Dia de trabalho puxado. Pensei que virar gerente ia ser mais tranquilo — kkkkk, enganei feio.
Júlio: — Kkkkk é, jovem. Bem-vindo à vida de comandante.
Felipe: — Olha Júlio, bem que o senhor me avisava...
Júlio: — Trabalhei seis anos na padaria com meu irmão. Quando vim pra cá e abri a minha, aí que fui ver a realidade de verdade. Quando você trabalha pra outro, só se importa com seu resultado. Quando é você que comanda, é diferente — você carrega tudo. Mas pode ficar tranquilo, seu chefe sempre te elogia quando passa lá. Essa oficina não é fundo de quintal, é empresa de verdade. Ele te reconhecer assim é bom sinal, garoto.
Felipe: — É, eu sei... Mas Júlio, pode falar — tá tudo bem mesmo a gente ficar na sua casa?
Júlio: — Claro que sim. Kkkkk Na verdade vai ser até bom. A Carla não fala abertamente, mas eu percebo. — Ele olhou pro celular. — São que horas aí?
Felipe: — 20h43.
Júlio: — Aí... Olha a hora que eu estou chegando em casa. Padaria de manhã, depois a tarde ajudando na empresa do meu irmão — tá me acabando. E deixa ela sozinha, poxa. Com vocês lá vai ajudar muito.
Felipe: — Entendo.
Júlio: — Ela ontem estava meio quieta. Tá acontecendo alguma coisa, eu sei. Passei e vi ela trocando mensagem com a Paula a noite toda, mas ela não me conta o que é...
Eu sabia o motivo — tinha ouvido a conversa das duas. Mas não era meu lugar falar nada já que a Carla não tinha dividido com ele.
Júlio: — A Paula me dá muitas preocupações... Essa menina tinha que puxar meu jeito, né. Kkkkk
Felipe: — Então é do senhor esse feitio fechado? Estragou a garota, Júlio.
Falei enquanto dirigia, sem tirar o olho da estrada.
Júlio: — Kkkkk não fode... Mas é verdade. A Ana é uma cópia do jeito da mãe. A Paula puxou mais o meu lado — embora fisicamente ela se pareça mais com a Carla do que a Ana. Que doideira. Kkkkk
Felipe: — Mas não se preocupa não, sogrão. Se fosse algo muito sério ela falaria.
Júlio: — Ah, é verdade. Ficar no escuro assim não é legal, mas fazer o quê, né. Bola pra frente. — Ele bateu a mão no painel. — Esse carro, hem. Pagou quanto nele?
Felipe: — Uns 30 mil. Ainda estou pagando, mas já tá no final das parcelas.
Chegando em casa vi a caminhonete estacionada — Ana já tinha chegado. Júlio pulou e foi direto pra cozinha ver a Carla. Subi as escadas com a cabeça já no chuveiro.
Quando abri a porta do quarto estranhei — o banheiro estava todo nublado de vapor. Banho quente. A Ana não gosta de banho quente, nunca gostou. Mas devia ser coisa do chuveiro da casa, pensei. De manhã eu tinha tomado frio e não tinha notado nada de errado.
Tirei a roupa, meu pau já foi ficando duro por antecipação. Entrei de mansinho, pé com mão, olhando pro chão pra não escorregar no molhado.
No reflexo vi a silhueta — e dei o tapa antes de pensar.
Mas aí... aquela ondulação. Aquele volume. Pera...
Nem deu tempo de raciocinar. Um grito, um soco vindo do nada — e tudo apagou.
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FELIPE.
Felipe...
Felipe, consegue me ouvir?
Uma voz distante. Abri os olhos devagar e levei um tempo pra entender o que estava vendo: teto branco, luz fria, uma mulher de jaleco se inclinando sobre mim.
A dor de cabeça era de partir.
Felipe: — O que aconteceu?
Elisa: — Oi, Felipe. Eu sou a doutora Elisa e estou no seu atendimento. Você teve um acidente doméstico e está no Hospital Santa Clara. Sem risco de vida, mas com ferimentos. Consegue mover os braços pra mim?
Tentei. O braço direito foi. O esquerdo mal saiu do lugar — uma dor aguda na lateral do tronco me travou na hora.
Elisa: — Normal. Você sofreu uma fratura na costela esquerda. Suas costas também levaram, mas o pior já passou. Teve sorte de não ter sido algo mais grave.
Felipe: — Minhas costas...
Elisa: — Estão doloridas, eu sei. Você caiu sobre o vidro do boxe. — Ela fez uma pausa, e eu juro que vi um sorriso pequeno no canto da boca. — Olha, o que exatamente aconteceu é melhor sua esposa te explicar. Vou te sedar de novo porque você ainda está com muita dor. Assim que puder, libero a visita.
E lá fui eu de novo.
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Quando acordei da segunda vez era manhã. Sol entrando pela janela, o quarto mais claro, a dor de cabeça mais controlada. Virei o rosto e encontrei a Carla dormindo na cadeira ao lado da cama — carinha cansada, roupa amassada de quem não tinha ido pra casa.
Passei a mão no rosto dela de leve.
Felipe: — Carla. Acorda.
Ela foi abrindo os olhos devagar, piscou duas vezes, e quando me reconheceu sentou de vez.
Carla: — Meu Deus, Felipe! Você está bem? Tá bem mesmo? Tá com dor? Quer que eu chame a médica?
Felipe: — Calma. Kkkkk Com dor eu tô, mas nada fora do esperado, acho.
Carla: — Não ri, menino. Você não sabe o susto que deu na gente. Quando eu cheguei naquele banheiro e te achei numa poça de sangue... — Ela fechou os olhos por um segundo. — Não gosto nem de lembrar.
Felipe: — Mas Carla... o que aconteceu de fato?
A porta se abriu antes que ela respondesse.
Ana: — Fê? Amoooor!
Veio correndo e me abraçou com tudo. Senti a dor mas não falei nada — aquele abraço era mais dela do que meu, eu percebi. Nunca tinha visto a Ana chorar daquele jeito.
Felipe: — Calma, minha princesa. Tudo bem.
— Vai ficar tudo bem, sim. Mas não se ele continuar sendo apertado assim. Kkkkk
A doutora Elisa tinha entrado atrás dela. Dessa vez eu a vi direito — negra, cabelos cacheados soltos no ombro, altura média, aquele jaleco branco que não escondia a cintura nem a bunda que tinha embaixo. Bonita pra caramba. O tipo que você olha uma vez e olha de novo sem perceber.
Carla: — Doutora, posso deixá-los a sós um momento?
Elisa: — Claro. Mais tarde volto pra checar como você está, Felipe.
As duas saíram e Ana ficou.
Ana: — Amor... agora que você tá bem pode até parecer engraçado contar, mas na hora foi a coisa mais assustadora que já vivi. Eu e a mamãe fomos buscar a Paula. A gente conversou, ela ligou pro marido avisando, ele não atendeu — ficou com raiva e decidiu vir no mesmo dia. A gente trouxe ela. Aí ela foi tomar banho no nosso quarto, o quarto de hóspedes. Quando vocês dois chegaram eu tava na cozinha, perguntei pro pai onde você tava já que vieram juntos — ele disse que você tinha subido direto. Liguei as coisas na hora e corri pra te avisar. Mas não deu tempo — no meio do corredor ouvi o grito dela e o barulho do vidro.
Felipe: — Merda.
Ana: — Não era eu no banheiro, amor. Era a Paula. Você deu o tapa, ela se assustou, e o soco veio. Foi forte, você voou pra trás com tudo no vidro do boxe. Quando cheguei lá e te vi daquele jeito no chão...
Ela engoliu o choro.
Felipe: — Já passou. Tô aqui. — Pausa. — E a Paula?
Ana: — Super acabada. Ela se culpou muito, mesmo não sendo culpa dela.
Felipe: — Não foi. Eu que fui descuidado. Queria te surpreender e só percebi que não era você quando já tinha feito.
Ana: — Hum. E como você percebeu?
Felipe: — Ah... na hora que eu vi aquela ondulação eu percebi que tinha algo diferente e...
Ana: — Ondulação, Felipe?
Felipe: — É que... — Merda. — Sua bunda não é tão... volumosa assim, sabe? Não faz onda do mesmo jeito. Na hora eu percebi que tava errado.
Ana: — Então a bunda dela é melhor que a minha.
Elisa: — Vocês já conversaram? Preciso examinar o paciente. Kkkkk
Salvo pelo gongo. Kkkkk
Ana: — Ainda faltam alguns detalhes nessa conversa, Felipe. Mas a gente resolve depois.
Ela falava séria, mas eu conhecia ela — dava pra ouvir o alívio embaixo. Deve ter sido pesado lá.
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Após os exames, a doutora Elisa informou que me liberaria em uma semana. Foi só aí que olhei em volta direito — quarto individual, ar condicionado, silêncio. Isso aqui não era hospital público nem de longe.
Carla apareceu mais tarde com um suco de laranja e aquele sorrisinho dela.
Carla: — Como está meu paciente preferido? Kkkkk
Felipe: — Ah, Carla. Só o suco de laranja, né. Kkkkk — Pausa. — Quem está pagando esse hospital?
Carla: — A Paula, querido. Ela ficou se sentindo responsável por tudo e não aceitou que você ficasse em lugar público. Brigou com o marido até ele liberar o dinheiro. Já está tudo quitado.
Felipe: — Não precisava. Vou devolver a ela.
Carla: — Olha, Fe. Não faz isso. Conheço minha filha — ela não ia se sentir bem. Deixa ela pelo menos fazer isso. Ela já está muito mal com tudo.
Felipe: — Ok. Mas com ela ficando lá com vocês agora, isso vai ajudar.
Carla fez uma pausa.
Carla: — Ela não ficou. Depois do acidente pegou as coisas e voltou pra casa.
Felipe: — Como assim?
Carla: — Felipe, a Paula está muito mal. Já estava antes, mas depois disso piorou — crises de ansiedade, choro, e o marido dela não ajuda em nada. Ela não conseguiu ficar.
Felipe: — Mas foi um acidente. Descuido meu. Ela não fez nada de errado, só reagiu assustada.
Carla: — Eu sei. Mas ela não pensa assim. — Ela me olhou. — Talvez você conversando com ela ajude mais do que qualquer coisa que eu possa dizer.
Felipe: — Pois é o que vou fazer.
Carla: — Ela tem vindo te ver. Mas só quando tem certeza que você está sedado — ela não sabe que você já acordou de vez. Não vou contar a ela. Você aproveita e conversa quando ela vier.
Felipe: — Combinado, sogra.
Ela me deu um beijo na testa e foi saindo.
Carla: — Descansa, ouviu?
Felipe: — Sim, mamãe. Kkkkk
Carla: — Olha só que petulância. Kkkkk
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Ficar ali sem sedativo era uma barra. Sem nada pra fazer, sem celular, sem ninguém. Fechei os olhos e devia ter caído mesmo.
Paula: — ...que ele se recupere bem. Amém.
Abri os olhos devagar. Ela estava de costas pra mim, de pé perto da janela, falando baixinho — um murmúrio que parecia mais pra ela mesma do que pra qualquer outro.
Felipe: — Paula.
Ela virou num susto.
Paula: — Você tá acordado? Mas eles disseram que—
Felipe: — Ei. Relaxa. Kkkkk Não queria que eu acordasse, era isso?
Paula: — Não, não é isso. Eu... devo chamar a médica? A Ana?
Felipe: — Paula, tô bem. Fica.
A porta se abriu.
Elisa: — Então meu paciente favorito já acordou. Esse nem precisa de sedativo pra dormir a tarde toda. Kkkkk
A doutora Elisa entrou sem pressa, como sempre fazia — aquele andar de quem sabe que o espaço é dela. Paula recuou um passo instintivamente.
Paula: — Mas ele não estava sedado?
Elisa: — Não. Já passou dessa fase faz tempo. Sua família não te contou?
Paula ficou séria. A Carla realmente não tinha dito nada.
Elisa: — Agora deixa eu verificar esses ferimentos.
Ela se aproximou, tirou o curativo das costas com cuidado e passou a ponta dos dedos em volta da área — devagar, como quem está avaliando, mas com uma calma que era quase carinho.
Elisa: — Está cicatrizando bem. Logo você estará liberado.
Ela caminhou pro lado, me pediu pra levantar o braço esquerdo.
Felipe: — Dói na costela quando movimento.
Elisa: — É normal. — Ela colocou a mão no meu peito, espalmada, testando a respiração. Depois deixou os dedos ali. — Mas já está boa o suficiente pra aguentar movimentos leves. Você precisa se esforçar um pouco, lindo.
Paula: — Lindo?
Ela falou seca, de onde estava.
Paula: — Isso não é exatamente profissional, doutora. Ele é casado.
Elisa: — Me desculpa. É só um jeito carinhoso. — Ela sorriu de canto, mas não tirou a mão. Deixou os dedos ali, passou a unha de leve pelo lado do peito, me olhando direto enquanto falava como se estivesse explicando alguma coisa completamente técnica. — Às vezes um pouco mais de atenção faz com que o paciente se solte, fique à vontade pra falar o que está sentindo de verdade. Às vezes é preciso ser mais... intensa. Mais direta.
A última parte foi pra mim, não pra Paula. Não tinha como ser diferente.
Paula: — E às vezes é preciso ser apenas profissional.
Ela deu um passo à frente, voz calma mas sem margem.
Paula: — Eu estou pagando pelo atendimento dele. Se você não quiser uma reclamação formal com seus superiores, sugiro que você dê um passo atrás na sua intensidade. Antes que eu faça isso por você.
A doutora ergueu as mãos com uma calma que parecia mais calculada do que genuína.
Elisa: — Me desculpa. Acho que você entendeu errado, eu só—
Paula: — Não entendi errado.
O clima pesou até ela terminar os procedimentos e sair.
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Paula ficou parada olhando a porta fechada por um segundo.
Paula: — Que mulherzinha. — Virou pra mim. — E você? Por que não falou nada? Ela estava claramente dando em cima de você.
Felipe: — Kkkkk Tava, sim. Mas eu tinha você pra me defender.
Paula: — Para com isso...
Ela falou envergonhada, desviando o olhar.
Estendi a mão.
Felipe: — Vem cá.
Ela chegou devagar. Peguei na mão dela.
Felipe: — Não foi culpa sua. Nada disso foi.
Paula: — Eu sei, mas...
Felipe: — Mas nada. Sua irmã e sua mãe foram te buscar e você voltou pra casa por quê?
Paula: — Felipe, eu tenho problemas pessoais pra resolver e não queria—
Felipe: — Paula. Por que você voltou?
Ela ficou quieta por um momento.
Paula: — Pensei que você fosse ficar com raiva de mim pelo que aconteceu.
Felipe: — Pensou errado. De manhã eu tinha tomado banho com a Ana, cheguei depois do trabalho, subi achando que era ela. Não foi culpa sua nem minha — foi um acidente.
Paula: — Ela me contou...
Felipe: — Então você já sabe. — Pausa. — Paula, a gente se conhece pouco, eu sei. Mas você é da família que eu ganhei quando me casei com sua irmã. Você importa pra mim, pra sua mãe, pra Ana. As coisas não estão boas pra você em casa — então por que não faz o que elas pediram?
Paula ficou me olhando por um tempo. Aquele silêncio dela — de quem processa antes de ceder.
Paula: — Eu quero, sinceramente. Mas você promete que não está com raiva?
Felipe: — Prometo.
Estendi o dedo mindinho. Ela olhou, e pela primeira vez desde que tinha entrado no quarto, sorriu de verdade. Entrelaçou o dedo no meu.
Felipe: — Promessa.
Paula: — Promessa.
A porta se abriu e Ana entrou com uma sacola.
Ana: — Amor, trouxe umas roupas pra você! — Parou. — Ah, Paula? Tá aqui?
Paula: — Puta. A mãe eu não posso xingar, mas você eu posso.
Ana: — Kkkkk relaxa, relaxa.
Paula: — Que bom que trouxe roupas pro seu marido. Antes que a médica tirasse as dela pra dar pra ele — literalmente.
Felipe: — Ei... Kkkkk Amor, sua irmã tá com ciúme do seu maridão.
Paula: — Nada disso. Para de graça.
Ana: — Pode deixar, mana. Daqui eu assumo. Kkkkk
Paula: — Olha, eu já vou indo. Tenho que fazer minha mala — vou ficar com vocês na casa da mamãe.
Ana: — Sério?! Que bom, mana!
Ela abriu os braços e as duas se abraçaram, Ana deu aquele selinho rápido na boca da irmã que eu já tinha visto antes. Não sei se foi porque eu estava há dias num quarto de hospital sem fazer nada, ou porque a Paula tinha acabado de me defender daquele jeito — mas ver as duas assim mexeu comigo um pouco mais do que deveria. Kkkkk.
Paula saiu e Ana se aproximou da cama.
Ana: — Então... essa médica, hem.
Felipe: — Kkkkk Ela tá dando em cima de mim, amor.
Ana: — Hum. E você quer?
Felipe: — Não. A gente combinou não fazer nada.
Ana: — Entendo. Ela é gostosa — mesmo naquele jaleco dá pra perceber. Kkkkk
Felipe: — É, essa mulher é linda. Mas combinamos o quê? Não fazer nada. E não tô afim de te ver com ninguém agora também.
Ana ficou me olhando por um segundo, com aquela carinha dela quando está calculando alguma coisa.
Ana: — E se eu te der um passe livre com ela? Fora do nosso combinado?
Felipe: — Como assim?
Ana: — Sem contar pro acordo geral. Em troca, não te peço pra ficar com ninguém durante sua recuperação, nem enquanto a gente tiver na casa dos meus pais. Você fica tranquilo, sem dívida nenhuma.
Felipe: — Olha... tá bem. Mas você sabe que não vai rolar muita coisa, né? Kkkkk Olha o meu estado.
Ana: — Kkkkk Por isso mesmo estou deixando. Sei que você não vai longe. Mas vai ficar parado também, né. Diverte um pouco com o interesse dela. — Ela pegou a sacola e foi indo. — Ah, e nada de dar tapa na bunda de desconhecida, tá? Kkkkk
Felipe: — Nunca mais. Kkkkk