As amizades de Melissa 2
Mais uma vez, ele checou seu e-mail antes de sair, mas ainda não havia nada de “Um Amigo. ”
Quando ele entrou no bar, Jeane imediatamente notou as olheiras. —Pobre Adam. Parece que você não dormiu muito bem ontem à noite. Me conta o que aconteceu.
Ele deu um grande gole em sua caneca de cerveja e começou a relatar o desentendimento da noite anterior e a partida de Melissa pela manhã. Jeane o encarou com uma mistura de tristeza e culpa. —Oh, Adam, eu me sinto tão mal. Você seguiu meu conselho e acabou sendo exatamente a coisa errada a se fazer.
—Não, Jeane, eu pensei muito sobre isso e estou convencido de que era a única coisa que eu podia fazer. Eu só devia ter abordado o assunto com mais cautela. Certamente não esperava que a Mel reagisse com tanta raiva, mas não tinha como eu guardar aquele e-mail para mim e fingir que nada aconteceu. Tudo o que posso fazer agora é esperar que ela se acalme e que possamos conversar quando ela voltar para casa.
—Você é gentil da sua parte dizer isso, Adam, mas ainda me sinto culpada pelo que aconteceu. Então, o que você vai fazer no resto desta semana?
—Não sei, Jeane. Não vejo como eu e a Mel podemos seguir em frente se não conversarmos sobre o que aconteceu. Talvez eu espere alguns dias e depois tente ligar para ela.
—Não, Adam, essa é a única coisa que você não deve fazer! Ela já acredita que você não confia nela. Se você tentar contatá-la depois que ela disse explicitamente para não fazer isso, só vai provar que ela estava certa.
—Sim, acho que consigo entender. Mas me sinto tão impotente. Não conheço nenhuma maneira de descobrir quem enviou o e-mail. A única coisa que posso fazer enquanto ela estiver fora é continuar tentando descobrir quem é esse Professor Marcelo.
—Faz muito sentido. Se você conseguisse encontrá-lo, talvez ele pudesse esclarecer algumas dúvidas.
Nos dias seguintes, Adam tentou repetidamente desvendar o mistério do e-mail anônimo. Apesar do fracasso, ele ainda estava convencido de que Aguiar tinha alguma ligação com a universidade. Então, teve uma ideia brilhante. Talvez o motivo de eu não conseguir encontrar esse cara seja porque ele é um ex-aluno, e não um membro do corpo docente. Bem, eu também sou ex-aluno, então talvez o setor de Relações com Ex-alunos possa ajudar.
Quando ligou e se identificou como ex-aluno, Adam foi imediatamente transferido para o departamento de Desenvolvimento. O funcionário que atendeu anotou todas as informações relevantes sobre Adam: endereço, telefone e e-mail. Em seguida, perguntou quanto Adam gostaria de doar para o fundo de ex-alunos. —Não, não, não estou ligando para fazer uma doação, estou tentando localizar um professor Marcelo Aguiar. Acho que ele pode ser um ex-aluno.
O homem o colocou em espera enquanto consultava vários bancos de dados. —Sinto muito, senhor, mas parece que nunca tivemos um aluno formado com esse nome.
—Sério? E quanto às escolas de pós-graduação?
—Eu também os verifiquei.
—Talvez ele não seja formado. Talvez ele tenha cursado apenas um ou dois anos e depois desistido ou se transferido.
O rapaz pareceu perder o interesse. —Receio não poder ajudá-lo nisso. Nossa base de dados é limitada a graduados. Há algo mais que eu possa fazer por você?
Depois de Adam rejeitá-lo, ele desligou o telefone e praguejou, frustrado. Droga, tudo o que consegui foi garantir que serei chamado para a próxima campanha de doações de ex-alunos.
Sem conseguir avançar nada online ou por telefone, ele tirou uma hora da tarde seguinte para visitar a Escola de Administração. Quando chegou lá, o lugar estava quase vazio. "É recesso, seu idiota!", Adam se praguejou. Mas encontrou algumas pessoas por perto e começou a incomodar, indo de um escritório a outro pedindo informações sobre o Professor Marcelo Aguiar. Finalmente, um assistente do decano o confrontou. —Senhor, me desculpe, mas o senhor terá que se retirar agora. Se não obedecer, teremos que chamar a segurança do campus. — Adam se desculpou e saiu apressadamente, mais frustrado do que nunca.
Ao retornar ao escritório, sentou-se pesadamente à mesa. Após mais uma checagem inútil de seus e-mails, levou as mãos à cabeça. O que vou fazer agora?
Nesse instante, o telefone do escritório tocou. Quando Adam atendeu, uma voz desconhecida perguntou: —O senhor é o jovem que está procurando o Professor Aguiar?" Quando Adam confirmou que sim, o homem prosseguiu: —Meu nome é Dr. Aloisio Mansur. Sou membro do corpo docente da Escola de Administração de Empresas e talvez possa ajudá-lo. Mas, antes, posso perguntar por que o senhor está tentando localizar o Professor Aguiar?
Adam estava hesitante em discutir sua situação com um estranho, mas o desespero falou mais alto e ele deu ao Dr. Mansur um resumo conciso do motivo pelo qual estava procurando pelo professor desaparecido. Quando terminou, a pessoa do outro lado da linha emitiu um som contemplativo.
—Entendo. Ouvi suas perguntas na escola hoje, e a maneira como você formulou algumas delas me fez pensar se algo assim poderia ser o caso. De qualquer forma, acredito que posso tranquilizá-lo, rapaz. Aguiar foi professor adjunto na Escola de Pós-Graduação há dois anos. Ele era um bom educador, mas, infelizmente, a matrícula em sua turma ficou abaixo do mínimo exigido. Seu curso foi cancelado e seu contrato não foi renovado.
—Entendo— disse Adam. —Isso significa...
—Há mais — continuou o Dr. Mansur. —Recebi uma comunicação do Professor Aguiar no início do ano letivo atual. Ele escreveu para me informar que havia conseguido um emprego na Facuminas, em Minas Gerais.
—Ele está em Minas Gerais? — Perguntou Adam, admirado.
—Isso mesmo —afirmou o professor. —E há algo mais que talvez o senhor queira saber. Nessa mesma comunicação, o Professor Aguiar me informou sobre seu recente casamento com seu companheiro de longa data, Harold.
—Harold? Então isso significa que Aguiar é...
—Exatamente.
—Dr. Mansur, muito obrigado pela sua atenção. Ainda não entendo por que alguém me enviaria um e-mail tão traiçoeiro, mas agora tenho certeza de que era mentira.
—Eu esperava poder te tranquilizar.
—Senhor, posso fazer mais uma pergunta? Por que o senhor decidiu me ligar? Não me entenda mal – estou muito agradecido, mas sou apenas um estranho para o senhor.
O tom de voz do professor mudou. —Não me importo de lhe dizer, rapaz. Anos atrás, algo muito parecido aconteceu comigo. Minha esposa me abandonou para fugir com o amante, então tenho muita compaixão por qualquer pessoa que esteja potencialmente enfrentando uma situação semelhante. Felizmente, neste caso, o aviso que você recebeu era falso, então fiquei contente em poder tranquilizá-lo. Mas, como você pode imaginar, tenho opiniões muito fortes sobre qualquer pessoa que interfira em um casamento. Se a acusação fosse verdadeira, eu não teria hesitado em informá-lo.
—Muito obrigado, senhor. O senhor não imagina o quanto agradeço o que fez.
Naquela noite, Adam ligou para Jeane para lhe contar a boa notícia. —Ainda não sei quem está tentando destruir meu casamento, mas agora sei com certeza que Mel não está tendo um caso com o Professor Aguiar.
—Tem certeza de que pode confiar neste Dr. Mansur?"
—Com certeza. Depois da ligação, procurei informações sobre ele e o encontrei no corpo docente da Escola de Administração. Ele é um senhor de idade, provavelmente na casa dos sessenta, e aparentemente é muito respeitado. Mas, só para ter certeza, também verifiquei o perfil de Aguiar no site da Facuminas. E lá estava ele.
E hoje cedo recebi outro email da mesma pessoa, com uma foto do casal, a moça na foto com certeza não é a Melissa.
—Que ótimo, Adam. Você deve estar muito aliviado.
—Sim, estou. Mas agora meu problema é o que dizer para a Mel quando ela chegar em casa.
—Isso é fácil, Adam. Pelo que você me contou sobre o seu confronto com ela, ela nunca te deu uma chance de conversar. Quando ela voltar, diga a ela que você nunca teve dúvidas sobre ela. Diga que você já tinha descoberto sobre Aguiar, que o rastreou assim que recebeu o e-mail. Mas, como ela reagiu de forma tão violenta, você não teve a chance de contar. Se você jogar bem as suas cartas, Adam, ela vai acabar se desculpando com você.
—Não sei, Jeane. Não foi bem assim que aconteceu.
Ele conseguia ouvir o sorriso na voz dela. —Vamos lá, Adam. É tão ruim assim distorcer um pouco a verdade para conseguir o que você quer?
Melissa
No domingo, antes de voltar para a cidade, Melissa surpreendeu Jeane com um telefonema. —Oi, amiga, só queria saber como você está antes de voltar para casa. Estou um pouco nervosa sobre o que vou encontrar quando chegar lá.
—Uma coisa eu sei com certeza: você me deve muito por tudo que fiz por você enquanto estava por aí se envolvendo com outros homens. Graças a um pouco de apoio da minha parte e uma pitada de sorte, você vai poder voltar para o seu marido com o seu casamento melhor do que nunca. — Com isso, ela continuou descrevendo a semana, terminando com a descoberta do paradeiro de Aguiar por Adam.
—Se você jogar bem as suas cartas quando chegar em casa, Adam vai se desculpar com você, você vai se desculpar com ele, e tudo voltará ao normal na sua vida.
Houve uma pausa na linha. —E se eu não quiser que as coisas voltem ao normal?
—Não entendo, Melissa. O que você está dizendo?
—É que eu me diverti muito nessa semana. O Cal, o cara com quem eu fiquei, é muito divertido. — A voz de Melissa ficou um pouco rouca. —E o melhor de tudo é que ele é um amante fantástico. Faz anos que eu não tenho tantos orgasmos, até a rabeta eu dei pra ele, coisa que eu nunca tinha feito antes! Enfim, eu não estou pronta para que minha pequena aventura acabe. Quero continuar vendo ele, pelo menos até o semestre terminar. Vamos lá, Jeane, você tem que arrumar um jeito de me ajudar.
—Nossa, Melissa, você já correu um risco enorme indo embora com esse cara por uma semana. Se você tentar manter o caso aqui na cidade, vai estar realmente arriscando demais, garota. Bota juízo nessa cabeça.
—Talvez, mas você tem que admitir: seu planinho funcionou perfeitamente. Aposto que você conseguiria dar um jeito de eu fazer isso de novo. Vamos lá, Jeane, por favor? Esse cara é muito gato e tem um pauzão, to viciada.
—Eu tinha medo que algo assim pudesse acontecer. — Houve uma longa pausa. —Tudo bem —Disse Jeane lentamente — Posso bolar um plano para fazer o que você quer. Mas você precisa entender que estará colocando seu casamento com Adam em risco. Ele é um bom homem, Melissa. É trabalhador, leal e um verdadeiro homem de família. Homens como ele não aparecem todos os dias. Tem certeza de que quer arriscar tudo isso só por um pouco de diversão entre os lençóis?
Melissa deu uma risadinha. —Você me convenceu com “Eu consigo bolar um plano.”
— Tudo bem, mas não diga que eu não avisei. Agora, veja o que você precisa fazer. Você ainda tem aquela conta de e-mail que criou?
—Claro. Você me disse para mantê-lo ativo.
—Ótimo, porque você precisa enviar outro e-mail de “Um Amigo”. Só que desta vez, você vai enviar a mensagem para si mesma, para sua conta de e-mail normal.
—Hum, ok, acho que sim. O que diz o novo e-mail?
—É igual o anterior, só que desta vez você diz que Adam está tendo um caso comigo.
—O quê?! Mas isso não é verdade e Adam sabe disso. Como isso vai ajudar?
— É simples. O primeiro e-mail a acusava de ter um caso. Adam descobriu que você não poderia ter sido infiel com o Professor Aguiar, mas ele ainda pode ter dúvidas persistentes sobre a sua fidelidade.
— Espere um minuto, Jeane, você me disse que o e-mail sobre Aguiar me daria carta branca com o Cal.
— E funcionou. Mas agora, depois de receber este segundo e-mail, ele não terá mais dúvidas. Ele já provou que você não estava tendo um caso com Aguiar, e ele sabe com certeza que não está tendo um caso comigo. Obviamente, o 'Bom Amigo' é um mentiroso completo, o que significa que Adam não tem mais motivos para duvidar de você. Isso significa que você poderá se safar de praticamente tudo o que quiser sem levantar suspeitas.
Houve silêncio na linha. Então Melissa exclamou: — Jeane, você é um gênio. Não sei como você consegue pensar nessas coisas, mas você acabou de me dar um 'passe livre' que posso usar até o fim do semestre.
— Só faltam duas coisas, Melissa. Primeiro, certifique-se de que Adam me conte sobre o segundo e-mail.
— Certo, mas por quê?
— Porque assim posso reforçar a ideia de que você é confiável e esse 'amigo' desconhecido não é.
— Ah, que bom. Ele realmente se importa com você, então vai ouvir seus conselhos. Agora, qual é a outra coisa?
— Depois de enviar a mensagem para si mesma, não se esqueça de sair da conta de e-mail 'Bom Amigo'. Você não gostaria que Adam a encontrasse por acidente.
— Meu Deus, não!
— Na verdade, você provavelmente deveria se desconectar de ambas as suas contas de e-mail e mensagens quando não estiver usando-as. Você também não gostaria que Adam encontrasse nenhuma declaração de amor do Cal.
—Avisei o Cal para nunca me mandar e-mails ou mensagens. Mas continua sendo um bom conselho - melhor prevenir do que remediar.
Adam
Ao chegar em casa do trabalho naquela noite, Adam ficou alarmado ao encontrar Melissa chorando. Tudo estava indo tão bem entre eles desde que ela voltara de Floripa que vê-la em sofrimento o pegou de surpresa.
—O que foi, Mel? O que aconteceu? — Perguntou ele ao correr para o lado dela.
—Oh, Adam, está começando de novo! — Disse ela, com lágrimas nos olhos, mostrando-lhe uma mensagem no celular.
—Filho da puta! — Ele praguejou ao ler a mensagem acusatória. —Você sabe que isso é mentira, não sabe?
—Claro, querido. Eu sei que você nunca me trairia, assim como eu nunca te trairia. E mesmo se você me traísse, eu sei que nunca seria com a Jeane. Ela é uma amiga tão boa para nós dois que jamais faria uma coisa dessas.
— Droga, alguém ainda está tentando nos causar problemas, e eu não tenho ideia de quem seja ou por quê. Deve haver alguma maneira de rastrear essas coisas.
Ela olhou para ele com hesitação. —Você vai contar isso para a Jeane?
— Você acha que eu deveria?
—Acho que você precisa. Quer queira, quer não, ela está envolvida agora. Não seria justo com ela não a informar.
Na manhã seguinte, quando Adam ligou, Jeane atendeu de forma amigável. — Então, como estão os dois pombinhos hoje?
O tom de Adam era solene. — Estamos bem, Jeane, mas surgiu algo novo que preciso discutir com você. Podemos nos encontrar depois do trabalho?
— Na verdade, pretendo trabalhar em casa esta tarde. Você poderia vir ao meu apartamento?
— Claro, sem problemas. Aparecerei entre seis e meia e sete horas.
Ao abrir a porta do apartamento naquela noite, Jeane notou imediatamente a expressão aflita no rosto de Adam.
—O que foi, Adam? Estou preocupada desde que você ligou.
Ele balançou a cabeça. —Sinto muito, Jeane, mas parece que você foi arrastada para essa confusão comigo e com a Melissa."
Quando ela o olhou com curiosidade, ele lhe mostrou a mensagem.
Depois de ler, ela olhou para Adam com exasperação. —Mas isso é ridículo: não estamos tendo um caso. Eu jamais faria isso com a Melissa. Espero que ela saiba disso.
Ele assentiu com a cabeça. — Sim, ela disse. Aliás, ela me disse exatamente a mesma coisa.
Jeane balançou a cabeça, confusa. — Que bom ouvir isso. Mas o que você acha que tudo isso significa?
— Acho que significa que alguém quer muito causar problemas entre a Mel e eu. Primeiro aquele aviso do Professor Aguiar, agora isso. A única coisa que consigo imaginar é que tenho um inimigo, talvez um rival nos negócios. Só que não faço a mínima ideia de quem possa ser. Mas, de qualquer forma, já que parece que agora você está envolvida, eu e a Mel concordamos que precisávamos te avisar.
Ela assentiu. —Fico feliz que tenha feito isso, Adam. Você é sempre tão atencioso. Mas não sei o que podemos fazer a respeito, a menos que a pessoa misteriosa faça algo explícito ou cometa um erro. Acho que chamar a polícia não adiantaria nada.
—Concordo, Jeane. Mas é tão frustrante. Estou farto de toda essa confusão, só quero que quem quer que seja nos deixe em paz.
—Como Melissa está reagindo?
—Ela está bastante chateada. Quando cheguei em casa, ela estava chorando.
—Não me surpreende, especialmente depois do trauma que o primeiro e-mail causou. Escuta, Adam, acho que a Melissa está bem fragilizada agora. Entre tudo isso e o fato de ela estar tão perto da formatura, imagino que ela esteja um turbilhão de nervos. Você precisa protegê-la ao máximo.
—Você acha que nós dois deveríamos bloquear todos os e-mails dessa conta?
—Isso pode ser um engano. Se ele enviar mais alguma coisa, acho que você gostaria de saber.
—Sim, você tem razão. Mas como eu protejo a Mel?
—Para começar, se você receber outro desses malditos e-mails, eu não contaria para ela, pelo menos não imediatamente. Aliás, acho que você deveria verificar o e-mail dela no computador sempre que tiver oportunidade. Se ela receber outro, você pode encaminhar para o seu próprio e-mail antes que ela veja. Assim, você não precisaria envolvê-la.
—Sim, acho que é uma boa ideia.
Ele se levantou. —Sinto muito que você tenha sido arrastada para tudo isso.
—Se isso for para ser um pedido de desculpas, não preciso de um. Eu me importo muito com você e faria qualquer coisa para ajudar.
Ele sorriu agradecido. —É melhor eu voltar para casa e ver como a Mel está. — Começou a sair, mas se virou, deu um abraço e um beijo no rosto de Jeane. —Obrigado por ser uma amiga tão boa. Sua presença ao nosso lado durante tudo isso significou muito para mim.
Ao chegar em casa, Adam ficou agradavelmente surpreso ao encontrar Melissa com um humor muito mais alegre. Ela estava ainda mais animada na manhã seguinte, levantando cedo para tomar café da manhã com o marido.
—É um verdadeiro prazer, Mel. Não consigo te ver com muita frequência antes de sair para o trabalho.
—Bem, eu não queria que você fosse embora esta manhã sem ter a chance de dizer “eu te amo” — Disse ela, dando-lhe um beijo. — Ah, aliás — acrescentou, —Queria ter certeza de te avisar que vou a uma palestra no campus hoje à noite. Algumas amigas e eu vamos comer alguma coisa depois, então provavelmente chegarei em casa mais tarde.
—Claro, Mel, sem problemas. Temos bastante comida na geladeira, então posso pegar algo para comer aqui.
—Obrigada, querido. Provavelmente vou chegar em casa depois das aulas para deixar minhas coisas da escola e trocar de roupa. Se eu não te vir até lá, tenha uma boa noite.
Sabendo que Melissa estaria fora, Adam ficou até mais tarde no escritório. Para variar, as coisas estavam começando a melhorar nos negócios. Um grande cliente em potencial gostou muito das amostras do novo produto, e Adam estava esperançoso de que ele pudesse fazer um pedido experimental.
Pelo menos isso é uma coisa que está melhorando. Agora, se eu conseguisse descobrir quem está brincando de e-mail comigo e com a Mel...
Ele ainda estava pensando no misterioso "Bom Amigo" quando entrou em casa. Ao começar a voltar para o quarto, notou o laptop de Melissa em cima da mesa. Acho que ela não precisou dele para a palestra.
Então ele se lembrou da sugestão de Jeane. Será que ela ainda está com o e-mail conectado? Se estiver, preciso verificar se ela não recebeu nada novo daquele tarado.
O laptop ligou quando ele abriu. Não havia nenhuma página de e-mail aberta, então ele clicou no link do Gmail para ver se ela estava conectada. Ao fazer isso, uma janela se abriu, convidando-o a escolher uma conta. Ele viu o e-mail de Melissa, mas ela havia saído da conta, então ele começou a fechar o Gmail. Antes que pudesse fazê-lo, notou uma segunda conta abaixo do e-mail principal dela e, ao examiná-lo com mais atenção, ficou paralisado de incredulidade. O nome da conta era "Um Amigo".
—Que diabos? — Exclamou ele, olhando fixamente para aquilo. Tentou abrir, mas o Google exigiu que ele "digitasse sua senha". Sem saber a senha, fechou a aba e se deixou cair em uma cadeira, tentando assimilar o que acabara de ver.
Como ela poderia ter uma conta de e-mail com esse nome? Eu sei que o Gmail não permite que dois usuários tenham o mesmo nome de conta. Mas isso significaria que foi a Mel quem enviou aqueles outros e-mails! Por que ela faria isso? Por que ela me enviaria um e-mail anônimo se acusando de ter um caso?
A resposta veio num instante. Devia ser uma distração! Ela queria que eu fosse atrás de um professor gay em Minas Gerais porque ela está tendo um caso com outro!
Então, outro pensamento o atingiu como um soco no estômago. A viagem dela para Floripa! Quando mostrei o e-mail para ela, fingiu estar muito chateada comigo. Disse que ia visitar a mãe, que precisava de um tempo longe de mim. Agora me pergunto se ela sequer viu a mãe.
Rapidamente, ele pegou o celular e discou o número da sogra. Quando a senhora atendeu, ele conversou educadamente por um minuto e então disse: —Sabe, eu e a Mel estávamos pensando em ir visitá-la no mês que vem. Seria muito cedo para nos vermos de novo?
— Muito cedo? Faz tempo que não vejo vocês dois. Por favor, venham me visitar quando puderem.
Ele rangeu os dentes de raiva. —Ótimo. Entraremos em contato quando tivermos uma data confirmada. — Depois de se despedir, ele encerrou a chamada e praguejou. Filha da puta! Será que a Mel foi parar lá? E, mais importante, será que ela foi com alguém? Filha da puta!
Então ele se lembrou do último e-mail, aquele que Melissa recebeu. O que era aquilo? Droga, devia ser mais uma distração, para me fazer esquecer dela enquanto ela... enquanto ela vai para "palestras com as amigas!" Que vadia mentirosa e traiçoeira!
Isso o fez se perguntar o que ela estava vestindo quando saiu à noite. Ele correu de volta para o quarto e começou a vasculhar as lingeries da esposa. Era difícil para ele se lembrar de tudo que Melissa possuía, e ele quase desistiu. Mas uma suspeita repentina o dominou, e ele voltou para verificar mais uma peça: a cinta-liga. Ela havia sumido. Irritado, ele procurou o sutiã e a calcinha do conjunto, mas eles também haviam desaparecido. Jantar com as amigas, é? UMA ÓVA.
Ele recolocou tudo como estava e voltou para a mesa da cozinha para pensar. —Então você gosta de distração e enganar? Bem, dois podem jogar esse jogo!
Ele ainda estava furioso quando Melissa chegou em casa depois da meia-noite, mas fingiu estar dormindo quando ela entrou no quarto na ponta dos pés. Fez um esforço enorme para não se levantar e confrontá-la quando ouviu o chuveiro ligar. Quem diria que ir a uma palestra era um trabalho tão suado? pensou ele, amargamente.
Na manhã seguinte, Adam levantou-se bem cedo e saiu para o trabalho antes mesmo de Melissa acordar. Ao lado da cafeteira, deixou um bilhete para a esposa: "Espero que tenha gostado da palestra de ontem à noite. Tive que ir trabalhar cedo para uma reunião e talvez me atrase hoje, então não me espere acordada."
Foi um dia realmente agitado para Adam, mas suas reuniões não eram com clientes ou fornecedores. Na hora do almoço, ele fez algumas compras e depois voltou para casa com algumas delas para fazer alguns preparativos. Depois disso, teve mais dois compromissos que ocuparam o resto da tarde. Quando terminou, saiu para jantar e assistir a um filme para passar o tempo. Melissa já estava dormindo quando ele se deitou, tomando cuidado para não a acordar.
Ao acordar na manhã seguinte, porém, encontrou o marido à sua espera. —Pensei que já tivesse ido trabalhar há muito tempo, querido— disse ela, aceitando com gratidão a xícara de café que ele lhe ofereceu.
—Eu queria ter certeza de te ver esta manhã porque preciso pegar um voo para São Paulo ao meio-dia. Vou ficar fora por alguns dias, visitando alguns clientes em potencial.
—Isto é novo: você não precisa viajar com muita frequência. Então, quando acha que volta?
—Só na sexta-feira à noite, no mínimo. E se tudo correr bem, talvez eu só saia de lá no sábado de manhã. Você vai ficar bem aqui enquanto eu estiver fora?
Ela lhe deu um sorriso radiante. —Não se preocupe comigo. Tenho certeza de que encontrarei algo para fazer enquanto você estiver fora.
—Certo. Só não se esqueça de ficar longe do nosso 'Bom Amigo' enquanto eu estiver fora.
O rosto dela escureceu. —Isso não tem graça, Adam.
—Desculpe. Você tem razão: não tem graça. — Então ele acenou para ela, pegou a mala e foi em direção ao carro. Ao sair da garagem, franziu a testa. Ela nem percebeu que eu não disse "eu te amo". Aposto que já está planejando se encontrar com o amante de novo. Agora só preciso de uma pequena distração para garantir que o encontro seja aqui em casa.
Em vez de ir para o aeroporto, Adam saiu do escritório na hora do almoço e dirigiu até a faculdade. Depois de estacionar fora do campus, caminhou rapidamente em direção à Escola de Administração de Empresas. Ele havia se desfeito do seu habitual paletó e calça social; agora vestia jeans e um moletom com capuz. Sobre o ombro, carregava uma mochila barata.
Mantendo a cabeça baixa, dirigiu-se à sala de leitura da biblioteca da Faculdade de Administração. Os poucos alunos presentes não lhe deram atenção enquanto ele, casualmente, se escondia atrás de uma estante de periódicos. Assim que saiu do campo de visão dos outros, pegou uma série dos maiores fogos de artifício que conseguira comprar, acendeu o pavio extralongo que havia colocado neles e os jogou em um contêiner de metal para reciclagem. Em seguida, caminhou tranquilamente até a porta mais próxima, apoiou-a com a mochila e saiu.
Assim que saiu, pegou o celular descartável que havia conseguido no dia anterior e ligou para a Segurança do Campus. —É melhor virem rápido: tem um atirador na Escola de Administração! — Gritou empolgado quando atenderam. —Acho que podem ser vários! Ainda estão atirando! — Então, apontou o celular para a biblioteca e, segundos depois, uma série de fogos de artifício começou a estourar. Ele desligou e correu pelo campus até seu carro enquanto sirenes começavam a tocar e pessoas corriam em todas as direções.
Ele estava estacionado fora da vista de todos, em seu bairro, observando de um ponto estratégico quando viu o carro da esposa entrar em sua garagem uma hora depois. Em seguida, um segundo carro parou atrás dela e uma figura masculina saiu. "Em tempos de perigo, não há lugar como o nosso lar", murmurou Adam com um sorriso sem humor. Então, entrou em seu carro e dirigiu até o motel onde havia reservado um quarto. No final daquela noite, fez mais uma volta pelo bairro para se certificar de que o segundo carro ainda estava em sua garagem. Depois, voltou para o quarto e tentou dormir um pouco.
Quando o casal adúltero saiu de casa na manhã seguinte, ficaram surpresos ao encontrar Adam encostado na porta do carro do estranho. —Meu Deus, Cal, é meu marido! — Exclamou Melissa, surpresa ao reconhecê-lo. —Pensei que você estivesse em São Paulo— disse ela de repente, mas logo se corrigiu, percebendo como suas palavras soaram. —Querido, não é o que parece. Cal só deu uma passada para...
—Pare com isso, Melissa. Toda vez que você abre a boca, só mente. Não quero mais ouvir nada. — Ele fez uma careta e gesticulou na direção dos dois. —É exatamente isso que parece. Sei que vocês dois passaram a noite aqui e tenho uma gravação de tudo o que disseram e fizeram juntos. Então pare de falar e escute. — Ele pegou o envelope pardo que estava debaixo do braço e o empurrou para ela. —Estou entrando com um pedido de divórcio por adultério. Você encontrará o nome e o número do meu advogado aí dentro. Contrate o seu próprio advogado e peça para ele entrar em contato com o meu. Mas nem tente me contatar, porque depois do que você fez, não pretendo vê-la ou falar com você nunca mais.
—Não, querido, não fale assim. Foi só um engano, algo que aconteceu uma vez só. Podemos resolver isso, eu garanto...
—Eu disse para parar de mentir! — Ele rugiu. —Não foi algo que aconteceu só uma vez, você está transando com ele há semanas. E com certeza não foi um erro, você planejou tudo com antecedência. Eu sei que foi você quem mandou aquele e-mail como distração para que vocês pudessem passar um tempo juntos em Floripa. E, aliás, sua mãe quer saber por que você não a visitou ultimamente. Acho que você estava tão envolvida com esse pedaço de merda— ele gesticulou para o homem carrancudo —Que nem sequer conseguiu ir vê-la. — Ele fez uma pausa para voltar sua atenção para o amante de Melissa. —Ah, sim, isso me lembra. — Adam rapidamente pegou o celular e tirou várias fotos do homem assustado.
Ao perceber o que estava acontecendo, o homem rosnou, cerrou os punhos e deu um passo ameaçador em direção a Adam. Imediatamente, Adam enfiou a mão no bolso do paletó e a puxou o suficiente para revelar a coronha de uma pistola automática. —Ah, ah, ah— disse ele calmamente, —Eu não faria isso se fosse você. Não tenho intenção de arruinar minha vida te matando, mas ficaria muito feliz se você me desse a chance de atirar em você em legítima defesa.
—Calma aí! — O homem ergueu as mãos e deu um passo para trás.
Adam se virou para Melissa com um olhar de desprezo. —Parece que seu namorado é um amante, não um lutador. — Então sua voz ficou fria e cruel. —Pegue o que precisa na casa e vá embora, Mel. Não esteja aqui quando eu voltar. Eu não estava brincando quando disse que nunca mais quero te ver.
—Adam, por favor— ela implorou. —Eu nunca quis que fosse assim.
Ele a ignorou e caminhou até seu carro enquanto ela se deixava cair na entrada da garagem e começava a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos.
A caminho do escritório, Adam parou em uma caçamba de lixo e jogou o celular descartável lá dentro, junto com a pistola automática de brinquedo que tinha no bolso. —Ainda bem que eles fazem essas coisas parecerem tão realistas— disse ele com uma risada sem humor.
Ao retornar à sua mesa, Adam usou seu celular para enviar um e-mail com uma das fotos que havia tirado. Para sua surpresa, recebeu uma ligação de volta poucos minutos depois.
—Aqui é a Dr. Mansur. Você acabou de me enviar uma fotografia por e-mail?
—Doutor Mansur, peço desculpas por incomodá-lo novamente, mas por acaso o senhor reconhece o homem na foto? Creio que seu primeiro nome seja 'Cal'.
—A mulher ao lado dele - é sua esposa?
—Minha futura ex-esposa.
—Uma mulher muito bonita. Acho que ela foi minha aluna em uma das minhas turmas no ano passado. Quanto ao homem ao lado dela, eu o reconheço sim. O nome dele é Cal Máximo. Por coincidência, ele é um dos meus orientandos.
—Carl Máximo. Que bom saber disso, doutor. Receio que eu tenha contas a acertar com o seu senhor Máximo.
—Então ele era a serpente que contaminou o seu Jardim do Éden.
—Sim, por assim dizer, mas receio que a minha 'Eva' estivesse longe de ser inocente.
—Entendo. Muito interessante. Bom, fico feliz por ter podido ajudá-lo, embora lamente que o resultado não tenha sido o desejado.
—Obrigado, doutor. Agradeço seu tempo e sua ajuda, apesar de como as coisas aconteceram.
—Bom, boa sorte, meu rapaz, e não perca a esperança. As coisas sempre dão um jeito de se resolverem da melhor maneira. Acredite em quem já passou por isso e conseguiu superar.
Continua...