No outro dia, ajudei Júlia com alguns exercícios. Ela estava mais melancólica e sem muita vontade, mas ainda assim se manteve focada e fez tudo direitinho. Na casa, só Dona Jacira estava acordada naquele momento e passou um bom tempo insistindo para que Juh comesse alguma coisa, mas ela recusou, dizendo que não estava com vontade de nada e que se alimentaria depois do banho. Foi o que aconteceu. Quando terminamos e voltamos, o restante já estava acordado, e meu sogro começou a enchê-la de carinho, oferecendo tudo o que tinha na tentativa de fazê-la comer. E conseguiu!
Kaique e Milena estavam animados para irem até o haras, e Kaká passou boa parte do café soltando indiretas de que já estava bem e não teria problema nenhum em ir também. Tanto eu quanto Juh estávamos tranquilas com a ideia deles irem, mas ainda assim nos divertimos ouvindo as tentativas dele de se mostrar disposto, como se precisasse nos convencer daquilo.
Iury sentou entre o pai e a irmã, claramente só para implicar, bem na hora em que meu sogro comentava que ia montar uma academia básica para Juh não precisar improvisar como vinha fazendo naqueles dias. Não demorou para Iury começar a reclamar, dizendo que não era justo, já que ela mal ficava ali.
— Pra vocês dois, nego, e os hóspedes podem gostar da ideia também — meu sogro falou.
— Não, pra Iury, não — Júlia disse, empurrando-o.
— O senhor está vendo que é ela que começa e não aguenta? — Iury perguntou ao Sr. José.
— Mas foi você quem começou se jogando aqui no meio da gente — Júlia rebateu.
Do outro lado do balcão, eu, Dona Jacira e Lana acompanhávamos tudo enquanto nos preparávamos para o segundo round do café, rindo da disputa dos dois por atenção.
— Não vai participar da competição, cunhadinha? — brinquei.
— Essa treta é deles — Lana respondeu, rindo.
— Às vezes eu acho que vou ficar maluca — Dona Jacira disse, despretensiosamente.
— A senhora e seus filhos mimados — brinquei.
— Como se você não tivesse contribuição nenhuma, não é, Lore? — ela me questionou.
— Só um pouquinho — respondi, rindo.
Nesse momento, pensei apenas em relação à minha gatinha.
— Até o carro você emprestou para Iury — Lana soltou.
— Aaaaah, seu problema é ciúme? — perguntei, abraçando-a por trás.
— Sai, nada a ver! — ela exclamou, rindo.
— Vou compensar, prometo — falei, dando um beijinho nela.
Quando o café finalizou, Lana disse que iria tomar banho, o que era estranho, porque ela já tinha feito isso antes, e então lembrei de uma informação importante.
— Huuuuuum... É hoje a apresentação do nego... por isso ela está assim, toda nervosa e neurótica por banho — provoquei.
— Nem vem, só estou precisando — ela disse, apressada, saindo rapidamente do meu campo de visão.
Isso me fez rir.
— E aí, sogrinha, a senhora conhece? — perguntei.
— Conheço, é um menino bom... só não quero que ela fique encegueirada nele... tem outras coisas na vida também — ela me respondeu.
— Acho que Lana é bem cabeça, a senhora já conversou com ela? — quis saber.
— Vou fazer isso hoje, depois que o rapaz sair — Dona Jacira respondeu.
Algum tempo depois, um barulho de carro chamou a nossa atenção e, de dentro dele, saiu um jovem que fez a minha cunhada, que estava sentada com Juh e comigo na beira da piscina, saltar e correr na direção em que ele vinha.
— Quero ser recebida assim em casa quando eu chegar, viu, amor? — brinquei.
— Não é muito diferente, não — Júlia respondeu e me beijou.
Enquanto o casalzinho vinha, meus sogros se aproximavam para receber o rapaz... O engraçado foi que, logo atrás, se posicionavam lado a lado os três patetas do entretenimento: Lorenzo, Victor e Iury. Eles estavam de cara fechada e braços cruzados, encarando Rodrigo, que tinha plena visão do que o esperava.
— Que palhaçada... Ainda bem que eu estou aqui para ver — falei, animada.
— O que eles vão fazer? — Juh me perguntou.
— Atormentar, só não sei de que forma — respondi.
Olhei ao redor e, dos mais novos aos mais velhos, todos rachavam de rir com a cena.
Rodrigo cumprimentou os valentões e levou dois apertos de mão severos de Victor e de Iury e, quando foi falar com Lorenzo, meu irmão abriu um sorrisão e soltou uma gargalhada, abraçando-o.
— Fica suave, irmão... Seja bem-vindo! — ele disse, direcionando-o para o restante da família, apresentando um por um.
Lana estava vermelha de vergonha, mas percebi que relaxou mais depois, quando percebeu que Rodrigo estava achando tudo engraçado.
O casalzinho sentou em um banco ao nosso lado com meus sogros, e eles ficaram de conversinha mole, para saber as intenções dele, como o relacionamento estava funcionando, há quanto tempo estava rolando e como começou.
— Eu estou me sentindo em uma novela — cochichei para Juh.
— Era para ser assim com você também — Júlia brincou, rindo.
— Eu fui matricular minha filha e achei o amor da minha vida — falei e a beijei.
Juh veio toda derretida nos meus braços.
— Aí eu fui no apartamento da gata beber água e ela matou a minha sede — continuei e ri.
— Estava tão bonitinho... — Júlia comentou, mas também ria.
Como estávamos no ponto mais próximo, começamos então a ouvir a conversa ao lado com mais atenção. Ouvi minha sogra aconselhar os dois em relação ao futuro, para que não ficassem com os olhos apenas um no outro, porque ao redor ainda havia muito a construir nas vidas deles, e meu sogro pedindo que fossem com calma, porque não havia necessidade de correr contra o tempo. Ele chegou a usar o termo “namoro santo”, e, nesse exato momento, eu comecei a rir.
— Para, amor — Juh sussurrou, bem devagar.
— O namoro sendo santo igual ao nosso — cochichei, tentando prender o riso, porém estava impossível.
— Meu Deus... Eles não fazem ideia... Ainda bem... — Júlia comentou, também rindo.
— Seria impagável a cara da minha sogra ao saber que você é a conselheira sexual — falei, rindo.
— Não sou isso, não, eu só conscientizei — ela disse, convencida.
Após aquela conversa maravilhosa, meus sogros saíram juntos para deixar o casal em paz, só que ela não contava que a tortura havia apenas se iniciado.
— Ô, Rodrigão, vem ajudar aqui no churrasco — Lorenzo gritou.
— Eu estou com pena desse garoto, Lorenzo é insuportável — Loren disse, se aproximando com os gêmeos e Sarah.
— Quando isso acaba? — Lana perguntou, voltando a se sentar conosco.
— Quando ele for embora — Juh respondeu.
— Namoro santo... — enfatizei, olhando para Lana.
— Ai, que sacoooo — ela riu, jogando uma almofada em mim.
— Eu vou fiscalizar de perto, serei empata-foda — brinquei.
— Já não basta isso? — Lana questionou, apontando para o namorado.
Ouvimos então a seguinte frase sair da boca de Victor: “Leva lá para seu sogro, ele adora uma carninha mal passada”.
— Ihhhh, lascou — comentei.
— O que foi??? — Sarah quis saber.
— Sr. Zé vai montar nesse prato dizendo que o boi está vivo — zoei.
— Nossa, eles são muito filhos da puta — Sarah falou, rindo.
— Por que eles têm que fazer isso???? — Lana questionou, em um lamento, e se jogou no deck.
Ficamos observando de camarote o percurso de Rodrigo, todo empolgado, até o meu sogro. Meus pais, os pais de Victor e o de Sarah também estavam lá. Ele foi passando de um em um, e meu sogro intercalando o olhar entre a carne e o sobrinho, rindo da brincadeira.
— Poxa, Rodrigo, estou quase batendo um papo com esse boi aí — ele falou.
E, no mesmo momento, ele virou, negando com a cabeça para os três patetas que riam.
— Pronto, chega... Já se divertiram demais, deixa o cara curtir a namorada dele — falei, dando fim à tortura.
— Que sacanagem de vocês... — Rodrigo comentou, rindo.
E eles seguiram para uma parte mais afastada, cheios de carinho um com o outro.
Houve outras perturbações ao longo do dia, mas uma das mais engraçadas foi quando Rodrigo estava voltando com a roupa que usaria na piscina e, ao passar pela porta, Lorenzo deu um grito para assustá-lo e o homi perdeu toda a postura, porque saltou e gritou de uma maneira que eu quase mandei Lana comprar outra cueca para ele.
Entrei na piscina com Tiago e Júlia me entregou Alice também enquanto ela entrava. Fiquei girando com os dois nos braços enquanto eles riam e batiam palmas.
— Fala assim: tchau, mamãe — pedi para eles.
E imediatamente eles deram tchauzinho com as mãos.
— Vem, neném — Juh chamou Alice, e ela foi.
— Titia, gira — Tiago pediu, segurando em meu rosto.
E como é que se nega uma solicitação dessa? Não tem como, é questão de urgência!
Ficamos um tempo brincando com eles e, assim que saímos, rolou um chorinho para retornar, que logo deu lugar a uma bela capotada. Os dois dormiram quase que ao mesmo tempo, Tiago um pouquinho antes, e depois nós trocamos as roupas deles.
— Nossa... Sabe o que eu estou pensando? — Juh perguntou.
— Sei, em quando for Dom — Loren respondeu, sorrindo.
— Um dia desses a pousada fica pequena, é muito meninu — disse.
— E vem mais aí... — Sarah falou.
— VEM? — quase todos ao redor questionaram, e ela riu.
— Procuramos a vara da infância e já entregamos os documentos — Lorenzo falou, sentando ao lado da esposa e a beijando.
— Parabéns!!! Estou muito feliz por vocês! — falei, abraçando-os.
E logo virou uma grande comoção.
O tema adoção mexe muito com todos nós, porque não é algo distante dentro da nossa realidade. Por Kaká, principalmente, pela forma como tudo se encaixou de um jeito quase impossível de explicar, mas que, ao mesmo tempo, fez todo sentido desde o começo. Muitas vezes falamos sobre acolher, contudo, na minha visão, o caso dele foi sobre reconhecer. Também tem a história de Lana e Iury, que não é leve, nunca foi, e talvez por isso pese ainda mais quando a gente para para pensar no que uma oportunidade diferente pode fazer na vida de alguém. Não apaga de forma alguma o que os dois já viveram, mas muda completamente o caminho que viria depois. E ver isso de perto faz a gente entender cada vez mais que adoção não é sobre “salvar” ninguém, é sobre oferecer possibilidade, estrutura e presença. É sobre ser família.
Sarah não pode engravidar, e ver de perto todo o processo com Kaká, tudo o que construímos e o quanto ele é nosso em todos os sentidos, fez com que ela se permitisse enxergar esse caminho com outros olhos. Júlia e eu acabamos propagando bastante a ideia da adoção porque conhecemos diversas realidades e conseguimos entender o impacto que tem.
Quando penso em Kaique, é impossível não reconhecer o quanto a nossa conexão sempre foi fora do comum. Nunca teve esforço, nunca teve fase de adaptação difícil, nunca pareceu que estávamos aprendendo a nos encaixar... simplesmente aconteceu. Desde o início, foi leve, natural, como se ele sempre tivesse feito parte da gente, e ver a forma como ele se construiu dentro da nossa família só reforça isso. A relação dele com Milena é uma das coisas mais bonitas que eu já tive o privilégio de acompanhar. É cheia de cuidado, parceria, com implicância na medida certa; é aconchego de verdade. Ele é um menino alegre, atento, que se preocupa com quem está ao redor, que percebe, que se envolve, que não passa batido pelas coisas. Kaique é carinhoso, é apegado, é família. Ele faz questão de estar perto, de participar, de se fazer presente nos pequenos momentos. E talvez seja por isso que nunca pareceu que ele chegou; sempre deu a sensação de que ele só estava voltando para um lugar que já era dele. Para o nosso coração, tinha que ser ele.
— No que vocês precisarem, podem contar com a gente, tá bom? — Juh falou.
— Com todos nós — Loren reforçou.
— Meu Deus, estaremos todos com filhos — Victor observou, rindo.
Fechando os olhos, eu conseguia lembrar com clareza da primeira vez que pisei na pousada. Tudo era diferente de como já estava até aquele momento, mas, de alguma forma, já carregava a essência do que viria a se tornar. Olhando ao redor, eu via o quanto mudou — e mudou para melhor. Virou um lugar de encontro, de convivência, de família.
A pousada sempre teve essa base forte de família, desde os pais da minha sogra, passando por ela e pelo Sr. José. Isso nunca se perdeu; o que aconteceu foi uma continuidade, uma construção em cima do que já existia. A ideia de revitalização surgiu muito por conta das nossas idas até lá e, quando percebemos, já estávamos completamente envolvidos.
O mais interessante é perceber que não foi só o espaço que cresceu. A pousada acompanhou a gente, ou talvez a gente tenha acompanhado ela. Porque, no fim, o que transformou tudo não foi só a estrutura ou as mudanças físicas, foi o que a gente levou para dentro dali. O amor foi ocupando cada canto, conectando tudo e fazendo com que desse certo em todos os sentidos.
E foi ali, naquele lugar tão especial, que dias depois nos preparamos para mais uma virada de ano. Dessa vez, organizaram tudo de um jeito novo, com direito a show ao vivo, mas, como sempre, a nossa família ocupando todos os cantos. Iniciamos a contagem regressiva, e meu sogro ficou responsável pelos fogos e fez questão de preparar algo especial: só subiram fogos azuis, pensados para o Dom. E, com os braços ocupados, abraçando os meus três filhos, e os lábios encontrando os da mulher da minha vida, eu dei boas-vindas ao ano de 2022.
