Paula: — Você está bem?
A Paula me perguntar isso tem graça, kkkkk — ela que está passando por tudo que está. Mas esses últimos dias foram pesados de verdade, não tem como negar.
Ana: — Tô sim. Só pensando em tudo que aconteceu. Ver meu marido assim mexeu comigo — é a segunda vez que quase perco ele. A primeira por burrice minha, e a segunda pela bunda da minha irmã. Kkkkk
Paula: — Kkkkk para com isso, você disse que ia me fazer sentir em casa! Mas ei... vocês superaram tudo. Ele te perdoou da primeira vez, e agora está se recuperando bem. A única coisa que você devia estar de olho é na médica dele.
Ana: — Ah, não tenho preocupação com isso não. Kkkkk Confio no meu marido, sei os limites que ele não cruza.
Paula: — Consigo entender a parte de confiar, mas... sério, eu não conseguiria ficar tão tranquila sabendo que tem uma mulher dando em cima do meu marido assim.
Ana: — Durante uma vida de casados isso acontece várias vezes, ainda mais com o meu que é um gato. Kkkkk Ficar paranoica com isso não leva a nada — quem quer trair, trai. Olha no meu caso. Então o que resta é confiar no seu parceiro.
Paula: — É... talvez você esteja certa, mana. Mas kkkkk eu não tenho essa evolução toda não. — Ela fez uma pausa. — Mudando de assunto — eu sei que o Felipe foi um amor comigo, foi bem legal, mas... você o conhece melhor. Acha que ele vai ficar chateado com o que aconteceu? Agora fica preso em casa por minha causa.
Ana: — Não, kkkkk. O Felipe é muito do momento — se fosse ficar chateado já teria dado sinal. Ele não é de guardar coisa não. Relaxa, mana.
A Paula estava preocupada com tudo, coisa que não era o feitio dela. É estranho ver uma pessoa mudar assim — sempre enxerguei minha irmã como alguém sólido, decidido, e agora estava vendo um lado mais vulnerável, mais cheio de "e se". Aquilo me tocava de um jeito que eu não esperava.
Ana: — Sabe o que aquele safado me disse?
Paula: — O quê? Kkkkk
Ana: — Que só percebeu que tinha algo de errado quando sentiu uma "ondulação"... Que a bunda era grande. Kkkkk Disse isso pra mim, acredita?
Paula: — Kkkkk tem uma mulher dando em cima dele e você não liga, mas ele falar que a bunda da sua irmã é grande você fica com ciúmes? Toda errada, Ana.
Ana: — Kkkkk vou levar umas coisas pra ele no hospital. Quando eu voltar a gente termina de arrumar suas coisas, pode ser?
Dei um selinho nela e saí.
No caminho pro hospital, dirigindo sozinha, minha cabeça foi. Nesses momentos, sem ninguém do lado pra preencher o silêncio, as coisas aparecem do jeito que são.
Pensei na carta branca que dei pro Fe. Ele com a Elisa. Eu sei que não vai rolar nada sério — conheço ele, sei como ele funciona. Mas mesmo assim aquela mistura de ciúme, ansiedade e tesão que bate quando penso nisso nunca some de vez. É confuso porque parece que deveria ser uma coisa só: ou eu gosto ou eu não gosto. Mas não é assim. Eu não gosto de ver ele com outra mulher — tenho medo do que pode crescer naquilo. Mas gosto de saber que ele é desejado. Sinto orgulho quando percebo que uma mulher quer o que é meu. Isso é meu, e fica meu, e ela vai embora em algum momento.
Só que e se não for assim?
Essa é a parte que não fala em voz alta. E se uma mulher entrar na vida dele de um jeito que eu não consigo segurar? O Felipe é bom demais na cama pra eu ficar totalmente tranquila com qualquer mulher que se aproxime assim. E eu sei disso porque conheço o que ele faz comigo.
Adoro provocar. Adoro o jogo de flerte, a sensação de um cara querendo, o momento em que o tesão está nos dois e ninguém ainda fez nada — esse espaço entre o pensamento e a ação é onde eu mais gosto de ficar. Mas esse mundinho tem consequências reais, e eu sei disso melhor do que qualquer um. Não existe regras quando o prazer está no limite. A cabeça vai embora. E aí você faz o que não planejou.
Eu sei. Já fiz.
Cheguei no hospital e avisei na recepção. A recepcionista me informou que a doutora Elisa estava fazendo exames no meu marido e pediu pra não ser incomodada. Na hora já entendi tudo. Kkkkk
Pedi se eu podia sentar na cadeira de espera perto da porta do quarto. Ela não viu problema. Fui lá e fiquei sentadinha, composta, esperando ela voltar a atenção pras coisas dela.
Quando voltou, me mexi.
Abri a porta muito devagar — só até o limite antes do sinal que apita quando alguém abre durante atendimento. Uma fresta. Não dava pra ver quase nada diretamente, mas tinha um espelho no corredor interno, em ângulo. Foquei nele.
Vi pelo reflexo: a doutora estava ajoelhada. O Felipe sentado. Dava pra entender o que estava acontecendo, mesmo de longe, mesmo pela distância do espelho.
— O que a senhorita está fazendo?
Meu coração gelou.
Virei. Era um médico alto, cabelo raspado bem baixinho, ombros largos, jaleco branco. Bonito — do tipo que você nota mesmo quando está com a cabeça em outro lugar.
— A senhora está espiando um atendimento? Isso não é permitido. O que está acontecendo?
Ele fez menção de abrir a porta pra ver o que estava rolando lá dentro.
Ana: — Não! Doutor, eu não estava espiando — eu ia entrar pra perguntar sobre o estado do meu marido, mas de repente minhas pernas falharam, uma tontura assim do nada.
Fernando: — A senhora não está bem? Precisa de atendimento?
Ana: — Sim! Preciso. Não estou bem.
Ele me conduziu praticamente no colo até uma sala de atendimento, me colocou numa maca e começou a fazer as perguntas de praxe com aquela voz calma, profissional.
Fernando: — Meu nome é Fernando, doutor Fernando Soares. Qual o seu?
Ana: — Ana.
Fernando: — Ok, Ana. Me diz exatamente o que está sentindo.
Na verdade eu não estava sentindo nada além de um tesão crescendo sem pedir licença. A situação, o reflexo no espelho, agora esse médico de voz grave na minha frente — tudo junto estava me deixando num estado que eu não tinha planejado.
Ana: — Não sei ao certo, doutor. Minhas pernas ficaram fracas do nada. Senti uma palpitação.
Fernando: — Você tem estado nervosa recentemente?
Ana: — Sim... Meu marido sofreu um acidente. A cena foi feia, ficou na minha cabeça.
Fernando: — Pelos sintomas, senhora—
Ana: — Só me chama de Ana, doutor. Kkkkk Tô muito novinha pra ser chamada de senhora assim.
Dei um sorriso pra ele, meiga, do jeito que sei fazer quando quero que a pessoa baixe a guarda.
Fernando: — Ok, Ana. Kkkkk Pelos sintomas você pode ter tido um quadro nervoso. Vou te receitar uns calmantes pra você descansar.
Ana: — Mas doutor... talvez precise de um exame melhor. Minhas pernas estão dormentes, sabe? Não sei se só isso resolve.
Abri as pernas de leve na direção dele. Só um pouco. O suficiente.
Fernando: — Ah... claro. Não podemos deixar passar nada.
Ele se ajoelhou na minha frente e passou as mãos nas minhas pernas com uma atenção que já tinha mais cuidado do que precisava ter. Mãos grandes, firmes, que desceram da parte superior da coxa pra baixo e voltaram devagar.
Fernando: — Está sentindo meu toque?
Ana: — Sim, doutor.
Fernando: — Então não está tão ruim.
Ana: — NÃO! Tem uma dor aqui que tá me incomodando...
Apontei pra parte interna da coxa esquerda, bem perto. Ele estava vendo minha calcinha naquele momento e os dois sabíamos disso.
Fernando: — Aqui, Ana?
Passou a mão no local com cuidado — e deixou o dedo escapar, roçando levemente na minha calcinha. Foi leve, quase poderia ser acidente. Quase.
Ana: — Sim... bem aí. Tô sentindo úmido no local, sabe?
Fernando: — Realmente. Está bem... úmido.
Dessa vez sem disfarçar. O dedo voltou, mais firme, fazendo um carinho por cima da calcinha encharcada. Minha respiração desandou um pouco.
Ana: — Aí, doutor... kkkkk eu sou casada. Tem certeza que esse tratamento é adequado?
Fernando: — Claro. Mulher casada também precisa de atendimento quando as coisas não vão bem.
Ele começou a fazer movimentos circulares, pressionando levemente o tecido da calcinha contra mim. Meu corpo respondeu antes de eu decidir qualquer coisa — aquela umidade que cresce, o formigamento, a vontade de deixar ir.
Ana: — Ai, doutor... não sei se o tratamento está melhorando. Tô sentindo os sintomas aumentando.
Fernando: — É mesmo? Me diz quais sintomas são esses.
Ana: — A umidade está aumentando onde o senhor está passando o dedo. Minhas pernas estão mais trêmulas. Um formigamento.
Fernando: — Hum. O caso está piorando, Ana. Acho que vamos precisar de um tratamento mais intensivo. Você não acha?
Esse era o momento de parar. Eu sabia. Meu tesão estava a mil, a situação toda — o hospital, a proibição, ele ajoelhado na minha frente — estava me deixando num estado que eu não queria sair. Mas tinha um limite que não era só meu.
Ana: — Sim, doutor. Mas meu marido está aqui internado numa situação difícil... Acho que esse tratamento vai ter que esperar.
Fernando: — Tem certeza, Ana? Acho que não deveríamos deixar agravar.
Ana: — Kkkkk Tenho, Fernando. Sério — foi ótima a brincadeira, mas tenho um limite que não posso cruzar. Pelo menos não agora.
Juntei toda minha força de vontade e recuei.
Fernando: — Vai ter algum momento que vai poder? Gostei muito do seu jeito — você sabe muito bem o que está fazendo. Kkkkk
Ana: — Talvez... não posso garantir. Mas quem sabe quando meu marido sair do hospital eu venha fazer uma bateria de exames, doutor. Kkkkk
Fernando: — Estou ansioso por isso, minha paciente. Kkkkk
Saí da sala com as pernas ainda meio bambas — e não era do fingimento, dessa vez. No corredor, vindo na minha direção, estava a doutora Elisa.
Ana: — Doutora, estou indo ver meu marido. Como ele está?
Elisa: — Acabei de vê-lo, Ana. Está muito melhor, deve ter alta nos próximos dias. Seu marido é... bem forte. Isso está ajudando muito na recuperação.
Ela deu um sorriso de canto que, se eu não soubesse o que tinha acontecido lá dentro, eu não entenderia.
Ana: — Que bom, doutora. Espero que esteja dando o seu melhor a ele — meu marido merece. Kkkkk
Elisa: — Ah, merece sim. Kkkkk Mas... não consigo dar meu melhor tratamento a ele — ele ainda é muito fechado a certos tipos de recomendação. Talvez você deva conversar com ele, Ana. Como esposa, poderia aconselhá-lo a ser mais aberto com as indicações médicas.
Hum.
Ana: — Claro, doutora. Vou falar com ele sim.
Nos despedimos e entrei no quarto.
Ana: — Amor! Como você está? A doutora Elisa te tratou bem? Kkkkk
Felipe: — Kkkkk Tratamento nota mil.
Ana: — Ela me falou uma coisa estranha — pediu pra eu te aconselhar a aceitar melhor as recomendações médicas dela. O que foi que aconteceu?
Felipe: — Amor, ela me deu uma mamada.
Ana: — Sério? Kkkkk Safada, e ainda vem falar comigo naquela maior naturalidade.
Fingi não saber de nada.
Felipe: — Então. Mas ela não queria parar por aí — disse que poderiam ir além, que sabia lidar de um jeito que não prejudicaria minha recuperação. Eu não aceitei. Acho que era isso que ela se referia.
Ana: — Por que não aceitou? Kkkkk Tá fraco, amor?
Felipe: — Claro que não. Kkkkk Mas o que combinamos?
Ana: — Combinamos de você ter carta branca com ela.
Felipe: — Sim. Mas você me disse que no meu estado as coisas não iriam longe — e disse que por isso estava liberando, por saber que não rolaria nada mais sério. Então a mamada é exatamente o limite que eu não poderia cruzar, amor.
Aquilo caiu como um soco.
Mesmo com carta branca, ele parou. Não por falta de vontade — ele mesmo disse que não foi isso. Parou porque o que eu tinha dado de permissão tinha um tamanho, e ele respeitou esse tamanho até no detalhe.
E eu?
Ana: — Amor, preciso te contar uma coisa que aconteceu agora.
Contei tudo. Desde o começo — o reflexo no espelho, o médico chegando, o que inventei pra afastá-lo da porta, e o que aconteceu depois na sala de atendimento. Tudo. O Felipe não falou nada durante toda a história. Ficou me ouvindo com aquela expressão que eu não consigo ler direito, a que ele usa quando está processando algo sério.
Quando terminei, ficou um silêncio.
Felipe: — Então foi por isso a carta branca? Pra você quase dar pro médico?
Ana: — Óbvio que não, amor. Eu nem o conhecia.
Felipe: — Sei. Mas esse não era o combinado, Ana.
Ana: — Mas eu não fiz nada de mais — não passei do limite que você teve com a Elisa. Nem cheguei perto, na real. Ela te deu uma mamada; ele só passou o dedo.
Felipe: — Você me disse que não faria nada. Nada. E sem meu consentimento você foi lá. Eu não pedi pra ficar com a Elisa — você que ofereceu isso. Então sabe como isso soa? Você me dá uma permissão e depois fica de rolo com o médico. O que indica que você me deu essa carta branca já pensando naquilo.
Ana: — Amor, eu juro que não conhecia ele. Não foi planejado, nada disso.
Felipe: — Eu sei que já fizemos coisas piores do que isso durante nosso casamento. Mas todas com os dois de acordo. São esses pequenos limites cruzados que viram uma bola de neve. Nesse momento eu confio menos em você do que confiava há meia hora. E a culpa disso é sua.
Ouvir isso foi diferente de tudo que já ouvi dele.
Na vez da traição eu vi raiva. Fúria mesmo, aquele tipo que explode e deixa tudo virado. Isso dói de um jeito específico, mas passa — a raiva esgota ela mesma. Dessa vez não tinha raiva. Tinha decepção. Aquela coisa quieta, pesada, que fica.
E pior — ele estava certo. Em tudo.
O choro veio antes que eu conseguisse segurar.
Ana: — Você está certo. Me desculpa, amor. A culpa foi minha, inteira. Eu deveria ter parado quando o tirei da porta — tudo depois disso foi o tesão falando mais alto do que o nosso combinado. Me perdoa, Fe?
Felipe: — Ana, a gente já passou por coisas mais complicadas que isso. Mas hoje a gente teve uma quebra que não tinha há anos. Não quero que isso se repita. — Ele pausou. — Você quer ficar com esse cara?
Por que essa pergunta agora?
Ana: — Ele me mexeu, admito. Mas não quero fazer nada que deixe o nosso relacionamento frágil.
Felipe: — Ok. Mas com ele não. Você passou do limite que a gente estabeleceu, então esse cara especificamente é fora de cogitação pra você. Se eu descobrir que algo aconteceu entre vocês, o nosso relacionamento acaba. Não vou te perdoar uma segunda vez, Ana.
Não tinha o que dizer. Não tinha o que rebater.
Ana: — Só me perdoa. Isso é o que importa pra mim. O resto não.
Felipe: — Preciso descansar. Você podia me deixar sozinho?
Ana: — Mas amor... já pedi perdão. Não fica distante assim.
Felipe: — Por favor, Ana.
Ana: — ...
Saí do quarto com o coração apertado de um jeito que eu não sentia faz tempo.
Na primeira vez — quando ele me pegou naquele beco, com o Luan — eu vi uma explosão. Raiva, fúria, madeirada nas costas do meu ex-amigo. Mas dentro daquilo tudo tinha alguma coisa mais, eu sempre soube. Uma mistura que no final nos trouxe até aqui.
Dessa vez tinha só silêncio. E silêncio pesa mais.
Fiz merda de novo. Não do mesmo tamanho, não com a mesma frieza — mas fiz. E o que me machucava mais não era a briga nem a distância que ele pediu. Era o fato de que eu sabia, lá na sala com o Fernando, que estava indo longe demais. Senti isso. E fui mesmo assim.
Isso era o que eu precisava carregar agora.