Meu nome é Helena, e aos quarenta e dois anos, eu ainda me pego olhando para o espelho do banheiro principal da nossa casa, como se tentasse reconhecer a mulher que sobreviveu ao que a vida me tirou. Sou psicóloga clínica há quase vinte anos, especializada em transtornos de ansiedade e sono, ironicamente. A ironia da vida, não é? Ajudo dezenas de pacientes todas as semanas a encontrarem paz na escuridão das suas noites, mas a minha própria casa, nos últimos anos, se transformou em um campo minado de insônias silenciosas. Vivo em um bairro nobre de São Paulo, numa casa ampla de dois andares, com jardim interno, piscina nos fundos e uma biblioteca particular que eu mesma decorei com estantes de madeira escura cheias de livros de Freud, Jung e os meus favoritos de terapia cognitivo-comportamental. O dinheiro nunca foi problema. Meu falecido marido, Roberto, era um engenheiro civil de sucesso, daqueles que construíam pontes e shopping centers. Quando ele partiu, há cinco anos, deixou para mim e para o nosso filho não só uma herança sólida, mas uma pensão generosa que me permite trabalhar apenas o suficiente para me sentir útil, sem nunca precisar me preocupar com contas ou com o futuro financeiro. A casa cheira a lavanda fresca todas as manhãs, graças à minha empregada que vem três vezes por semana. Eu cozinho pratos leves à noite, acendo velas aromáticas no quarto e mantenho o ar-condicionado sempre no modo silencioso. É uma vida confortável, quase perfeita, se não fosse pela ausência dele e pelo peso que isso deixou no peito do meu menino.
Roberto morreu de um infarto fulminante aos quarenta e oito anos. Foi rápido, sem aviso, durante uma viagem de negócios em Curitiba. Eu recebi a ligação às três da madrugada, e o mundo desabou. Lembro-me de chorar no chão da cozinha, o telefone ainda na mão, enquanto o relógio da parede ticava como se nada tivesse mudado. O enterro foi discreto, só família próxima e alguns amigos. Eu não quis espetáculo. E o nosso filho, Lucas, tinha apenas catorze anos na época. Ele ficou ali, ao meu lado no cemitério, de terno preto que ficava grande demais nos ombros magros, segurando a minha mão com uma força que eu não sabia que ele tinha. Não houve drama exagerado. A vida seguiu, como sempre segue. Eu voltei ao consultório depois de três meses de licença, mergulhei no trabalho para não afundar. Lucas voltou à escola, aos treinos de natação, aos amigos. Parecia que estávamos nos recuperando. Mas as feridas profundas demoram a cicatrizar, e eu, como psicóloga, sabia disso melhor do que ninguém.
Lucas agora tem dezenove anos. Meu Deus, como o tempo voa. Ele é alto, um metro e oitenta e cinco, com o corpo esguio e atlético que herdou do pai – ombros largos que se definiram naturalmente com a natação que ele nunca abandonou, mesmo depois da perda. O cabelo é castanho escuro, quase preto, sempre bagunçado de um jeito charmoso, caindo sobre a testa de forma que ele precisa afastá-lo com os dedos longos e finos. Os olhos são castanhos como os meus, mas com um brilho mais profundo, quase melancólico nos últimos tempos. Tem o queixo quadrado, herança direta de Roberto, e um sorriso que ainda me desarma quando ele o usa de verdade, raro ultimamente. A pele é morena clara, bronzeada do sol da piscina, e ele tem uma leve penugem no peito que começou a aparecer aos dezesseis, tornando-o cada vez mais homem. Lucas é quieto, introspectivo, o tipo de filho que lê livros de ficção científica no quarto até tarde e que me ajuda a carregar as compras sem reclamar. Ele cursa o segundo semestre de Engenharia na USP, o mesmo caminho do pai, e eu me orgulho dele todos os dias. Mas por baixo daquela fachada de jovem responsável, eu vejo o menino que ainda carrega o luto. Ele nunca chorou muito na minha frente depois do enterro. Guardou tudo dentro, como eu.
A casa é grande demais para nós dois agora. O quarto dele fica no andar de cima, de frente para o meu, separado por um corredor largo com piso de madeira que range levemente à noite. Eu o ouço andar de um lado para o outro às vezes, passos leves que ecoam na quietude. Há três anos, mais ou menos, as noites ruins começaram. No início, eram só reclamações casuais no café da manhã: “Dormi mal de novo, mãe”. Eu, como boa psicóloga, sugeri rotinas de higiene do sono – chá de camomila, meditação guiada, desligar o celular uma hora antes de deitar. Ele tentava. Eu via os resultados nos olhos dele: olheiras sutis que se acentuavam, o corpo mais cansado depois dos treinos, o apetite irregular. “É normal, filho”, eu dizia, abraçando-o com aquele carinho maternal que nunca mudou, mesmo ele sendo quase um homem. “O luto demora. O corpo lembra mesmo quando a mente acha que esqueceu.” Mas os meses viraram anos, e o problema só piorou. Duas ou três noites por semana, ele acordava suando, o coração acelerado, incapaz de voltar a dormir. Eu o encontrava na cozinha às duas da madrugada, bebendo água gelada, com o cabelo molhado de suor e o olhar perdido.
Na semana passada, foi pior. Eu estava no meu quarto, lendo um artigo sobre terapia de aceitação e compromisso para insônia crônica, quando ouvi o barulho. Um gemido abafado, seguido de passos. Levantei-me devagar, vestindo o robe de seda preta sobre a camisola leve de algodão que eu uso para dormir – nada sensual, só confortável, com alças finas que deixam os meus ombros à mostra. Meu corpo, aos quarenta e dois, ainda é o que muitos pacientes meus chamariam de “bem conservado”. Eu me cuido: yoga três vezes por semana, corrida leve no parque, dieta equilibrada. Os seios são cheios, naturais, com um leve caimento que o tempo trouxe, a cintura marcada, os quadris largos o suficiente para lembrar que eu dei à luz. As pernas são longas, a pele macia graças aos cremes que aplico todas as noites. O cabelo castanho cai em ondas até os ombros, e eu mantenho uma franja suave que emoldura o rosto. Não sou vaidosa, mas sei que ainda atraio olhares. Viúva jovem, como dizem as amigas.
Quando cheguei à porta do quarto dele, entreaberta, vi Lucas sentado na beira da cama, a cabeça entre as mãos. A luz do abajur projetava sombras longas no corpo dele. Ele estava só de boxer preta, o peito nu subindo e descendo rápido. Os músculos das coxas tensos, as veias dos braços marcados pelo esforço de quem tenta, em vão, relaxar. “Mãe... não consigo”, murmurou ele quando me viu. A voz rouca, quase um sussurro. Eu entrei, sentei ao lado dele na cama king size que eu mesma escolhi para ele aos dezesseis anos. O colchão era firme, os lençóis de algodão egípcio macios. Coloquei a mão nas costas dele, sentindo o calor da pele, o suor frio. “Shhh, meu amor. Respire comigo.” Eu o guiei em exercícios que ensino no consultório: inspira fundo pelo nariz, segura, solta pela boca. Ele obedeceu, encostando a cabeça no meu ombro por um momento. O cheiro dele – sabonete, suor leve, aquele aroma natural de jovem homem – me invadiu. Eu o abracei, sentindo o corpo dele tremer levemente contra o meu. Os seios roçaram o braço dele por acidente, mas eu ignorei. Era só conforto maternal.
Naquela noite, depois de meia hora, ele conseguiu dormir. Eu fiquei ali, velando-o como quando era criança. Mas o meu cérebro de psicóloga não parava. Eu conhecia os mecanismos. Insônia pós-luto. Ansiedade acumulada. O corpo em estado de alerta crônico, cortisol alto, dificuldade de entrar no ciclo REM. Tratamentos convencionais já tinham sido tentados: melatonina, chás, até um leve ansiolítico que o pediatra dele prescreveu uma vez, mas que ele odiava tomar. Nada funcionava por muito tempo. E então, deitada na minha própria cama depois, olhando o teto escuro, a ideia surgiu. Não de repente. Veio devagar, como um sussurro que eu tentei calar no início.
Eu sei, pela minha formação, que o orgasmo libera endorfinas, oxitocina, prolactina – uma cascata química que promove relaxamento profundo, sono restaurador. Estudos mostram que a masturbação antes de dormir reduz o tempo de latência do sono em até trinta por cento em jovens adultos com insônia. É biologia pura. Mas Lucas... meu filho. Ele era virgem, eu tinha quase certeza. Namoradas passageiras, sim, mas nada sério. Ele era tímido com o corpo, reservado. Eu o via se tocar às vezes, pela porta entreaberta ou pelos lençóis amassados pela manhã. Coisas normais de um jovem de dezenove anos, cheio de hormônios. Mas a ideia de eu... ajudar. De eu, como mãe, proporcionar isso para ele. Para o bem dele. Para que ele dormisse em paz, sem aquelas olheiras, sem aquele cansaço que o fazia arrastar os pés durante o dia.
Eu me revirei na cama, o robe aberto, a camisola subindo pelas coxas. Meu coração batia mais rápido. Era loucura? Era terapia? Eu era a mãe dele. A psicóloga dele, em certo sentido. Eu o amava mais do que tudo. Queria o melhor para ele. Imaginei, só por um segundo, a minha mão – suave, experiente – tocando-o ali, onde ele precisava de alívio. Não era desejo meu. Era ciência. Era amor. O quarto estava silencioso, só o zumbido distante do ar-condicionado. Eu fechei os olhos e respirei fundo, sentindo um calor subir pelo ventre. Amanhã eu pensaria melhor. Por enquanto, a ideia ficava ali, plantada como uma semente na escuridão da minha mente. Lucas precisava dormir. E eu, como sempre, encontraria um jeito de cuidar dele. Como mãe. Como mulher que entendia o corpo humano melhor do que ninguém.
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