Paulo, 42 anos, é um motorista de táxi que vive preso a um sedã velho, fedendo a cigarro e restos de comida. A cidade é um borrão de faróis e asfalto úmido, um pesadelo que se repetia todas as noites. Ele dormia de dia, fumava um maço por noite e falava o mínimo. O carro — com bancos gastos, um crucifixo feito com um pregador de roupa no retrovisor e manchas nos bancos que contavam histórias que ele preferia ignorar — era tudo o que sobrou da vida que ele tinha antes de perder o emprego e pegar a esposa na cama com o seu irmão. Ele gostava do silêncio dos passageiros, das conversas que nunca começavam. Mas os bancos traseiros guardavam segredos: cinzas de cigarro, restos de vômito, um brinco perdido, um preservativo usado.
O Encontro
Numa terça-feira, às 2:30 da manhã, Cléo, 29 anos, entrou no carro. Vestido preto curto colado na pele suada, meias rasgadas, um corte no joelho sangrando devagar. O cabelo bagunçado caía nos olhos que brilhavam com algo entre medo e loucura.
— Só dirige — ela cuspiu, jogando a bolsa no banco.
Paulo não perguntou nada. Pisou no acelerador, e o silêncio tomou conta, cortado só pelo ronco do motor e pelo isqueiro acendendo outro cigarro. Cléo encarava a janela por meia hora, como se procurasse um rosto entre os poucos transeuntes. Então, quebrou o silêncio:
— Tá afim de me ouvir? Ou prefere fingir que eu não existo?
Paulo dá de ombros. Ela despejou histórias quebradas: um homem que a trancava num quarto escuro, um vício em aspirina que lhe queimou a língua de forma permanente, vozes dentro de máquinas de lavar. As palavras saíam como sangue em hemorragia, e Paulo escutou, afundando no banco.
O Ritual
Cléo voltou na noite seguinte. E na outra. Sempre depois da meia-noite, sempre com alguma hematoma nova — um roxo no braço, um arranhão no pescoço, uma queimadura de cigarro na mão. Às vezes, vinha maquiada, batom borrado, como se tivesse saído de um funeral de gente rica. Os olhos, porém, estavam sempre erráticos, vidrados. Ela nunca sentava na frente. Sempre atrás, como uma sombra.
Na quarta semana, o ar estava pesado de tesão. Num beco atrás de uma fábrica abandonada, Cléo engatinhou até o colo de Paulo. O vestido subiu, a meia calça rasgou. O sexo foi sujo, desesperado, com o freio de mão machucando o quadril dela, o cinto apertando o pescoço dele. Ela mordeu o lábio dele até sangrar, rebolando a buceta para sentir a pica dele o mais fundo que conseguisse, ele rasgou o que restava das meias. Gemeram baixo, foderam com uma urgência febril, tapando as bocas com mãos suadas, como se quisessem apagar o som da própria ruína.
O Vício
O carro virou palco de um ciclo doentio. Rodavam, paravam, transavam, brigavam, choravam, trepavam de novo. Cléo xingava Paulo de “covarde de merda”, quebrou o retrovisor com um chute. Ele a segurou pelos pulsos, apertando até ela rir, um riso que era quase choro. Paulo começou a limpar o carro, comprar água, se perfumar. Esperava por ela, e isso o destruía. Cléo aparecia com flores, às vezes descalça, ou sumia por dias. Contava histórias cada vez mais bizarras: um sanatório onde as paredes sussurravam que queriam foder com ela, que tinha nascido sem umbigo, uma mãe que batia nela com uma sandália havaianas remendada com prego.
O Confessionário
Na sexta semana, Cléo trouxe um gravador velho.
— Quero gravar isso. Pra quando acabar — ela diz.
— Acabar o quê? — Paulo perguntou, mas ela não respondeu.
O carro virou confessionário, depois ringue. Ela mordeu o ombro dele, ele tapou a boca dela com as mãos cheirando a graxa, ele chupou a buceta e o cu dela com ferocidade, como se quisesse extrair todo o gosto dos genitais de uma vez só. O sexo foi violento, viciante, bestial. O cheiro da noite — asfalto, suor, sexo — grudava na pele deles. Cléo sussurrava “te amo” abraçada nua com ele no escuro, depois de gozar, de morder, de fazer dupla penetração com a pica dele e a alavanca da marcha, de engolir porra, de cuspir na cara dele. Paulo não respondia, mas então parou de aceitar outras corridas. Não dormia mais. Via ela no retrovisor, no vidro embaçado, no banco vazio.
O Fim
Numa madrugada de chuva grossa, Cléo entrou encharcada, pálida, tremendo. Chorava por duas horas, sem dizer nada. Então, sussurrou:
— Você é o primeiro que não tentou me salvar.
— Salvar de quê? — ele perguntou com a voz embargada.
Ela não respondeu. Abriu a porta no meio da avenida em um sinal vermelho, deixou o gravador no banco e sumiu na chuva.
Paulo esperou. Voltou todas as noites pro ponto, ligava o gravador, ouvia as fitas. O carro rodava, os faróis sujos, pneus precisando calibrar. O banco de trás estava vazio, mas o peso dela ainda estava lá, como uma tatuagem invisível.
