Viva Forever

Um conto erótico de Guga
Categoria: Heterossexual
Contém 849 palavras
Data: 21/03/2026 16:34:31
Assuntos: Heterossexual, URSO

O sábado chegou com um céu limpo, daqueles que parecem lavados de propósito para não atrapalhar planos simples. Acordamos cedo — não por obrigação, mas porque o corpo já estava acostumado a começar o dia sem pressa e com fome de ar livre. Roberto tomou o tererê gelado que eu preparara enquanto ele ainda se espreguiçava na cama. Saímos por volta das nove, Roberto na direção do meu Volvo elétrico.

Chegamos no Pesque e Pague pouco depois das dez. O lugar era tranqüilo: lago artificial grande, alguns bangalôs espalhados, cheiro de capim molhado misturado com terra revirada e um leve aroma de ração para peixe. Pouca gente — um casal mais velho no canto, dois adolescentes tirando selfie com vara de pesca e nenhum peixe, e só mais nós dois ali. Alugamos um bangalô simples com mesinha de plástico, duas cadeiras e sombra de telha. Compramos isca viva, linha, molinetes e nos instalamos.

Primeira meia hora foi só silêncio confortável: lançamento, espera, retrair devagar, repetir. O sol aquecia sem queimar, o vento trazia frescor do lago. Roberto estava de regata azul de centáurias que deixava os braços peludos e grossos à mostra, short tactel branco que subia um pouco nas coxas quando ele se sentava. Eu de camiseta ocre e bermuda do Cruzeiro que ele me presenteara.

Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio, voz baixa e rouca como sempre:

— Sabe… eu gosto disso aqui. Sem celular, só a gente esperando um peixe que talvez nem venha. Me lembra um pouco nós lá na barraca, só que com mais mosquitos e menos tesão acumulado.

Ri baixo, mantendo os olhos na bóia vermelha que balançava preguiçosa.

— É. Mas aqui a gente pode conversar sem ninguém interromper. E sem precisar tirar a roupa… ainda.

Ele deu uma gargalhada grave, barriga tremendo, e cutucou meu joelho com o dele.

— Ainda. Palavra perigosa essa na tua boca.

Fiquei quieto um instante, enrolando linha devagar, sentindo o peso do molinete na palma.

— Roberto… tem uma frase que eu carrego comigo desde os vinte e poucos. Li e gravou de fato em mim: “Don’t do what you can’t undo, until you’ve considered what you can’t do once you’ve done it.”

Ele ergueu uma sobrancelha, barba grisalha brilhando ao sol.

— Mais ou menos: “Não faça o que não pode desfazer, antes de ter pensado no que você não vai mais poder fazer depois que tiver feito.” É sobre conseqüências irreversíveis. Sobre medir o estrago antes de apertar o gatilho. Eu levo isso a sério. Minuto a minuto, ano a ano. É uma das várias diretrizes que eu uso pra não ferrar com a minha própria vida… nem com a de quaisquer outras pessoas.

Ele ficou olhando a bóia dele por uns segundos, depois virou o rosto pra mim, olhos castanhos calmos, mas atentos.

— Você é tão filósofo, cara. Fisgou um bacalhau aqui e nem tenho perereca.

Sorri de lado, sentindo um calor bom subir pelo peito.

— Olha… quando eu tinha catorze, em Bauru, me contaram que meu caso era um em cada quatrocentos mil. Taxas todas fora da curva. A médica só olhava pros exames anormais, nem registrava que tinha parido um egocêntrico altruísta. — Na hora eu entendi que minha sobrevivência ia ser uma roda-gigante destrambelhada. A religião era algo conhecido e em que eu não me conectava para os saltos de fé. Então cabia a mim construir meu próprio caminho: espiritualidade, base ética que eu pudesse defender contra meu próprio escrutínio ferrenho, além de ter objetivos que fizessem eu me manter em movimento.

Roberto soltou o molinete devagar, deixou a linha afundar mais um pouco. Depois esticou a mão grande e pousou no meu antebraço.

— A médica só prestava atenção nas taxas anormais e nem se deu conta que pariu um egocêntrico altruísta — repetiu ele, voz lenta, quase carinhosa. — Cuida de si pra poder cuidar direito dos outros. Calcula tudo para se resguardar e ser a concha providencial para quem te respeita e te conquista.

Olhei pra mão dele no meu braço. Senti um aperto bom no peito. Sem pensar muito, levei até meus lábios e beijei os nós dos dedos grossos, demorando um segundo a mais do que o necessário.

— Não se acostuma — murmurei contra a pele quente dele, olhando nos olhos. — Não sou de demonstrações públicas de carinho. Mesmo adorando você.

Ele não tirou a mão. Só sorriu daquele jeito lento, expansivo, que faz a barriga tremer de leve e os olhos se estreitarem de contentamento.

— Eu sei. Por isso que eu gosto. Você não joga confete. Você vai firmando tijolo por tijolo. E eu aceito sendo incondicionalmente tua propriedade.

A bóia dele afundou de repente. Ele deu um puxão firme, riu alto quando sentiu o peso.

Levantei rindo, segurei o cabo do molinete com ele, os dois puxando juntos enquanto o peixe brigava na água. Ombro colado no ombro, suor começando a brotar de novo, respiração sincronizada sem esforço.

Quando a tilápia grande finalmente veio pra margem, nós dois estávamos suados, rindo tal qual rapazes, comprometidos um com o outro feito luz e som das trovoadas ao longe.

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