Dois de fevereiro de dois mil e vinte e dois.
No Brasil, principalmente na Bahia, mas especificamente em Salvador, essa data é muito significativa. É o dia de Iemanjá, considerada pelos adeptos das religiões de matrizes africanas a mãe de todos os orixás. É uma entidade fortemente celebrada no bairro do Rio Vermelho e reúne milhares de fiéis e turistas para saudar a Rainha do Mar. Desde a madrugada, devotos depositam flores e presentes na Casa de Iemanjá, e o momento é culminado com o cortejo marítimo ao fim da tarde.
Tudo em Salvador é festa. Aqui é o lugar em que o sagrado e o profano se abraçam, e não existe hora para começar ou terminar um furdunço. As ruas se enchem de pessoas vestindo roupas brancas, simbolizando a paz, e os tons intensos das fitinhas dão lugar ao azul, aos colares, às guias e às saias rodadas que dançam ao ritmo dos atabaques. O cheiro do mar se mistura ao perfume das flores e ao dendê, anunciando que ali a vida pulsa com uma intensidade única. O povo, sempre sorridente, carrega no olhar a leveza de quem aprendeu a celebrar mesmo diante das dificuldades, de quem transforma fé em festa e rotina em poesia. Em cada esquina há música, em cada gesto há acolhimento, e quem chega logo se sente parte desse movimento vivo, caloroso e contagiante. Brinco que Salvador não é apenas um lugar, é um estado de espírito em que o tempo desacelera para dar espaço ao encontro, à alegria e à arte de viver bem.
Mas, Lore, por que você está narrando tudo isso? Por acaso vai proporcionar uma excursão com experiência imersiva para os seus leitores? É o que vocês devem estar se perguntando. Bem que eu queria e vocês mereciam, mas não. Hoje eu vou contar como essa data, tão importante para tanta gente, se tornou especial para a minha família, como o dois de fevereiro, um dia tão agitado, mudou a minha vida para sempre.
Hoje eu vou contar sobre o nascimento do meu terceiro filho, Dom.
Essa enrolação toda serve de contexto, porém confesso que é uma lembrança que me deixou nervosa ao escrever e eu precisei criar um climinha. Aproveitei para falar da minha cidade, que é rica em cultura, diversidade e... um palco para multidões!
Tudo começa uns dias antes. Teoricamente, era o final de semana em que Milena ficaria com o pai, e antes nós iríamos conversar sobre as novidades, a pedido da filhota. Mas isso acabou precisando ser adiado porque Mih não se sentiu bem e apresentou sinais de ansiedade. Ela me pediu para ficar, e eu mesma comuniquei ao pai dela sobre o ocorrido. Milena dormiu uma noite comigo e uma noite com Júlia e já parecia melhor.
No dia primeiro de fevereiro, a cidade já demonstrava sinais de que iria parar. Salvador tem tantos feriados municipais religiosos que a Lavagem do Bonfim e a Festa de Iemanjá, as maiores festas tradicionais da capital, não cabem na cota. Então o trânsito vira um verdadeiro caos. Além do povo subindo e descendo para acompanhar a festividade, ainda há os trabalhadores não dispensados querendo exercer o seu ofício.
À noite, eu estava sentada no sofá estudando sobre um caso específico, e Kaique saiu do quarto. Tanto ele quanto Milena estavam deitados com Juh assistindo a um filme.
— Cadê o restante? — eu perguntei.
Ele disse algo que não entendi e finalizou com “está indisposta”.
Devido ao contexto dos dias anteriores, imaginei que ele se referia a Milena.
Ficamos uns trinta minutos ainda ali. Ele preparou um lanche para ele e também para mim, e subimos porque eu queria saber como Milena estava.
— A senhora está melhor, mamãe? — ele perguntou, antes de entrar no quarto dele.
— Sim, amor, foi somente um mal-estar — Júlia respondeu.
— Achei que Mih estivesse indisposta. Sentiu o quê, gatinha? — quis saber.
— Um incômodo, acho que ele está chutando minhas costelinhas — Júlia me respondeu e riu.
E a noite prosseguiu normalmente. Os meninos se despediram, indo cada um para os seus quartos, e nós duas nos abraçamos para dormir.
Dois de fevereiro de dois mil e vinte e dois, 02:17. Vinte e nove semanas e três dias de gestação.
Acordei com uma movimentação insistente ao meu lado. Juh se mexia como se estivesse tentando encontrar uma posição que simplesmente não existia. O quarto estava gelado, com o ar-condicionado ligado como sempre, mas mesmo assim a pele dela brilhava de suor, os fios de cabelo grudados na testa e a respiração mais pesada do que o normal.
— Amor? O que está acontecendo? — perguntei, virando o corpo inteiro de frente para ela.
— Tá doendo muito... e não quer parar... — ela me respondeu, com dificuldade.
— Tá... calma... quando começou? — questionei, sentando na cama.
— Não sei, acordei com a dor — Juh respondeu, tentando levantar-se.
— Ok, ok... vamos ao hospital... — falei, auxiliando-a.
— Amor, liga para Sabrine — Júlia me pediu, com a voz trêmula.
— Ligo — confirmei, já pegando o celular mais próximo.
Era o de Júlia, o que facilitou ainda mais encontrar o contato de Sabrine. Contei o que estava acontecendo e ela confirmou que era para a gente ir até lá.
Finalizei a ligação e segui andando com Juh. Foi quando meu olhar repousou sobre a cama e eu vi uma pequena mancha de sangue. Senti o corpo inteiro gelar. Eu pedi tanto um final diferente, e o pior dia da minha vida parecia estar se repetindo.
— Quero ir ao banheiro antes — Júlia pediu.
Despertei daquela espécie de transe ao ouvir a voz da minha esposa e fui me preparando para acalmá-la, mesmo quando tudo dentro de mim estava bagunçado, porque eu sabia o que ela iria ver.
— Ai, meu Deus... Lore, tem sangue! — Júlia me disse, já em lágrimas.
— Calma, amor... vai dar tudo certo, tá bom? Nós vamos ao hospital e tudo vai se resolver — disse, ajoelhando e segurando firme as mãos dela, olhando diretamente em seus olhos.
Por dentro eu sentia o mesmo que ela: medo de perder mais um filho tão amado e tão esperado.
Eu não sabia o que fazer com Milena e Kaique. Não sabia se os levava conosco ou se ligava para algum dos meus irmãos para que ficassem com eles. Com a correria, os dois acordaram e ficaram preocupados com Júlia e com o que poderia acontecer com o irmãozinho. Eu não estava em condições de perder tempo, então fomos todos para o carro.
Não tive oportunidade de conversar com eles antes e tudo estava acontecendo muito rápido, então precisei falar na frente de Júlia mesmo.
— Olha, sei que é desesperador, mas nós não sabemos o que está acontecendo. Então vamos torcer muito para dar tudo certo e para que a gente volte para casa bem, então vamos nos dar força, tá bom? — perguntei, vendo pelo retrovisor os olhinhos deles totalmente perdidos.
— Vai dar certo, vai dar certo — Mih começou a repetir com os olhos fechados.
Kaká não conseguiu dizer nada, apenas se agarrou à irmã.
As dores que Juh sentia se intensificavam a cada instante. Sabrine já tinha ligado umas três vezes e a gente não conseguia sair do lugar por conta do congestionamento. Inúmeras situações passavam pela minha cabeça e eu só fazia um pedido: por favor, dá-nos um final diferente dessa vez.
Percebi que não tinha sido uma boa ideia levar os meninos juntos. Tomei a decisão por impulso por não querer perder tempo, mas teria sido melhor ligar para que alguém ficasse com eles. Decidi então ligar para Sarah. Eu sabia que, pelo horário, meu irmão estaria capotado e não acordaria, e Loren tem os gêmeos. A opção mais viável era a minha cunhada. Contei que estávamos indo ao hospital e que precisava de alguém para ficar com Milena e Kaique. Imediatamente ela acionou Lorenzo, e os dois seguiram para o hospital por um caminho diferente, na tentativa de driblar o trânsito.
— Mais sangue — Juh sussurrou, sem querer olhar para baixo.
Eu a toquei e minha mão saiu completamente encharcada, mas não era sangue.
— Amor... a bolsa rompeu... — eu disse.
Abri a janela do carro e comecei a gritar que ela estava em trabalho de parto.
Buzinei bastante e começou uma mobilização de pessoas buzinando também e outras me ajudando a gritar para alcançar mais gente. Isso ajudou demais, várias fendas foram se abrindo e, sem pensar duas vezes, entrei em todas elas.
Mesmo com esse auxílio, demoramos muito para conseguir chegar ao nosso destino. Eu estava muito preocupada e desanimada com tudo aquilo e, ao mesmo tempo, desejava passar força e coragem para a minha mulher.
Assim que estacionei, carreguei Juh enquanto a equipe já vinha ao nosso encontro. Minha gatinha estava assustada e chorava muito. Segurei as mãos trêmulas dela com cuidado e não consegui falar nada, apenas dei um beijinho em sua testa e a coloquei na cadeira de rodas.
Rafael veio atrás de mim e falou que ficava com os meninos. Passei por ele e mal o vi, apenas agradeci e informei que meu irmão já estava a caminho.
— O tio Lorenzo está vindo. Vai ficar tudo bem, eu só preciso cuidar da mamãe sem me preocupar com vocês, então vocês ficam com o Rafa e eu volto ou ligo para dar atualizações, tá? — falei.
— Mãe... — Milena começou a dizer, mas eu a interrompi.
— Sei que vocês querem ficar, mas eu preciso da ajuda de vocês, caso contrário não consigo. Vou querer ir até o quarto o tempo inteiro para saber como vocês estão, e eu preciso ficar com a mamãe, entendem? Com o Rafa, o tio Lorenzo e a tia Sarah, eu sei que vocês vão estar sendo cuidados e acalmados — concluí.
Eles confirmaram com a cabeça e me abraçaram forte.
— Vai dar tudo certo, com fé em Deus! — exclamei.
E os dois ficaram repetindo baixinho que daria tudo certo.
Me despedi com um beijo e nos direcionamos para portas diferentes: eles para um quarto com Rafael e eu para onde Juh estava.
Gostaria de poder relatar tudo o que ocorreu, porém estaria mentindo se dissesse que lembro. Tenho flashes do olhar de Júlia se encontrando com o meu, da voz de Sabrine falando “descolamento prematuro de placenta”, “situação transversa com apresentação córmica”, “cesariana”, e a doula logo atrás de mim dizendo frases como “calma, mãezinha”.
Eu entrei em pânico.
Tudo foi escurecendo e girando em câmera lenta.
Nada na nossa vida nunca foi fácil, a não ser o nosso amor.
Comecei a lembrar com detalhes de como foi a madrugada em que perdemos Maya e de como havia grande semelhança com o que estava acontecendo novamente ali na minha frente, e eu não podia fazer nada para mudar o resultado da equação.
— Um final diferente, por favor — balbuciei, sem forças.
Eu não podia jogar a toalha. Bem ali na minha frente tinha uma mulher extremamente corajosa, que enfrentou todas as barreiras para dar vida ao nosso sonho. Ela lutou desde o início pelo nosso filho. Ele ainda nem sonhava em existir e Juh enfrentou a primeira batalha, que foi me convencer. Ela viu o corpo dela mudar, o preparou da melhor maneira, seguindo todas as orientações médicas ao pé da letra, sentindo todos os efeitos colaterais e rompendo as barreiras da timidez para que Dom tivesse as melhores condições.
Dei dois passos para trás, fechei os olhos e encostei por no máximo dez segundos na parede mais próxima. Agitei os braços e respirei fundo para me acalmar.
— Um final diferente! — falei um pouco mais alto e dei um sorriso.
Foram só dez segundos para eu voltar ao eixo e ir apoiar minha gatinha da maneira que achava mais correta. Fui até ela e dei um beijo demorado na bochecha de Juh.
— Bora ter nosso neném? — perguntei.
— Amor, ele é pequenininho... não está na hora... — Júlia disse, deixando novas lágrimas caírem.
— Ele é apressadinho que nem você e quer conhecer esse povo que fala no ouvido dele o tempo todo — brinquei e dei outro beijinho nela.
— Ele podia esperar um pouquinho mais... e se... — Júlia ia dizendo ainda chorando.
— Amor, vamos ter o nosso neném? — perguntei novamente, segurando firme na mão dela.
— Seja o que Deus quiser — Juh respondeu e encostou o rosto em mim.
Entramos no centro cirúrgico e posicionaram Júlia na mesa enquanto me pediram para ir me preparar para entrar. Coloquei a touca, a máscara, o avental e tudo o que precisava, com as mãos um pouco trêmulas, tentando me manter focada.
Foi quando ouvi a voz dela.
— Eu não vou conseguir... eu não consigo... — Juh disse, assustada.
Fiz sinal de que já estava pronta, pedindo para entrar, e a enfermeira autorizou. Fui direto até ela. Juh estava sentada, curvada para frente, pronta para receber a raquianestesia, e o medo no olhar dela me desmontou por dentro.
Me agachei na frente dela, mantendo a distância necessária para ficar na altura do seu olhar.
— Vai conseguir sim, amor. Você já chegou até aqui, tá? Falta só mais um pouquinho — falei, fitando-a fixamente.
— A agulha... — ela sussurrou, com a voz falhando.
Sem sair do lugar, projetei o rosto para frente, tentando fazer com que ela focasse em mim e não no que estava acontecendo atrás.
— Vai entrar só um tiquinho, bem pouquinho mesmo — falei baixo, fazendo um gesto com os dedos para mostrar o tamanho — quando você perceber, já acabou.
O anestesista se aproximou e falou com calma:
— Júlia, agora eu vou higienizar a região lombar e fazer a anestesia. Você vai sentir uma picadinha da anestesia local e depois uma pressãozinha, mas eu preciso que fique bem paradinha.
Juh me olhou ainda mais aflita.
— Já deu certo! — exclamei, sorrindo.
A equipe pediu para ela curvar um pouco mais as costas, quase abraçando a própria barriga, e eu permaneci na frente dela enquanto o anestesista fazia a punção lombar para a raquianestesia.
— Daqui a pouco a gente vai ouvir o nosso apressadinho — falei, sorrindo.
Do nada ela começou a soltar o ar pela boca, com os olhos arregalados.
— Prontinho! — alguém exclamou.
— Acabou, mexe as perninhas aí — falei, já me posicionando onde ficaria.
Juh tentou obedecer no automático, ainda assustada, mas bastou mexer os pés uma vez para o olhar dela mudar.
— Tá formigando... — ela sussurrou, olhando para baixo como se ainda esperasse ver as próprias pernas responderem do jeito de sempre.
— É assim mesmo, e depois vai ficar dormente — disse, rindo.
A equipe de enfermagem a ajudou a deitar com todo cuidado e, em poucos segundos, já começaram a posicionar os braços dela abertos sobre os suportes laterais. Logo depois, como é de praxe, colocaram o campo cirúrgico entre o tórax dela e a barriga, impedindo que ela visse qualquer movimento da equipe.
Todo mundo tentava conversar com ela, mas Juh não respondia. Ela parecia querer, porém o nervosismo não deixava. Sabrine quase tirou leite de pedra na tentativa de distraí-la, mas aqueles olhinhos estavam fixos em mim.
— Quer conversar só com Lore, é? — Sabrine perguntou em um tom divertido.
Júlia confirmou, balançando a cabeça positivamente, o que nos fez rir.
— Eu te amo — falei para ela.
— Eu também te amo — Júlia respondeu, com os olhos brilhando.
Colei meu rosto ao dela e dali não saí mais.
O silêncio que se seguiu ao nascimento de Dom foi um abismo de terror, um vazio ensurdecedor que pareceu engolir o centro cirúrgico inteiro. O corpinho molinho e imóvel dele foi rapidamente envolvido em uma manta e levado para a mesa de reanimação pela equipe neonatal, que entrou em ação de forma precisa e imediata. As vias aéreas foram aspiradas, os estímulos táteis foram realizados no peito e nas costas, aplicaram oxigênio e ajustaram a ventilação com pressão positiva enquanto monitoravam a frequência cardíaca, que teimava em não responder como esperado.
— Ele está... — Juh começou, a voz quebrando no meio da frase, já chorando, sem conseguir terminar.
Apertei o ombro dela com força e balancei a cabeça negativamente.
— Não... não... — neguei baixinho, mais para mim mesma do que para ela.
Foi como se eu recusasse aquele vazio, como se me recusasse a aceitar outro desfecho cruel.
Seis minutos se arrastaram como uma eternidade de tensão máxima e angustiante. Em cenários de reanimação neonatal, cada segundo conta para estabilizar o recém-nascido. A equipe corrigia técnicas de ventilação, verificava a saturação de oxigênio e persistia nos protocolos sem pausas, enquanto eu e Júlia nos agarrávamos uma à outra em pânico, com o coração disparado.
Então veio o choro. Fraco no início, mas insistente, rompendo todo aquele silêncio ensurdecedor. Um alívio absurdo nos invadiu, fazendo nossas lágrimas explodirem em soluços mistos de gratidão e exaustão, enquanto Sabrine anunciava: "Ele está estável" E nos permitiu, enfim, vislumbrar nosso apressadinho lutador, vivo.
Levaram nosso neném para os primeiros cuidados, e eu me inclinei o máximo que consegui para enxergar o meu menino. Todo pequenininho e já vermelhinho. Vivo!!!
Era isso que importava naquele momento.
Júlia continuava me olhando. Sem dizer uma palavra sequer, eu sabia que ela precisava que eu confirmasse a cada segundo que aquilo era real.
— Ele tá bem, amor? Cadê ele? — ela perguntou.
— Tá sim, amor, está bem... estão cuidando dele... nosso neném nasceu — falei no ouvido dela, sem conseguir evitar o riso.
Definitivamente não era o melhor cenário. Dom fugiu do planejado e nos surpreendeu. Porém, a única coisa que importava era que Júlia estava bem e nosso filho vivo.
Sabrine se aproximou, com um olhar firme, mas visivelmente emocionado.
— Ele chorou bem depois da reanimação inicial. Agora vai para a UTI neonatal para observação e suporte. O quadro é compatível com prematuridade, mas por enquanto ele está estável — ela nos disse.
Fechei os olhos por um segundo e soltei o ar devagar.
Estável.
Aquela foi a única palavra que consegui guardar.
— Obrigada — Júlia sussurrou, deixando novas lágrimas escaparem.
— Amiga, ele é a sua cara... — Sabrine soltou, também chorando.
Quando terminou a cirurgia, achei bonitinho como Juh parecia surpresa com o tempo que levava para finalizar tudo. Ela teve uma perda de sangue considerável e estava se sentindo fraquinha. Sentei ao lado dela e a doula entrou novamente, dizendo algumas frases motivacionais.
— Quanto tempo ele vai ficar aqui? — Júlia perguntou para Sabrine.
— É cedo para cravar agora, mas o mais provável é que ele fique algumas semanas. A gente vai depender da evolução respiratória, da alimentação e do ganho de peso — ela respondeu com honestidade.
Algumas semanas.
— Ele vai ficar bem — falei e dei um selinho nela.
— Vai — Júlia assentiu, com os olhos cheios de lágrimas.
— O pior já passou! — a doula exclamou, animada.
Juh olhou para ela e depois para mim. Percebi que ela não estava curtindo, e isso me fez rir. Para disfarçar, me inclinei para dar um beijinho na minha gata.
— Tira essa mulher daqui — ela sussurrou.
— Oxeeeente — falei, rindo.
— Não quero ser mal-educada — Juh disse, sem paciência.
Ri e chamei a pobi da mulher, que só estava exercendo o trabalho dela, para tomar um café. Depois agradeci pela presença dela, que eu sinceramente nem lembro de ver ou ouvir, e me despedi.
Depois de me certificarem de que Juh estava estável, permitiram que eu desse uma rápida olhada em Dom na UTI neonatal, através do vidro. Ali, observando o corpinho minúsculo envolto em cobertor térmico, com muitos fios, eu me apaixonei perdidamente pelos olhinhos rasgados, idênticos aos de Juh, abertos e curiosos, como se ele já estivesse observando o mundo ao seu redor.
— Filho, você tem os olhos da sua mamãe — falei baixinho, emocionada, com a mão pressionada no vidro, sentindo o coração transbordar de um amor que apagava todo o pavor anterior.
Voltei para o quarto dela e, ao descrever aqueles olhos, Juh perguntou ansiosa quando poderia pegá-lo no colo. Sabrine explicou que dependeria da evolução, mas talvez fosse possível na noite seguinte, se os exames respiratórios e os sinais vitais permitissem o primeiro contato pele a pele.
— Ele é lindo, amor, realmente é a sua cara — eu disse, acariciando a mão dela, e vi o sorriso fraco surgir em seu rosto exausto, confirmando que Ninho era a cópia perfeita da mãe.
Peguei o celular e liguei para Milena e Kaique, que atenderam ansiosos com Lorenzo ao fundo. Eles relaxaram ao ouvir que Juh estava bem, mas ainda permaneciam preocupados com o irmãozinho, até Sabrine tomar o telefone e tranquilizá-los: "Dom é forte que nem vocês dois, já mostrou para que veio! Fiquem tranquilos que ele vai ficar ótimo!"
Com a ligação finalizada, tentei fazer Juh dormir, insistindo que ela precisava descansar para se recuperar. Ela resistiu um pouco, querendo cada detalhe sobre Dom, mas acabou cedendo ao cansaço sob meus carinhos suaves em seu cabelo.
Permaneci acordada o resto da noite, enviando atualizações para o restante da família, sabendo que só veriam as mensagens pela manhã, enquanto velava o sono da minha amada e sonhava com o primeiro colinho do meu neneco.
