Primo, eu ainda te amo! | Capítulo 11: A viagem

Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 2487 palavras
Data: 15/02/2026 10:05:10

O carro avançava pela estrada como se cada quilômetro estivesse puxando um pedaço do meu passado de volta para mim. Eu estava sentado no meio do banco de trás, espremido entre dois mundos que, de formas diferentes, agora faziam parte de quem eu era. À minha esquerda, Caíque. À direita, Felipe. E, lá na frente, meus tios conversando sobre trabalho, números, contratos, coisas que iam e vinham como ruído distante, porque minha mente estava em outro lugar.

Eu olhava pela janela e via o Rio ficando para trás. O concreto, os prédios, o barulho... tudo sendo substituído por estrada, árvores, céu aberto. E, quanto mais a paisagem mudava, mais eu sentia algo mexer dentro de mim. Uma mistura de saudade, ansiedade e uma felicidade silenciosa que parecia crescer a cada minuto.

Eu ia ver meus pais.

Só de pensar nisso, meu peito aquecia. Fazia meses desde a última vez que eu tinha sentido o cheiro da terra da fazenda, ouvido o som do vento passando pelo pasto, acordado com o barulho distante dos animais. E, dessa vez, não era só sobre voltar pra casa. Era sobre mostrar aquele pedaço do meu mundo para eles. Para Felipe... e para Caíque.

Felipe estava animado de um jeito leve, curioso, olhando tudo pela janela como se estivesse descobrindo um país novo. Eu sabia que, para ele, aquilo tudo era muito diferente. Talvez até estranho. Mas também sabia que ele estava feliz por estar ali comigo. De vez em quando ele comentava alguma coisa — perguntava sobre a cachoeira, sobre os cavalos, sobre como era viver longe da cidade — e eu respondia com um sorriso, tentando explicar um lugar que, para mim, era mais sentimento do que geografia.

Do outro lado, Caíque estava quieto.

Mas era aquele silêncio cheio de presença. O braço dele encostava de leve no meu, e mesmo sem olhar, eu sabia que ele estava ali. Sentia o calor, a respiração calma, a energia dele. Em alguns momentos, nossos dedos se roçavam discretamente, escondidos entre o banco e o corpo, como se aquele pequeno contato fosse um segredo só nosso.

E, no meio de tudo aquilo, havia outra emoção crescendo dentro de mim.

Meu aniversário.

Era sexta-feira. E, quando o relógio marcasse meia-noite, eu faria XVl anos. Só que, conhecendo meu pai, conhecendo minha mãe, conhecendo a forma simples e cheia de carinho com que eles sempre fizeram tudo... eu tinha quase certeza do que me esperava.

Provavelmente, quando chegássemos — já no fim da tarde, início da noite — eles estariam fingindo normalidade. Minha mãe sorrindo daquele jeito tranquilo, meu pai perguntando da viagem, como se fosse só mais um dia qualquer. Mas eu sabia. Sabia que, em algum momento, quando o relógio virasse, eles iam aparecer. Talvez com um bolo simples, talvez com velas tortas, talvez com aquele jeitinho improvisado deles.

E então viriam as vozes.

O parabéns cantado meio desafinado, meio rindo, meio emocionado, como sempre foi desde que eu era criança.

Só de imaginar, meus olhos arderam um pouco.

Não era pelo aniversário em si. Era por tudo que ele carregava. Por estar voltando. Por não estar sozinho. Por ter trazido comigo pessoas que agora faziam parte da minha história. Pessoas que, de alguma forma, também estavam começando a fazer parte da minha casa.

O carro fez uma curva longa, e o sol já começava a descer no horizonte, pintando tudo de dourado. A luz entrou pela janela e bateu no rosto do Caíque, iluminando o perfil dele. Ele virou levemente, nossos olhos se encontraram, e ele sorriu — pequeno, quase imperceptível, mas verdadeiro.

E naquele instante eu tive certeza de uma coisa:

Aquela viagem não era só sobre voltar para casa.

Era sobre mostrar quem eu era.

De onde eu vim.

E, talvez, entender para onde eu estava indo.

E, no fundo... eu estava feliz.

Eu não lembro exatamente quando peguei no sono. Só lembro do balanço suave do carro, da estrada longa, do som distante da conversa dos meus tios... e do calor do corpo do Caíque ao meu lado. Em algum momento, sem perceber, minha cabeça caiu sobre o ombro dele. E ali eu fiquei.

Quando acordei, a primeira coisa que senti foi um carinho leve nos meus cabelos.

Lento. Cuidadoso. Familiar.

Abri os olhos devagar, ainda meio perdido entre o sonho e a realidade, e vi o rosto dele perto do meu.

— Chegamos... — ele murmurou, quase sussurrando.

Demorei um segundo para entender. Então levantei o rosto, pisquei algumas vezes... e vi.

A fazenda.

O sol estava se pondo, pintando tudo de um dourado quente que parecia abraçar a terra. O céu tinha tons de laranja, rosa e um azul profundo começando a nascer. O ar era diferente... mais leve, mais vivo, carregado com o cheiro de mato, terra quente e água.

Saí do carro devagar.

E, quando meus pés tocaram o chão, algo dentro de mim se acalmou.

Era casa.

A fazenda se estendia enorme diante de nós, como se fosse um mundo inteiro só meu. Os campos abertos ondulavam até perder de vista, o vento passando pela grama alta como um sussurro contínuo. Ao longe, o lago atravessava a propriedade como uma faixa de espelho líquido, refletindo o céu em chamas. Patos nadavam tranquilos sobre a água, deixando pequenas ondas atrás de si, enquanto o som deles ecoava suave pelo entardecer.

As árvores cercavam tudo como guardiãs silenciosas, e a luz do sol filtrava entre os galhos, criando manchas douradas no chão. Era bonito... não. Era mais do que bonito. Era aquele tipo de beleza que não cabe em palavras, só se sente.

Respirei fundo.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti paz.

Felipe ficou impressionado, olhando tudo ao redor como se estivesse dentro de um filme. Caíque também observava em silêncio, absorvendo cada detalhe, cada cor, cada som. Eu queria dizer tanta coisa, explicar tudo, mostrar cada canto... mas antes que eu pudesse falar, ouvi o som.

Casco batendo contra a terra.

Olhei na direção do caminho principal da fazenda, e vi uma silhueta vindo contra o pôr do sol. Um cavalo avançando devagar, levantando pequenas nuvens de poeira dourada. Sobre ele, um garoto.

A luz forte me fez semicerrar os olhos.

Ele se aproximava.

E algo dentro de mim começou a bater mais forte.

Quando o cavalo parou diante de nós, ele saltou com facilidade, caindo firme no chão. Só então eu consegui ver direito.

E levei um segundo para acreditar.

— ...Chico?

Ele sorriu.

E naquele instante eu soube que era ele.

Chico.

Meu amigo.

Meu confidente.

A pessoa que mais sentiu quando eu fui embora.

Mas... ele estava diferente.

Mais alto. Mais forte. O corpo definido pelo trabalho duro. A pele morena de sol brilhava levemente sob o suor. Vestia uma camisa xadrez aberta no peito e uma bermuda cor de terra, simples, mas que nele parecia... natural. Bonito. Vivo. Verdadeiro.

Ele parecia maior. Mais homem. Mais presente.

E eu fiquei olhando.

Vidrado.

Como se o tempo tivesse parado.

Chico caminhou até nós, cumprimentou meus tios, fez um gesto respeitoso para Felipe... e então parou na minha frente.

Por um segundo, nenhum de nós falou nada.

Então ele me puxou.

Forte.

Num abraço apertado que quase tirou meus pés do chão.

— Moleque... — ele disse, com a voz rouca, emocionada. — Tu voltou.

Ele me levantou do chão como fazia quando éramos menores, rindo, apertando, como se quisesse ter certeza de que eu era real. Eu senti o cheiro dele — sol, terra, suor — e algo dentro de mim apertou.

Saudade.

Saudade de um pedaço de mim que eu tinha deixado ali.

— Eu voltei — consegui dizer, sorrindo sem perceber.

Quando ele me colocou no chão, ainda segurava meus ombros, me olhando como se estivesse vendo algo que não queria esquecer.

E, atrás de mim, eu senti.

O silêncio de Caíque.

Pesado.

Quieto.

Observando.

E, mesmo sem olhar para ele, eu sabia... ele estava com ciúmes. Mas eu teria tempo para contar a história de Chico para ele, ele não precisava se preocupar, afinal, éramos apenas amigos.

Caminhamos devagar pela estrada de terra que levava até a casa principal. O sol já estava quase desaparecendo atrás das colinas, deixando o céu mais escuro, mas ainda pintado de tons quentes. O som dos passos do cavalo ao nosso lado, o barulho suave do vento passando pelo campo e a presença dele ali... tudo parecia encaixar no lugar certo dentro de mim.

Chico andava ao meu lado, com as mãos nos bolsos, como se nunca tivéssemos nos separado. E, de certo modo, parecia mesmo que o tempo não tinha passado.

— E aí, me conta... — eu falei, olhando pra ele. — Como você tá?

Ele soltou um sorriso curto, meio orgulhoso.

— Tô trabalhando fixo agora na fazenda dos seus pais — disse. — Seu pai me chamou faz uns meses. Disse que precisava de alguém de confiança.

Aquilo me aqueceu por dentro.

— Sério? — perguntei, feliz de verdade.

— Sério. Agora tô ganhando direitinho... ajudando em casa... — ele deu de ombros, simples, mas com brilho nos olhos. — Acho que até consigo comprar um celular em breve.

Eu ri.

— Finalmente, né? Aí vai poder falar comigo sem precisar mandar recado pelos outros.

— É... — ele respondeu, olhando pra frente. — Não gosto de ficar sem saber de você.

Por um instante, ficamos em silêncio. Um silêncio confortável. Cheio de história.

Quando chegamos diante da casa, ele parou. Segurou as rédeas do cavalo, pronto para montar.

— Já vai? — perguntei.

Ele colocou o pé no estribo, subiu com facilidade e ajeitou o corpo sobre o cavalo. Então olhou pra mim, com aquele mesmo olhar sincero de sempre.

— Vou tomar um banho, me arrumar... — disse. — E volto.

Franzi a testa, sem entender.

— Volta?

Ele sorriu, simples.

— Eu nunca perderia o aniversário do meu melhor amigo.

Meu peito aqueceu.

De verdade.

— Te espero — respondi, sentindo algo firme dentro de mim. A amizade ainda estava ali. Intacta.

Chico deu um leve toque no cavalo, que virou devagar. A poeira subiu sob os cascos enquanto ele se afastava, desaparecendo no caminho iluminado pelo resto do pôr do sol.

Fiquei olhando até sumir.

E só então entrei.

Assim que a porta abriu, fui engolido por braços.

— Meu filho!

Minha mãe me puxou primeiro, me apertando forte contra ela, como se quisesse recuperar todo o tempo longe. O cheiro dela... aquele cheiro de casa, de infância, de segurança... me fez fechar os olhos por um instante.

Meu pai veio logo depois, colocando a mão firme no meu ombro e me puxando para um abraço apertado, daqueles silenciosos, que dizem mais que palavras.

— Você cresceu — ele murmurou, com orgulho na voz.

Eu ri.

— Nem foi tanto tempo assim.

Mas a verdade é que parecia uma vida.

Logo Felipe foi abraçado também, meio sem jeito, mas sorrindo. Minha mãe o tratou como se já fosse da família, perguntando se a viagem tinha sido boa, se ele estava confortável, se tinha gostado do lugar. Ele respondia meio tímido, mas encantado.

Depois Caíque.

Minha mãe o abraçou com carinho. Meu pai apertou a mão dele firme, olhando nos olhos, daquele jeito sério, mas acolhedor.

— Seja bem-vindo — ele disse. — Aqui é sua casa também.

Caíque respondeu educado, mas eu percebi... ele estava observando tudo. Cada detalhe. Cada gesto. Cada vínculo.

A casa estava viva.

Cheiro de comida vindo da cozinha. Vozes misturadas. Risadas. Passos. Memórias voltando aos poucos como se nunca tivessem ido embora.

Era família, era lar.

Naquele tempo, eu não sabia que aquela viagem, que começou leve, cheia de expectativa e calor, seria a mesma que mudaria o rumo de tudo. Para mim, era só um reencontro com minhas raízes, com minha casa, com quem eu era antes de tudo ficar confuso. Era mostrar meu mundo para ele. Era dividir pedaços de mim.

Mas foi depois dali... que tudo começou a escapar.

Eu não percebi no começo. Não percebi quando o riso dele ficou mais curto. Quando o toque virou ausência. Quando os silêncios começaram a ocupar espaços que antes eram nossos. Não percebi quando Caíque começou a se afastar... nem quando o "nós" virou apenas lembrança.

E talvez tenha sido exatamente por isso que hoje ele estava ali.

Casado.

A cena mudou dentro da minha cabeça como se alguém tivesse virado uma página sem me avisar.

Agora eu estava novamente em meu presente, a igreja brilhava em branco e dourado. As vozes ecoavam, as pessoas sorriam, os passos se misturavam ao som de comemoração. Eu estava parado, imóvel, como se o tempo tivesse desacelerado só para mim.

Então eles passaram por mim.

O terno claro. O sorriso que um dia foi o lugar onde eu me sentia em casa. O brilho nos olhos dele — o mesmo brilho que já tinha sido meu refúgio. E então... nossos olhos se encontraram.

Por um segundo, não existiu igreja, não existiu casamento, não existiu mundo.

Só existiu nós dois.

Havia algo naquele olhar... algo que nunca seria dito em voz alta. Como se, lá no fundo, um pedisse ao outro para tentar mais uma vez. Como se o tempo pudesse voltar. Como se ainda houvesse escolha.

Mas eu sabia que não havia, afinal, as pessoas já estavam jogando o arroz neles e se encaminhando para o salão de festas, era isso, eles estavam casados. Engoli em seco, sentindo o peso silencioso daquilo esmagar meu peito. Aquele tipo de dor que não faz barulho, mas ecoa por dentro.

Às vezes... eu queria que a vida fosse um livro.

Queria poder virar páginas rapidamente, ir direto para o fim, descobrir se em algum lugar do futuro nós dois ainda ficávamos juntos... ou não. Descobrir se aquele amor tinha sobrevivido ao tempo... ou se tinha se perdido.

Ou talvez... queria apenas um epílogo.

Um capítulo final que explicasse tudo o que meus olhos não puderam ver. Tudo o que aconteceu nos silêncios, nos afastamentos, nas escolhas que não foram ditas, nas dores que ninguém contou. Porque... não era possível.

Não era possível que o amor de Caíque por mim simplesmente tivesse acabado. Aquela viagem, não foi só o começo do fim. Ela também foi luz.

Foi ali que, pela primeira vez, nossas almas e corpos deixaram de caminhar separadas, foi nossa primeira vez. Foi depois do meu parabéns que nós tivemos a nossa primeira noite de amor, que nossos corpos finalmente se conheceram, que eu me entreguei para ele, meu primo, meu amor, meu primeiro homem.

Foi ali que nos tornamos promessa.

E naquela noite, sob o mesmo céu, fizemos um juramento silencioso, daqueles que não precisam de testemunhas... nem de palavras.

A promessa de que nos amaríamos. Para sempre.

Fechei os olhos por um instante enquanto as pessoas continuavam jogando arroz, rindo, celebrando.

Porque, no fundo...

uma parte de mim ainda acreditava

que "para sempre"

não termina assim.

uma parte de mim ainda acreditava que "para sempre" não termina assimxxxEstão prontos para primeira vez dos nossos personagens? Será no próximo capítulo! Deixe seu voto e comentário que ao passar de 20 votos esse capítulo já publicarei o próximo!

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