Capítulo 4: Na Mira da Traição: Possuindo os Lábios da Madrasta

Um conto erótico de Raimundo
Categoria: Heterossexual
Contém 2689 palavras
Data: 24/03/2026 13:09:20

O cano frio de uma pistola pressionado contra a minha têmpora foi o meu despertador. Abri os olhos num solavanco, a mão instintivamente buscando o fuzil, mas relaxei ao ver o vulto de Lúcia. Ela havia me rendido da vigília ainda na madrugada, assumindo o posto para que eu pudesse ter algumas horas de sono pesado. Agora, com o primeiro clarão do dia tingindo a caatinga de um cinza pálido, ela me acordava com a urgência de quem já via o perigo no horizonte.

— "O dia nasceu, Raimundo. É hora de mover o ferro," — ela sussurrou, afastando a arma e guardando-a no coldre da cintura.

Ela se aproximou do colchão de palha e, com um toque firme no ombro, acordou Sônia. Minha irmã despertou em um salto, os cabelos bagunçados e os lábios ainda inchados da noite anterior. O olhar que ela me lançou foi um dardo de cumplicidade suja, rápido demais para qualquer um notar. Lúcia franziu o cenho por um milésimo de segundo, sentindo que o ar entre nós dois estava carregado de uma eletricidade nova, algo que ela ainda não conseguia decifrar, mas que sua intuição de loba já começava a farejar.

Fomos conferir os mantimentos. O que restava era uma piada de mau gosto: metade de uma barra de cereal farelenta encontrada no fundo de uma mochila. Minha barriga roncou, um protesto doloroso que parecia ecoar nas paredes de pedra.

— "Comam vocês," — ordenei, empurrando o pedaço de barra para as duas. — "Um líder com fome ainda pensa. Uma mulher com fome perde a mira."

Elas dividiram o farelo em silêncio. A sede era pior. A água do poço estava barrenta, com um gosto metálico de ferrugem que repuxava a garganta, totalmente imprópria para o consumo. Estávamos bloqueados: contas congeladas, contatos mudos, dinheiro escondido onde não podíamos chegar. Éramos reis sem trono, morrendo de sede num castelo de barro.

— "A gente não aguenta mais um dia aqui, Raimundo," — Lúcia disse, limpando o suor do pescoço, o que destacava ainda mais o seu decote. — "O plano de ontem é a nossa única saída. O Coronel Epaminondas. Ele tem o que precisamos: comida, água e, principalmente, o diesel pra essa caminhonete não virar um caixão de ferro no meio da estrada."

— "Eu já disse que não confio naquele velho, Lúcia," — retruquei, sentindo o gosto de poeira na boca seca. — "Epaminondas é uma cobra criada. Ele só foi fiel ao meu pai porque o velho tinha o chicote na mão. Agora, com o Delegado oferecendo recompensa, a lealdade dele vai pro lance mais alto."

— "E você tem outra ideia?" — ela desafiou, dando um passo à frente, os olhos fixos nos meus. — "Porque se tiver, a hora é agora. Ou a gente arrisca com o Coronel, ou senta aqui e espera os cães do Delegado sentirem o nosso cheiro."

Olhei para Sônia, que parecia pálida e exausta, e depois para o ponteiro do combustível da Hilux. A lógica era brutal. Sem alternativas e com a pressão da fome apertando o juízo, soquei a lataria do carro.

— "Está bem. Vamos pro Epaminondas. Mas fique avisada, Lúcia: se ele tentar qualquer gracinha, a primeira bala vai ser na testa dele, e se a gente sair dessa, eu nunca mais sigo um palpite seu."

A viagem foi um exercício de agonia. Dirigi economizando cada gota de diesel, pegando atalhos por dentro de riachos secos e carreadores de gado para evitar as patrulhas. A Hilux tossia fumaça. Quando avistamos a porteira da Fazenda Boa Vista, o ponteiro do combustível já tinha descido abaixo do traço da reserva. Estávamos rodando no vapor.

Não fomos recebidos com flores. Seis homens saltaram das sombras com escopetas e rifles apontados para o para-brisa.

— "Desçam com as mãos onde eu possa ver!" — gritou um jagunço de cara queimada pelo sol.

Fomos escoltados como prisioneiros até a varanda principal. Epaminondas estava lá, sentado numa cadeira de balanço, fumando um charuto que empestava o ar. Ele nos olhou com um desprezo que fez meu sangue ferver.

— "Mas olha só o que o vento seco trouxe para o meu terreiro," — Epaminondas soltou uma fumaça azulada, soltando uma risada rouca e carregada de escárnio. — "O herdeiro do ferro e suas duas rainhas. O Delegado disse que vocês estavam comendo poeira, mas pelo visto estão é mendigando abrigo."

Lúcia deu um passo à frente, ignorando a zombaria. A postura dela era de quem ainda tinha o baralho na mão, apesar dos trapos.

— "Epaminondas, você sabe quem somos e sabe o que o meu marido fez por você," — a voz dela era gélida. — "Não viemos aqui para piadas. Precisamos de combustível, água e mantimentos. Agora."

O velho parou de balançar a cadeira. Seus olhos pequenos e gananciosos brilharam.

— "O que Antônio fez está enterrado com ele, Lúcia. O que vale hoje é o que o Delegado está oferecendo. Sabem quanto vale a cabeça de vocês no mercado? É dinheiro suficiente para eu me aposentar com luxo em qualquer capital deste país."

— "E você acha que vai viver para gastar esse dinheiro?" — cortei a fala dele, dando um passo firme à frente. — "O Delegado não é homem de deixar ponta solta, Coronel. No momento em que você entregar a gente, você vira uma testemunha ocular de um crime contra a família Lira. Ele vai te esmagar logo em seguida, só para garantir que ninguém vivo possa ameaçar o império que ele quer roubar. Você vai trocar uma vida de poder por uma cova rasa."

Epaminondas deu uma tragada longa, fingindo desinteresse. — "Belo discurso, garoto. Mas o que você tem a oferecer além de filosofia de beira de estrada? O risco de trair o sistema por vocês é alto demais."

— "Eu ofereço a única coisa que o Delegado nunca vai te dar: continuidade," — respondi, estreitando os olhos. — "Te dou 20% de cada carga que passar pelas suas terras daqui pra frente. Sem atravessadores. Lucro limpo."

Epaminondas soltou uma gargalhada rouca, uma tosse seca que parecia vir do fundo dos pulmões curtidos pelo tabaco.

— "Vinte por cento?" — Ele repetiu, limpando o canto da boca com as costas da mão. — "Raimundo, você está com a barriga vazia e o tanque seco. Você não tem nada além de um sobrenome que está sendo caçado. Vinte por cento de nada é nada. Sua oferta é ridícula. O Delegado me paga o triplo disso hoje, em dinheiro vivo, só por um telefonema."

Ele fez menção de se levantar, sinalizando para os jagunços. O clima gelou. Lúcia tencionou o corpo ao meu lado, a mão deslizando discretamente para a cintura.

— "Então vamos falar de números que fazem um Coronel perder o sono," — eu disse, elevando a voz, parando-o no lugar. — "Eu te dou 45% de toda a Rota do Ferro. E não é só isso. Você vai me ajudar a reunir os homens que o meu pai dispersou pela caatinga. Vamos montar um comboio que o Sertão nunca viu, nos aliar ao Coronel de Petrolina e esmagar o Delegado em Araripina. Você entra como sócio majoritário do novo império. Vai deixar de ser um fazendeiro que esconde fuzil pra ser o dono da metade do Nordeste."

O silêncio que se seguiu foi pesado. Epaminondas parou. O charuto ficou esquecido entre os dedos. Dava para ver as engrenagens da ganância girando por trás daqueles olhos amarelados. Quarenta e cinco por cento era uma fortuna obscena; era mais do que meu pai jamais cederia a qualquer aliado.

— "Quarenta e cinco..." — ele sussurrou, a voz perdendo o tom de deboche. — "Você está entregando o pescoço da sua própria família por um prato de comida e uns galões de diesel, garoto?"

— "Estou comprando o tempo necessário para o contra-ataque," — retruquei. — "Aceita ou prefere apostar na 'bondade' de um ex-delegado traidor?"

O velho sorriu, um brilho perigoso surgindo no olhar. Ele estendeu a mão calejada.

— "Você tem o sangue frio do seu pai, Raimundo. E a língua mais suja que a dele," — ele disse, apertando minha mão com uma força surpreendente. — "Está fechado. Vocês ficam aqui o tempo que for necessário para organizar esse contra-ataque. Vou dar a vocês três quartos individuais, comida do bom e do melhor, e aquela Hilux vai sair daqui com o tanque transbordando. Meus batedores já vão sair agora para localizar seus sargentos no mato."

Fomos instalados na ala leste da fazenda. Pela primeira vez em dias, tivemos o luxo de água gelada à vontade e pratos cheios de carne de sol com macaxeira. Mas o conforto era uma armadilha para os sentidos. Lúcia, Sônia e eu ocupamos quartos vizinhos, e passamos o primeiro dia debruçados sobre mapas, rascunhando a logística para o encontro com o Coronel de Petrolina.

Na segunda noite, o silêncio da fazenda não era paz, era uma corda esticada prestes a chicotear. Fui até o quarto de Lúcia. Entrei sem esperar permissão, o trinco estalando como um disparo no corredor vazio. Ela estava sentada na beira da cama, curvada enquanto puxava as botas de couro. A luz âmbar do abajur morria sobre a pele dela, esculpindo as curvas monumentais de uma mulher que o tempo só fez tornar mais perigosa. Sob a regata branca de algodão fino, o suor do dia fazia o tecido aderir ao seu corpo, revelando sem pudor o contorno dos seios fartos e o bico rígido marcando a trama da roupa. O cheiro de pólvora que sempre a acompanhava agora dava lugar ao aroma de sabonete de ervas e fêmea no cio.

— "Não consegue dormir, Raimundo?" — ela perguntou, a voz baixa e rouca.

— "Não confio nele, Lúcia," — confessei, encostando na porta. — "O Epaminondas aceitou rápido demais. Quarenta e cinco por cento é muita terra e muito chumbo para um ganancioso desses aceitar sem querer o resto. Eu sinto o cheiro de traição vindo daquela varanda."

Lúcia se levantou e caminhou até mim. O perfume dela, uma mistura de madeira quente e âmbar, misturado ao rastro metálico de quem passou o dia limpando armas, invadiu meus sentidos. Era um cheiro denso, de quem manda no jogo. Ela parou a centímetros do meu peito.

— "Nós somos os últimos, Raimundo. Se ele nos trair, não haverá mais Lira no sertão," — ela disse, levando a mão ao meu rosto. O toque era quente, firme.

Eu não resisti. Segurei a cintura dela com força, puxando seu corpo contra o meu. Lúcia soltou um suspiro de surpresa que morreu na minha boca quando a beijei. Foi um beijo faminto, violento, com gosto de desespero e anos de desejo contido. Minhas mãos apertaram a bunda monumental dela, sentindo a firmeza sob o jeans, enquanto ela enroscava os dedos nos meus cabelos, gemendo entre nossos lábios.

Por um momento, o mundo lá fora, o Delegado e a guerra desapareceram. Era apenas o calor da carne. Mas, abruptamente, Lúcia se afastou, a respiração ofegante e os olhos dilatados.

— "Não... Raimundo, para," — ela murmurou, a voz trêmula, ajeitando a regata. — "Isso é loucura. Eu ajudei a criar você. Eu fui como uma mãe... o seu pai ainda é uma sombra entre nós. É errado."

— "O meu pai está morto, Lúcia. E as regras dele foram enterradas com ele," — respondi, o pau latejando de frustração sob a calça.

— "Vá para o seu quarto," — ela ordenou, embora seus olhos dissessem o contrário. — "Amanhã temos uma guerra para planejar."

Saí do quarto de Lúcia com o sangue fervendo e o "não" dela ecoando como um tiro seco. No corredor escuro, minha mente era um campo de batalha. Há três dias eu era um herdeiro; hoje, um fugitivo cruzando fronteiras morais que nunca imaginei tocar.

O prazer incendiário com Sônia na varanda e o beijo faminto em Lúcia haviam despertado um monstro. Será o medo da morte?, questionei-me. No sertão, as regras só valem para quem acredita no amanhã, e nós estamos com a corda no pescoço. A moralidade do meu pai era uma roupa velha e apertada demais para o homem que eu estava me tornando. Desejar a irmã e ter fome da madrasta não eram mais apenas pecados; eram a única prova de que eu ainda estava vivo.

Sacudi a cabeça para espantar as imagens daquelas duas mulheres. Precisava de foco para vencer a guerra. Mas o ferro dos Lira estava sendo temperado no fogo do tabu, e não havia volta. Foi quando deslizei pelas sombras do corredor até a varanda dos fundos, próximo ao escritório do Coronel. Através da veneziana entreaberta, ouvi o chiado de um rádio de alta frequência. Epaminondas falava com o Delegado, a voz mansa e subserviente.

— "...pode confiar, Delegado. O garoto está na minha mão. Vou mantê-los aqui até que ele abra o bico sobre o Sítio Olho d'Água. Assim que eu tiver as coordenadas, eu te entrego os três de bandeja."

Esperei o rádio silenciar. Mas, logo em seguida, ouvi o som de um fósforo riscando e o cheiro do charuto invadiu a fresta. Epaminondas se virou para o seu jagunço de confiança, que guardava a porta interna. A voz dele mudou; não era mais o aliado, nem o submisso. Era uma hiena faminta.

— "Aquele delegado idiota acha que sou burro," — Epaminondas cuspiu no chão, uma risada seca e maligna brotando do peito. — "Ele acha que vou entregar o mapa de ouro do Antônio Lira para ele ganhar medalha? Assim que eu arrancar a localização daquele pirralho do Raimundo, eu mesmo vou até o Olho d'Água. Com o mapa das rotas e os contatos dos fornecedores na mão, eu serei o novo dono da Rota do Ferro. Primeiro, a gente acaba com os Lira. Depois, eu apago o Delegado. E quando eu tiver o controle do chumbo, até o Coronel de Petrolina vai ter que se ajoelhar pra mim. O Sertão inteiro vai ser meu."

Um frio cortante subiu pela minha espinha, transformando-se instantaneamente em uma fúria incandescente. Velho desgraçado... Pensei, apertando a coronha da pistola até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele não quer apenas nos vender. Ele quer herdar o sangue do meu pai sem disparar um tiro contra o inimigo. Ele acha que os Lira são degraus para a ambição dele. Ele quer trair o próprio sistema que o protege. Se ele acha que vou ser o guia do meu próprio carrasco, ele não conhece o ferro que carrego no nome.

Recuei nas pontas dos pés, o ódio substituindo qualquer resquício de desejo. Fui primeiro ao quarto de Sônia, cobrindo a boca dela antes que ela desse um grito de susto. Repeti o processo com Lúcia. O olhar dela, ao me ver ali de novo, foi de dúvida, mas meus olhos diziam que a conversa agora era sobre sobrevivência.

— "O Coronel nos vendeu para todos os lados," — sussurrei no escuro. — "Ele quer o Olho d'Água para se tornar o dono de tudo. Quer a gente morto e o Delegado também. Precisamos sair agora."

Não houve tempo para sutilezas. Corremos para o pátio onde a Hilux descansava. Graças à minha insistência, o tanque estava cheio e os galões extras já estavam amarrados na caçamba, junto com os fardos de comida que havíamos estocado.

Girei a chave e o motor rugiu, quebrando o teatro de Epaminondas. Os jagunços saltaram das sombras.

— "Pisa, Raimundo!" — Lúcia gritou, já empunhando o fuzil.

A fazenda virou um inferno. Epaminondas apareceu na sacada, ainda de pijama, berrando ordens: — "Fechem a porteira! Não deixem a localização fugir!"

Sônia se inclinou pela janela traseira, a submetralhadora cuspindo fogo contínuo. — "Traidor de merda! Bebe esse chumbo!"

Lúcia fez um disparo de mestre no transformador de energia. O estouro iluminou a noite como um relâmpago azulado, mergulhando a sede na escuridão total. Joguei a Hilux contra a porteira lateral, estraçalhando as vigas de lei. Balas batiam na blindagem como granizo pesado. Pelo retrovisor, vi Lúcia acertar o ombro de Epaminondas na sacada; o vulto dele girou e caiu no escuro.

Mergulhamos na trilha de areia, as luzes apagadas, enquanto o brilho das chamas ficava para trás. Tínhamos o diesel, a comida e o segredo que agora valia mais que nossas vidas.

— "Próxima parada," — rosnei, limpando o sangue de um estilhaço no rosto. — "Sítio Olho d’Água. Se aquele velho sobreviver, ele vai descobrir que o único império que ele vai herdar é uma cova rasa."

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