Assim, Lucas retornou pra sua cidade. Não falou nada com Helena - com quem mantinha cada vez menos contato. Ia enrolar o quanto fosse. Não queria nada que ela soubesse o que ocorreu. Não só porque ela ia fazer questão de acolhê-lo, mas ele não queria atrapalhar a vida dela, assim como ele não queria ajuda de nenhum dos atuais amigos dela, justamente a galera com quem ela atualmente andava. Uma vez, Lucas ligou pra ela. Atendeu e tinha som alto.
- Oi, filho! Como vão as coisas aí?
- Tudo em ordem. Estou pretendendo uma vaga de supervisor já. A questão é que isso... vai me deixar atarefado, podendo passar mais um Natal por aqui...
- Nossa, o ano mal começou você já está falando que é difícil me ver no Natal, quase daqui a um ano?? Você... (gritaram “bora, Helena! Vamo aproveitar! Daqui a pouco vamos sair!)
- Só um instante, Lucas... (“tô falando com Lucas, gente, ele me ligou!” “ah, manda um abração pra ele!”
- Karina tá mandando um abraço, todos aqui perguntam por você!
- Ok, ok... bem, outra hora a gente se fala...
- Tá, tá... tá um barulhão aqui e (nesse momento ela grita “uai... porra... Michele, tô no telefone! Me molhou toda, ahahahahah”)
- Mãe ligo depois, tá.
- Beijão, filho! Desculpa, mas aqui o pessoal tá endiabrado! Tá um dia de muito sol aqui e... (som ficando ainda mais alto). Outr... Outra hora te ligo, tchau! Se cuida!
Lucas não se ligou tanto no barulhão que ouvira ao fundo, mas como sua mãe estava enturmada e praticamente vivia com eles. Isso o deixou ainda mais decidido a esconder o que ocorrera e deixar ela em paz. Ele nunca a vira, durante todos os anos que morou com ela, transbordar tanta felicidade. De certa forma, reconheceu que ela merecia. Só não contava o pessoal com quem se envolvia tanto...
A funerária era porte médio, no subúrbio da cidade, longe de onde ele morou. Era um empreendimento arrumadinho, com uma carga de tributos mediana. A rua era um movimento só. Motos pilotadas por indivíduos sem capacete, e às vezes sem camisa, pra lá e pra cá; veículos passando a todo momento anunciando ofertas e promoções comerciais; vendedores batendo palmas e conclamando clientes a entrerem nas lojas; trânsito carregado com buzinas e sirenes. Ele trabalhava de casa, o que o deixou aliviado. Não queria passar o dia sabendo de dramas de quem ia procurar aquele tipo de serviço.
Ele lidava diretamente com Jamile, secretária e sobrinha da ex-esposa do dono do local. Jamile era negra, pele retinta, cabelos trançados longos, corpo esguio, uma simpatia contagiante, 23 anos.
Olhando o instagram do estabelecimento, se deparou com o perfil de Karina. Ela estava ainda mais bonita, corpo ainda mais gostoso. Numa postagem recente, havia um carrossel com umas 15 fotos. Numa delas, Karina beijava o rosto de Helena, que estava bem sorridente. Embaixo, os dizeres: “quando te conheci, a via muito pouco e conversávamos o básico. Depois a reencontrei num evento aqui em casa e você estava muito linda. Anos depois, você apareceu acompanhada de um grande amigo. Passamos a nos ver mais e agora você faz parte da família. Conviver contigo é uma satisfação sem tamanho, um presente que todos gostariam de ter em forma humana. Te amo, Helena”
As demais fotos eram os quatro casais juntos e sorridentes em diversos lugares. Na praia, na piscina, num restaurante, no teatro, em alguma festa... Lucas engolia seco ao ver a felicidade em estarem reunidos, como uma grande família mesmo. E ele estava de fora, por fora, e alheio a todos. Sentiu frustração. Refletiu que era um sujeito rancoroso, cheio de si, tanto que foi se afundando em Rio Branco e nem percebia. Achava que se bastava andando com as próprias pernas.
Nos dias seguintes, recebeu telefonema de Helena e o papo foi até bom, ele transpareceu estar bem e falou que talvez desse um jeito de vê-la brevemente, numa visita, pois estava “se consolidando” no trabalho. Até onde ia com aquela mentira deslavada?
Mas ai veio o alento. Passou a conversar mais com Jamile e acabou gostando dela. Chamou-a pra sair, ela também gostava dele e não demorou, transaram no kitnet. Jamile gamou em Lucas. A explicação foi plausível.
- Lucas, estou adorando ficar com você. Cresci nesse ambiente de azaração extremada, com festas de fim de semana, pegação total. Isso não traz futuro, pior, o futuro é com uma criança sem pai chorando atrás de você pedindo atenção. Ainda bem que trabalho desde cedo, estou passando uma chuva aqui. Faço enfermagem, dentro de poucos anos quero ter minha vida independente de família e tendo meus ganhos, suficientes pra mim e mais ninguém. Por isso, fico feliz em estar com um cara que não pensa em apenas me comer, estamos conversando sobre tudo, por aqui nas redondezas amigas minhas estão quase todas com filhos, em relacionamentos abusivos, ou então vendendo rifa por aí. Não quero isso.
Passado um tempo, Lucas estava também gostando muito de Jamile. Sentindo confiança nela, resolveu contar toda a verdade numa noite: o afastamento da mãe, o pedido pra trabalhar longe, a confusão que se envolveu, como foi parar ali. Jamile não o julgou em nenhum momento, o apoiou, mas disse que um dia teria que reencontrar suas origens e tentar uma reapoximação familiar real, não apenas com contatos telefônicos. Aquele castelo de areia tinha hora pra desmoronar.
- Lucas... espero não estar sendo chata, mas quando encaramos a verdade dos fatos, resta nos fortalecer. Adianto que desde sua chegada aqui os números vem melhorando, meu tio começa a endireitar as inúmeras dívidas que temos com sua ajuda. Que isso seja uma inspiração pra você se reerguer. Você é forte, aceitou vir trabalhar e agora que estamos nos conhecendo cada vez mais, nutro um sentimento verdadeiro, mesmo que não haja reciprocidade igual, são homens assim que quero como companhia.
Lucas estava sim gostando de verdade de Jamile, ela o motivava e era muito séria. A partir daquele momento, sentiu vontade de realmente se preparar pra encarar a verdade de frente.
Enquanto eles passavam mais um sábado juntos no quarto dele, se divertindo e transando, naquela mesma noite rolava os 50 anos de Ângela. Após um mini festival, em que ela e Ferdinando tocaram num parque, uma festança ocorreu num clube da cidade. Estavam todos lá, arrumadíssimos, recebendo alguns artistas que só viam pela TV. Cantores, críticos de arte, coreógrafos, jornalistas. Depois de um baile com muita bebedeira, música, e diversão a mil, amanheceram o dia na praia. Ângela, Ferdinando, Zeca, Michele, Karina, Luan, Helena e Marcelo eram puro extase. Se jogaram no mar com roupa e tudo. Nesses momentos, faziam um circulo e reverenciavam o brilho de estarem juntos. Depois partiram pra casa. Lá dormiram, acordaram e ficaram o dia todo surubando.
Um dia, Lucas acordou com uma ideia. Procurou o dono e fez uma proposta ousada.
- Há um cemitério público próximo daqui né? Então... por que o senhor não entra num edital de licitação para fornecer caixões subsidiados pagos pela prefeitura para sepultar pessoas carentes?
- Porra, Lucas, tá doido?? Isso leva tempo, não é simples, meu estabelecimento não teria condições pra esse tipo de empreitada!
- Como não?? eu faço o edital e concorremos. Pelos números, nossa conta pode aderir a um projeto desses.
- Lucas, veja bem... Teríamos que pedir empréstimo, não temos capital de giro pra isso!
- Pode deixar que eu cuido disso.
- Não! Você pode me levar à bancarrota!
- Confie em mim! Me deixe à frente disso! Eu assino uma promissória em cartório me comprometendo, vai por mim!
O dono ficou estarrecido. Assinado um termo, Lucas arregaçou as mangas. Foi ao banco, pediu um empréstimo, colocou a própria loja como garantia; redefiniu as contas; fez pesquisa de preços por atacado; escreveu o edital; publicou para concorrer; arriscou alto. E conseguiu! Com a decisão publicada no Diário Oficial, não faltou fornecedores. Tiveram que alugar um galpão pra receber o material. Numa comunidade pobre, morrem pessoas pela violência policial, do tráfico, do trânsito, doenças crônicas, feminicídios, e demais tragédias como chacinas e desmoronamentos após fortes chuvas. Assim funcionam as coisas. O dinheiro era certo. Toda a comarca abrangia cerca de 200 mil pessoas.
O balancete só crescia, os planos explodiram, comerciais pipocaram nas redes sociais, TV, e rádio. Jamile se emocionou.
- Lucas... você transformou isso aqui... tenho muito orgulho de você... eu te amo!!
A funerária começou a ativar convênios diversos junto a hospitais filanttrópicos. Lucas gerenciava tudo. Comprou um carro segunda mão. Começou a procurar casas em ruas mais tranquilas e já estudava morar com Jamile. O sonho de transformação havia chegado. De suspeito de desaparecimento em outro estado à solidificação de um negócio que levaria anos pra ocorrer. Jamile era só elogios.
- Lucas... você é um vitorioso. Não precisa provar nada a ninguém. Saia da toca, se mostre pras pessoas que deixou pra trás. Estou com você nessa.
Ouvir aquilo era entusiasmante. Jamile foi a mulher que esteve ao lado dele, acreditou, o acalmou nas noites que ele achava que seriam solitárias, amarguradas. Naquele instante onde deu a volta por cima, se sentiu poderoso. Lembrava da mãe e da turma dela e sentia imediatamente vontade de reencontrá-los. Não pra jogar nada na cara. Era pra se sentir inserido, ter o gosto de uma conquista vital e amorosa. Sentiu uma paz como há muito tempo não sentia. Estava revigorado. Era hora de se recompor com seu passado.
Mais de um ano se passara desde que Lucas retornou. O namoro com Jamile estava firme, o trabalho progrediu para controle das contas dos planos funerários, de saúde, e de profissionais MEI que prestavam serviço a eles. Achava que tava na hora de procurar Helena e contar toda a verdade. Em um papo com ela,expôs meias verdades: que ele estava com free lancer, com contas diversas, e estava namorando. E falou que estava prestes a retornar. Já Helena, ficou radiante com as novidades e também estava com novas demandas. O sentimento de chateação e frustração não mais existiam porque estava bem, amando, e com planos reais e sólidos. Num dia, ia saindo do banco quando alguém que estava entrando na instituição o parou surpreso.
- Lucão??????
Quando olhou, viu Zeca, seu ex-vizinho, parceiro de vôlei e bicicleta o olhando incrédulo. Ele sorriu.
- E aí, Zecão! Sou eu mesmo, brother!
Zeca quase chorou de felicidade. O abraçou fortemente.
- Porra, maluco! Você tá por aqui?? Porra, meu... rapaz... não tô acreditando!!
Mais abraços. Lucas evitava ir ao centro para não correr riscos de encontrar conhecidos, mas agora não tinha como. Tinha que visitar clientes que tinham escritórios por ali. Agora, já não tinha motivos pra se esconder. Andava com cabeça erguida. Era hora da verdade. Contar a ele, a Helena, não faria diferença.
Os dois foram tomar uma gelada. Lá, Lucas resolveu contar tudo. Apesar de nunca terem sido confidentes, anos de distância e sem se verem há um tempão, ele precisava desembuchar sobre tudo. Fez isso pra sentir que a verdade tinha que ser vomitada juntamente com o brilho da vitória pessoal.
- Caralho, Lucão... tô sem acreditar. Quer dizer que você fez tudo pra se distanciar da gente? Como assim, velho???
- Porra, bicho, se ligue... quando você e Michele começaram a se encontrar com Karina e Luan, percebi que um afastamento era o melhor. Não me via mais participando com vocês, me soou como uma equipe, sei lá. E quando minha mãe passou a encontrar vocês, tive a noção de que realmente eu não tinha mais lugar, era como se houvesse uma combinação entre vocês onde eu estaria perdido, desambientado.
Zeca compreendeu o que Lucas estava dizendo. Helena tinha sugerido algo. De certo modo, tinha lógica naquilo tudo. Lucas estava por fora do que virou toda essa conexão envolvendo os casais formados.
- Porra, Lucão, não vou mentir não... Desde quando a gente encontrou Karina e Luan por acaso, nossa ligação só aumentou. E quando sua mãe apareceu com Marcelo, foi uma afinidade enorme. Todo mundo passou a se encontrar nos mesmos lugares e isso foi crescendo, foi criada uma intimidade mesmo. Helena sempre desconfiou que você queria distância, mas ela não queria também encher seu saco, e deixou você seguir com suas vontades. Cara, ela vai surtar e se culpar por tudo isso.
- Não quero contar tudo de uma vez. Faz o seguinte: Diz que eu tô aqui, quero conversar, marcar com ela, apresentar a Jamile, dizer que agora sim estou no caminho certo. Tava ressentido, me fazendo de forte, enrolando ela. Já faz uns meses que Jamile me anima a contar tudo, tirar a limpo as coisas que ficaram pra trás.
- Porra, velho, vou fazer isso sim. Vou falar com ela, ela vai ficar radiante. Também tenho coisas a contar... sobre nosso grupo. Depois do que você me contou, tá claro pra mim porque rolou uma simbiose entre os casais.
Zeca passou a contar algumas coisas que conversavam quando o grupo se reunia. Lucas ouviu atentamente e se deu conta de que ele jamais poderia participar daquela trupe. O que Lucas não sabia é que aquela comunidade mágica de casais estava chegando ao fim.
(continua...)