A gatota rosa - Sol e Luas

Da série Nick
Um conto erótico de Nick
Categoria: Trans
Contém 1521 palavras
Data: 18/02/2026 11:11:25

O terceiro ano da faculdade de Cinema não foi apenas o ano dos roteiros complexos e das noites em claro editando curtas; foi o ano em que a nossa "República" se transformou em uma potência. O Caio, com seu faro nato para negócios e uma rede de contatos que ele vinha tecendo silenciosamente desde o início do curso, deu um passo ousado: abriu a nossa própria agência de produção audiovisual. O que começou como um projeto de garagem rapidamente ganhou corpo, e a grana começou a entrar de uma forma que nunca imaginamos. O fluxo de caixa foi o suficiente para que Martina e eu deixássemos nossos antigos estágios e mergulhássemos de cabeça no sonho comum.

Nossa dinâmica de trabalho era uma engrenagem perfeita, um reflexo fiel da nossa convivência sob o mesmo teto. A agência, batizada com um nome que remetia à nossa união, tornou-se um ponto de referência em Curitiba para quem buscava algo além do óbvio. Martina assumiu o coração da criação; ela focou na redação e nos roteiros, transformando conceitos abstratos em palavras que pulsavam vida. Eu, Nickole, assumi o comando do storytelling e da estética visual. Com meu novo olhar — agora mais maduro e refinado pela minha própria transição — eu criava os mundos onde as histórias da Martina ganhavam cor e forma. Caio era o mestre das lentes e da execução; ele comandava as gravações com uma precisão técnica e uma força física que mantinham o set em ordem.

Já tínhamos uma equipe pequena, mas dedicada, de assistentes e estagiários, e a agência não parava de crescer. Transitávamos com facilidade entre curtas-metragens autorais que ganhavam festivais e publicidades de alto nível, focadas em filmes visuais cinematográficos e fotografias de moda que estampavam revistas locais. Eu me sentia poderosa. Entrar na agência com meu blazer social, minha saia lápis e meu cabelo loiro acastanhado balançando nas costas, enquanto era chamada de "Diretora Nickole", era a validação de que cada dor da transição valera a pena. Éramos jovens, consolidados e, acima de tudo, donos do nosso próprio destino.

Foi após o encerramento de uma campanha monumental — um filme visual para uma marca de luxo que parou a cidade — que o Caio decidiu que era hora de celebrar o que éramos fora das planilhas e dos roteiros. Ele nos levou a um restaurante discreto no Alto da XV, um lugar onde a luz de velas suavizava as linhas do rosto e o vinho parecia ter o sabor da vitória. Mal sabíamos que aquela noite deixaria de ser sobre o sucesso da agência para se tornar o marco zero da nossa família.

A rotina entre o terceiro ano da faculdade e a ascensão da agência era um caos coreografado que eu aprendi a amar. Eu vivia em uma metamorfose constante, adaptando minha imagem à necessidade do momento. Havia dias de reuniões estratégicas com grandes clientes, onde a Nickole diretora assumia o controle. Nesses momentos, eu optava por uma sobriedade elegante: saias lápis que delineavam meu quadril agora mais acentuado, blazers de alfaiataria com cortes impecáveis ou calças de tecido social combinadas com camisas de seda. No entanto, eu nunca deixava o meu passado para trás; sempre havia um toque de rosa, fosse em um lenço discreto, na armação dos óculos ou no batom, mantendo viva a chama daquela garota que enfrentou o mundo para existir.

Já os dias de trabalho interno na agência eram o meu refúgio criativo. Neles, o conforto era a regra. Meu cabelo loiro acastanhado, agora longo até o meio das costas, vivia em coques bagunçados ou rabos de cavalo altos que deixavam minha franja em destaque. Em alguns dias específicos, Martina decidia que era o "dia das tranças" e passava minutos preciosos entrelaçando meus fios com uma delicadeza que me fazia ronronar. Nesses dias de estúdio, eu abusava de calças de tecidos leves e coloridos, combinadas com tops que me davam liberdade de movimento para ajustar luzes e câmeras, ou moletons oversized que me abraçavam no frio curitibano. Essa versatilidade no visual me trazia uma naturalidade adulta, uma sofisticação de mulher que já sabia seu lugar, mas sem perder aquele brilho de menina adolescente que ainda vivia em mim.

Trabalhar com eles era uma experiência quase espiritual. Embora mantivéssemos uma seriedade absoluta diante da equipe e dos clientes, os corredores da agência eram palco de beijos roubados e toques furtivos. Um aperto de mão do Caio durante uma transição de cena, um sussurro de Martina enquanto revisávamos um roteiro... esses pequenos gestos eram o combustível que nos mantinha focados. A empresa prosperava porque o nosso amor era a fundação de tudo o que criávamos.

Nas férias de inverno daquele ano, conquistei mais um símbolo da minha independência: minha carteira de habilitação AB. A liberdade de pegar as chaves do carro e cruzar a cidade sozinha para uma reunião ou apenas para sentir o vento no rosto foi um divisor de águas. Eu não dependia mais das caronas do Caio ou da logística do grupo. Pela primeira vez, eu sentia que a vida adulta não estava me engolindo com suas responsabilidades e cobranças, mas sim me abraçando. Eu era Nickole, uma mulher motorizada, profissional consolidada e profundamente amada, conduzindo minha própria trajetória pelas ruas de Curitiba com o braço apoiado na janela e o som no talo, celebrando cada quilômetro daquela nova jornada.

Assinamos um contrato naquele ano que não era apenas mais um job; era o divisor de águas da nossa agência. Uma multinacional de cosméticos nos escolhera para assinar a identidade visual e o storytelling de sua nova linha global. Para uma startup jovem como a nossa, aquilo significava a tão sonhada estabilidade financeira e o reconhecimento definitivo no mercado. O alívio era palpável, mas o cansaço também. Mesmo assim, Caio foi irredutível: — "Hoje não é dia de dormir cedo. Hoje é dia de celebrar quem nós somos".

Ele nos levou a um restaurante japonês premiado no Alto da XV, um lugar que amávamos pela atmosfera intimista e pelo frescor de cada peça. Martina estava radiante. Ela escolhera uma saia de couro preta, longa e estruturada, com uma fenda frontal que revelava suas botas brancas a cada passo, combinada com uma blusa de gola alta preta e uma bolsa branca minimalista. O contraste era a cara dela: moderna, decidida e impecavelmente elegante.

Eu, sentindo-me mais mulher do que nunca sob a moldura do meu novo cabelo loiro com franja, optei por um vestido preto de malha canelada, longo e justo, que abraçava minhas curvas com suavidade. A fenda lateral profunda permitia que eu me movimentasse com liberdade, e o decote em "U" valorizava discretamente o colo que eu tanto lutara para ter. Nos pés, coturnos tratorados que traziam o peso necessário para o look, equilibrando a delicadeza do meu rosto com a força da minha trajetória.

O jantar fluiu entre brindes de saquê e risadas sobre os perrengues das últimas gravações. Eu estava relaxada, contando uma história engraçada sobre um erro de continuidade, quando percebi que o Caio não estava mais bebendo. Ele estava com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, observando o brilho das luzes da cidade refletido no meu loiro e no olhar da Martina. O silêncio que ele impôs subitamente não era de preocupação; era uma solenidade que fez as palavras morrerem na minha boca.

— Eu estive pensando muito sobre esse contrato — ele começou, a voz grave cortando o tilintar dos talheres ao redor. — Ele nos dá segurança para os próximos anos. Mas a segurança que eu realmente preciso não está no papel da empresa.

Ele retirou do bolso interno do paletó o estojo de veludo azul-marinho. Martina parou de respirar ao meu lado. Quando ele o abriu, não vimos anéis de noivado tradicionais. Eram três alianças: uma base robusta de ouro sólido para o seu dedo e duas meias-luas de prata, cravadas com pedras preciosas, que se encaixavam perfeitamente na base dele e uma na outra.

— Nós somos um sistema — ele disse, deslizando as luas em nossos dedos e unindo nossas mãos. — Eu sou a base, mas sem vocês, eu não tenho o que sustentar. Vocês são as luas que iluminam minha escuridão. Quero que essa república seja para sempre. Quero que vocês sejam minhas esposas.

O "sim" veio em forma de lágrimas e de um abraço apertado que ignorou a etiqueta do restaurante. O selo estava dado. Éramos, oficialmente, um destino entrelaçado.

Os anos se passaram em um borrão de conquistas e desafios superados. Finalmente seguramos nossos diplomas de Cinema, prontos para dominar o mundo que um dia tentou nos diminuir. Nossa agência floresceu, e nossas vidas foram se entrelaçando de tal forma que as alianças de sol e luas tornaram-se apenas o símbolo visível de uma fusão de almas que ninguém seria capaz de separar.

Os anos se passaram em um borrão de conquistas e desafios superados. Finalmente seguramos nossos diplomas de Cinema, prontos para dominar o mundo que um dia tentou nos diminuir. Nossa agência floresceu, e nossas vidas foram se entrelaçando de tal forma que as alianças de sol e luas tornaram-se apenas o símbolo visível de uma fusão de almas que ninguém seria capaz de separar.

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 70Seguidores: 64Seguindo: 4Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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