Da Praça dos Namorados, sob o céu já tingido de tons arroxeados do entardecer, Gustavo e Luiz Felipe caminhavam de mãos dadas, os dedos entrelaçados com firmeza, como se o mundo inteiro coubesse naquele simples toque. Luiz Felipe sorria abertamente, os olhos mel brilhando de felicidade, enquanto cutucava as costelas de Gustavo com a mão livre, provocando risadas baixas e cúmplices. Gustavo retribuía com carinhos leves no braço do namorado, os polegares traçando círculos preguiçosos na pele exposta, e de vez em quando inclinava o corpo para roubar um beijo rápido no canto da boca de Luiz Felipe. O ar estava morno, carregado do cheiro de flores noturnas e da promessa de intimidade. Pareciam flutuar, isolados em sua bolha de risos e toques, como se o resto da cidade tivesse desaparecido.
Luiz Felipe abriu a porta da casa com um empurrão ansioso, o coração acelerado de expectativa. Puxou Gustavo pela mão, correndo pela sala em direção ao quarto, os passos ecoando no piso gasto. Mas então veio a voz dela, vinda da cozinha, cortante como uma lâmina no silêncio.
— Filho… Luiz, é você?
O corpo de Luiz Felipe congelou no meio do corredor. Ele virou o rosto para Gustavo, vendo o sorriso do namorado se desfazer instantaneamente, os olhos arregalados de pavor. A mão de Gustavo gelou na sua, fria como gelo. Os sapatos de dona Eulália bateram no chão, aproximando-se devagar, deliberados. O ar da casa pareceu engrossar, carregado de tensão palpável.
— Luiz Felipe, não está ouvindo sua mãe te chamar… O que esse garoto está fazendo aqui na minha casa, Luiz Felipe? Posso saber?
A voz dela saiu baixa, mas carregada de veneno contido. Luiz Felipe sentiu o estômago revirar. Tentou engolir em seco, mas a garganta estava seca.
— Mãe… é que o Tavinho… o Gustavo veio…
Antes que pudesse terminar, a porta da frente se abriu com violência. Felipe entrou gritando, o rosto vermelho de raiva ou excitação.
— Puta que pariu, Luiz, você não vai acreditar…
Ele parou bruscamente ao ver os três parados no meio da sala: dona Eulália com os braços cruzados, os olhos faiscando; Gustavo encolhido atrás de Luiz Felipe, tentando se tornar invisível; Luiz Felipe entre os dois, o rosto pálido.
— O que está acontecendo aqui? — questionou Gurizão, franzindo a testa.
— Seu irmão deve ter enlouquecido de trazer esse garoto para dentro da minha casa. Eu já não te falei que não quero você nem conversando com esse aí?
A voz de dona Eulália subiu um tom, tremendo de fúria contida. Gustavo soltou a mão de Luiz Felipe como se queimasse.
— Deixa, Luiz Felipe. Eu vou embora. Nem deveria ter vindo…
Ele virou as costas, os ombros curvados, saindo rápido pela porta. Luiz Felipe sentiu um vazio no peito.
— Mano, o Rogério tá no teu rastro, moleque. Sei não, mas acho que ele está desconfiado de você.
— Desconfiado de mim? Por quê? Felipe, o que você fez dessa vez?
— Eu? Nada, ué. O cara liga o radar de corno e o culpado sou eu?
— Talvez seja porque você tá comendo a mulher dele debaixo do nariz dele, será por isso?
Luiz Felipe gritou, os olhos em chamas, o punho cerrado. A sala explodiu.
— Como é que é, Felipe? Você está pegando mulher casada? Seu moleque e sua patroa ainda? Ela tem praticamente a minha idade! Toma vergonha, seu filho…
Dona Eulália avançou, o pano de prato na mão virando arma improvisada, batendo nas costas e nos braços de Felipe enquanto gritava. Ele se esquivava, rindo nervoso e xingando Luiz Felipe.
— Aí, mãe! Para! Não é bem assim! Luiz, seu filho da puta, cagueta, você me paga!
Luiz Felipe aproveitou o caos, escapuliu para a cozinha, o coração martelando. Sentou-se à mesa, pegou o celular e digitou rápido para Gustavo, os dedos tremendo.
Enquanto isso, Gustavo chegou correndo ao portão de casa, o peito arfando, quase colidindo com Eduardo.
— O que foi? O que está acontecendo?
— Nada!
— Nada? Você quase passa por mim feito um furacão, correndo com cara de choro e não é nada? Tá sabendo por que o Romário e o primo dele brigaram?
Questiona Eduardo.
— Romário e o primo dele? Não, o Luiz Felipe brigou com o Romário hoje cedo, não foi o primo dele.
Responde Gustavo limpando as lágrimas dos olhos.
— Nada disso. O Romário está com a cara quebrada e quem esmurrou ele foi o tal do Miguel que se mudou recente.
— Então foi outra briga. Se continuar assim, o Romário não chega no fim do ano.
Disse Gustavo. Eduardo entregou a mochila ao irmão e saiu apressado.
Minutos depois, Maria Eduarda bateu na porta da casa de Eduardo, mas ele não estava.
— Entra, Manu, estamos jantando. Vem.
— Cadê o Edu?
— Foi na casa do Romário. Parece que ele e o primo brigaram.
Disse Gustavo para a cunhada.
— Não gosto dessa amizade dos dois.
— Esses dois são amigos desde criança.
Diz Dona Mirian.
— Eu sei, dona Mirian. O problema é que quando o Eduardo se junta com o Romário, boa coisa não sai.
— Errada você não está minha filha, eu era chamada direto na escola por reclamação das peripécias dos dois.
Confirma Dona Mirian.
Na casa do trisal, o ar estava pesado de tensão.
— É sério isso, Miguel? Viemos para cá por quê? Para arrumar confusão?
Kenji cruzou os braços, os olhos estreitos de irritação.
— Eu? Eu estava na minha. Aquele filho da puta veio mexer com meu namorado. Eu fui defender você e não me arrependo.
Disse Miguel.
— Eu não preciso que ninguém me defenda, Miguel.
Contesta Kenji
— Não? Então, o que o Luiz Francisco estava fazendo na praça com você?
— É Luiz Felipe.
Corrige o Nissei.
— Que se foda, Kenji. Por que você não usou as mil e uma técnicas de luta que sabe e não partiu a cara daquele homofóbico do Romário? Ficou com peninha? Ou estava se fazendo de menina indefesa para aquele bombado de araque do Luiz Felipe?
Questiona irritado Miguel.
— Stop, Miguel! Não falar assim com Kenji. I don't like.
Brian interveio, a voz suave mas firme.
— Qual é, Brian? Vai ficar do lado do Kenji? Eu fui defender ele e nem venha me dizer que não percebeu o jeito que ele olha praquele bombadinho metido.
— Kenji não fazer nada mal.
Defende Brian.
— Esse é o problema. Se ele tivesse feito, eu não precisaria ir lá defender. E outra: por que você está achando ruim eu te defender, hem Kenji? Preferia ser defendido pelo Luiz não sei lá das quantas?
— Para com isso, Miguel. Não me defendi porque não foi necessário. O Luiz Felipe veio em minha defesa porque quis. Eu não pedi. Pelo contrário, disse exatamente o que disse a você: não havia necessidade. Gente como seu primo quer palco, quer palmas. Eu não vou bater palmas para palhaço brincar.
— Pois eu bato. E bato na cara. Que ódio daquele… haaaaaaa!!!
Miguel gritou, socando o ar, o rosto vermelho de raiva.
— Vem banho. Você precisa relaxar.
Brian pegou a mão dele, levando-o para o banheiro. Kenji observou os dois desaparecerem pelo corredor, depois saiu para espairecer.
No banheiro pequeno, iluminado por uma luz amarelada, Brian abriu o chuveiro. A água quente começou a cair, enchendo o espaço de vapor. Miguel tirou a camisa com gestos bruscos, os músculos tensos. Brian aproximou-se por trás, as mãos deslizando devagar pelas costas dele, massageando os ombros rígidos. Miguel soltou um suspiro longo, os olhos fechando. Brian beijou a nuca dele, os lábios quentes contra a pele úmida, descendo pela coluna enquanto as mãos exploravam o abdômen, traçando linhas lentas até a cintura. Miguel virou-se, puxando Brian para si, os corpos colidindo sob a água quente. Beijaram-se com urgência, as mãos de Brian descendo pelas coxas de Miguel, apertando, guiando. O vapor os envolvia como um véu, abafando gemidos baixos e o som da água batendo na pele.
Enquanto isso, Kenji caminhava pela praça, a brisa da noite refrescando seu rosto quente. Ouviu seu nome.
— Kenji, ei, Kenji! E aí, tudo bem?
Luiz Felipe se aproximou, o sorriso tímido mas caloroso, os olhos encontrando os dele com uma intensidade suave.
— Boa noite. Melhorando. Precisando espairecer um pouco. E você?
— Preciso de um local.
— O quê? Não entendi.
— Minha casa está uma confusão. É minha mãe com implicância, meu irmão com as confusões dele… Eu só queria um lugar para mim, sabe?
— Um hotel? Aqui tem hotel?
— Olha, eu acho que perto da rodoviária tem, mas de toda forma para eu ir lá… Haaaaaaa!
Kenji sorriu de leve, pegando o tablet.
— Calma. Talvez eu possa te ajudar. Quer dizer, não exatamente eu… Olha aqui.
Ele entregou o tablet. Luiz Felipe assistiu ao vídeo promocional da garagem, os olhos se iluminando.
— Uau, Kenji, ficou muito massa! Você quem fez?
— Sim. Fico feliz que tenha gostado. Será que vai chamar a atenção?
— Com certeza. Mas eu não tenho grana para comprar um carro agora… Apesar que… pensando bem… cara, você é um gênio!
Luiz Felipe o abraçou forte, o corpo pressionando o de Kenji. Depois beijou sua testa, os lábios quentes contra a pele macia. Kenji sentiu o rosto queimar, as bochechas corando intensamente, o coração disparando. Seus olhos se encontraram um misto de amizade sincera e algo mais profundo, elétrico, que pairava no ar entre eles.
Luiz Felipe voltou para casa, o peito leve, cheio de planos e de um calor novo que não explicava.
Autor Mrpr2