NARRADOR: Finalmente o dia chegou. Temos a festa de aniversário de Juliana. Como vocês já sabem, nossa protagonista vem de uma família abastada e foi convencida a fazer uma grande festa após um ano tão turbulento. Essa festa ocorre em uma verdadeira mansão no Itanhangá, pedaço muito valorizado e discreto no Rio de Janeiro, onde as moradias são frequentadas pela nata da nova sociedade brasileira. Era uma mansão moderna de dois andares, com estilo clássico. Possuía pisos claros e escadarias laterais para o andar de cima. A festa mesmo ficaria restrita ao salão principal que era imenso e aos jardins. Um serviço de buffet e valete foi contratado e até mesmo Juliana surpreendeu-se com a proporção que a festa tomou.
O traje definido era o esporte fino, um bom meio termo pra uma promessa de noite quente. A decoração seguia um viés bastante colorido e carnavalesco, bem como o gosto e personalidade de Juliana, que ainda sim se sentia pequena demais praquilo tudo. Tinha idealizado uma festa mas nada tão grande. E lá estava ela, junto de sua amiga coordenando as coisas, inclusive mesa de som e também o pequeno caramanchão do jardim, que serviria de palco para o grupo de samba. Um grupo bastante familiar: aquele que estava no dia do início de sua vida com Marcus. Ela fez questão que fossem eles. Embora toda arrumação lhe ocupasse boa parte do pensamento, aquilo que verdadeiramente não lhe saia da cabeça era que aquela noite tudo acabaria e ela finalmente voltaria prosbracos de seu grande amor.
Do outro lado da cidade, Marcus lutava junto de Ivete para convencer Raoni a ir a festa. Apesar de usar “lutar” não era bem esse o cenário. Raoni notara como o amigo parecia feliz e mais centrado. Ele lhe contara o que aconteceu no dia dos namorados e agora se sentia mais próximo de Juliana. Agora eram duas pessoas que se gostavam e se entendiam, não mais alguém que era divinoficada e alguém que não sabia seu valor. Ambos estavam em pé de igualdade e aquele equilíbrio parecia finalmente ter colocado o coração do amigo no caminho certo. Ainda sim, sua parceira, Ivete, não tinha tanta certeza. Sendo assim, apesar de bater o pé, Raoni já havia aceitado o convite e inclusive já havia comprado dois presentes importantíssimos aquela semana: um vestido azul claro pra sua preta e, o mais importante, um anel de compromisso.
Haviam outras pessoas, outros interesses e, acima de tudo, outras reviravoltas sendo tramadas nessa festa. Umas simplesmente pelo destino, outras, e devo alertar que eram as mais perigosas, pela ação do homem.
RAONI: Eu queria ir na festa. Só tava me fazendo de difícil. Ah, vai... Eu paparico esse marmanjo desde sempre e ele me adulando parecia o irmão mais novo enchendo o saco do mais velho pra sair junto. Eu amo esse muleque. Sou filho único e nunca tive alguém da familia tão próximo quanto ele. Por isso eu mais do que querer, eu deveria ir.Acho que de todos, eu era o mais interessado nessa festa.
Marcus havia mudado. Na verdade, ele mudou muito desde Juliana. Esse gordo safado e mentiroso diz pra todo mundo que era de boa com ser dispensado. De boa porra nenhuma!! Ele sempre teve um bom coração e um cérebro ainda melhor. Então normalmente quem se aproximava dele eram essas escrotinhas querendo garantir o ano ou semestre. Ele ajudaria. Pior que ele ajudaria! Mas a maioria delas preferia brincar com o coração dele. Até conhecer Juliana. Eu amava aquela garota de todo coração.
A partir dela, ele mudou. Primeiro como “amigos”. Amigos... Qualquer um que os visse por mais de cinco minutos percebia uma tensão sexual e uma ligação emocional fortíssima. Ele ficou mais esperto, passou a malhar e se cuidar, até ficar esse FDP gostosão que hoje tá pegando geral. Mas tudo isso por e para Juliana. Então veio a traição. Acho que fiquei mais puto que o Mak. Veja bem, ele é meu irmão. Ela me permitiu relaxar. Deixei de cuidar dele. E vem esse golpe baixo. Da mesma forma que a amei por cuidar do meu irmão, a odeio com uma fúria quente e pegajosa.
O ponto de vista dele, foram alguns dias dele malhando e procurando psicóloga pra se recuperar. Uma porra!! Ele quase entrou em depressão. Fizemos, eu e Ivete, uma força tremenda pra tirar ele de casa. O psicólogo que ele ia... Tivemos que fazer a consulta em casa porque ele não queria sair e era uma luta até pra fazê-lo tomar banho. Sorte minha é que a preta consegue se comunicar bem com ele. Eu ajudei mas foi ela quem fez a maior parte do serviço. Foi árduo mas ele se reergueu. Só pra se envolver com ela de novo. Ivete ainda incentivou e não entendi o por quê. Mas ela disse “ele nunca vai se recuperar se não encarar seus próprios demônios”. Ela sempre foi mais sabia do que eu.
Por fim, e a história que vocês acompanharam. Confesso que ainda não a perdoei mas entendo tudo o que ela passou até esse momento. Embora não achei que seja desculpa. Ainda sim estava disposto a ir na festa. Mak já tava uns mil porcento melhor. As mulheres que ele conquistou fizeram bem a ele em muitos âmbitos, principalmente na confiança. Ele era outro. Bom ainda, mas agora era alguém difícil de se ignorar.E agora a festa...
Levei Ivete pra comprar roupas. Não que ela precisasse mas era tão louco por essa mulher e tão tesudo que queria que todos a vissem como eu a via: a mais linda da festa. Ela fez os cabelos, maquiagem e tudo isso. No dia e na hora combinado, fui buscá-la na tijuca, onde mora, e bens a deus, como ela estava linda.
Usava um vestido verde escuro pouco acima dos joelhos que desenhavam sua silhueta mesmo estando um pouco folgado. As alças dos ombros eram correntinhas douradas fininhas e um decote em v que ia pouco acima do umbigo. Não vi marca de calcinha e isso me deixou em ponto de bala. Fiz questão de ir buscá-la na porta de seu apartamento enquanto a conduzia segurando gentilmente sua mão até o carro. Seus cabelos balancavamevidenciando um gostoso cheiro de chocolate e seus lábios brilhantes iluminação ainda mais seu belo sorriso. Eu me derretia por ela. Abri a porta pra minha parceira e assim que ela entrou, agradeceu com um menear de cabeça. Fechei a porta e corri pro meu lugar.
-- o que? – disse ela com um sorriso no canto dos lábios. – parece que nunca me viu!!
Ela dizia isso pelo fato de ainda nem ter dado partida no carro e estar a admirando de boca aberta. Ela se aproximou e me deu um beijinho no canto da boca, apoiando sua mão na calça de alfaiataria que eu vestia, bem em cima do meu pau que já criava uma tenda ali.
-- guarda minha sobremesa pra mais tarde e se você for um bom menino, eu nem tiro o vestido e deixo você brincar com tudo. T-U-D-O. – sussurrou em meu ouvido enquanto apertava e punhetava meu pau por cima da calça.
Eu engoli em seco, liguei meu BMW X-5 e partimos pro itainhangá.
Quando chegamos, fomos recepcionados por um manobrista. Descemos do carro e nós deparamos com uma mansão grande e imponente. Parecia aquelas casas de rico das novelas que minha mãe via. Ivete trancou seu braco no meu e caminhamos pelo paço até onde a música já podia ser ouvida e onde as pessoas se aglomeravam. As mesas dispostas em um grande círculo e ao fundo, um daqueles... Trecos de pracinha, sabe? Onde um grupo de samba afinava os instrumentos pra começar. Por mim, eu ficaria ali mesmo mas a nega queria ver a festa, então entramos no pátio.
A música eletrônica estava alta e fazia as janelas vibrarem. Eu podia sentir as batidas pelo chão. Já haviam bastante pessoas dançando e bebendo naquele espaço. Fiquei feliz por ver Ivete sorrindo. Veja bem, desde que assumimos uma relação, mesmo que liberal, nossos passeios se resumiram a sair pra jantar ou sair pra transar e eu queria muito desfilar e mostrar pra todo mundo o poderzão daquela mulher e, como imaginei, ela atraiu muitos olhares. De homens e mulheres.
Juliana logo veio até nós. Estava visivelmente ansiosa. As pessoas passavam por ela a cumprimentando e ela sorria e abraçava seus convidados.ela estava impressionante. Um vestido dourado de um ombro só. Ele se ajustava bem ao corpo e ia até o meio das coxas. Seus cabelos presos em um coque falsamente desarrumado e algumas mechas brilhantes caiam sobre o rosto. Ela andava entre o povo até nós ver. Veio apressadamente e ela e Ivete se abraçaram forte ou tão forte quanto suas montagens permitisse.
-- que bom te ver, Veveta!!! Temi que talvez não viesse... – tentou disfarçar mas já era tarde, eu havia ouvido. E respondi antes da preta.
-- eu não perderia. – me aproximei dela e toquei seu ombro. – pode não parecer, Juliana, mas eu torço por vocês se estar ao seu lado é o melhor praquele gordo safado. Então... Cuida.dele. eu garanto que não haverá terceira vez.
Eu sorri pra ela mas tanto Juliana quanto Ivete, em um primeiro momento, se olharam assustadas mas depois sorriram pra amenizar o peso das minhas palavras. Ela se dirigiu a mim. Pegou minha mão com aquelas duas mãozinhas pequeninas. Aquilo me pegou desprevenido mas ela o fez e levou as mãos ao peito enquanto olhava em meus olhos. Nunca vi o olhar de Juliana tão firme e resolutos.
-- Raoni, você nunca... Nem de longe... Vai ser pior do que eu sou. Toda vez que olho pra ele, penso que sou sortuda demais em ter uma nova chance. Me dói lembrar a dor que eu causei mas agora...eu sinto que tô pronta e sei que posso ser muito melhor do que o esperado. Só me dá uma chance...
Aquilo me desarmou. Assenti com os olhos cravados nos seus. Ivete riu de mim. Logo Juliana me largou e foi dançar junto com Ivete. Não queria admitir mas ela estava mudada. Chegava a ser estranho vê-la com tanta determinação pra agradar alguém a quem ela viveu sendo mimada. Eu preferi acreditar nela.
Conforme a noite ia passando, a pista ia enchendo do lado de dentro e também do lado de fora. Estávamos no samba quando meu gordo chegou. O desgraçado tava lindão. Depois que tomou gosto pelas roupas nigeriana, acho que é dashik o nome, só as usava e lhes caiam muito bem. Ele estava com um todo branco com detalhes nas golas e mangas em fios dourados. Não houve quem não olhasse pra ele quando chegou.
Ele foi interpelado por uma garota. Mulher estranha. Ficou a noite inteira rondando Juliana mal dando espaço pra ela transitar entre os convidados. Ela estava sempre colocando copo na mão de Juliana que pegava mas quem bebia era Ivete. Em dados momento, tamanha era a confusão na festa, que a preta trocou os copos com a menina e elas nem se ligaram. Eu reconheci alguns da faculdade e trocamos algumas palavras mas muita gente estranha. Em especial um rapaz elegante de roupas pretas. Aquele cara me era estranhamente familiar mas não me recordava de onde.
Marcus chegou a mim depois de falar com a garota estranha. Sua cara não era das melhores. Seu cenho franzido me dizia muito é essa garota tinha um poder de tirar ele do sério e com uma velocidade espantosa. Disse que se atrasou porque demorou a encontrar a surpresa pra Juliana. Perguntei o que era mas desconversou. Engraçado que ele sempre era empolgado quando falava dela mas agora... Parecia vontade mas existia alguma coisa que o segurava. E então ele a viu.
É estranho invejar um irmão? A forma como eles se olhavam... Espero de verdade, que a preta se sinta assim quando a olho. O anel que comprei pra ela ainda queimava em meu bolso. Já encarei alguns advogados e juízes bem durões e mesmo assim nada daquilo se comparava ao temor de ser rejeitado. A gente parecia no caminho certo mas e se fosse impressão minha? Eu tava tão absorto em meus pensamentos que todos saíram e me vi sozinho. Isso não me incomodava.
Aproveitei pra dar uma volta pelo jardim. A casa estava quente e naquele local pelo menos poderia dar uma refrescada. Era um jardim bem grande e com alguns arbustos altos. Via perninhas por baixo e uns casais já bem avancadinhos. E vi algo que me embrulhou o estômago assim que vi: Ivete de joelhos na frente de um cara qualquer. Veja bem, não foi o ato sexual em si que me quebrou. Foi o meu pensamento. Achei que aquele dia seria só nosso. Queria que fosse somente nos dois, e vê-la ali, acabou com a minha noite. Eu voltei pra onde rolava e nesse momento só ouvi um grito vindo da frente.
Alguém tinha caído do segundo andar. A festa parou daí pra frente foi uma confusão. As sirenes e luzes azuis e vermelhas do giroflex chegaram a todos. Uma ambulância que pegava o rapaz que parecia ainda vivo. Eu não via meus amigos.
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ADRIANA: eu tava no meu estúdio pintando quando Bia entrou com tudo. Ela sempre fazia isso. E eu sempre adorei aquela energia carinhosamente caótica dela. Nandinho tava com ela, como sempre. Desde que Fernando entrou em fisioterapia e em estado de recuperação, ela fazia questão de passar mais tempo com o menino. Já era a madrinha dele não ordenada!
Assim que entraram, Nandinho sentou no chão e dei a ele algumas telas e tinta pra ele bagunçar, enquanto bia sentava no meu poltronãk de contemplação.
-- didika, eu tenho uma festa pra ir mas não quero ir sozinha... Vamos comigo, vai? – pedia ela toda manhosa. Era minha melhor amiga. A cretina da minha melhor amiga.
-- ah, bia... Sei lá... Tá chegando minha exposicão e ainda tenho muito o que fazer... – falei esquiva.
Bia ficou me olhando por um tempo e veio me abraçar, enlaçou minha cintura enquanto eu ainda dava algumas pinceladas nada convictas na tela.
-- enquanto vocês não pararem de inventar desculpas pra se verem e você conversar com ele, você vai ficar assim... Se anima vai... Vai que a gente encontra uns gatinhos pra te fazer esquecer esse cara e um pra mim porque tô necessitada!! – disse se abanando.
Ela se referia a Marcus. Desde que... Cara, não tem outro nome, desde que fizemos amor, tudo mudou. Eu quis esse contato e entrar em contato com ele me deixou querendo mais. Eu quero ser dele. Quero ser só dele mas sei que ele já tem dona. É um quadro raro que estava em apreciação pública mas logo voltaria para o verdadeiro dono, e aquilo tava me consumindo. Eu tava fugindo dele porque não acho que conseguiria esconder mais esse segredo.
Talvez aquela festa fosse uma boa mesmo. Pelo menos pra me ajudar a esquecer um pouco aquela boca carnuda, aqueles olhos gentis , aquele toque firme... Sacodi cabeça e decidi aceitar. Seria naquele fim de semana então ia me preparar e ir deslumbrante pra festa. Talvez encontra-se uma aventura e assim poderia desanuviar minha cabeça. Fiz todos os preparativos ate que chegou o dia.
Meus cabelos estavam soltos com os cachos muito bem definidos e lindos. Uma maquiagem leve, um batom rosa e o meu vestido matador: um vestido longo rosa claro de frente única decote em losango e uma fenda poderosa que ia pouco acima da coxa. Quando Bia me viu ficou de boca aberta. Ela vestia um tubinho lindo preto que destacava suas formas.
-- amiga, você precisa ir devagar. A festa não é nossa... – ria enquanto me via.
E assim partimos para a festa. Era uma mansão linda no itanhangá. A festa já tava agitada com um pessoal curtindo um delicioso samba do lado de fora mas o fervo mesmo parecia dentro da casa. E assim que entrei, aquele cheiro caracterisco de todo lugar jovem invadiu minhas narinas: sexo, bebidas e drogas. Bia entrou logo atrás e logo foi abraçada por uma menina e me apresentou. Seu nome era Raquel, a anfitriã mas era uma festa de aniversário pra uma amiga. Eu cumprimentei e logo estávamos bebendo e dançando.
Música alta e os corpos se esbarrando e rocando no meu pareciam ter um efeito quase transcendente em mim. Fechei os olhos e apenas dancei, me desfiz e refiz no meio de todos. Até que senti Bia me tocando, e me tirando do transe e me fazendo congelar. Uma menina linda com um vestido dourado vinha se aproximando dela.
-- didika, essa é a aniversariante, - interrompi mais rápido do que gostaria.
-- Juliana! – olhei pra ela e instintivamente, procurei em volta mas já era tarde.
-- Adriana? – aquela voz me fez tremer mesmo antes de vê-lo ao meu lado.
Bia olhou pra nós três, confusa. Sua confusão só se equiparava a de Juliana. Meu deus, como eu quis ir embora naquele momento. Juliana se aproximou de mim, calorosa e tentando entender e meu deu os famosos beijinhos cariocas.
--Prazer, Adriana. Obrigado por vir na minha festa!!
Ela estendeu a mão, pegando a de Marcus e o puxando pra ela. Era doloroso mas vê-los juntos fazia parecer que as coisas estavam certas, encaixadas, e isso causou um forte aperto no peito. Me senti zonza e antes que perdesse o equilíbrio, senti o braço forte de Marcus me amparando.
-- você está bem? – ele perguntou e por um momento nos olhamos. E entregamos tudo a quem não devíamos.
Juliana soube que havia algo ali mas não pode precisar o quê. Bia na mesma hora entendeu quem ele era. Ambas ficaram estupefata mas caladas. A terceira pessoa foi a que acabou com a festa pra mim. A menina que abraçou bia quando chegamos. Raquel. Ela forçou entrar entre eu e Marcus, que se chegou mais pra perto de Juliana. Eu vi aquele olhar perverso e um riso malévolo se formar em seus lábios.
-- ah, não sabia que se conheciam!!! – disse olhando pra Marcus.
Ele não gostava dela. Era visível. Quase paupável. Mas ela... Ela carregava no olhar um desejo quase obsessivo enquanto o observava.
-- sim. A conheço. Gente sai junto há um tempo. – ele disse com uma convicção que me assustou. Só não me deixou mais apreensiva do que perceber que Juliana apertou a mão dele com força mas não era de raiva.
-- nossa, Marcus. Você realmente não cansa de surpreender! – ela ria. Um riso maldito e esganiçado.
-- o que você quer dizer? – perguntou Marcus, confuso.
-- Raquel, cala a boca! – bia tentou mas já era tarde.
-- eu não sabia que saia com nossa menina do movimento trans... – ela fez questão de prolongar aquelas palavras.
Juliana olhava fula da vida pra Raquel. Todos sabiam. Quer dizer, qualquer um metido com movimento social na faculdade sabia sobre mim. Ganhei mais notoriedade ainda depois que Fernando e Vivian me chamaram pras oficinas da escola de arte deles.
Eu me encolhi mas senti a mão de Marcus tocar meu ombro e olhei pra ele que fuzilava a menina e ainda tinha um sorriso de escárnio e desgosto no canto dos lábios.
-- nossa... Que desagradável deve ser pra você, Raquel? – ele disse enquanto a olhava.
-- por que? O que isso me afeta? – ela disse ela, confusa.
-- bem... Olha pra você e olha pra ela... Eu se eu fosse você eu evitaria ficar perto. A luz e beleza dela fazem você parecer um mendicante.
Ele me defendeu mesmo diante de Juliana que parecia estar firmemente com ele, inclusive me olhando. Pra alguém preconceituoso como a menina parecia, aquilo foi um golpe certeiro. Ele, de uma vez só, atingiu a educação e a aparência dela exaltando a minha. Eu a vi engolir em seco e sair de perto com os olhos marejados. Quando ela foi embora, olhei pro meu herói e me decepcionei.
Juliana estava conversando com uma mulher negra linda mas que parecia já ter passado um pouco do ponto da bebida, enquanto Marcus olhava em meu olhos com o rosto sem expressão.
-- você me enganou. – respirou fundo, cansado. – adeus, Adriana.
Marcus deu as costas e se afastou. Enquanto eu corria para o jardim. Não consegui segurar a onda e chorei. Eu não esperava que ele fosse assim, que fosse me resumir ao que já fui. E eu ainda me sentia muito atraída por ele, o que era pior. O jardim me deu mais aflição. Casais se pegando e aquela preta linda que dancava com Juliana e tinha bebido demais tava Se enroscando com o namorado atrás de um arbusto. Quando ia entrar de novo pra ir embora, senti uma mãozinha entrelaçando meus dedos.
-- vem comigo...
Ela me guiou pelas escadas e fomos pra um dos quartos. Acho que todo meu estudio cabia naquele quarto. Um quarto opulento, cheio de quinquilharia antiga e que contratava com a modernidade que rolava lá embaixo. Ela me levou até a cama e sentou ao meu lado sem largar minha mão. Eu só chorava. Como meu peito doía. É justamente Juliana me acudindo só me machucava mais porque eu via o quanto eles eram feitos um pro outro.
-- eu nunca me senti assim por ninguém!! Eu nunca contei isso por medo justamente dessa reação!! Eu não acredito que ele fez isso comigo!!! – chorava e Juliana já me abraçava consolando.
-- calma, Adriana. Respira. O Marcus... Ele tem um bom coração... Acho que ele só tá irritado com a Raquel. De cabeça mais fria, é mais fácil lidar com ele. – dizia enquanto me tranquilizava.
-- você sabe que eu tô apaixonada por ele e ainda sim, você tá me consolando... – eu olhava prós olhos de Juliana e não havia nada além de boa vontade e amizade genuína. – por quê?
Ela respira e sorri, enquanto faz um afago nos meus rosto.
-- ele é alguém facil de se apaixonar... Ele é gentil, é atencioso... Eu o perdi, Adriana e ainda tô tentando reconquistá-lo. – ela olha pras mãos delas entrelaçadas – mas não sou idiota. Só espero que as outras não sejam tão bonitas quanto você. E nem tenham mexido tanto com ele...
Olhei pra ela enquanto fungava.
-- o que quer dizer?
-- ele nem gaguejou em responder a Raquel. Ele fez questão de humilha-la na frente da gente. – ela dizia enquanto segurava minha mão.
-- mas ele não largou sua mão. Nenhuma vez. Você... É a âncora dele. Na verdade, ele parece perdido... Dividido. Não entre nós... – respirei fundo.
Ela sorria e apertava minha mão. Era um gesto de esperança.
-- eu não posso ficar entre vocês. Isso não é certo... – eu respirei fundo. Havia parado de chorar e estava mais tranquila.
-- podemos tomar um café depois. Tenho muitas histórias dele mas hoje quero curtir meu aniversário e... Uma nova amiga, quem sabe?
Ela conseguiu me fazer sorrir. Antes de sairmos, a porta abriu.
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YVETE: Conheci raonino samba e me apaixonei. Não lembro de ter tido tanta química assim com ninguém. Assim que nos conhecemos, eu fui clara e franca com ele: sou espírito livre, não gosto de me apegar. Avisei que sou liberal e ele, em vez de repreender ou tentar me mudar, gostou e mergulhou na minha loucura com tudo. Acho que foi ali que ele me ganhou de verdade. A atitude sem medo, a fome pelo desconhecido. E não digo isso nem pelo mundo liberal, digo isso por mim. Ele mergulhou em mim sem nem titubear.
Daí pra frente foi uma loucura! Levei ele pra algumas festas, pra conhecer alguns contatos e ele sempre abraçou o meu mundo mas nunca o vi como corno e nem nada do tipo. Éramos e somos parceiros. Quando eu transava com outro homem além dele, ele se esforçava. Não pra ser melhor que o outro, mas pra elevar o meu prazer no máximo que ele pudesse. E, pra minha surpresa e admiração, quando fizemos com outra mulher, ele fez a mesma coisa. Se dedicou a mim, me dando os maiores e melhores orgasmos que já tive na vida.
Em certo momento eu percebi algo que mexeu comigo. O mundo liberal não é essa zona despudorada. É sobre poder ir e querer voltar. E quanto mais eu ia, mais eu queria voltar prós braços dele! Quando eu o via fazendo amor com outras mulheres, sim, ele fazia amor com elas, eu gozava lindamente. Porque enquanto eles faziam amor, ele me olhava e eu sabia que era pra mim, era por mim, e mais ninguém. E passou a acontecer a mesma coisa comigo: quando estava com outro, eu só conseguia gozar se estivessemos nos olhando.
Nossas transas e festas eram maravilhosas mas aquilo tava errado. Quer dizer, eu não enjoei. Transar com outras pessoas era sempre um aprendizado. Um toque novo, um prazer novo. Mas já estávamos namorando há bastante tempo mas nunca havíamos ficados a sós. Nunca fomos somente um do outro e eu, que não queria mais aquilo, me peguei desejando que ele pedisse pra parar. Eu queria ser só dele pelo menos por um tempo. Não conversamos sobre isso. Outra qualidade dele, é que nunca precisamos falar o que estávamos sentindo. E aquele aniversário marcaria uma nova fase.
Me arrumei única e exclusivamente pra ele queria curtir a festa mas queria curtir os olhares dele em mim. Seu olhar me incendeia, só ele consegue no mesmo olhar terno e carinhoso, imputar tanto desejo. E isso deixava minhas pernas trêmulas. Provoque no carro. O provoquei durante o caminho. Aquela noite seria só nossa e ela marcaria uma pausa nessa vida louca. E eu finalmente diria a maldita frase engasgada na minha garganta há meses e que eu me reservei por medo. Ele precisava saber e eu precisava falar que eu o amava.
A festa estava uma delícia! Juliana estava solta, feliz. Eu pude ver sua melhora e pude ajudar também gracas ao Marcus. Nesse ínterim, acabamos virando amigas de verdade. E devo dizer que Juliana casava bem com meu bebezão. Ela era gentil como ele a diferença é que o pavio dela era bem mais curto. Aliás, o de Marcus também havia diminuído consideravelmente. Quando eu me ofereci pra ajudar nessa loucura deles, não achei que isso teria tanto impacto no comportamento dele. Antes, eu mexia com ele e o via corar. Hoje, quando brinco... Sei que ele quer me comer mas nunca faria isso pelas costas do Raoni. Então o que começou com uma brincadeira virou uma promessa, mas voltando a festa...
Dancei muito com Juliana e conheci uma amiga dela, Raquel. Garota estranha. Sei lá... Ela olhava pra Juliana com um sentimento ruim. Ela me dava uma sensação ruim mas eram amigas de longa data, pelo que pesquei. Eu dançava leve, sempre olhando pra Raoni, sempre capturando seu olhar, sempre querendo me mostrar pra ele. E o via sorrir. Aquele sorriso cúmplice, gostoso, que aquecia meu coração e o meio das minhas pernas. Eu bebia junto com juliana a tal da Raquel, que em um determinado momento ficou puta da vida só porque bebi o moscow mule que ela havia trazido pra Juliana. Eu me irritei e Juliana também e ela logo se afastou.
Quando Marcus chegou, eu vi. Parecia que o ar dela havia sumido e um sorriso enorme rasgou aquele rostinho de boneca. Ela correu entre os convidados e se pendurou em seu pescoço, que a enlaçou pela cintura e lhe deu um beijaço. Fiquei feliz por eles. Se aproximaram da gente mas logo eu peguei ju pela mão e voltamos pra pista.
Comecei a sentir meu corpo flutuar. Sentia minha risada mais estridente e mais alta. Meus batimentos estavam erraticos e muito acelerados. Eu parecia estar tendo uma overdose de felicidade. Juliana me balançou algumas vezes e me deu uma garrafinha de água. Ela me sacudia enquanto alguém a chamava e quando ela foi ver o que acontecia, tudo virou um borrão luminoso de luzes cintilantes.
Lembro de estar ajoelhada no jardim, dizendo que amava Raoni. Enquanto o chupava. Depois lembro vagamente de um diálogo estranho entre três pessoas, uma mulher muito irritada e dois homens. Eu não captei a conversa mas parecia que iam fazer uma grande farra. E depois, apaguei. Lembro somente de acordar em uma ambulância com um forte cheiro de amônia em minhas narinas e Raoni sentado ao meu lado com cara de preocupado.
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NARRADOR: A festa acabou no momento em que o primeiro corpo bateu no chão de pedra do paço que seguia até a casa. Após isso, foi uma gritaria e correria. Juliana e Adriana estavam abraçadas e cobertas, seus vestidos sujos de sangue e as vozes tão trêmulas quanto as mãos. Marcus estava bastante machucado, com o olho direito inchado, alguns cortes no corpo, um braço perfurado. Fora os já narrados aqui, Raquel foi achada desacordada no banheiro e um outro rapaz quase morto no quarto principal.
O que era pra ser uma comemoração, tornou-se um pesadelo.