Capítulo Cinco
Antônio
Não mereço o Rubens, ele é bem mais do que eu podia pedir na minha vida. E pensar que há um ano atrás se me dissessem que eu estaria de casamento marcado com um homem, certamente acharia graça. Aqui estou eu de casamento marcado com o homem da minha vida.
Se eu curtia homens? Não mesmo, e com certeza pensar sobre isso há um ano seria no mínimo perturbador, porém não está sendo e muito disso se dá pelo fato de está vivendo essa experiência com Rubens. Meu noivo me completa em tudo até em questões que eu não sabia que precisava. Ele é mais que um parceiro na minha cama, Rubens é meu melhor amigo, o cara que faria qualquer coisa por mim e eu por ele.
— Bom dia — diz meu amor ainda com os olhos fechados.
Normalmente ele acorda mais cedo que eu, mas essa noite tem um Pequeno na nossa cama que chorou a noite inteira, mas que agora dorme inocente e tranquilo — graças a Deus.
— Bom dia, meu amor.
— Já vou fazer seu café — Rubens é muito mais do que eu mereço.
— Não amor, fica ai com o Pequeno, deixa comigo.
— Não vou recusar não.
— Te amo — lhe dou um beijo e por puro instinto beijo a testa do Pequeno também antes de deixar os dois dormindo.
Na sala meu cunhado dorme feito uma pedra no sofá. Zé Filho não acordou nem com o choro do Pequeno e nem com o latido do Tigela. Abro a porta do quintal para que o Tigela saia, ele é treinado pois não fez as necessidades dele dentro de casa — ou ele só ficou com pena da gente e não quis dar mais esse trabalho.
Começo a passar um café — nessa casa não entra cafeteira — café coado é vida. Zé Filho que ignorou com sucesso todos os barulhos e também o “desconforto” do nosso sofá, finalmente acordou sentindo o cheiro do café. Ele apareceu na cozinha com a cara amassada coçando os olhos.
— Bom dia cunhado — diz com a voz rouca.
Rubens é o cara mais gostoso do mundo, mas isso não é à toa, todos os meus cunhados são gatos. Zé Filho é o que chamam de pretinho marrento e perigoso e mesmo assim a Gessika avacalhou com o cara porra! Agora eu que me foda com meu cunhado e sua dor de cotovelo no meu sofá.
— Bom dia — digo — então Zé Filho, qual o plano?
— Já tá de saco cheio de mim Cunhado? — Diz ele rindo.
— Não, a família do Rubens é minha família.
— Mas não sou o Benjamin né — não é segredo que o Ben é o cunhado com quem tenho mais contato e intimidade.
— Eu não sabia, se eu soubesse teria brigado com os dois e forçado eles a te contar.
— O Rubens falou, estou de boas cunhado, só vou ficar uns dias no seu sofá prometo.
— Não estou te expulsando Zé, só quero saber como a gente pode te ajudar — ele me encara por um tempo e então abre um meio sorriso.
— Agora, preciso de café.
— Isso é fácil de resolver — digo arrancando outro sorriso dele — Zé, somos família agora e se quiser conversar.
— Eu sei cunhado, pode deixar — ele está bancando o forte, mas eu bem lembro do Rubens chorando na primeira noite dele quando veio se curar de um término difícil e pela minha experiência os irmãos Domingos são todos coração, só emoção pura.
— O que você vai fazer com a criança? — Ele muda de assunto.
— Cara, não faço ideia.
— Você acha que a mãe dele vai mesmo voltar?
— Não sei, mas esperava que sim.
Rubens aparece com o Pequeno mais simpático do mundo no colo, nem parece que esse rapaz passou a noite chorando sem deixar a gente dormir, agora é só um sorriso bangelo para gente. Meu celular começa a tocar, tão cedo assim é no mínimo estranho, ainda mais que eu avisei ontem na clínica que não iria conseguir ir nem para emergências.
— Quem é? — Rubens pergunta.
— O Juliano — repondo antes de atender — bom dia Juliano o que foi?
— Doutor, tem um homem aqui dizendo que a Luana falou que você tá com o filho dele — meu coração acelera.
— Juliano manda ele me esperar, estou chegando ai.
— O que aconteceu Antônio? — Minha cara já basta para o Rubens entender que é problema.
— O Pai do Pequeno tá lá na ONG.
— E ai? — Pergunta Zé Filho.
— Agora eu vou lá falar com ele.
— Ele vai levar o Pequeno? — Rubens parece estranhamente preocupado.
— Não sei, mas acredito que sim já que ele é o pai.
— Mas o pai não era um cara casado que nem sabia da existência do moleque? — Diz Zé Filho sem entender nada e sendo justo nem eu estou entendendo.
— Bem, vou saber quando falar com ele.
— Amor, não leva o Pequeno ainda — Diz Rubens — eu sei que ele é o pai, mas tenta entender o que rolou antes.
— Tá certo — concordo com ele, é uma situação bem inusitada.
— Quer que eu vá com você Cunhado?
— Acho melhor não, fica aqui com o seu irmão.
Vou no quarto, visto uma calça jeans e pego a primeira camisa de botões que encontro — na minha vida aprendi que um homem quando precisa resolver alguma coisa sempre é bom ir de calça. Beijo meu noivo, mais uma vez deixo um beijo na testa do Pequeno e saiu feito um maluco com o Fuscão para a ONG, tentando formular o que vou dizer para esse pai.
Não moro não tão longe da ONG então não demorou nada para chegar, não sei por que estou tão nervoso, mas minha mãe está tremendo, eu sei que não é uma situação fácil de resolver. O cara é velho, deve ter uns cinquenta e poucos, mas os olhos dele são exatamente iguais aos do Pequeno, não tem nem como dizer que eles não são pai e filho.
— Bom dia — digo assim que cheguei, o homem sentada no sofá levanta ao me ver — o senhor pode me acompanhar até meu consultório?
— Claro.
O homem não está bravo, o que é um bom sinal, mas tem uma seriedade meio sombria nos olhos, o que só me deixa mais nervoso, mas estou me esforçando muito para não transparecer. Sei que ele é casado e que é o pai do Pequeno e nada mais.
— A maluca da Angela deixou o menino aqui?
— Sim, mas ele está bem, ele está com meu marido em casa — não sei porque, mas digo que Rubens é meu marido, acho que passa mais confiança do que noivo, só estou surtando, não tenho controle do que sai da minha boca.
— Angela me garantiu que iria embora, eu devia saber que ela ia aprontar algo — ele parece mais cansado do que irritado — e agora esse problema.
— Olha eu não a conheço, só cuidei do Tigela o cachorro dela — conto a ele o que aconteceu.
— Antônio não é isso? — Faço que sim com a cabeça — eu tenho quatro filhos criados e casados, minha mulher tá em casa e não posso simplesmente chegar com um menino, não tenho nem como explicar isso.
— A amiga da Angela disse que o senhor não sabia do Pequeno — digo.
— Só aqui entre nós Antônio ela ela trabalhou na minha casa e a gente acabou se relacionando, mas nunca menti para ela, sempre falei que não largaria minha esposa.
— Não vou julgá-lo, só quero resolver a situação do Pequeno da melhor forma.
— Olha agradeço por você não ter chamado a polícia, isso ia acabar chegando em mim.
Ele não parece um homem ruim, mas tudo nessa conversa me deixa claro que ele não quer o Pequeno e isso me sobe um preocupação e um pouco de raiva de como alguém pode não querer o Pequeno.
— O senhor registrou o Pequeno?
— Não, mas fiz um acordo com ela.
— Um acordo?
— É, eu dei um dinheiro para ela e disse que ia fazer uma poupança para ele.
— Mas o senhor não tinha medo que sua família descobrisse que o senhor que o senhor estava bancando uma criança? — Eu sei que não ia julgar, mas acabou escapando.
— Ela garantiu que não viria atrás disso comigo, desde que eu mandasse o dinheiro.
— O que o senhor vai fazer com ele?
— Não posso levar ele para casa, eu vou deixar no juizado.
— O senhor não pode fazer isso! — Acabo me exaltando.
— Eu não vou criar essa criança, não tenho mais nem idade para isso, fora que se minha mulher descobrir isso vai acabar com meu casamento — ele está mais preocupado com o casamento de esquentar o sangue e então acontece, as palavras escapam da minha boca.
— A gente fica com ele.
— Não vou pagar pensão dessa criança Antônio, eu fiz um acordo com ela, e pelo jeito essa maluca perdeu o juízo achando que vou mandar dinheiro para ela enquanto ela deixa o menino na rua.
— O Pequeno não está na rua e nem queremos o seu dinheiro — eu sei que estou me precipitando de que tinha que falar com o Rubens primeiro, mas sinto que é o certo a se fazer.
— Se você não vai querer dinheiro está fazendo isso por que?
— Não quero seu dinheiro, só quero sua palavra de que vai esquecer que tivemos essa conversa e que o senhor é pai dessa criança.
— Muito bem então, espero nunca mais nos vermos.
— Digo o mesmo — digo apertando a mão do homem.
Ele nem sabe o nome da criança que ele ajudou a pôr no mundo, isso é muito revoltante. Rubens tem uma família grande, muitos irmãos, eu não, antes do Rubens minha definição de família era um tanto complicada. Eu sei o que é ter que lutar para viver, não vou deixar que o pequeno entre no sistema e tenha que passar pelo diabo até encontrar uma família e algo dentro de mim ainda sente — mesmo que fraco — que Angela ainda pode voltar.
Me despeço do homem. Depois ligo para Gessika que me xingou de maluco assim que conto a ela o que acabou de acontecer.
— Você nem sabe se o Rubens quer isso também Antônio!
— Eu sei, eu vou falar com ele, mas o que você queria que eu fizesse Gessika?
— O que eu te disse para fazer desde o início Antônio, leva esse menino pro Juizado.
— Gessika.
— Antonio, falsidade ideológica é crime, dizer que é pai de alguém sem ser é crime.
— Mas eu vou ser pai desse menino.
— Você perdeu o juízo só pode — ela diz incrédula e no fundo acho que ela está certa, perdi o juízo, fora que Rubens é certinho demais para deixar isso acontecer.
— E quais as minhas chances de conseguir a guarda legalmente do Pequeno? — Não posso simplesmente desistir.
— As chances são bem baixas Antônio.
— O que eu faço Gessika me ajuda por favor.
— Não sei o que te deu Antônio, mas faz assim, conversa com Rubens ele pode por juízo na sua cabeça, se o Rubens topar entrar nessa louca com você a gente verá a melhor forma de fazermos isso juntos tá legal?
— Obrigado.
— De nada — ela fica em silêncio por um momento — ele tá bem?
— Desculpa, Gessika, não posso ficar no meio disso.
— Tudo bem.
Volto para casa pensando em como vou falar sobre isso com Rubens, tipo ele pode dizer que o melhor é entregar o Pequeno, mas é que tem algo nesse menino que despertou um calor no meu peito, não sei explicar, só que na minha cabeça o Pequeno não foi deixado comigo a toa. Se for por escolha da Angêla ou só o destino não sei, só sei que sinto que o Pequeno entrou em nossa vida no momento certo e quero lutar por ele, só espero que o Rubens também pense assim.
