— Amor, tá tudo bem?
Ao acordar encontrei o Fe de olhos abertos, olhando pro teto com aquela concentração de quem está dentro de algum pensamento fundo.
Felipe: — Tá sim, amor. Só pensativo.
Ana: — Ah... tudo bem então. Fiquei preocupada que você estivesse sentindo alguma coisa. Que horas são?
Peguei o celular — 10h20.
Ana: — Aí, amor, tá tarde. Kkkkk Tenho que ir — hoje vou tomar conta do bebê da Sara, ela tem aquela entrevista de emprego que te falei, pediu minha ajuda.
Felipe: — Ah, ok...
Ele estava distante. Aquele jeito dele quando tem algo na cabeça que ainda não saiu.
Ana: — Amor, tá tudo bem mesmo?
Felipe: — Olha... ontem aconteceu uma coisa. Mas quero que você não fique brava com ela, tá?
Ana: — Com ela? Ela quem, amor? Fala.
Meu estômago virou. Seria alguma mulher que ele ficou? Alguém que entrou em contato? Não agora, porra — a gente ainda estava se recuperando do meu vacilo.
Felipe: — É sobre a Paula.
Ana: — A Paula?
Ufa.
Ana: — Ok, amor, pode falar. Não vou ficar brava com minha irmã... Quer dizer, até fico, kkkkk mas passa. O que essa puta fez?
Vi um sorriso pequeno no canto da boca dele quando eu disse isso. Que sorriso estranho.
Felipe: — Vou ser direto porque fiquei a noite toda remoendo como te contar. Enquanto a gente transava ontem, a Paula acordou.
Ana: — Acordou? Por que você não falou?
Felipe: — Porque foi rápido. Bom — não tão rápido. Lembra que te falei que ela se destapou e você olhou?
Ana: — Sim, amor. Ela estava dormindo — olhei pro rosto dela e os olhos estavam fechados.
Felipe: — Mas olhou pra bunda?
Ana: — Felipe, por que eu olharia pra bunda dela? O cu dela ia abrir antes dos olhos? Vai direto ao ponto, você mesmo disse que ia ser direto.
Felipe: — Ok, ok. Calma. Depois que você olhou, a bunda dela ficou exposta no espelho e...
Ana: — E você ficou olhando pra bunda da minha irmã enquanto me comia? Felipe!
Felipe: — Olha, eu tentei não olhar, porra. Mas eu tinha que vigiar ela.
Ana: — Ah, então foi por isso que gozou daquele jeito? Pensando nela? Você tem noção do quão errado é isso, e da falta de respeito comigo e com ela?
Felipe: — Calma lá. Eu sou homem, porra. Naquela hora não dava pra segurar o tesão — e não gozei daquele jeito por causa disso. Não é você que fala que é difícil de controlar quando o tesão chega no limite?
Ele estava usando minhas palavras contra mim. Safado.
Ana: — Hã. Ok. Mas se não foi por isso, foi pelo quê? Ela acordou e começou a se tocar pra você? Foi isso?
Ele ficou quieto.
Por que ele ficou quieto, porra.
Ana: — Felipe, não me irrita — esse papo já está bem estranho. Por que ficou quieto?
Felipe: — Você já sabia? Kkkkk Ah, e eu aqui preocupado a noite toda.
Ana: — Felipe, eu tô quase quebrando sua outra costela. Eu sabia de quê?
Felipe: — Você acabou de falar, ué. Ela acordou e começou a se tocar enquanto a gente transava. Claro que não foi pra eu ver — duvido que ela soubesse que eu estava vendo pelo espelho. Mas...
Ana: — Espera. Espera. Você está me dizendo que a Paula acordou e estava se tocando enquanto a gente transava? A Paula, minha irmã?
Felipe: — Sim, amor. Foi isso.
Fiquei alguns segundos sem dizer nada.
A Paula. Nossa, isso é inesperado de um jeito que eu não estava preparada pra processar.
Ana: — E foi por isso que você gozou daquele jeito? Olhando ela?
Felipe: — Não foi por mal, juro. Mas sim — a junção de tudo. Eu já estava quase no limite por você, aí quando bati o olho e vi... não deu pra segurar. Explodiu.
Ana: — Aí, Felipe... não sei nem o que falar. O que pensar disso. É muito estranho. Por que ela faria isso? E por que você não falou na hora?
Felipe: — Primeiro porque não deu tempo. Segundo porque fiquei com medo de você reagir mal e ir falar com ela ali, na hora — você sabe dos problemas que ela vem passando. Ela poderia se sentir mal e ir embora. E também, amor... não é cem por cento culpa dela. A gente não devia ter feito isso com ela no quarto.
Ele tinha razão. Eu sabia que tinha razão. Mas mesmo assim era estranho — eu não esperaria isso da Paula. Esperaria ela levantar e brigar com a gente. Não ficar quieta e se tocar.
Ana: — Você tem razão, amor. Mas vou conversar com ela — pedir desculpas pelo nosso deslize, por ter faltado com respeito com ela. E também quero ouvir dela o porquê dessa reação. Mas fica tranquilo que faço isso com jeito.
Felipe: — Que bom. Você está sendo muito madura.
Ele me puxou pro abraço e eu fui. Aquele abraço dele que para tudo — o mundo, os pensamentos, a ansiedade. Eu adoro estar envolta pelos braços dele.
Ana: — Olha, vou conversar com ela e me arrumar pra sair. Vou pedir pra mãe olhar você, tá? Os remédios ela sabe os horários. Não esquece de tomar um sol — a médica falou que era importante se movimentar um pouco.
Felipe: — Tá bom. Juízo, minha safada.
Ana: — Te amo, meu puto.
Dei um beijo rápido na boca dele e saí.
Descendo as escadas, vi a Paula no canto da sala falando no telefone. Ela estava de costas, a ligação quase no fim — desligou segundos depois. E aí começou a chorar, tapando o rosto com as duas mãos.
Ana: — Mana, o que houve?
Paula: — O idiota do Bernardo. Me ligou confessando.
Ana: — Confessando o quê, Paula?
Paula: — Ele tá com outra mulher, Ana. Tá bêbado e me disse que, como eu não estava em casa, colocou outra no meu lugar. Que era isso que homem de verdade faz. Que eu merecia por não cumprir meu dever de mulher.
Quanto mais ela falava, mais a raiva subia. Aquele merda completo.
Ana: — Esquece esse lixo, Paula. Homem de verdade não trata a mulher desse jeito. Esse cara pode ser perigoso — larga isso, aproveita que você já saiu de lá e dá entrada no divórcio. Você é linda e merece ser feliz.
Paula: — Será que mereço? Eu não posso dar filho a homem nenhum, Ana. Não posso formar uma família. Sou seca. Seca, seca, seca.
Ela deu socos na própria barriga enquanto falava.
Ana: — Paula, para com isso! Tá louca?
Me levantei e segurei as mãos dela.
Ana: — Ei. Olha pra mim. Várias mulheres passam por isso, mana — não é o fim do mundo. Se o homem te amar de verdade, não se importa. Tem outras maneiras.
Paula: — Maneiras humilhantes. Criar um filho que não é nosso — é lindo quando é de coração, mas não quando é a única opção. Ou deixar que ele engravide outra, barriga de aluguel, seja lá o quê. Já pesquisei tudo isso. E a única coisa que sinto é humilhação. Me sentir menos que outras.
Ana: — Paula...
Eu não sabia mais o que falar. A porta da sala rangeu — minha mãe entrando. Fui até ela aliviada e contei tudo de uma vez, em voz baixa. A Paula estava à beira do ataque e eu estava perdida.
Ana: — Mãe, eu tenho que sair pra tomar conta do bebê da Sara, mas como deixo minha irmã assim? Mãe, ela estava se socando — eu nunca vi ela assim.
O choro veio junto. Minha mãe ficou séria, calada, ouvindo tudo.
Carla: — Vai pro seu compromisso. Tira a cabeça disso — é meu dever cuidar da sua irmã. Você sabe que sua mãe tem esse dom, não sabe?
Ana: — Sei, mãe, mas...
Carla: — Sem mas, amor. Você deu sua palavra, vai. Eu assumo daqui. Você foi ótima — é difícil cuidar das pessoas nesse estado. Mas você foi muito bem. Agora vai.
Subi pro quarto pra me arrumar e encontrei o Fe no meio do corredor, segurando a parede.
Ana: — Amor, o que é isso?
Felipe: — Ouvi uns gritos e choro, parecia a Paula. Fiquei com medo de a conversa de vocês ter saído do controle.
Ana: — Não foi esse o motivo, amor.
O ajudei a descer as escadas, nos sentamos no sofá. Minha mãe tinha levado a Paula pra fora pra respirar.
Ana: — O marido dela está traindo ela.
Felipe: — Merda.
Ana: — Eu nem cheguei a falar o que ia falar com ela — ela não está bem. Subi pra te contar porque quero que você fique de olho nelas. Sei que não é justo com você nesse estado, mas fico mais tranquila sabendo que você está por aqui.
Felipe: — Nem precisa falar duas vezes, amor. Fico aqui de olho. Pode deixar que vou cuidar da sua irmã com o mesmo carinho e atenção que tenho com você.
Ana: — Obrigada, amor.
Peguei o carro e saí em direção à casa da Sara.
Mas alguma coisa ficou.
Alguma coisa suja, que não pediu licença pra entrar e não estava indo embora.
---
Sara: — Puta que pariu, fudida — tava dando e esqueceu do combinado.
Ana: — Não, Sara. Minha irmã passou mal.
Sara: — Ai... desculpa, amiga. Ela tá bem agora?
Ana: — Não sei. Mas minha mãe tá com ela.
Sara: — Olha, posso cancelar se precisar.
Ana: — Não precisa. Se fosse pra cancelar eu mesma tinha ligado. Tô bem, pode ir.
Ela me abraçou e saiu.
Sara é minha melhor amiga desde a infância — a irmã que a Paula nunca foi, não por mal, mas porque são completamente diferentes. Sara é como eu: safadinha, divertida, sem filtro. A Paula sempre foi de outro planeta.
Sara é a única das minhas amigas que sabe da dinâmica do meu casamento com o Fe. A gente ficou um tempo brigada quando ela se divorciou e me pediu pra ficar com ele. Não gostei. Mas aí ela engravidou, foi deixada, e isso nos aproximou de volta. Algumas coisas a gente perdoa, outras a gente entende — e às vezes as duas coisas.
Fui ver o Bruninho. Estava dormindo no berço, aquela carinhas de bebê completamente em paz com o mundo. Fiquei olhando pra ele por um tempo, sem conseguir parar de pensar.
"Pode deixar que vou cuidar da sua irmã com o mesmo carinho e atenção que tenho com você."
O Fe falou isso do jeito mais puro do mundo. Eu sei. Conheço ele — aquilo era genuíno, sem segunda intenção nenhuma.
Mas alguma coisa nessa frase ficou instalada na minha cabeça e não saía.
E se ele realmente fizesse isso? Não do jeito que ele quis dizer — do outro jeito. De todas as formas. Com a Paula.
Ela aceitaria?
A noite passada foi um sinal? Ela acordou, ouviu, e não saiu. Ficou. E fez o que fez.
E se eu plantasse essa semente? Devagar, nos dois? Como ela cresceria?
A Paula está num momento tão difícil — destruída por dentro, um marido que a humilha, sozinha naquela mansão enorme que não tem nada de casa. E o jeito que o Fe me trata... é exatamente o que ela merece. Amor de verdade. Atenção de verdade. Alguém que olha pra você e fica.
Droga — talvez ela merecesse esse amor até mais do que eu. Ela nunca errou. Nunca traiu. Nunca fez nada errado. E nunca sentiu o que eu sinto todo dia — essa certeza de que no fim do dia tem um abraço me esperando, um lugar pra onde correr quando o mundo pesa demais.
Mas não seja boba, Ana. Kkkkk Não é só isso.
Tem o sexo também. Aquela forma suja e linda de demonstrar amor. A boca dele percorrendo minhas pernas devagar, tomando o tempo dele, até chegar onde quer. O braço dele me puxando, o peso do corpo dele por cima do meu — como eu gosto disso. Como eu gosto de sentir que estou toda coberta por ele, que não tem espaço sobrando entre a gente. Quando ele entra, morde minhas costas baixinho, aquilo é tão nosso...
Mas poderia ser dela também.
Eu coloquei o bebê no berço sem perceber que estava fazendo isso, saí do quarto e fui pro da Sara. Me deitei na cama dela olhando pro teto, tentando me livrar do pensamento.
Sai. Para. Vai embora.
Ele não ia. Ficava voltando, insistindo, crescendo.
Ela abaixo do corpo dele. Ela sentindo o peso dele. Ela com a boca no pescoço dele, as mãos nas costas dele. Seria a primeira vez na vida dela que alguém a trataria com esse cuidado todo — antes, durante, depois.
Ela sentiria o que eu sinto? Aquele pertencimento? Aquela sensação de ser dele?
Porque eu estava tão molhada?
Minha mão viajou sozinha. Percorreu meu colo, minha barriga, parou no meio das minhas pernas. Eu estava encharcada por dentro da calça.
Sai da minha cabeça. Para.
Mas o corpo já não estava mais me ouvindo.
Arrastei a calcinha pro lado. Os dedos encontraram aquela umidade toda, aquela temperatura, e eu suspirei antes de conseguir me segurar.
Ana: — Aaah.
Dois dedos entrando devagar — aquela pressão boa, aquela sensação de completar alguma coisa que estava faltando. Meus olhos fecharam.
Ela gemeria assim? Quando ele entrasse nela pela primeira vez, devagar, do jeito que só ele sabe fazer — ela ia conseguir ficar quieta ou ia se entregar de vez?
Ana: — Aaaah, porra.
Meus dedos aceleraram, saindo encharcados e voltando, o calor subindo das pernas pro centro de tudo. Eu estava tão dentro do pensamento que era quase real — ela no lugar que é meu, recebendo o que é meu, com aquela cara de quem nunca sentiu nada assim antes.
Ana: — Que delícia... porra, que sensação boa.
Era tão errado. Tão errado e tão bom que eu já não sabia mais separar as duas coisas, e meu corpo já tinha tomado a decisão sem me consultar.
Ana: — Maldição... vou gozar... Ana, filha da puta, você vai gozar pensando nisso, sério?
Aaaah.
Eu jorrei. Forte, molhado, aquele tipo de gozo que vem do fundo como se fosse explodir pra todo lado.
Depois só silêncio.
Fiquei deitada sem me mover por um tempo, olhando pro teto, os dedos ainda úmidos, a calcinha do lado.
Eu fiz isso.
Fiz mesmo isso.
Esses pensamentos vão embora? Era só o momento, o calor, a situação toda? Ou vão ficar — crescer, ganhar volume, até a ponto que não dá mais pra só imaginar?
"Pode deixar que vou cuidar da sua irmã com o mesmo carinho e atenção que tenho com você."
Eu abri uma porta agora.
Mas porra — eu sei fechar?