, então quando reencontrei a Karina e começamos a sair não achei necessário rever você, poderia passar a sensação que estava numa guerrinha, numa disputa, e não era nada disso, depois de tanto tempo sinceramente não via condições de te encontrar, sério mesmo, me desculpe.

- De boa, Luan, eu também não queria nenhum reencontro, a vida tava seguindo, e eu queria estar de fora, sério mesmo.

Michele também covnersou bastante, se desculpando pela falta de notícias, mas Lucas também parou de falar com o pai, então era recíproca aquela falta de comunicação.

Conversa vai, conversa vem, eis que Zeca chama Lucas num canto.

- Cara, agora o papo é reto... Eu tô com três lojas e também em sociedade com uma incorporadora, coisa recente. Então, pensei em você porque eu tô querendo alguém de confiança pra gerir minhas contas. Antes mesmo de te encontrar naquele dia, já queria fazer essa proposta, mas você tava longe e sem querer muita idéia. Então, bicho... você quer ser o contador sênior dos meus negócios? Você não precisa deixar o trabalho atual, fica com os seus clientes, te dou tempo pra você ajustar tudo, beleza?

Lucas ficou surpreso, mas também com uma grande euforia. Não pestanejou: aceitou. Era incrível como se sentia potente agora, ao contrário dos anos anteriores, quando se sentiu um tanto incapaz.

Aquele encontro era especial, não apenas porque Lucas estava presente, mas era o surgimento de um novo tempo. Karina começou a fala.

- Bem, gente, nesse momento superespecial, onde todos estão bem, eu e Luan temos um comunicado: iremos morar na Polônia. Já havia soltado algumas deixas pra vocês, mas agora é real. Tenho propostas de mostras fotográficas no Leste Europeu e Luan vai participar de alguns eventos de moda. Portanto, dentro de algumas semanas estaremos indo embora.

Houve aplausos e gente emocionada, afinal, aquele grupaço incrível estava começando a se desintegrar.

Marcelo foi o próximo a anunciar.

- Estou me transferindo pra Brasília, fui designado pra trabalhar na Rede Sarah. Meu pós-doutorado deu frutos e estou integrando uma equipe de traumatologia que fará trabalhos em conjunto com neurocirurgiões. Helena irá comigo, ela já pediu transferência para a Receita Federal de lá, onde também atuará como conselheira de fiscalização junto a órgãos federais de controle de movimentação financeira. Antes, ela vai tirar licença pra ficar mais tempo com Lucas aqui.

Aplausos e gritos de felicidade. Ângela foi a próxima

- Eu e Ferdinando gravaremos com músicos de várias partes do mundo e iremos produzir um disco de word music. Faremos uma tour pela África, Ásia, e America Latina!

Mais aplausos. Por fim, Zeca anunciou duas grandes novidades.

- Bem, eu vou ficar por aqui mesmo (risos gerais), não vou a lugar nenhum, mas tenho a honra de anunciar meu novo sócio: o contador Lucas Bernon irá gerenciar as contas da ZK Incorporadora e Construções Ltda. Calma, não aplaudam ainda. Michele dará a outra notícia.

- TÔ GRÁVIDA!!!!

Ai sim, a gritaria foi geral. Depois, muitos abraços e um clima de despedida total. Despedidas, mas todos com notícias particulares pra lá de vibrantes. No fim da noite e após fotos com todos juntos, Lucas, Zeca, Karina, e Luan conversaram por toda a noite. Papearam, beberam mais, deram muitas risadas até os primeiros raios de sol.

20 dias depois, Karina e Luan embarcaram; Ângela e Ferdinando partiriam depois; Marcelo foi pra Brasília primeiro, e 15 dias depois foi Helena. Zeca mostrou um grande terreno a Lucas.

- Vamos ser vizinhos de novo, brother?

- Porra, cara, será um desafio gastar tanto pra construir uma senhora casa nesse terrenão!

- Cara, superamos diversas coisas, duvida da gente?

- Ahhhhhhh, vamos lá, porra, vamos levantar essas biroscas!!

Cinco anos se passaram. Karina e Luan estão morando na Grécia, numa ilha sossegada. A campanhia toca e Ângela aparece com uma amiga. Abraços e beijos. Ela usa uma camisa com a foto de Ferdinando e os dizeres “Sua companhia será sempre eterna”. Ferdinando morreu soterrado durante um trágico terremoto nas Filipinas, há dois anos. Ângela estava no hotel e se salvou. A amiga era uma violoncelista italiana com quem estava tocando em turnê. Apenas amiga mesmo. Antes de se sentar, Ângela recebeu um abraço carinhoso das netas gêmeas Karen e Luana. Iria descansar com eles enquanto não iria pra Turquia, onde continuaria a se apresentar.

Numa chamada de vídeo, Helena conversava com Lucas. Ela estava em Brasília e carregava uma menina de um ano.

- Manda tchau pro titio Lucas, ninha.

- Linda ela, mãe.

- Pois, é, você tem uma irmã emprestada e agora eu tenho uma neta emprestada também! Essa netinha do Marcelo é um amor.

- Ah, mas seu novo neto tá vindo aí, tá perto!

- Cadê Jamile?

Jamile apareceu com um barrigão de sete meses.

- Quando tiver perto de parir vou aí acompanhar tudo viu?

- A senhora não vai pra Austrália devolver essa menina pra mãe, não?

- Sim, mas depois que meu neto nascer! Ela vai conhecer o priminho dela né, neném? E a Renatinha? Cadê ela?

- Nossa, mãe, sua neta mais velha tá danada, viu! Benzadeus! Tá na creche, daqui a pouco vamos pegá-la

- Ah, agora vocês tão vendo o trabalho que dá criar filho! E vem mais um aí!

Terminada a ligação, Lucas e Jamile foram encontrar Zeca e Michele pra almoçarem juntos. O filho deles já estava com quase cinco anos.

Todos se reencontrariam um ano depois, no aniversário de um ano de Enzo, segundo filho de Lucas e Jamile, quando Ângela, Karina, e Luan desembarcaram no Brasil com as gêmeas para a festa. A formação agora era de um núcleo com pais, mães, filhos, avós, e netos. Aquelas gandaias homéricas ficaram pra trás. No fim da festa, uma foto geral, mostrando uma série de pessoas, transformadas pela superação, unidas pela vida.

FIM

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Comentários

Foto de perfil de Syd Barrett

A zorra ter acabado justamente quando o Lucas retornou foi maldade demais kkk O cara tá cercado de inimigos.

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Só tem que ver quem é o pai dessas crianças, depois desse troca-troca e dessa fudelança toda.

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Gostei muito! Parabéns pelo conto, e por não pichar muito o enredo. Fico muito triste quando acompanho um conto, como por exemplo conto conspiração, e de repente o autor abandona o o conto e não dá nenhuma satisfação.certas atitudes são inexplicáveis. Mas seu trabalho foi muito legal.abraco.

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Lukinhas está com alguns problemas, então não tá abandonado o conto

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