# PARTE 3 — A Puta Dos Garotos Negros (e favelados)
O interfone tocou às duas e quinze da tarde de um sábado cinzento em São Paulo.
Fui atender com o coração na garganta, batendo um ritmo que não cabia no peito. O biquíni preto debaixo de um vestido de linho branco que eu tinha escolhido, descartado e escolhido de novo três vezes antes de vestir de vez. O tecido roçava na minha pele sensível, uma lembrança constante do que estava escondido por baixo. Apertei o botão do interfone sem falar nada, esperando, a respiração presa.
"Ei, oi. É o Wesley." A voz dele veio metálica, distorcida pela caixa de som, mas ainda carregava aquela hesitação característica. "Os mano tão vindo atrás, no outro ônibus, mas eu vim antes. Posso subir?"
Fiz uma pausa. Curta, mas existiu. O tempo de uma decisão que eu sabia que não tinha volta.
"Pode."
Apertei o botão de abertura da porta e fiquei parada no hall, ouvindo o elevador subir pelo vão do prédio. Aquele zumbido mecânico e lento, subindo de andar em andar. *Zzzzzzzzz.* Contei, sem querer — seis andares. Seis andares pra me preparar pra abrir uma porta que eu mesma tinha escolhido deixar destravada. O cheiro de cera do piso do corredor parecia mais forte hoje, misturado com o meu perfume caro que parecia uma mentira naquela situação.
A porta abriu.
Wesley estava parado ali. Usava um moletom cinza lavado, aquele tipo de roupa que já viu muitas lavagens e não tenta ser nada além de confortável. Tênis Nike branco surrado nos pés, a sola separando levemente no dedão direito, uma prova de quilômetros andados no asfalto quente. O black power um pouco amassado de um lado, como se tivesse dormido com a cabeça virada no ônibus. Carregava uma sacola plástica branca de mercadinho num braço, os dedos apertando a alça com força.
Quando me viu, o rosto inteiro se abriu — não foi sorriso calculado de visita, foi aquela alegria nua de quem não aprendeu ainda que demonstrar sentimento é perigoso.
"Eita." Só isso. A voz fina, chegando de longe. Os olhos grandes desceram rapidinho pelo meu vestido de linho, contornando a silhueta, e subiram de volta pros meus olhos. "Tá bonita, tia. Na moral."
Deu uma risada curta, sem jeito, coçando a nuca com a mão livre, como se tivesse deixado escapar algo proibido.
"Entra, Wesley."
Ele entrou, os olhos fazendo o trajeto de sempre — reaprendendo o apartamento, guardando cada detalhe como se precisasse memorizar antes de perder. O quadro da Beatriz Milhazes na parede, o tapete persa, a vista da janela que dava pros prédios dos Jardins. Pousou a sacola na bancada da cozinha americana com um cuidado excessivo, como se o mármore fosse quebrar.
"Trouxe umas coisas. Guaraná, aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate da padaria ali na avenida que é mó bom, e Doritos — vi que você tinha gostado no churrasco." Ficou de costas pra mim, arrumando as embalagens com um cuidado cirúrgico, alinhando o refrigerante com o pacote de salgadinho. "O Davi disse que ia no mercado buscar frango e coisas pro jantar. O Jonathan tava dormindo quando eu saí, mas falou que vinha."
Fiquei na entrada da cozinha, observando as costas dele. O moletom subiu levemente quando ele se abaixou pra guardar o guaraná embaixo da bancada, revelando um pedaço das costas — a pele escura e lisa acima da cintura da calça jeans larga, a curvatura suave da coluna, aquelas duas covinhas simétricas que os homens magros têm e que são provavelmente o detalhe mais indefeso do corpo humano.
Desviei o olhar, sentindo um calor subir pelo pescoço.
"Pode deixar tudo aí em cima mesmo." Fui até a geladeira, a porta pesada de inox, tirei dois copos, pus água do filtro. "Quer água? Suco de caixinha tem na geladeira."
"Água tá ótimo, valeu."
Dei um copo pra ele. Nossas mãos não se tocaram na troca. Mas quase. O ar entre os dedos vibrou.
***
Nos primeiros dez minutos foi conversa de superfície, aquela espuma que a gente faz pra não olhar pro fundo do mar.
Ele me contou do cursinho onde o Davi tinha conseguido uma vaga e de como estava tentando entrar também — tinha prova de nivelamento em matemática na semana seguinte, estava nervoso, levava a apostila pra todo lugar no celular com a tela trincada. "Fotografei cada página, tá ligado?", ele disse, levemente envergonhado, tomando um gole da água. "Parece idiota, sei lá, mas é o jeito que eu aprendo. Olhando várias veiz, dando zoom."
Falou do galpão, de como uma reforma nova tava prevista pra cobrir parte do teto que gotejava quando chovia forte, de um menino novo que tinha aparecido por lá essa semana — doze anos, sem família, dormindo na rua perto da estação de trem. Wesley falava desse menino com uma ternura específica, aquela que só vem de quem reconhece a si mesmo em alguém.
Estava sentado no banco alto da bancada da cozinha, o copo entre as duas mãos como se fosse uma proteção, os pés nos apoios cromados do banco, os joelhos naturalmente abertos. Eu do outro lado da bancada, de pé, braços cruzados. A bancada era larga o suficiente pra ser segura. Não era larga o suficiente pro que eu estava sentindo.
Em algum momento a conversa foi ficando menor. As frases encurtaram. Não foi silêncio desconfortável — foi o tipo que aparece quando duas pessoas pararam de precisar preencher o ar com barulho. Ele olhava pro copo, girando a água. Eu olhava pra ele, pro perfil do rosto, pros cílios longos. Depois ele levantou os olhos e me pegou no flagra.
Não desviei.
Dessa vez fui eu que não desviei. Sustentei o olhar.
Wesley ficou imóvel por um segundo completo. Depois engoliu seco — eu vi a maçã do Adão se mover no pescoço fino — e desceu do banco devagar, os pés encontrando o chão frio de mármore com um som abafado. Ficou de pé do lado da bancada. A distância entre nós sumiu de um metro e meio pra menos de um metro sem que eu soubesse dizer quem tinha se movido.
"Marina."
A primeira vez que ele usava meu nome sem o *tia* na frente. Soou estranho e íntimo na voz dele. Não fiz comentário.
"Wesley."
"Preciso falar uma parada." A voz caiu, ficou mais densa, raspando na garganta. Ele estava fazendo esforço físico pra falar, dava pra ver os músculos do pescoço tencionando. "Se a senhora — se você não quiser ouvir, firmeza. Eu entendo. Eu viro as costas, vou embora, fico no galpão e nunca mais toco no assunto. Morre aqui."
"Fala."
Ele respirou fundo, enchendo o peito magro. Olhou pro chão uma vez, pros próprios tênis gastos. Forçou os olhos de volta pra mim.
"Desde aquele dia lá no galpão eu não consigo parar de pensar em você, mano." As palavras saíram de uma vez, atropeladas, sem pausa, como se ele tivesse ensaiado e de repente esquecido a ordem e resolvido largar tudo junto. "Toda noite. No colchão do galpão, que é uma merda, duro pra caralho, e eu fico às três da manhã acordado pensando em você. No seu cheiro. Naquele momento quando a gente se abraçou e você falou que tava tudo bem." Parou, os olhos úmidos. "Ninguém nunca falou isso com aquela voz pra mim. Sabe? Com aquela voz de quem acredita de verdade no que tá falando. A minha mãe falava assim quando eu era pequeno, antes de tudo virar merda. Depois ninguém mais."
Ficou quieto. Os olhos brilhando, mas sem lágrima — ele segurava com a força de quem aprendeu que chorar na frente das pessoas tem um preço alto na quebrada.
Meu coração foi partido ao meio. É isso, não tem outra descrição. De um lado, partido pela doçura dolorosa dele. Do outro, cheio de um calor que eu estava cansada de fingir que não existia.
"Eu sei que você é casada", ele continuou, a voz tremendo levemente. "Sei que é a esposa do César. Sei que devia guardar isso e nunca falar, engolir essa fita. Mas se eu não falar uma vez, só uma, eu vou enlouquecer, Marina."
"Wesley—"
"Tô apaixonado por você." Veio direto. Sem eufemismo, sem construção poética. Apaixonado. Do jeito que uma pessoa de vinte anos fala quando ainda acredita que as palavras mudam a realidade. "Sei que parece idiota. Sei que é viagem minha. Sei que você vai rir quando eu sair por aquela porta. Mas é a verdade."
Não ri.
Me afastei da bancada e fui até ele.
Não foi movimento calculado. O corpo foi antes da cabeça. Fui até ele, parei a um palmo, levantei a mão e coloquei no rosto dele. A palma contra a bochecha quente, a barba rala roçando na minha pele macia, os dedos perto da têmpora onde uma veia pulsava rápido. Senti o maxilar dele contrair debaixo da minha mão.
Os olhos dele estavam arregalados. Não de susto — de uma incredulidade específica, como quem vê acontecer um milagre que esperou tanto que parou de acreditar que existia.
"Você não é idiota", eu disse. Baixo. "E eu não vou rir."
"Marina..." A voz quebrou de verdade, um sussurro rouco.
"Para de me chamar de tia."
Ele abriu a boca. Fechou. Abriu de novo, os lábios tremendo.
"Marina."
O nome na boca dele soou diferente de tudo que tinha soado antes. Sem papel, sem distância social, sem o César no meio como um muro invisível.
Eu me aproximei mais um centímetro. O cheiro dele me invadiu — desodorante cítrico barato, amaciante de roupa e aquele cheiro natural de pele jovem e nervosa.
A mão dele foi até a minha cintura. Hesitante primeiro — só as pontas dos dedos no tecido do vestido de linho, como quem toca numa obra de arte proibida. Ficou ali, tremendo. Eu não me afastei. Ele ganhou coragem, pressionou levemente, sentindo minha cintura por baixo do tecido, e eu ouvi ele soltar um ar que devia estar preso faz tempo.
"Você tem medo de mim?" Perguntei. Não era ironia. Era genuíno.
"De você não." A mão apertou um pouco mais a minha cintura, puxando milímetros. "De mim mesmo. Do que eu quero fazer."
"O que você quer fazer?"
Ele não respondeu com palavras.
A mão na minha cintura me puxou devagar pra ele — sem brusquidão, com uma firmeza trêmula. Nossos corpos se colaram centímetro a centímetro. O peito estreito dele contra o meu, a barriga plana dele contra a minha, o quadril dele encontrando o meu. Senti ele semi-duro, aquela pressão quente e clara contra mim, roçando na minha barriga através do jeans e do linho, e meu corpo respondeu com uma umidade imediata que me envergonhou e não me parou.
Levantei o rosto. Os lábios dele estavam logo acima dos meus, entreabertos, a respiração quente batendo na minha boca.
O interfone grasnou. *BZZZZZZZZT.*
O som foi como um tiro. Os dois recuamos ao mesmo tempo — o movimento brusco do susto, a adrenalina disparando. Por um segundo ficamos parados a um metro um do outro, respirando ofegantes, os corpos ainda com a memória elétrica do contato. Wesley fechou os olhos com força, dois dedos pressionando a testa, xingando baixinho. Um som de frustração pura.
"São eles", ele disse. A voz rouca, derrotada.
Fui até o interfone sem falar nada, as pernas bambas. Apertei o botão.
"Tia, sou eu, Davi. O Jonathan tá aqui também." A voz do Davi, segura, dona do mundo.
Apertei o botão de abrir. O zumbido da fechadura lá embaixo.
Me virei. Wesley estava de costas pra mim, os dois cotovelos apoiados na bancada de mármore, a cabeça baixa entre os ombros, olhando pra pia. As costas subindo e descendo devagar com a respiração pesada. Fui até ele, parei atrás dele. Coloquei a mão entre as omoplatas, sentindo o calor através do moletom.
"Wesley."
Ele virou o perfil. A luz da janela da área de serviço pegava o rosto anguloso, o nariz levemente largo, os lábios cheios que eu quase tinha beijado.
"Essa conversa não acabou", eu disse. "Só pausou."
Ele ficou me olhando por um tempo, os olhos escuros lendo a minha alma. Depois assentiu, uma vez, sério. O tipo de seriedade de quem não faz promessa à toa.
A porta do elevador abriu lá fora no hall.
***
Davi entrou primeiro, como sempre. Ele ocupava o espaço antes mesmo de entrar nele.
Carregava duas sacolas do mercado cheias e usava uma camisa preta de malha de manga curta que ficava justa nos ombros largos e frouxava no torso, os braços musculosos à mostra, as veias saltadas nos antebraços como mapas de força. O cabelo tinha sido feito — raspado mais curto dos lados no degradê perfeito, a ondulação do topo definida com produto, dava pra sentir o cheiro suave e doce de óleo de coco de longe. Ele não tinha se arrumado de forma óbvia. Mas tinha se arrumado pra matar.
Os olhos dele me percorreram em menos de dois segundos. Catalogando. Arquivando. Despiram o vestido de linho, viram o biquíni, viram a pele, viram a alma. Pousaram no Wesley por um instante apenas — rápido o suficiente pra não ser óbvio, preciso o suficiente pra registrar a tensão, o rubor no rosto do menino, a minha respiração alterada. Davi lia o ambiente sempre antes de entrar nele de verdade.
"Marina." Meu nome na voz grave e pausada dele soava como um comando. Não *tia*.
"Davi." Tentei manter a voz firme. Peguei uma das sacolas. "Obrigada."
"Frango, alho, cebola, aquele arroz parboilizado que você tinha acabado — vi na lixeira na última vez que vim." Disse isso com naturalidade, colocando as sacolas na bancada, ao lado das do Wesley. Ele tinha olhado no meu lixo. Tinha guardado o que precisava saber. Nada escapava.
Jonathan entrou atrás. Silencioso como uma sombra.
Calça preta de sarja, camisa social branca de mangas dobradas nos cotovelos, impecável, as tatuagens dos braços completamente à mostra — a cobra subindo pelo antebraço, a teia de aranha no pescoço, o nome "ELEN" sobre o coração. Parou um segundo na entrada — o olhar varrendo o apartamento, identificando pontos de saída, avaliando quem estava onde, calculando riscos. Me olhou. Fez o movimento de queixo seco que era o cumprimento dele. Foi direto até a cozinha, abriu a geladeira sem pedir licença, pegou uma água mineral.
Era a segunda vez que ele estava no apartamento e já se movia dentro dele como se fosse dono, ou como se estivesse avaliando o imóvel para compra. Isso me perturbou de um jeito que eu não conseguia nomear na hora.
***
A tarde correu numa tensão elétrica disfarçada de normalidade.
Wesley colocou uma playlist no Bluetooth da caixinha de som JBL que ficava na estante. Saiu um set do MC Ryan SP, aquele funk paulistano específico que mistura batida grave com letra arrastada sobre superação e luxo. *"Nóis é vencedor, veio da quebrada..."*. A batida fazia os cristais na estante vibrarem levemente.
Jonathan encostou na parede da sala, cruzou os braços e ficou observando. Ele não falava muito, mas via tudo. Davi foi pra cozinha temperar o frango. Ele cozinhava com uma competência tranquila, cortando a cebola com precisão de chef, sem chorar.
César ligou às quatro e pouco. O ritual de sempre.
Atendi na varanda, fechando a porta de vidro para abafar o som do funk.
"Amor, tudo certo? Os meninos foram aí?" A voz dele vinha de longe, de outro mundo, cheia daquela empolgação acadêmica ingênua.
Olhei pra dentro através do vidro. Davi estava sentado na bancada, a cerveja na mão, me olhando fixamente. Ele sabia com quem eu estava falando. Ele levantou a garrafa num brinde mudo, um sorriso de canto de boca que era puro deboche e desafio. Wesley estava no sofá, cabisbaixo, mexendo no celular. Jonathan, da sombra, me monitorava.
"Tão aqui agora, César." Minha voz saiu natural, uma atriz que eu não sabia que era. "Fizeram frango, a gente tá conversando."
"Que ótimo, amor! Eu fico tão feliz. Você tá fazendo um bem enorme pra eles, dando esse exemplo, essa convivência."
A ironia daquilo quase me engasgou. O "exemplo".
"Tô, César. Tô fazendo o que posso."
Desliguei sentindo o peso da mentira e, pior, o alívio perverso dela.
Quando voltei pra sala, Davi foi direto, cortando o ar como uma faca:
"Você colocou biquíni embaixo desse vestido."
Silêncio na sala. O funk parou um segundo na troca de música.
Wesley levantou os olhos, assustado. Jonathan continuou imóvel, mas seus olhos focaram em mim.
"É", respondi. Simples. Sem justificativa.
Davi sorriu — aquele sorriso de lobo que sabe que a presa não vai correr. "Piscina?"
Fiz que sim com a cabeça.
***
Descemos para a área de lazer. O sol de fim de tarde dourava os prédios de São Paulo, criando sombras longas. A piscina estava vazia, a água azul parada como um espelho.
Eu tirei o vestido de linho ali mesmo, na beira da piscina.
Não fiz disso um striptease, mas não tinha como não ser. Puxei a barra, deslizei o tecido pelo corpo, revelando a pele branca, o biquíni preto pequeno, as curvas que o César via todo dia mas não olhava mais.
O silêncio pesou toneladas.
Wesley desviou o olhar imediatamente, o rosto queimando num vermelho violento, fingindo amarrar o tênis.
Davi não. Davi olhou de cima a baixo, devagar, sem vergonha nenhuma. Bebeu minha imagem como quem bebe água no deserto. Seus olhos passaram pelos meus seios, pela minha barriga, pelas minhas coxas.
"Caralho", ele soltou. Seco. Genuíno. "Com todo respeito, Marina. Mas caralho."
Jonathan olhou uma vez — um scanner preciso, registrando cada detalhe, cada pinta — e depois fixou os olhos no horizonte, a mandíbula travada, um músculo pulsando na bochecha.
Entrei na água pra fugir daqueles olhares que queimavam mais que o sol.
Davi entrou logo depois. Nadou até mim como um tubarão. Me prensou contra a parede da piscina, debaixo d'água, onde ninguém de fora podia ver. A mão dele foi pra minha bunda, apertando com força, possessivo, os dedos afundando na carne.
"Olha onde você tá", ele sussurrou no meu ouvido, a voz rouca de satisfação, o corpo quente colado no meu. "No apartamento do seu marido. Na piscina do condomínio dele. Deixando eu colocar a mão no que é dele."
Meu corpo traidor vibrou com aquilo. A audácia. O perigo.
"Davi..." Tentei repreender, mas saiu como um gemido.
"Você não foi embora ainda", ele constatou, a mão subindo pra roçar na minha virilha por cima do biquíni. "Isso é a resposta."
***
A noite caiu trazendo a fome. Jantamos sentados no chão da sala, em cima de uma toalha, como num piquenique improvisado no meio do luxo. O funk tocando baixo, agora um *set* mais pesado, "bruxaria", graves que batiam no peito. O cheiro de alho, frango assado e suor masculino impregnava o ar condicionado frio.
Jonathan lavou a louça depois de comerem como leões. Quando fui levar meu prato, ele me encurralou na cozinha. O corpo grande bloqueando a saída, a pia zumbindo atrás dele.
"Você sabe o que a gente quer", ele disse, a voz grave e sem rodeios, os olhos pretos cravados nos meus. Não era uma pergunta. "E você sabe que você quer também. Para de mentir pra você mesma."
"Jonathan..."
Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço. "Essa noite", ele sussurrou, e a promessa na voz dele fez minhas pernas tremerem, "você vai ser gozada até não aguentar mais. Pelos três. A gente não brinca em serviço, Marina."
Ele estava certo. Eu sabia. E eu queria.
***
Às onze da noite, a porta do meu quarto abriu sem bater.
Era Davi.
Ele entrou como um rei conquistador. Sem pedir licença, sem hesitar. Veio até a cama onde eu estava deitada fingindo ler, tirou a bermuda e subiu em cima de mim. Me beijou com gosto de cerveja e urgência, uma pegada firme que não aceitava não. Me fodeu com a certeza de quem toma o que é seu por direito, me fazendo gozar gritando no travesseiro do César, marcando território dentro de mim, fundo e forte. Saiu suado, sorrindo, deixando o cheiro dele no lençol e a porta destrancada.
Às duas da manhã, foi a vez de Jonathan.
Ele entrou diferente. Silencioso. Fechou a porta. Veio até a cama e me olhou por um longo minuto antes de me tocar. Frio, deliberado, intenso. Quando me tocou, foi com técnica, com controle. Me fodeu com consciência, devagar e fundo, me olhando nos olhos o tempo todo, me fazendo morder o ombro dele pra não acordar o prédio inteiro. Senti a tatuagem com o nome da irmã morta roçando na minha bochecha quente enquanto eu me desmanchava em espasmos debaixo dele.
Saiu. A porta fechou.
Fiquei de costas no lençol que agora era um mapa de guerra — cheirava a suor, a sexo, a culpa e a três homens diferentes. São Paulo zumbia em ruído baixo do lado de fora. O celular virado na mesa de cabeceira.
No corredor, passos. Leves. Inseguros. Arrastados.
Três toques suaves de nó de dedo na porta. *Toc. Toc. Toc.*
Eu sabia quem era. O último. O que sobrava.
"Pode entrar, Wesley." Minha voz era um fio.
Ele entrou no escuro. A luz do corredor desenhou a silhueta magra dele. De camiseta larga e cueca boxer, descalço. Veio até a cama devagar, como quem entra em terreno minado. Sentou na beirada, longe de mim.
"Pode ser que nada mais aconteça entre a gente do jeito que eu quero", Wesley disse pro teto, a voz pequena, mas com uma vibração estranha, metálica, no fundo. "Tô ligado que já era. Sei que o Davi veio aqui. Sei que o Jonathan veio depois." Ele virou a cabeça devagar no travesseiro, os olhos injetados brilhando no escuro. "Eu ouvi a cama ranger lá do corredor, Marina. A parede é fina. Eu ouvi você gemendo o nome deles."
O silêncio caiu entre nós pesado, sujo, viscoso.
"Wesley—" comecei, tentando ser gentil.
"Cala a boca."
A frase saiu seca. Um estalo de chicote.
Ele se sentou na cama de repente, o movimento brusco fazendo o colchão balançar violentamente. A postura dele tinha mudado. Os ombros curvados de "menino bonzinho", de vítima do sistema, desapareceram. Ele olhou pra mim de cima, a luz da janela cortando o rosto dele, e o que eu vi na cara dele não foi tristeza. Foi nojo. Misturado com uma fome violenta e antiga.
"Sabe o que você é, Marina?" Ele perguntou, a voz tremendo de raiva contida. "Você é a porra da marmita do galpão agora. O César sai de casa pra pagar de santo, de salvador da favela, e a mulher dele vira depósito de porra dos moleque que ele 'ajuda'."
"Wesley, para com isso, você não é assim—"
"Para o caralho! Você não sabe quem eu sou!" Ele avançou.
Não foi um movimento de abraço. A mão dele voou no meu pescoço, os dedos longos e finos fechando na minha traqueia com uma força surpreendente, de quem carrega tijolo. Ele me prensou contra a cabeceira acolchoada da cama, o rosto a centímetros do meu, o hálito quente de ódio batendo na minha cara.
"Você tá fedendo a eles", ele sibilou, o nariz roçando no meu pescoço, aspirando com força, com nojo animal. "Cheiro de macho. Cheiro de suor de outro cara. Você deixou eles gozarem dentro, né? Tá escorrendo porra do Jonathan da sua buceta agora, não tá? O leitinho do bandido escorrendo no lençol de 600 fios?"
O ar faltou nos meus pulmões. O aperto na garganta era real, a pressão do polegar na minha carótida fazendo minha visão pontilhar de estrelas pretas. E a humilhação daquilo — ser confrontada com a minha própria sujeira, narrada daquele jeito cru por ele — fez meu corpo reagir do jeito mais traidor possível.
Eu molhei. Imediatamente. Uma onda de calor vergonhosa.
"Olha pra você..." Ele soltou uma risada curta, incrédula e cruel. A mão livre desceu pelo meu corpo, arrancou o lençol com violência, expondo minha nudez, e foi direto pro meio das minhas pernas. Ele enfiou os dedos com tudo, sem preliminar, sem carinho, invadindo. "Puta que pariu. Você tá encharcada. Só de eu falar merda, de te chamar de lixo, você já tá pingando."
Ele tirou a mão, os dedos brilhando de fluido à luz da lua, e esfregou na minha boca com força, forçando meus lábios contra os dentes, machucando.
"Sente o gosto", ele mandou. "Gosto da sua putaria. É isso que você queria, né? Acha que porque eu sou magrelo, porque eu sou o 'bonzinho', eu não tenho pau pra te arrombar igual eles? Achou que eu ia ficar chorando no canto?"
"Wesley..." Tentei falar, a voz estrangulada, mas ele não deixou.
Ele ficou de joelhos na cama, abriu a calça do pijama cinza e puxou tudo pra baixo com raiva.
O pau dele saltou pra fora — e era um animal. Grosso, escuro, venoso, pulsando de raiva, a cabeça roxa e inchada, muito maior do que a anatomia dele sugeria. Uma arma. Ele segurou na base, se aproximou do meu rosto e nem esperou.
"Abre."
Eu hesitei por um milésimo de segundo.
Ele deu um tapa na minha cara.
*PLAFT!*
Não foi forte o suficiente pra quebrar, mas foi o suficiente pra estalar no quarto silencioso, pra arder na pele, pra me chocar até a alma. O "menino" tinha morrido ali.
"Abre essa boca agora, Marina. Antes que eu perca a cabeça de vez."
Abri.
Ele empurrou a cabeça do pau na minha boca com brutalidade, a mão esquerda agarrando meu cabelo, puxando minha cabeça pra trás num ângulo doloroso pra alinhar a garganta. E começou a foder minha cara.
Não teve ritmo de prazer. Foi punição. Ele entrava fundo, estocando até o talo, batendo a base do pau no meu queixo, *tlaff tlaff tlaff*, o som de pele contra pele preenchendo o quarto. Minha garganta fechou, o reflexo de vômito veio forte, meus olhos encheram de lágrima, e ele não parou.
"Isso, engasga", ele rosnou, a mão apertando minha nuca, forçando minha cabeça contra o quadril dele que não parava. "Engole tudo. Você não abriu as pernas pro Jonathan? Não deu pro Davi? Agora vai chupar minha rola até ficar sem ar, sua vadia."
Eu tentava respirar pelo nariz, em pânico, mas o ritmo dele era insano. Ele metia a pica garganta abaixo, bloqueando o ar, me fazendo engasgar, babar, a saliva escorrendo pelo canto da boca, misturada com as lágrimas e o rímel. O cheiro dele — suor azedo de raiva, o cheiro natural de homem excitado — invadia meu nariz.
*"Gghhh— kkhhh— mmmfff—"*
"É assim que você gosta, né? De ser tratada igual lixo. De ser usada." Ele tirou o pau da minha boca com um puxão violento, deixando um fio de saliva pendurado entre nós. Me olhou com desprezo e tesão puro nos olhos. "Olha pra você. Toda babada. Chorando. E a buceta piscando pedindo rola."
Me empurrou de costas no colchão, me prensando.
Não teve beijo. Não teve toque na cintura. Ele segurou meus dois pulsos com uma mão só, prendeu acima da minha cabeça com força bruta, me imobilizando completamente. Com a outra mão, abriu minhas pernas, jogando meus joelhos lá no alto, me escancarando.
"Vou tirar essa porra dos outros de dentro de você agora", ele disse, a voz gutural, vinda do inferno. "Vou limpar você com a minha rola."
E entrou.
De uma vez só. Seco. Sem cuspe. Sem aviso.
*"AAAHH! CARALHO!"* O grito rasgou minha garganta machucada.
Ele era grosso demais, entrou rasgando, preenchendo cada milímetro, alargando de um jeito que doeu e queimou e foi a coisa mais excitante da minha vida. Ele não parou pra eu acostumar. Começou a bombear com uma violência absurda, o corpo magro dele batendo contra o meu com a força de uma marretada, descontando toda a frustração de uma vida inteira naquelas estocadas.
*Poc. Poc. Poc.* O som seco dos ossos da bacia dele batendo na minha bunda ecoava.
"Grita!" Ele gritou na minha cara, o suor pingando da testa dele na minha boca aberta. "Grita pro porteiro ouvir! Grita pro César ouvir lá em Recife que o 'menino do projeto' tá arrombando a mulher dele! Grita que você gosta de pau de favelado!"
Ele metia com ódio. Puxava quase tudo pra fora, até a cabecinha quase sair, e socava de volta com tudo, mirando no colo do útero, sem dó. A cama batia na parede. O quarto virou um cenário de guerra.
"Wesley, porra, tá fundo, tá muito f— aaahh! Aaahh!"
"Tá fundo? É? Tá doendo?" Ele aumentou a velocidade, insano. "Foda-se. Aguenta. Você não é a gostosona? Não é a dona da casa? Aguenta minha pica, porra! Aguenta o peso da favela em cima de você!"
A cada estocada, ele falava uma atrocidade, cuspindo as palavras.
"Marmita de bandido." *Socada.*
"Puta de luxo." *Socada.*
"Talarico do caralho, o César vai chegar e ver a mulher dele arregaçada." *Socada.*
A dor virou prazer numa virada de chave que meu cérebro não processou, só meu corpo. A fricção bruta, a humilhação de ser usada daquele jeito pelo menino que eu subestimei, a sensação de estar completamente dominada por aquela fúria juvenil — eu comecei a gozar.
Não foi um orgasmo bonito. Foi convulsivo, feio, barulhento.
*"WESLEY! WESLEY! PELO AMOR DE DEUS!"*
"Isso, grita meu nome, caralho! Grita!"
Ele soltou meus pulsos e agarrou meus peitos com força, apertando os mamilos como se quisesse arrancar, deixando marcas vermelhas na pele branca. Eu me debatia embaixo dele, arranhando as costas dele, cravando as unhas na pele escura, tirando sangue, e isso só fazia ele meter com mais força.
"Vou gozar, vou gozar nessa buceta suja, vou encher você até vazar!"
Ele acelerou o ritmo prum frenesi animal, grunhindo, os dentes trincados, veias saltando no pescoço.
*"VAI TOMA! TOMA ESSA PORRA! TOMA TUDO!"*
Ele gozou gritando, um urro rouco, se enterrando em mim até as bolas, segurando meu quadril contra o dele pra não desperdiçar nenhuma gota. Eu senti os jatos quentes lá no fundo, fortes, espessos, misturando com tudo que já estava lá, uma bagunça, um excesso, uma possessão completa. Eu gritava junto, gozando sem parar, o corpo convulsionando, chorando de dor e prazer.
*"AAAAAHHHHHHHH!"*
A porta do quarto abriu com um estrondo. *BAM!*
Davi e Jonathan entraram correndo, alertados pelos gritos desesperados. Davi de cueca, Jonathan de calça jeans aberta. Eles pararam no meio do quarto, estáticos.
A cena era grotesca.
Eu estava destruída na cama, as pernas escancaradas, vermelha, suada, chorando de soluçar, a maquiagem toda borrada no rosto amassado. Wesley, o "menino bonzinho", estava montado em cima de mim como um animal, enterrado até o talo, segurando meus quadris com uma força que deixava marcas roxas na pele branca. Ele ainda estava metendo, mas eram aqueles espasmos finais de quem acabou de gozar e não consegue parar, aquela fricção involuntária e brutal que arranha as paredes sensíveis lá dentro.
Davi olhou. Jonathan olhou.
O silêncio do choque durou um segundo. Depois quebrou.
Davi soltou um riso curto, de descrença e aprovação, um som maldoso que cortou o ar condicionado frio.
"Caralho, moleque..." Ele cruzou os braços, encostando no batente da porta, assistindo de camarote. "Olha isso. O santinho virou o capeta."
Wesley não parou. Ele estava em transe, os olhos fechados, a testa franzida de prazer e dor, bombeando o resto da porra quente e espessa dentro de mim com aqueles movimentos secos, involuntários, que rasgam tudo no caminho de volta.
*Shhhhlop. Shhhhlop.* O som molhado ecoava no quarto. Minha buceta estava tão encharcada, tão alargada e cheia, que fazia barulho a cada centímetro que ele forçava.
Davi se aproximou da cama, devagar, como quem se aproxima de um acidente de trânsito fascinante. O sorriso torto no rosto, os olhos brilhando de pura malícia.
"Puta que pariu, Marina..." Ele assobiou, baixo. "Olha o estado que você ficou. Toda fodida. Toda babada. Chorando igual criança." Ele olhou pro Jonathan, que continuava parado na porta com a expressão séria, mas com os olhos fixos na cena. "Olha aí, Jhow. A patroa tá gostando de apanhar de pau mole, hein? O moleque tá arregaçando ela."
Eu tentava cobrir o rosto, soluçando, o corpo ainda tremendo dos espasmos pós-orgasmo, as pernas bambas sem conseguir fechar. Mas não tinha como esconder nada. Eu estava exposta, aberta, usada.
"Wesley, caralho..." Jonathan falou, a voz grave cortando o deboche do Davi. Ele entrou no quarto também, parando do outro lado da cama. "Você vai quebrar a mulher no meio, porra."
Mas Wesley não ouvia. Ele abriu os olhos devagar, vidrados, injetados de sangue e tesão. Olhou pros dois amigos parados ali, assistindo. Depois olhou pra mim embaixo dele — destruída, suja, minha boca inchada do boquete forçado, meus olhos vermelhos de choro.
E ele sorriu.
Um sorriso feio. Torto. De quem descobriu um poder que não sabia que tinha e gostou do gosto.
"Ela aguenta, mano", Wesley rosnou, a voz rouca, irreconhecível. Ele deu mais uma estocada funda, seca, fazendo minha cabeça bater na cabeceira. *TUM!* "Ela aguenta tudo. Né, Marina? Fala pros seus machos que você aguenta o pau do menino do projeto também."
*"Ghh... aahh... para..."* Eu gemia, sem força, a humilhação queimando mais que a fricção lá dentro.
"Para o caralho!" Ele gritou, segurando meu cabelo e puxando minha cabeça pra trás, me obrigando a olhar pros outros dois. "Olha pra eles! Olha como eles tão rindo da sua cara! A esposa do César, toda arreganhada, cheia de porra de três favelados num dia só! Que orgulho, hein?"
Davi gargalhou alto agora, sem segurar. "Mano, o César vai chegar e achar que passou um bonde aqui dentro! A buceta dela tá parecendo um túnel, olha isso!" Ele apontou, sem pudor nenhum, pro lugar onde o pau do Wesley entrava e saía, espalhando fluidos brancos e transparentes pela minha virilha, escorrendo pro lençol caro. "Tá vazando tudo, moleque! Você encheu o tanque da patroa até a boca!"
Jonathan balançou a cabeça, um meio sorriso escapando no canto da boca, apesar da seriedade. "Você é foda, Wesley. Achei que ia ficar chorando no canto, mas o moleque foi lá e macetou a dona da casa sem dó. Respeito."
Wesley, inflado pelos comentários, pela plateia, pela minha total submissão, deu a última estocada — a mais funda, a mais cruel, aquela pra marcar território na alma.
*"TOMA ESSA PORRA TODA!"*
Ele grunhiu, tremendo inteiro, e finalmente desabou em cima de mim, o peso morto do corpo suado me esmagando contra o colchão encharcado.
Ficamos ali, os quatro, naquele quarto que cheirava a sexo pesado, suor azedo e vergonha. Eu chorava baixo, *hic, hic*, soluços secos que doíam no peito. Wesley respirava feito um fole furado no meu pescoço. Davi e Jonathan assistiam, os braços cruzados, como juízes de uma rinha que acabou de terminar.
Wesley levantou a cabeça devagar. O rosto molhado de suor pingando no meu. Ele olhou pros dois na porta. Depois olhou pra mim.
Saiu de dentro de mim com um som úmido e alto, obsceno, *shhhhlop*, e um fio grosso de porra misturada — minha, dele, dos outros — escorreu da minha buceta inchada e vermelha, manchando o lençol branco de forma definitiva.
"Tá entregue", Wesley disse, limpando o pau na ponta do lençol com desprezo, sem nem olhar pra mim. "Agora ela sabe quem manda nessa porra."
Davi bateu palmas, lento, sarcástico. "Aí sim, mano. Aprendeu rápido."
Eu puxei o lençol pra cobrir meu corpo trêmulo, me sentindo mais nua, mais suja e mais vazia do que nunca na vida. A humilhação era física. Palpável.
E foi aí, nesse vácuo pós-guerra, nesse silêncio pesado de julgamento e gozo, às três e quarenta e cinco da manhã, que o telefone fixo da cabeceira tocou.
Não o celular. O fixo. Aquele que ninguém nunca ligava.
O toque estridente cortou o quarto como um tiro de fuzil. *Trrrimmmm.*
Wesley pulou da cama num susto, cobrindo o pau mole com a mão, o "macho alfa" sumindo num segundo. Davi parou de rir na hora, ficando sério. Jonathan travou o maxilar, os olhos pretos focando no aparelho.
O telefone tocou de novo. E de novo. Insistente. Urgente.
Estiquei a mão trêmula, o corpo todo doendo como se tivesse sido atropelado, a voz sumida de tanto gritar, e atendi.
"Alô?" Minha voz era um fiapo rouco, destruída.
Silêncio do outro lado. Um silêncio que tinha respiração de fundo. E barulho de rua movimentada. Carros passando. Buzinas.
*"Marina?"*
A voz não era do César. Era feminina. Jovem. Dura. Com a gíria arrastada da Zona Leste, mas num tom de aviso urgente, sem rodeios.
*"Quem é?"* perguntei, sentindo um frio na espinha que gelou o suor no meu corpo e fez meus mamilos doerem.
*"Aqui é a Kênia. Irmã de consideração do Jonathan."*
Jonathan deu um passo à frente, rápido. Ele ouviu o nome. O rosto dele, sempre impenetrável, fechou numa máscara de terror contido.
*"O que você quer uma hora dessas?"*
A risada dela do outro lado foi seca, sem humor nenhum. Uma risada de quem sabe que a bomba já explodiu.
*"Quero te dar o papo reto, dona Maria. O César não tá em Recife porra nenhuma. O seminário foi cancelado ontem de manhã."*
O chão sumiu debaixo da cama. O teto girou.
*"Como assim?"*
*"Ele tá em São Paulo, Marina. Ele tá na porta do seu prédio agora. O porteiro do turno da noite, o Seu Zé, acabou de liberar a entrada dele. E ele tá subindo com a chave que ele disse que 'perdeu' pra ver se pegava vocês no flagra."*
O clique do telefone sendo desligado foi o som mais alto da noite. *Tu... tu... tu...*
Olhei pros três. Wesley pálido como um fantasma. Davi com os olhos arregalados, a malícia sumindo. Jonathan imóvel como uma estátua.
"Quem era?" Jonathan perguntou, a voz baixa, perigosa.
"O César", sussurrei, o pânico tomando conta, a bile subindo na garganta, misturada com o gosto de porra na boca. "Ele tá subindo. Agora."
O barulho do elevador no hall começou a zumbir. *Zzzzzzzzzzz.* Subindo. Andar por andar.
*Fim da Parte 3*
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Em Breve a Parte 4!
Nota: esse conto serão 7 partes ao total! Espero que estejam gostando! Comentem e deem estrelas para que eu continue publicando até o fim da história! Quanto mais comentários e estrelas, mais rápido a próxima parte será publicada!
