Entre Irmãos - O Que Sobrou de Nós

Da série Entre Irmãos
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2207 palavras
Data: 18/02/2026 23:18:53

O encontro não foi planejado e talvez por isso tenha sido inevitável. Era começo de tarde, calor parado, céu branco. Eu saía da escola com dois livros debaixo do braço quando vi a moto encostada meio torta na sombra de uma árvore. Reconheci a moto antes de reconhecer o dono. Rafael.

Ele não estava recostado na moto, estava em pé, braços cruzados, olhando direto para mim, como quem espera desde sempre. O olhar de Rafael encontrou o meu imediatamente. Sempre encontrava. Havia nisso uma espécie de vigilância antiga, um hábito que custava a morrer.

Eu senti primeiro o velho reflexo físico, tensão no peito, alerta, memória. Depois veio algo novo: distância. Como se estivesse vendo um capítulo antigo da minha própria vida.

Pensei em atravessar a rua e seguir sem dizer nada. Já havia aprendido, nos últimos meses, o valor do silêncio. Mas havia coisas que não se encerram sozinhas. Algumas coisas precisam ser ditas em voz alta para, só então, perderem a força.

Rafael abriu um meio sorriso.

— Você ficou bom de sumir.

— Você ficou bom de aparecer sem ser chamado — respondi, calmo.

Não havia hostilidade na minha voz. Isso desarmou Rafael mais do que um ataque faria.

— Vamos conversar — Rafael disse, a voz era firme, mas havia algo rachado nela.

Não foi pedido. Foi aposta. Eu pensei em dizer não. E percebi que, pela primeira vez, podia dizer. Mas entendi outra coisa: não queria mais carregar nada inacabado.

— Dez minutos – assenti, sem entusiasmo.

Caminhamos até a praça ao lado da escola. Nos sentamos em um banco de cimento quente, à sombra. Pessoas caminhando rápidas. Som de ônibus passando. Vida comum, o cenário perfeito para verdades incômodas.

Nenhum de nós dois parecia confortável. Não havia mais tensão elétrica, nem o jogo de olhares enviesados, nem aquela curiosidade perigosa. O que havia era um cansaço compartilhado. Rafael falou primeiro.

— Você me usou.

Eu quase dei risada.

— A gente precisa começar pelo começo — eu disse — Você chegou na minha casa querendo me provocar. Provocar o Heitor. Provocar a sua família. Eu era uma peça no seu joguinho doentio, eu não era uma pessoa de verdade para você.

Rafael apertou o maxilar.

— Não muda o fato de que você entrou no jogo.

— Entrei — concordei — Mas não fui o único.

Rafael soltou o ar devagar, como quem aceita uma sentença.

— Mas e você? — ele perguntou — Não se aproveitou também?

Eu sustentei o olhar.

— Sim. E é por isso que eu estou aqui agora, dizendo isso. Eu não quero mais esse lugar. Nem com você, nem com Heitor, nem com ninguém.

Silêncio curto. Denso. Rafael chutou uma pedrinha.

— Eu achei que, depois de tudo… — Rafael recomeçou, interrompeu a si mesmo e riu, um riso curto — Achei que você fosse me procurar.

Eu respirei fundo antes de responder.

— Eu não procurei ninguém — disse — Foi justamente isso que eu aprendi.

Rafael fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia menos desafio e mais cansaço.

— Eu achei que você ia me escolher – ele disse, lentamente.

Eu virei o rosto devagar.

— Você nunca quis ser escolhido. Você quis vencer.

Aquilo acertou, como se aquela frase tivesse doído mais do que gostaria de admitir. Rafael respirou pelo nariz, forte.

— Você sabe que eu não fui só… aquilo que eles dizem — falou, com amargura — Eu não fiz tudo por mal.

— Eu sei — respondi, com calma — Mas isso não muda o efeito do que você fez.

— Você não entende nada do que é crescer naquela casa.

— Eu entendo o que é ser excluído, Rafael — respondi, simples — Mas a sua dor não dá direito de transformar as pessoas em instrumento.

Rafael riu sem humor.

— Olha você. Virou juiz agora?

— Não — eu apoiei os livros no colo — Só sou responsável por mim, mais ninguém.

O vento levantou poeira leve. Nenhum de nós dois desviou o olhar.

— E o Heitor? — Rafael perguntou — Acabou mesmo?

— Acabou.

— Você ainda ama ele.

Eu pensei. Não fugi.

— Eu amei quem eu imaginei que ele fosse.

Isso desmontou mais do que um “não”. Rafael ficou em silêncio longo. O primeiro silêncio honesto desde que nos conhecíamos. O vento mexia as folhas das árvores, crianças gritavam ao longe. A vida continuava, indiferente àquele ajuste de contas tardio.

— E eu? — ele perguntou, por fim, sem ironia, sem jogo.

Eu respondi sem crueldade e sem açúcar.

— Você foi um erro que me ensinou rápido.

A frase não veio como faca, veio como laudo. Rafael engoliu seco.

— Então é isso?

— É isso.

— Você vai sumir e fingir que nada aconteceu?

— Não — corrigi — Eu vou lembrar. Mas não vou continuar. Porque pra seguir, eu preciso deixar isso pra trás.

Rafael assentiu, devagar. Pela primeira vez, parecia realmente jovem. Dezenove anos pesando como um fardo grande demais.

— Eu invejo você — disse, quase num sussurro — Por ter conseguido sair disso tudo.

Eu me levantei. Ajustei a mochila no ombro.

— Você também pode — respondi — Mas não comigo.

Rafael também se levantou, impulso antigo, aproximação, tensão, quase toque, mas parou. Percebeu que o campo tinha mudado. Não havia mais brecha emocional para ele invadir.

— Você mudou — ele disse.

Eu respondi com suavidade surpreendente:

— Não. Eu parei de negociar o que me machuca.

A frase ficou entre nós como uma linha traçada no chão. Rafael não tentou atravessar.

— Se eu te procurar de novo?

Eu ajustei os livros no braço.

— Não procure.

Não foi ameaça. Foi limite. E limites, Rafael percebeu, tarde demais, eram a única coisa que ele nunca aprendera a lidar. Nós nos despedimos sem toque, sem promessa, sem rancor explícito. Apenas um acordo silencioso de que aquele capítulo estava encerrado.

Eu me afastei sem pressa, sem olhar para trás, sem ansiedade de ser visto indo embora. Enquanto eu me afastava, senti algo novo: não alívio completo, nem alegria, mas uma espécie de firmeza tranquila. Pela primeira vez, não era desejo, nem medo, nem culpa que guiava meus passos. Era escolha.

Dessa vez não havia arrependimento. Nem excitação. Nem risco. Só escolha. E escolha, eu descobria, era o primeiro gesto adulto do amor-próprio.

__________

O convite de Heitor não veio por mensagem longa. Veio seco.

“Preciso falar com você. Última vez. Prometo.”

Eu li e não senti o antigo abalo no estômago. Nenhuma descarga elétrica. Nenhuma urgência. Só um cansaço antigo e uma clareza nova. Demorei horas para responder. Não por dúvida, mas por respeito ao que aquele encontro representava. Certas conversas não podiam ser atravessadas com pressa.

“Se você quiser falar comigo, podemos nos ver amanhã.”

“Eu quero.”

O encontro foi num café discreto, no centro da cidade, território sem memória compartilhada. Nenhuma esquina simbólica. Um lugar limpo o bastante para não contaminar o que precisava ser dito.

Mesas de madeira, ventilador de teto, cheiro de grão moído. Meio de tarde. Pouca gente. Heitor já estava lá. Sentado, postura ereta, mãos cruzadas sobre a mesa. Parecia mais velho, não no corpo, mas na expressão. O tipo de envelhecimento que vem quando algo essencial falha. Pela primeira vez, eu vi antes de sentir. E ver mudou tudo.

Ele também parecia menor, não fisicamente, mas simbolicamente. Como se, sem o pedestal invisível onde eu o havia colocado, restasse apenas um homem cansado tentando sustentar uma expressão firme. Quando ele me viu, se levantou rápido demais.

— Você veio — Heitor disse.

— Eu disse que vinha.

Nos sentamos. Silêncio inicial, não constrangido, mas cirúrgico. Durante alguns segundos, falamos sobre banalidades: a escola, o calor, a cidade que parecia sempre a mesma. Era uma coreografia antiga e falha. Ambos sabíamos. Heitor foi o primeiro a rasgar o véu, sem rodeios:

— Eu não entendo como você conseguiu… simplesmente se afastar.

Eu o observei com atenção calma. Não havia mais urgência em o decifrar.

— Eu fiquei até tempo demais.

Heitor engoliu em seco.

— Você acha que foi fácil pra mim?

— Eu não acho mais nada sobre você — respondi — Esse é o ponto.

A frase caiu pesada. Heitor franziu a testa, confuso.

— Como assim?

— Antes, eu vivia tentando entender suas contradições. Justificar suas ausências. Traduzir seus silêncios. Hoje, eu só sei o que foi dito e o que não foi, não tento descobrir o que está além do meu conhecimento.

Heitor se inclinou para frente, voz trêmula.

— Mas eu não consegui te esquecer.

Eu não desviei o olhar.

— Pois eu consegui – tentei parecer firme.

Não foi provocação. Foi verdade simples. O impacto foi visível, um microgolpe no rosto, rápido demais para ser teatral.

— Você tá mentindo.

— Não — pausa — Eu só precisei parar de te idealizar.

Heitor respirou fundo, apoiou as mãos na mesa.

— A gente errou um com o outro.

— Sim.

— A gente se machucou.

— Sim.

— Mas o que a gente teve foi real.

Eu inclinei levemente a cabeça.

— Foi intenso.

Heitor engoliu seco.

— Você virou outra pessoa.

— De certa maneira, sim. Eu estou crescendo, Heitor, em fase de mudanças, você sabe disso, só não quis aceitar — respondi com suavidade — Mas eu só virei a pessoa que não cabe mais naquela dinâmica quebrada nossa.

O ventilador girava acima de nós, empurrando ar morno. O mundo seguia normal, o que tornava tudo mais definitivo. Do lado de fora, um carro passou, alguém riu alto, a vida seguia com uma indiferença quase cruel.

— Eu lutei por você do jeito que eu consegui — Heitor insistiu.

— Você lutou para não perder o que te fazia se sentir vivo — eu disse — Não para me proteger.

A frase não veio como acusação, veio como diagnóstico. Heitor tentou sorrir, mas falhou.

— Eu achei que você sempre voltaria.

— Eu também achei — respondi — E foi por isso que quase me perdi.

O silêncio agora era pesado. Irreversível.

— Então é isso? — Heitor perguntou, a voz finalmente sem defesa — Você não sente mais nada?

Eu demorei para responder, porque respeito também é não mentir para encerrar rápido.

— Eu sinto. Mas não sinto vontade de voltar.

Aquilo foi o golpe final. Não havia raiva. Não havia drama. Só fechamento. Heitor passou a mão pelo rosto, gesto antigo de quem segura algo que não quer cair.

— Eu nunca amei ninguém assim — ele disse baixo – Eu sempre te amei.

Eu sustentei o olhar. Não respondi de imediato e, quando falei, foi sem raiva, o que doeu mais.

— Você amou, sim. Você só não soube cuidar. E esse é o problema, Heitor. O seu jeito de amar nunca teve espaço pra mim, pra quem eu sou de verdade. Só pra sua necessidade de ser desejado, de ser reafirmado.

A frase não buscava ferir, buscava encerrar.

— Isso não é justo...

— Não estou buscando justiça — interrompi, firme — Estou afirmando um limite.

Heitor respirava rápido agora. O controle começava a escapar.

— Você está me tratando como se eu fosse o vilão da história. Você também errou feio, sabe disso.

— Não — balancei a cabeça — Estou te tratando como alguém que fez as suas escolhas. Assim como eu fiz as minhas.

— Então tudo o que a gente teve… acaba assim? Sem luta? Sem tentativa?

Eu sustentei o olhar.

— A gente lutou demais, Heitor.

Silêncio. Heitor falou mais baixo:

— Eu ainda penso em você todos os dias.

Eu senti o impacto, não como flecha, mas como eco. Uma dor antiga tentando se reativar.

— Eu sei — respondi — Mas pensar não é cuidar. Apenas sentir não é sustentar uma relação.

Heitor sorriu torto, desesperado.

— Você ficou cruel.

— Não. Eu fiquei inteiro.

Heitor se inclinou levemente sobre a mesa, impulso antigo de proximidade, mas parou no meio do gesto. Percebeu o novo território. Eu não recuei, mas também não abri espaço.

— Se eu te beijar agora — Heitor perguntou — O que acontece?

Eu respondi sem hesitar:

— Nada. Não volto atrás. Nada continua entre a gente.

Isso foi o golpe final. E ali estava a maturidade inesperada, não na dureza, mas na ausência de brecha. Heitor recostou na cadeira como quem entende uma sentença que não cabe recurso. Ele percebeu, não com drama, mas com lucidez amarga, que não havia mais espaço para barganha emocional. Não havia uma nova oportunidade. Não havia nostalgia suficiente para abrir uma fresta.

— Então é isso — ele disse — Você vai embora de vez.

Eu respondi devagar.

— Eu já fui embora. Hoje eu só vim confirmar.

Pagamos separadamente. Nos levantamos juntos. Na porta, ficamos frente a frente, sem toque, sem teatro, sem despedida encenada. Verdade que Heitor sentiu um impulso antigo de tocar, de segurar, mas se conteve. Pela primeira vez, respeitou o espaço.

— Se um dia você sentir falta…

Eu o interrompi com suavidade definitiva:

— Eu sinto falta. Mas não vou voltar.

Nós nos olhamos por um último segundo, não como amantes, nem como promessa, mas como duas pessoas que sobreviveram ao que poderiam ter sido.

— Tchau, Mateus.

— Tchau, Heitor.

E dessa vez não era decisão emocional. Era decisão estrutural. Eu saí para a luz da rua e percebi algo que nunca tinha sentido depois de encontrar Heitor: meu corpo não estava em guerra. Meu coração não estava em disparo. Minha alma não estava pedindo volta.

Só havia espaço. E espaço, eu entendi, era o que o amor saudável sempre precisa para existir. Mas aquele amor não sobreviveria. E, finalmente, eu não tentei o salvar. E, para Heitor, isso foi fatal, não no corpo, mas na ilusão que ele sempre manteve: a certeza de que eu estaria ali por ele.

O que eu sentia não era alívio. Nem triunfo. Era responsabilidade. Porque escolher a si mesmo não é leve. Mas é definitivo.

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Comentários

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Este conto está mais filosófico e psicológico do que factual. Está bom assim, mas não sei se gosto mais agora do que desenrolava no início...Espero que o Mateus se encontre novamente e se dê o direito de sentir sem ter que justificar tudo à luz do simbólico e da teoria econômica geral da existência. A vida não segue conceitos. Está faltando alma para ele. Está muito Euclides da Cunha.Duro como o Sertão...

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