Leôncio acorda cedo e vai direto para a cozinha, mais uma vez tentando agarrar a escrava.
— Pare, senhor Leôncio.
— Hoje tive um sonho. Sonhei que fazíamos amor, Isaura. Você pode tornar esse sonho realidade, é só querer.
— Eu não quero.
— Eu adoro você por isso, Isaura. Você é a única escrava que não se deitou comigo. Essa resistência me deixa com ódio, mas, ao mesmo tempo, me faz querer você ainda mais. Só de pensar que é virgem e tão pura, isso me faz desejá-la ainda mais...
— Vai morrer na vontade... ou morrer na punheta.
Ele segurou firme o rosto dela, apertando suas bochechas, fazendo-a formar um biquinho com os lábios.
— Escrava insolente. Acha que é quem para me desafiar desse jeito?
Ela conseguiu escapar dos braços fortes de seu dono e correu, assustada, para o outro lado da mesa.
— Você não vai fugir de mim por muito tempo, Isaura. Você é minha, Isaura. Por bem ou por mal, você é minha.
— Quem é sua, Leôncio?
— Malvina? Que susto. Agora anda descalça pela casa? Não vi você chegando.
— Quem é sua?
Ele se aproxima da esposa e a beija.
— Você, meu amor. Eu estava aqui conversando com a escrava sobre o quanto eu te amo, Malvina. Falávamos dos meus pais e de como o casamento deles era lindo. Comentei com Isaura que nós dois fomos feitos um para o outro, e que você é minha eterna e amada esposa.
— É verdade, Isaura?
— É sim, sinhá... é verdade — diz Isaura, preparando o café, nervosa.
— Vou ver como estão os escravos. Odeio escravos preguiçosos.
Leôncio vai até a senzala acordar os escravos preguiçosos com chicotadas.
— Vão trabalhar, escravos preguiçosos!
— Sempre tem uns preguiçosos. Também pudera, a noite de ontem foi boa. Foi a maior festa que já tiveram — disse Seu Chico.
— Agora estão de ressaca.
— Pior nem foi isso…
— Espere, Seu Chico. Termine. O que foi pior?
— Nada, nada, Leôncio.
— Fale agora. Odeio segredos.
— Isaura esteve aqui ontem.
— Eu já falei mil vezes para ela não vir aqui. O lugar dela é lá em casa, não nesse lugar imundo.
— Então o senhor não sabe.
— Sei o quê? Diga logo, Seu Chico. Ou quer levar uma chicotada também?
— Isaura dançou, dançou… e depois se entregou a todos.
— Entregou o quê?
— Ora, o que mais uma mulher pode entregar senão a buceta?
— Mentira, ela não… não…
— Sim, sim. Ela deu para todos os escravos. Foi ali, nesse mesmo lugar onde o senhor está de pé. Isaura ficou deitada, de pernas abertas, enquanto os negros subiam em cima dela como se fosse um animal selvagem. Comeram ela de todo jeito, em toda posição que o senhor possa imaginar. E ela nem tocou em álcool.
— Mentira… Minha Isaura é virgem, é pura. É uma santa imaculada. Está blasfemando contra a honra da minha escrava. Seu Chico, eu o coloco no tronco.
— Se não acredita em mim, pergunte a todos os escravos. Eles vão confirmar tudo o que eu disse. E talvez até acrescentem mais detalhes.
Leôncio decidiu tirar a prova da suposta inocência de sua escrava. Chamou um por um, encarou cada rosto, ouviu cada relato. As versões variavam nos pormenores, mas coincidiam no essencial. Quanto mais escutava, mais seu semblante se fechava.
No fim, chegou à mesma conclusão amarga.
— Escrava Isaura não passa de uma libertina… — disse ele, não com prazer, mas com profundo desgosto, como se todo aquele tempo tivesse sido uma ilusão construída por ele mesmo. Descobria, atônito, que não se apaixonara pela imagem da jovem pura e intocada que idealizara, mas por algo que jamais existira fora de sua própria fantasia.