O som tava tão alto que eu sentia a batida no estômago. A rua era um mar de gente suada, glitter grudado na pele, cerveja quente derramando no asfalto. Ele me segurou pela cintura, meu short abaixado até os joelhos, e começou a socar no meu cu com força, urgência, tesão puro. O corpo colado no meu, o pau dele entrando e saindo, o meu estourando e babando de tão duro e eu quase gozando sem me tocar... o cheiro misturado de perfume doce e calor. Eu podia ter recusado desde a troca de olhares. Não recusei. E ali, naquele beco, eu me entregava a um homem que não era meu namorado.
Meu nome é Henrique. Tenho vinte e dois anos. Eu nunca fui o mais bonito da turma, mas também nunca passei despercebido. Sou moreno, alto, cabelos encaracolados, corpo em dia, academia frequente, barba sempre no ponto certo entre arrumada e largada. Eu sei quando estão olhando. E eu gosto. Não é sobre carência. É sobre validação. Sobre saber que eu ainda causo efeito.
Faço faculdade, moro perto do campus e divido apartamento com meu namorado, Felix, há três anos. Três anos na nossa idade parece muito. A gente construiu rotina cedo demais: mercado junto, conta dividida, série antes de dormir, discussão por coisa idiota... É confortável. Seguro. Às vezes previsível. A gente se conheceu no primeiro semestre. Trabalho em grupo de uma matéria chata que nenhum dos dois queria fazer. Ele sentou do meu lado por acaso. Ou pelo menos eu gosto de fingir que foi acaso.
A química foi rápida. Não só física. A gente conversava fácil, ria das mesmas coisas, implicava um com o outro. O primeiro beijo veio numa festa da faculdade, meio tímido, mas depois disso ficou tudo natural demais. Em poucas semanas eu já tava dormindo no apartamento dele quase todos os dias.
Quando decidimos morar juntos, um ano depois, parecia a coisa mais certa do mundo. Dois caras jovens, apaixonados, achando que estavam um passo à frente da própria idade. Nossa vida sexual sempre foi intensa e muito frequente. Transamos pelo menos 5 vezes por semana e sempre saímos do quarto suado e rindo. Ambos somos versáteis, e isso explica a frequência. Nunca faltou desejo entre a gente. Nunca faltou toque. Talvez seja isso que torna tudo mais difícil de justificar.
Nossa rotina é simples: aula de manhã, estágio à tarde, academia no fim do dia (mais eu do que ele), mercado no sábado à tarde. Rolezinho no sábado à noite. Série antes de dormir. Discussão pequena por bagunça, reconciliação rápida. Felix é bastante estável emocionalmente. Seguro. Gosta de planejar o futuro. Às vezes fala de intercâmbio, de mestrado, de onde a gente pode estar em cinco anos. E eu gosto disso. De verdade.
Mas naquele sábado de Carnaval, nada disso pareceu pesar o suficiente. Tudo aconteceu no ano passado, estávamos em uma praia na Bahia, curtindo o trio elétrico. Fomos com um grupo de amigos; eu e Felix nos fantasiamos de marinheiros: shortinho azul listrado de branco e uma boina branca com detalhes azuis. Fomos para o meio da multidão, curtir o trio elétrico. Em certo momento, Felix saiu para buscar bebida com um de nossos amigos, os outros tinham se espalhado pela multidão. Eu fui para o lado oposto para procurar um banheiro.
Foi quando ele apareceu. Moreno como eu, mas com o corpo ainda mais definido e mais forte. Os olhos castanhos cor de mel, os cabelos bem curtos, a boca carnuda e vermelhinha... Ele usava uma fantasia de soldado romano, com a parte de cima cobrindo metade do peito, apenas de um lado por cima do ombro direito, e a parte de baixo era apenas uma espécie de saia curta, mostrando seu lindo par de coxas com pelos curtinhos, uma faixa dourada na cintura e sandálias características. Ele tinha o sorriso lindo, dentes branquinhos, braços fortes demais pra ser coincidência, peito brilhando com glitter e suor. O moreno não perguntou nada. Só chegou perto o suficiente pra eu entender. Quando ele encostou a boca no meu pescoço no meio daquela multidão, ninguém viu. Ou se viu, não se importou. Carnaval é isso: tudo permitido enquanto a música estiver tocando. Eu lembro do sorriso dele. Confiante. Sabendo exatamente o que tava fazendo. E eu gostei de ser escolhido.
A primeira coisa que me pegou foi a naturalidade. Como se aquilo fosse óbvio. Como se eu estivesse ali exatamente pra aquilo. Ele falou qualquer coisa no meu ouvido que eu nem ouvi direito, e minha pele arrepiou. Então, me pegou pela mão e a gente saiu da multidão rindo um pro outro.
Entramos numa casa abandonada próximo da praia. Era pouco iluminada, mas deu para ver outras pessoas se pegando lá: um cara fantasiado de Super Mario fodendo com força uma loira fantasiada de fada em um canto, um trio de homens fantasiados de prisioneiros se chupando no outro cômodo, dois caras vestidos de Batman e Robin no chão fodendo uma morena vestida de enfermeira. Achamos uma porta velha do que era um banheiro e entramos. O beijo veio urgente, daqueles de cinema. Tinha pressa. Tinha risco. Tinha aquela sensação de que alguém conhecido podia nos ver. E isso deixava tudo melhor.
Eu lembro de pensar, em meio àquela esfregação toda, que eu tava com o cara mais bonito que vi naquele bloco; que, no meio de tanta opção, ele tinha me puxado. Eu. Não foi só tesão. Foi o ego. Foi sentir que eu tinha esse poder.
Abaixo daquela saia de soldado, ele usava apenas uma cueca boxer branca. Ele simplesmente a tirou e expôs o pau pra ser mamado. E eu mamei com capricho, com gula, com tesão ao ver aquele membro lindo na minha frente: uns 20 cm, duro como pedra, não muito veiúdo, grosso, apontando pra cima, todo simétrico e um sacão lisinho com bolas grandes... coisa mais linda de se ver! Ele segurou minha cabeça e parecia querer socar tudo na minha garganta. Eu babava, tossia, mas não largava aquele mastro enquanto me punhetava. Do lado de fora, ouvia os gemidos do casal que estava transando também.
Levantei, me virando de costas e descendo meu short. O cara, se abaixou e me deu um trato de língua que me arrepiou o corpo todo e fazia meu pau pulsar e babar. A cada linguada, uma pulsada forte e uma gota de baba. Ele se levantou, colocou a camisinha, cuspiu na cabeça da rola e forçou, mas não precisou muito. Eu já estava com tesão demais. Assim que entrou tudo, ele começou a socar no meu cu com força, urgência, tesão puro. O corpo colado no meu, o pau dele entrando e saindo, o meu estourando e babando de tão duro e eu quase gozando sem me tocar. E o cheiro misturado de perfume doce e calor era de enlouquecer. Quando ele pegou no meu pau para bater uma punheta, eu gozei imediatamente com vários jatos de porra. Ele continuou socando por mais uns dois minutos e então me abraçou com força. Gozou urrando no meu ouvido, aquele urro de macho fodão.
Quando saí de lá, ajeitando a roupa e tentando controlar a respiração, eu me senti elétrico. Vivo de um jeito que a rotina não me fazia sentir há um tempo. Ele saiu com o corpo ainda mais suado, sorriso safado de satisfação no rosto, ajeitando a rola ainda dura no short, sem se importar com o volume que mostrava. Demos um beijo e saímos cada um para um lado.
Voltei pra rua e encontrei meu namorado poucos minutos depois. Ele sorriu ao me ver, me abraçou e beijou e me chamou de “meu amor” quando me deu uma garrafa de Smirnoff. Eu abracei de volta. Sem hesitar. Sem culpa imediata. Isso foi o que mais me assustou depois: a facilidade. Ao retornarmos para a casa em que nos hospedamos, transei com ele lembrando do soldado romano. Mas para evitar qualquer suspeita, fiz o papel de ativo tarado, linguando o cu dele e já metendo, sem lhe dar chance de ver meu cu recém fodido ou de sentir gosto de porra no meu pau.
Nos dias seguintes, o Carnaval virou assunto leve. A gente comentou como o bloco tinha sido perfeito. Ele postou foto nossa sorrindo, comentou que adorava passar o Carnaval comigo. Eu curti, respondi com coração, fiz piada sobre ressaca, sobre quem tinha beijado quem. Ele falava como tinha sido perfeito passar mais um ano comigo. Eu concordava. Beijava. Deitava do lado dele. Transava com ele. E nada em mim parecia quebrado. Tudo parecia igual.
Mas não ficou igual por muito tempo.
A culpa vinha às vezes, mas era fraca. Mais parecida com medo. Medo de alguém ter visto. Medo de alguém comentar. Medo de a história chegar nele por outra boca que não a minha. Eu até ensaiei contar, sozinho no banho, imaginando a cena. Mas confessar não parecia redenção. Parecia perda.
Então, Felix começou a perguntar umas coisas pequenas demais pra serem inocentes. “Você demorou um pouco naquele dia, né? Quando foi procurar banheiro.” “Onde você foi mijar?” Nada acusatório. Só curioso. Só atento demais.
Uma noite, mexendo no meu celular pra procurar uma foto, ele demorou meio segundo a mais do que o normal antes de devolver. Meio segundo não é nada. Mas eu senti. Na semana seguinte, ele quis ir comigo pra academia. Disse que precisava voltar a treinar sério. Ele nunca ligava tanto pra isso.
Eu comecei a notar que ele me olhava diferente às vezes. Não desconfiado. Não ainda. Só… avaliando, talvez. Como se estivesse tentando encaixar alguma peça fora do lugar. E talvez estivesse mesmo. A gente continuou junto. Continuamos transando. Continuamos fazendo plano pro semestre seguinte. Mas havia uma camada nova ali. Fina. Quase invisível. Um cuidado a mais nas perguntas. Um silêncio que durava um pouco além do confortável.
Então na segunda semana depois do Carnaval, depois de uns três dias de estranhamento e silêncio entre nós, durante o almoço, ele parou e respirou fundo. Não foi um suspiro dramático. Foi aquele tipo de respiração de quem já sabe de alguma coisa há dias e está só escolhendo o momento de falar.
— O Matheus te viu na casa abandonada lá na praia.
Matheus era um amigo de Felix, que estava lá na casa abandonada; era ele que estava fodendo uma garota no chão junto com outro cara. E eu não percebi.
Meu estômago não gelou. Não senti culpa atravessando o peito. O que eu senti foi irritação e raiva. Uma pontada seca.
— Viu o quê? — eu perguntei, mas a minha voz não tinha firmeza nenhuma.
— Você entrando com um cara dentro do banheiro. — disse sem rodeios.
Felix não levantou o tom. Não chorou. Não gritou. Acho que eu teria preferido que gritasse. Que quebrasse alguma coisa. Mas ele só ficou ali, me olhando como se estivesse tentando encaixar a imagem que recebeu na pessoa que dormia do lado dele.
Eu poderia ter negado. Poderia ter inventado qualquer coisa. Carnaval é confuso, escuro, cheio de corpos. Mas eu não neguei. Talvez porque, no fundo, eu não quisesse.
— Foi só ali — eu disse. Como se “só ali” fosse uma categoria aceitável.
Ele riu. Não um riso de deboche, mas um riso pequeno, desacreditado.
— Você acha que é sobre onde foi?
Aquilo ficou suspenso entre a gente.
Ele passou a mão pelo rosto, cansado. Cansado de um jeito que eu nunca tinha visto. Não era raiva. Era decepção. E aquilo, eu admito, incomodou mais do que se ele tivesse me xingado.
— Eu não consigo continuar assim. Não admito esse tipo de coisa; já te falei isso. — ele disse.
Não houve cena. Não houve drama. Só uma decisão. Ele pegou algumas roupas no dia seguinte. Disse que precisava de espaço. Depois mandou mensagem dizendo que era melhor cada um seguir. E foi isso.
Eu não chorei. Não implorei. Não corri atrás. Mas o apartamento ficou grande demais. A cama ficou larga. E às vezes, quando eu acordo no meio da noite, meu corpo ainda vira para o lado onde ele costumava estar — automático, condicionado — e encontra só o lençol frio.
Eu não me arrependo do que fiz. Eu sei exatamente por que fiz. Mas tem um tipo de silêncio que não é paz. E esse ficou.
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