## Capítulo 7 ##
"Ah, nada. Só acho que pode ser interessante pra mim depois de estar confinado aqui assim pelos últimos sete dias." Não queria soar esperançoso demais.
"Sinto muito por isso, André. Você deve ser um caso especial. Tipicamente contemos alguém assim durante a noite ou se ficam violentos, no máximo três dias. Nunca vi ninguém confinado como você tem estado por tanto tempo, mas é por diretivas do Dr. Eduardo, então temos que cumpri-las ou ser demitidos."
"Não estou reclamando de você ou de nenhum outro membro da equipe. Vocês devem fazer seu trabalho e todos que encontrei foram o consumado profissional. Obrigado pela sua gentileza."
"Vanda estava certa, André. Você é o paciente mais legal que já tivemos."
Fui levado numa van especial até o fórum por Davi, que me rodou até uma sala vazia até ser hora da minha audiência às 9h. Era refrescante finalmente ver um relógio numa parede e saber a hora do dia. Ninguém veio falar comigo até eu ser conduzido à sala de audiências 3B. Era uma audiência fechada, não aberta ao público. Como Bernardo conseguiu isso era um mistério. Havia apenas um punhado de pessoas na sala pra testemunhar esta ocasião auspiciosa. Maria Beatriz correu até mim e me deu um grande abraço vistoso na frente dos outros, mas a ignorei e não respondi. Estando contido, não podia empurrá-la pra longe e fazê-lo poderia parecer um gesto violento da minha parte. Não podia arriscar. Davi me empurrou até a mesa onde dois outros homens estavam sentados. O oficial de justiça entrou na sala e anunciou o juiz. Eu era o único que não podia se levantar.
O oficial de justiça começou: "Meritíssimo, o primeiro caso da pauta é número 37692, a internação involuntária do Sr. André Silva. Todas as partes estão presentes, meritíssimo."
"Muito bem, e quem está representando os interesses do Sr. Silva esta manhã?" O juiz perguntou.
Dois homens se levantaram imediatamente, simultaneamente dizendo: "Eu, meritíssimo." Um dos homens estava ao meu lado e um atrás de mim.
"Parece haver alguma confusão aqui. Qual de vocês foi contratado em nome do Sr. Silva?"
Novamente, ambos responderam simultaneamente: "Eu, meritíssimo."
"Tá bom, vamos resolver isso. Um de cada vez, você, senhor," e ele apontou pro advogado em pé ao meu lado, "Você diz que é o advogado do Sr. Silva?"
"Sim, meritíssimo, sem dúvida. Sou Luís Ramos, nomeado pelo tribunal como defensor público do Sr. Silva nos autos. Representei o Sr. Silva na sua audiência inicial de 72 horas e estou acompanhando hoje."
"Vejo seu nome na pauta, Dr. Ramos. Tudo parece estar em ordem pra mim. Agora você, senhor," o juiz apontou pro outro homem, "Quem é você e como alega representar o Sr. Silva neste processo?"
"Obrigado, meritíssimo. Sou o advogado Ivo Abreu, e fui contratado diretamente pelo Sr. Silva pra representá-lo neste assunto. Tenho comigo uma impressão detalhando a transferência monetária diretamente da conta bancária dele pra minha conta empresarial, fazendo dele meu cliente."
"Isso é muito incomum. A maioria daqueles que comparecem diante de mim têm sorte de ter um advogado representando-os e este tem dois? Vocês dois estão trabalhando juntos neste caso?"
"Não, meritíssimo," ambos os homens responderam.
O juiz olhou pra mim: "Presumo que você seja o Sr. Silva, o atual tutelado da clínica de saúde mental. Você é capaz de responder às minhas perguntas?"
"Sim, meritíssimo. Tenho compreensão completa de tudo que está acontecendo aqui hoje e ficarei feliz em responder suas perguntas."
"Bom, obrigado, senhor. Como você explica o fato de que há dois advogados presentes alegando representar seus interesses?"
"Bom, meritíssimo, o fato é que nunca ouvi falar nem me encontrei com o Dr. Ramos até este momento. Não sei nada sobre ele, ou quem ele é, portanto não aceito sua representação dos meus interesses."
Eduardo me interrompeu e pulou em pé: "Se me permite, meritíssimo. Sou o Dr. Eduardo, o psiquiatra assistente do Sr. Silva. Como pode ver, ele está contido pra proteção dele e sua. Ele não está em seu juízo perfeito e gosta de jogar joguinhos como está tentando fazer agora. Pelo que sei, Luís Ramos é o único advogado do Sr. Silva e deveria ser reconhecido como tal."
"Obrigado pela sua contribuição, Dr. Eduardo. Se isso for verdade, então isso deveria ser facilmente retificado. Agora então, Sr. Silva, por favor continue."
"Sim, obrigado, meritíssimo. De fato contratei Ivo Abreu pra me representar e é meu desejo que ele me represente aqui esta manhã. Minha liberdade está em jogo, meritíssimo, e quero a melhor representação possível. Espero ainda ter o direito legal de escolher meu representante."
"Sim, Sr. Silva, tem. Por favor esclareça algo pra mim. Você se encontrou com o advogado Ivo Abreu antes desta manhã sobre seu caso?"
"Posso responder essa, meritíssimo," Ivo falou. "Tenho aqui seis declarações assinadas pela equipe da instalação de saúde mental me negando acesso ao meu cliente seis dias seguidos. Me disseram que ele já tinha representação e nunca permitiram que André esclarecesse a confusão. Tentei meu melhor pra me encontrar com meu cliente, mas não fui autorizado a estar em sua presença até agora."
"Deixe-me ver essas declarações," o juiz ordenou. O oficial de justiça as entregou.
"Estes documentos parecem legítimos pra mim," ele comentou.
"Deve ter sido um descuido ou erro por parte da equipe, meritíssimo," Dr. Eduardo alegou. "Meramente um erro honesto. Nossa equipe está severamente sobrecarregada."
"Entendo," o juiz resmungou.
"Já que o Sr. Silva deixou claro que deseja que Ivo Abreu o represente neste assunto, Luís Ramos, você está dispensado deste caso e absolvido de qualquer responsabilidade quanto à sua disposição."
Ivo falou de novo: "Meritíssimo, se me permite, já que fiz tentativas sinceras de me encontrar com meu cliente, mas tive acesso negado, posso ter uma hora pra conferir com meu cliente antes de prosseguir com este caso?"
"Isso parece razoável, doutor. Ordeno que este caso seja adiado por uma hora. Vamos avançar a pauta e ouvir o próximo caso. Oficial de justiça, encontre uma sala de conferências pra eles, mas o auxiliar deve ficar com o Sr. Silva o tempo todo."
"Obrigado, meritíssimo."
Davi, Ivo e eu seguimos o oficial de justiça até a sala de conferências C. Maria Beatriz, Bernardo e Dr. Eduardo seguiram.
"Oficial de justiça, aqueles três não são bem-vindos aqui. Você se importaria de pedir que saíssem enquanto consulto meu advogado?" O oficial de justiça pediu que saíssem, muito pra consternação deles.
Cobri tudo com Ivo e discuti a estratégia pra minha audiência e minhas razões pra querer fazer da maneira que sugeri. Ele disse que era irregular, mas entendeu e estava solidamente do meu lado. Os olhos de Davi cresceram ao ouvir algumas das coisas que me ouviu dizer, mas Ivo o alertou de que o que ele ouviu era informação privilegiada e nunca deveria ser divulgado. Ivo então nos deixou na sala de conferências enquanto notificava que estávamos disponíveis sempre que o juiz desejasse retomar nosso caso. Uma hora e quinze minutos depois, fomos chamados à sala de audiências.
O promotor começou examinando Dr. Eduardo.
"Sim, senhor, isso está correto. A Sra. Silva, sua esposa, me contatou transtornada dizendo que seu marido tinha ficado delirante e estava fazendo acusações e decisões irracionais que estavam trazendo efeitos adversos severos à vida dele. Ela afirmou também que ele tinha se tornado violento e a golpeado. Ela indicou que nunca poderia apresentar queixa contra ele já que ele não estava em seu juízo perfeito. Ela implorou que eu o tratasse e o ajudasse a recuperar suas sensibilidades normais. Nós o pegamos e as descobertas dela foram confirmadas na minha presença. Ele se comportou muito irracionalmente e violentamente. Ele é autista e isso pode ter influência na sua instabilidade mental. Na sua audiência de 72 horas, senti que ele ainda era uma ameaça pra si mesmo e outros, então o tribunal me deu autoridade pra mantê-lo até a audiência de hoje. Ainda acredito que ele está em grande sofrimento mental e preciso de mais tempo pra explorar as melhores maneiras de trazê-lo de volta à realidade. É por isso que solicitei sua internação involuntária indefinida na minha instalação para tratamento adicional."
"Obrigado, Dr. Eduardo. Espero que consiga ajudar este homem problemático. Sua testemunha, doutor. Meritíssimo, a acusação descansa."
Ivo Abreu se levantou e se aproximou para contra-interrogatório: "Dr. Eduardo, a Sra. Silva forneceu algum detalhe descrevendo as acusações e decisões irracionais de André que a preocuparam muito?"
"Sim, ela mencionou que ele alucinara e a acusara de participar voluntariamente de algum tipo de orgia com seu chefe. Além disso, por causa de seus delírios psicóticos, ele tentou pedir demissão do seu emprego no mesmo dia em que foi promovido a uma posição com salário inicial de um milhão de reais por ano. Ela acreditou que ninguém em seu juízo perfeito faria tal coisa. Seu comportamento autodestrutivo estava afetando adversamente o casamento deles e a carreira dele."
"Entendo. E você teve o Sr. Silva sob sua vigilância e cuidado 24/7 pela última semana, está correto?"
"Sim, está certo."
"Posso presumir que você aconselhou com ele mais de uma vez nos últimos sete dias pra confirmar as afirmações da esposa dele?"
"Não caracterizaria assim. Minhas sessões com ele não foram pra confirmar a opinião de ninguém. Foram empreendidas pra avaliar seu bem-estar mental e determinar se ele é ou não uma ameaça pra si mesmo ou outros."
"E você está confirmando sua opinião profissional aqui hoje de que ele é um homem violento que é uma ameaça pra si mesmo e uma ameaça potencial pra outros?"
"Sim, senhor, está correto. Ele agrediu nossa equipe e auxiliares e os tratou atrozmente. É por isso que ele está contido. Não me entenda mal. De forma alguma o Sr. Silva é um caso perdido. Acredito que podemos experimentar um avanço com ele a qualquer dia agora. Mas até lá, ele requer nosso cuidado profissional constante."
"Então você diz. Acho interessante que o Sr. Silva não tenha exibido nenhuma tendência violenta na sala do tribunal hoje. Como explica isso?"
"É minha opinião considerada que ele pode exibir curtos surtos de autocontrole pra conseguir o que quer. Ele pode esperar que seu bom comportamento por este curto período influencie o tribunal a cancelar sua internação continuada em nossa instituição. Isso seria uma farsa."
"Deixe-me voltar a uma linha anterior de questionamento se não se importa, doutor. Quantas sessões pessoais interativas você diria que conduziu com André nos últimos sete dias pra avaliação dele?"
"Isso é fácil de responder. Tive seis sessões com ele, uma hora de duração cada, uma vez por dia entre as horas de 14h às 15h."
"Você tem certeza disso, Dr. Eduardo?"
"Só um momento, senhor. Essa é minha lembrança. Deixe-me checar minhas anotações." Ele puxou um bloco de notas do bolso e revisou suas anotações. "Sim, posso confirmar que essas sessões ocorreram cada dia nesses horários. Ele geralmente estava no seu mais calmo algumas horas depois do almoço."
"Posso lembrá-lo de que você está sob juramento, Dr. Eduardo?"
"Não há necessidade de me desafiar, senhor. Atendi centenas dessas audiências judiciais. A informação que forneci está correta," ele disse arrogantemente.
"Obrigado, senhor. Só queria deixar claro para os autos. Completei meu contra-interrogatório, meritíssimo, mas reservo o direito de reconvocar a testemunha novamente se necessário."
O juiz assentiu. "Pode descer do banco das testemunhas, Dr. Eduardo. Obrigado."
Ivo continuou: "Se agradar ao tribunal, a defesa gostaria de chamar a Sra. Maria Beatriz Silva ao banco por favor."
Ela foi devidamente juramentada e tomou seu assento no banco. "Sra. Silva, poderia contar ao tribunal a sequência de eventos que a levou a internar seu marido involuntariamente?"
"Sim, senhor. André e eu comparecemos a uma gala de Natal da empresa realizada pelo Sr. Bernardo Almeida, CEO da Investimentos Almeida, e empregador de André. Imediatamente depois que Daniel Rocha anunciou sua aposentadoria formal, Sr. Almeida anunciou a boa notícia de que André seria promovido pra tomar seu lugar acoplado com um assento no conselho. Nunca estive mais orgulhosa de André do que naquele momento. Cerca de uma hora depois, André começou a se descontrolar e começou a fazer falsas alegações da minha infidelidade com seu chefe, Bernardo Almeida. Bernardo e eu ficamos ambos horrorizados. Não tínhamos a menor ideia de onde André tiraria tal ideia. Ele se tornou verbal e fisicamente abusivo comigo e deixou a festa num acesso de raiva. Ele tinha tido lapsos antes e eu os ignorei, mas isso foi diferente. Não sei se foi a pressão do seu novo título que pesou sobre ele ou algo mais. Ele disse a Bernardo Almeida que se demitia, saiu furioso e fui pra casa com ele. Tivemos uma discussão terrível enquanto ele repetia suas acusações delirantes e me esbofeteou quando tentei impedi-lo de sair. Ele empacotou algumas malas, cortou sua aliança de casamento em pedaços e a jogou em mim antes de sair no carro."
"Eu me oponho, meritíssimo," o promotor afirmou. "Este advogado está qualificado pra representar os interesses do Sr. Silva? Tudo que ela testemunhou cai solidamente contra o Sr. Silva. Porque ela é sua esposa, não pedi que testemunhasse contra seu marido, embora o Dr. Abreu aqui pareça não ter tais escrúpulos."
O juiz olhou pra Ivo antes de decidir: "E então?"
Ivo afirmou: "Meritíssimo, a Sra. Silva não invocou seu direito de privilégio conjugal de não testemunhar contra seu marido. Ela admite que é responsável pela internação involuntária inicial dele. Quis colocar todos os fatos nos autos antes de dar prosseguimento com a defesa do meu cliente. Todo o testemunho dela é relevante pros melhores interesses do meu cliente, meritíssimo."
"Objeção indeferida, pode continuar, doutor."
"Obrigado, meritíssimo. Você sabe onde André foi depois que ele te deixou em casa naquela noite?"
"Não posso ter certeza. Mas o localizei na casa dos pais dele dois dias depois quando ele atendeu o telefone do pai. Implorei que ele retornasse."
"E como ele respondeu?"
"É como se ele não fosse mais ele mesmo. Estava confuso fora de sua mente e continuava me chamando de Senhorita Prado, meu nome de solteira, agindo como se nunca tivéssemos nos casado. E já que ele estava na casa dos pais dele e tinha sido violento comigo mais cedo, naturalmente estava preocupada pela segurança deles. Devido à fragilidade deles, diferentemente de mim, eles seriam incapazes de lidar com um assalto físico."
"Então, deixe-me perguntar de novo pra clareza. Você está afirmando para os autos, sob juramento, que você nunca foi íntima de forma alguma com Bernardo Almeida que pudesse ter induzido André a querer se separar de você, está correto?"
"Sim, está correto. Quer dizer, dancei com ele na festa, assim como com outros num ambiente perfeitamente inocente. Sr. Almeida e eu nunca fomos íntimos. Não houve infidelidade. Tudo isso reside dentro do mundo imaginário de André. Ele precisa de ajuda e quero que ele a receba pra que possa voltar pra casa. Te amo, André, e só quero o melhor pra você," ela implorou.
"Obrigado, Sra. Silva, terminei meu questionamento com você por enquanto. Meritíssimo, se agradar ao tribunal, gostaria de chamar o Sr. Bernardo Almeida ao banco por favor."
O promotor se opôs de novo. "Meritíssimo, isso é um desperdício do tempo do tribunal. Que relevância possível poderia ter qualquer coisa que o Sr. Almeida testemunhasse com a audiência de internação do Sr. Silva?"
Novamente, o juiz olhou pra Ivo. "Meritíssimo, o homem foi seu empregador por vinte anos. Foi postulado que o comportamento de André é insano de se demitir diante de uma promoção pra um salário de um milhão de reais. Esta testemunha pode ser capaz de esclarecer isso."
"Objeção indeferida, vou permitir, doutor, mas não vamos vagar muito longe do caminho, entendido?"
Ivo retorquiu: "Entendido, meritíssimo, obrigado."
Bernardo Almeida foi juramentado e substituiu Maria Beatriz no banco.
"Sr. Almeida, antes deste incidente recente com André que temos discutido aqui hoje, como descreveria ele como funcionário?"
"Isso é fácil de responder. Eu o chamaria de funcionário exemplar, inteligente, honesto e trabalhador. Assisti ele crescer por conta própria desde que veio pra nós todos aqueles anos atrás. Queria ter mais dez iguais a ele. É por isso que ofereci a ele um assento no conselho e um salário prodigioso pra acompanhar."
= = = = = = =
[FIM DO CAPÍTULO 7]