Capítulo 3: O Último Dia de Carlos e o Cubículo Vazio

Um conto erótico de Paula Crossdresser
Categoria: Trans
Contém 821 palavras
Data: 31/03/2026 14:51:43
Assuntos: Trans

Na sexta-feira, o último dia de Carlos na sede brasileira da Mirana Corp, o cubículo cinzento no térreo parecia menor, mais deprimente e estranhamente sagrado do que nunca. A luz fria das lâmpadas fluorescentes de teto zumbia sobre a cabeça, refletindo no plástico barato da divisória, criando um ambiente que parecia sufocar qualquer ambição. Carlos passou a manhã limpando meticulosamente a mesa, jogando fora papéis antigos de relatórios anuais, canetas gastas e, simbolicamente, a velha caneca de café manchada que era um totem da sua vida de privação. Ele fazia tudo em silêncio e com uma concentração quase religiosa. A maioria dos colegas mal notou sua saída. Carlos sempre fora discreto, e a promoção para um cargo sênior na Europa havia sido mantida em segredo absoluto no andar térreo – era informação de cima.

Ao meio-dia, o supervisor dele, um homem apático e sobrecarregado, apenas lhe entregou um envelope selado contendo as instruções de viagem – passagens de Primeira Classe, detalhes da acomodação em Paris e o horário exato de encontro com Letícia no aeroporto internacional. Dentro do envelope, havia um pequeno cartão, fino e preto, que contrastava com a qualidade ruim do papel do escritório. Estava assinado com uma caligrafia elegante e assertiva: "O primeiro passo é sempre o mais difícil. Seja pontual. Mirtes." A frieza e a precisão da mensagem de Mirtes serviram como um choque de realidade, lembrando-o da seriedade do contrato que havia aceito. O anonimato do cubículo e o terror do futuro estavam em guerra dentro dele.

Carlos olhou ao redor mais uma vez. Aquele cubículo era a representação física de uma vida de privação, do salário que mal cobria as contas, do Carlos que não era ninguém. Ele respirou fundo, sentindo um alívio súbito e esmagador por deixar para trás aquele vestígio de uma existência contida. Ele estava trocando uma identidade de anonimato por uma identidade de poder, custasse o que custasse. O passado estava sendo empacotado e descartado como lixo. Ele saiu do cubículo, sentindo que deixava para trás não apenas um emprego, mas uma casca.

À noite, a despedida foi em casa, no pequeno apartamento que cheirava a comida caseira e memórias. Sandra havia passado o dia na cozinha, preparando a comida favorita de Carlos como um último ato de carinho e controle. Ela insistiu em arrumar sua única mala grande, dobrando suas poucas roupas com precisão obsessiva, como se a ordem na bagagem pudesse garantir a ordem na vida do filho.

Tatiana, sentada na beirada da cama, estava visivelmente emocionada, mas vibrante com a promessa de um futuro melhor. Ela deu-lhe um abraço apertado e prolongado.

— Me liga assim que chegar, viu? E manda fotos das coisas chiques. - Pediu Tatiana, os olhos brilhando de orgulho e excitação com a promessa de uma vida sem preocupações.

— Promete que vai nos mandar dinheiro para comprarmos um ar-condicionado?

— Eu prometo. - Carlos sorriu, sentindo um nó na garganta. O dinheiro era real, mas o motivo era uma mentira que queimava.

Sandra, no entanto, estava tensa. Depois que Tatiana saiu da sala, ela puxou Carlos para um canto mais escuro do corredor.

— Carlos, meu filho. - Ela disse em um sussurro rouco e apreensivo, com a voz carregada de preocupação materna.

— Essa viagem é muito rápida. Ganhar várias vezes mais? Em um país estranho? Eu confio em você, mas não sou burra. Coisas grandes vêm com grandes responsabilidades e, às vezes, grandes riscos. Prometa-me que você será cuidadoso. - Ela agarrou o braço dele.

— Não assine nada sem ler. Não confie em ninguém que prometa demais. E, por favor, não se esqueça de quem você é, de onde você veio.

As últimas palavras perfuraram Carlos como agulhas.

— Não se esqueça de quem você é. - O peso da mentira, de saber que ele estava indo para Paris justamente para esquecer quem ele era, tornou-se quase insuportável. Ele não podia contar a verdade. Ele apenas a abraçou com a força de quem se despede para sempre, enterrando o rosto no cabelo dela, absorvendo seu perfume familiar.

— Eu prometo, mãe. Eu amo vocês mais do que tudo. E essa mudança é por nós. Para que vocês nunca mais tenham que se preocupar com nada.

A promessa era a única coisa que importava agora.

De manhã, na fria escuridão antes do amanhecer, Carlos deixou a mãe e a irmã dormindo. Ele olhou para elas uma última vez, o peso de sua ambição e a excitação de sua metamorfose misturando-se à culpa. A mala, estranhamente leve, parecia carregada de segredos.

No caminho para o aeroporto, no táxi velho e barulhento, ele olhava fixamente para o reflexo na janela. Ali estava o último vislumbre do funcionário de salário mínimo, do filho responsável, do irmão atencioso. No espelho, ele via Carlos. Em poucas horas, ele estaria nas mãos de Mirtes. Em breve, ele teria que ver Carla. Ele fechou os olhos. A vida de Carlos de Souza havia terminado. A de Carla de Souza estava prestes a começar.

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