A Viagem de Volta pro Futuro
{ O título deste conto é uma junção dos títulos das músicas “A Viagem” e “De Volta pro Futuro”, do Roupa Nova. A junção representa a essência do conto: uma jornada que atravessa o tempo e as emoções.
Este conto não é uma adaptação das músicas, mas uma história original que surgiu das sensações e reflexões que elas despertaram em mim.}
Voltei.
Depois de uma viagem longa e difícil a praia surgia diante de mim.
Trinta e cinco anos não são pouca coisa, e ainda assim a praia estava ali, como sempre esteve. O sol nascia devagar, espalhando um dourado ainda tímido sobre a água.
O cheiro de sal, peixe e algas nunca saiu da minha memória.
Havia coisas que São Paulo nunca conseguiu arrancar de mim, por mais concreto que me jogasse no caminho.
Caminhei pela faixa de areia, deixando que o vento me atravessasse. Pouco havia mudado. As casas ainda eram baixas, pintadas de cores fortes. Os barcos de madeira descansavam virados de lado, como animais cansados depois de uma noite no mar. Reconheci um deles, mesmo sem saber explicar como. A tinta azul descascada, a proa torta. Sorri, surpresa comigo mesma.
Achei que sentiria estranhamento, aquela sensação de não pertencer mais a lugar nenhum. Mas a vila me recebeu em silêncio, sem perguntas, como se eu nunca tivesse ido embora.
Passei pela rua principal, agora calçada, embora irregular. Onde antes havia uma venda pequena, alguém abrira um mercadinho, o sino da igreja continuava o mesmo. Estendi a mão para tocar a parede branca com a ponta dos dedos, lembrei da aspereza da cal. Lembrei também de quando corria ali, descalça, achando que o mundo terminava depois das pedras do cais.
Trinta e cinco anos. Pensei em tudo o que coube nesse intervalo: pressa, escolhas, desvios. A cidade grande me ensinara a não olhar para trás, mas ali, diante do mar, percebi o quanto isso era inútil.
Sentei-me perto da água, observando as ondas quebrarem mansas, repetidas. O sol já se erguia mais firme agora, aquecendo de verdade. Fechei os olhos por um instante, só para confirmar: eu estava ali. Tinha voltado.
E, de algum modo difícil de explicar, senti que a vila me reconhecia.
Caminhei pela orla até a extremidade da praia. Ali estava a árvore.
Ela parecia menor do que na minha memória, ou talvez eu é que a tivesse feito grande demais ao longo dos anos. Seus galhos se inclinavam em direção ao mar, e o tronco carregava marcas antigas — cortes, fissuras, cicatrizes do tempo. Aproximei-me devagar, sentindo um aperto estranho.
Então vi.
O coração ainda estava ali.
Talhado fundo na madeira, torto, imperfeito, resistindo ao sal, ao vento, às chuvas e aos verões repetidos. As bordas haviam se alargado com o crescimento do tronco, mas os nomes permaneciam legíveis, presos àquela árvore.
Celeste
Gabriel
Juntos para sempre
Meu peito se contraiu. Passei os dedos sobre as letras, e o toque despertou algo imediato, avassalador. Não uma lembrança vaga, mas o dia inteiro, intacto. Eu me lembrava de tudo.
Olhei para a ponta do meu dedo com uma ternura cheia de saudade. Era como se a pele ainda guardasse a memória daquele gesto — um ardor sutil despertando de repente — exatamente como no instante em que fiz o pacto de sangue com Gabriel.
Tínhamos pouco mais de dezoito anos e acreditávamos que o tempo era elástico, que podia ser esticado à vontade.
O agora era tudo o que existia.
A imagem de Gabriel, jovem, inteiro, começou a se impor sobre a paisagem ao meu redor. A praia perdeu contornos, o som das ondas se dissolveu, e o presente cedeu espaço.
E então, sem perceber, eu já não estava mais ali.
Voltei 35 anos no tempo.
Vila dos Pescadores — Ano de 1991
Era um dia ensolarado e quente, daqueles em que o ar parece mais lento. Gabriel trabalhava na lojinha da galeria em frente à praça, bem onde fica a árvore. A galeria era pequena, com vitrines simples e o chão sempre empoeirado, e quase não havia movimento naquele sábado.
Fui até lá só para vê-lo.
Ele me notou assim que entrei. Sorriu daquele jeito que sempre me desarmava. Disse que tinha uma surpresa. Olhou em volta, conferiu a rua vazia, e sem cerimônia fechou a loja.
Caminhamos juntos até a praça. O sol filtrava-se pelas folhas da árvore, desenhando sombras irregulares no chão. Meu coração batia mais rápido, embora eu não soubesse exatamente por quê. Gabriel parou atrás de mim, colocou as mãos sobre meus olhos e pediu que eu confiasse.
— Não olha ainda — ele disse, rindo baixo.
Senti o calor das mãos dele, o cheiro familiar que parecia sempre acompanhá-lo. Esperei. Quando finalmente as mãos se afastaram, abri os olhos.
E lá estava.
Um coração talhado no tronco da árvore, ainda claro, recém-ferido na madeira. Dentro dele, nossos nomes: “Celeste e Gabriel Juntos Para Sempre” As letras tortas denunciavam a pressa e a emoção do gesto, e ainda assim tudo me pareceu perfeito.
Tínhamos dezoito anos. Eu era tão ingênua, tão inteira em meus sonhos, que senti os olhos marejarem imediatamente. Fiquei ali, imóvel, como se aquele coração tivesse sido feito não apenas na árvore, mas dentro de mim.
Ele me observava em silêncio, esperando minha reação, com uma seriedade quase solene.
Gabriel então disse, com uma convicção que só os jovens ingênuos têm, que enquanto aquela árvore existisse, nosso amor também existiria. E que aquele coração na arvore, anunciava ao mundo que nós pertencíamos um ao outro para sempre.
Acreditei sem hesitar.
Naquele dia, o mundo parecia simples. O futuro não assustava. São Paulo era apenas uma palavra distante, e o tempo, algo que nos pertencia.
O vento balançou as folhas acima de nós, e eu pensei que nada poderia apagar aquilo.
Nada.
Ele disse que me amava. Que queria ficar comigo para sempre, e naquele instante o “para sempre” não parecia uma palavra grande demais. Cabia perfeitamente entre nós dois, à sombra daquela árvore.
Sem dizer nada, ele se abaixou e arrancou um espinho de uma planta que crescia ao lado do tronco. Observei curiosa, sem entender. Gabriel segurou o espinho com cuidado, e fez um pequeno furo na ponta do próprio dedo. Um gesto rápido. Uma gota de sangue surgiu, vermelha e viva, contrastando com a pele que o sol havia escurecido.
Meu coração disparou.
Ele sorriu, meio nervoso, e então pediu que eu fizesse o mesmo. Hesitei. Não pela dor — que era mínima — mas pelo peso do gesto. Olhei para o espinho, depois para ele. Havia nos olhos de Gabriel uma seriedade verdadeira que me fez concordar.
O espinho tocou meu dedo. Ardeu um pouco. Logo uma gota de sangue também apareceu, pequena, redonda, pulsante.
Gabriel aproximou a mão da minha e esfregou nossos dedos, misturando as duas gotas até que já não fosse possível distinguir qual era dele, qual era minha. O sangue se espalhou entre nós.
Ele disse que aquilo era um pacto.
Que o nosso sangue iria se misturar — o meu correria pelo corpo dele, o dele pulsaria no meu — e que, a partir daquele instante, estaríamos ligados para sempre, unidos por algo que nenhum tempo poderia desfazer.
Uma promessa. Que daquele momento em diante estaríamos ligados, que ficaríamos eternamente juntos, independentemente do que viesse. A palavra eternamente soou bonita, quase luminosa, e eu a aceitei sem medo.
Acreditei.
Ali, sob aquela árvore, com os dedos manchados de vermelho e o coração acelerado, achei que algumas promessas eram fortes o suficiente para vencer o tempo. Que o amor, quando marcado na pele e na madeira, não podia ser desfeito.
O vento soprou entre as folhas, e por um instante tive a estranha sensação de que algo nos observava em silêncio. Mas afastei o pensamento. Aos dezoito anos, a gente não escuta presságios.
A gente só ama.
Depois seguimos caminhando em direção à galeria.
Ela estava vazia àquela hora, silenciosa demais para um sábado. Nossos passos ecoavam pelo corredor estreito, misturando-se ao cheiro de madeira, poeira e maresia que parecia acompanhar tudo naquela vila. Gabriel comentou, tímido e envergonhado, que a lojinha tinha um espaço atrás, discreto, confortável, privativo. Falava com cuidado, como se temesse quebrar algo frágil entre nós.
Eu sabia o que ele queria.
E, em silêncio, reconheci que eu também queria.
Mesmo assim, parei de andar por um instante. Disse que não. Ou melhor, disse ainda não. Falei que só depois do casamento, repetindo palavras que tinham mais a ver com medo e aprendizado do que com convicção. Minha voz saiu baixa, mas firme. Gabriel me olhou surpreso, depois sorriu daquele jeito, como se tivesse acabado de ter uma ideia impossível.
Continuamos andando pelo corredor da galeria.
De repente ele soltou minha mão, com aquele sorriso que sempre me fazia suspirar e se ajoelhou.
— Celeste — disse ele, olhando para mim com uma mistura de confiança e timidez — casa comigo?
Parei de novo. Ri, achando que era brincadeira. Mas Gabriel já estava sério outra vez, os olhos brilhando com aquela ousadia e ingenuidade que só existe antes da vida ensinar seus limites.
Não pensei duas vezes. Sorri, com o peito apertado de felicidade, e disse:
— Sim! Eu aceito!
Ele se levantou devagar, segurando minhas mãos, e me puxou levemente para perto. Rimos juntos, meio nervosos, meio encantados, com aquele riso leve da juventude
— Então… quando? — perguntei, ainda sorrindo, com o coração batendo rápido.
— Agora — respondeu ele, naquele instante mágico e leve.
Ele abriu os braços, apontando para o corredor vazio.
— Aqui é a igreja — disse. — E ali — apontou para o fundo — fica o altar.
Olhei ao redor. Não havia ninguém. Nenhuma testemunha além das paredes descascadas e do silêncio atento do lugar. Mesmo assim, senti um arrepio percorrer meu corpo. Gabriel caminhou alguns passos à frente, como se ocupasse um lugar invisível, e anunciou que o padre estava ali, embora ninguém pudesse vê-lo além de nós dois.
— Ele é sério — completou, sorrindo. — Mas é bom.
Gabriel começou a assobiar a marcha nupcial e o meu riso foi cedendo a algo mais suave, mais fundo. Entrei na brincadeira quase sem perceber. Caminhei pelo corredor como se ele realmente fosse uma igreja, como se aquelas vitrines fossem vitrais, como se o mundo tivesse decidido, por alguns minutos, fingir conosco.
Ele segurou minhas mãos. Estavam quentes. Os pequenos cortes em nossos dedos já haviam secado, mas eu ainda sentia o pacto pulsar ali.
Prometemos coisas simples e impossíveis. Rimos. Fingimos solenidade. Fingimos eternidade.
E naquele casamento inventado, sem padre, sem papéis, sem futuro garantido, eu me senti mais comprometida do que jamais voltaria a me sentir.
Porque aos dezoito anos, a gente acredita que imaginar algo é quase o mesmo que torná-lo real.
Anos depois, já morando em São Paulo, eu me casei de verdade.
Houve uma cerimônia de verdade, com igreja de verdade, padre de verdade, convidados, flores escolhidas com antecedência, fotos, assinaturas e aplausos no final. Tudo exatamente como deveria ser. Usei um vestido claro, caminhei até o altar sob olhares atentos, repeti votos que haviam sido ensaiados, e sorri nas fotografias como se aquele sorriso pudesse garantir alguma coisa.
O nome dele era Paulo.
Meu marido em São Paulo.
Nos primeiros tempos, tentei acreditar que aquilo era o amor adulto, o amor possível. Mas com o passar dos dias, o casamento foi se revelando um espaço estreito, silêncios pesados e palavras que feriam. Havia controle onde eu esperava cuidado, havia medo onde eu esperava abrigo. O amor, se existia, vinha sempre acompanhado de dor.
Demorei a entender que aquilo era um casamento tóxico. Talvez porque, por fora, tudo parecesse certo demais para ser questionado. Talvez porque eu tivesse aprendido, cedo demais, a confundir permanência com destino.
Hoje, olhando para trás, vejo com uma clareza quase cruel: meu casamento de verdade aconteceu muito antes.
Foi naquele corredor de galeria, numa vila pequena demais para caber nos mapas importantes. Sem testemunhas. Sem documentos. Sem promessas aprendidas de cor. Um padre inventado, uma igreja imaginária, duas mãos jovens ainda manchadas de sangue.
Mas havia amor.
Amor real, inteiro, sem medo, sem jogos. Amor que não precisava ferir para existir. Amor que não exigia que eu diminuísse para caber.
Casei-me com Gabriel ali, ainda que o mundo jamais tenha reconhecido. Ainda que a vida tenha seguido por outros caminhos. Ainda que o tempo tenha tentado apagar aquele dia.
Algumas uniões não precisam ser oficiais para serem eternas.
Algumas promessas continuam válidas mesmo quando tudo o mais desmorona.
Depois do “casamento”, entramos no quarto no fundo da loja e senti meu coração disparar, a expectativa e o nervosismo estavam quase me fazendo desistir.
As inseguranças sobre meu corpo também me assombravam, achava meus seios pequenos, não tinha aquele corpão. Será que eu agradaria ao Gabriel?
As dúvidas eram como sombras que dançavam na minha mente, mas a ternura do Gabriel me trazia alívio.
A lâmpada do quarto era fraca, mas respirei fundo e tomei coragem para falar:
Prefiro a luz apagada.
Não era falta de desejo ou de confiança em Gabriel, mas meu corpo era ainda um território estranho para mim, que me fazia ficar cheia de dúvidas.
Começamos a nos tocar, a acariciar, sem pressa. Foi um momento de descoberta do corpo, e também de sentimentos.
Fui me sentindo mais confiante e comecei a explorar o corpo do Gabriel com as mãos
Cada toque uma descoberta, uma nova sensação.
O quarto foi ficando mais acolhedor e o mundo lá fora mais distante.
Quando começamos a tirar a roupa, cada peça que caía no chão parecia representar uma barreira sendo quebrada.
Quando senti meu corpo exposto, completamente nua, me senti incrivelmente viva
As carícias se tornaram mais intensas, a língua dele começou a percorrer meu corpo. Foram até os seios, meus mamilos receberam uma pequena mordida e foram chupados carinhosamente. Foi descendo até chegar perto da minha buceta. Com a língua deu uma volta, sem introduzi-la na vagina.
Quando achei que ele ia chupar minha buceta, ele continuou descendo. Beijou minhas pernas, meus pés e sugou meus dedos. Voltou a subir. Ficou novamente dando voltas em torno da vagina e me deixando louca.
- Chupa que eu não aguento mais! Chupa!!
Foi então que eu senti a língua mais gostosa da minha vida, uma sensação que nunca mais se repetiu igual, não consigo descrever em palavras o prazer que língua do Gabriel me proporcionou.
Olhei para o pau duro dele.
- Coloca ele todinho em mim – Gritei
Ele entrou dentro de mim, deitou-se por cima e parecia que éramos um só enquanto me penetrava.
- Dói? - Ele perguntou, a voz mal saindo, um sopro quente contra o meu pescoço.
- Ainda não..., Respondi, mentindo, com um fio de voz - Só... não para.
Era uma mistura de prazer e dor, finquei as unhas nas costas deles, e o abracei quase querendo que nossos corpos se fundissem em um só.
Foi o primeiro e melhor orgasmo da minha vida! Parecia que eu não tinha mais controle do meu corpo, tremia e me contorcia loucamente, pedindo mais e mais. Apertei tão firme o corpo do Gabriel que ele chegou a gemer de dor.
Estava molhada em todos os sentidos, escorria suor na minha testa e a xaninha completamente enxarcada.
Não conseguia falar direito e parecia que não ia conseguir mais respirar.
Olhei para o Gabriel, ele também tentava recuperar o fôlego, agora estava com o pau mole, depois de gozar.
Comecei a estimulá-lo novamente com bastante carinho. Primeiramente com as mãos e depois, fui aproximando minha boca ...
Nunca tinha feito aquilo, mas sabia que os homens adoravam.
Senti aquele cheiro de sabonete, e comecei a colocar na boca, encaixou certinho.
Foi muito gostoso sentir o pênis do Gabriel crescer dentro da minha boca.
Me senti mágica. E aquilo começou a me satisfazer também.
Estava adorando dar prazer, a sensação do pau com tesão na boca, de estar endurecendo ainda mais enquanto eu chupava, e sobretudo, de ser observada e desejada enquanto sugava a vara. Amei a sensação de estar mandando bem, de me sentir uma safada enquanto o Gabriel gemia de prazer
A autoestima que só o tesão pode proporcionar.
Me soltei por completo, comecei a babar, girar a língua, desci em direção aos testículos e passei a língua, enfiei as bolas na boca e chupei muito.
Peguei uma balinha refrescante para deixar gelado.
Adorei ouvir os gemidos e o Gabriel revirando os olhos.
As incertezas foram gradualmente caindo e eu fui ficando cada vez mais safada.
O pau dele já estava duro de novo
Confesso que fiquei surpresa comigo mesma quando me coloquei de quatro, dei um tapa na minha própria bunda, e com o olhar de safada por cima do ombro, convidei para que viesse me comer naquela posição.
Mais solta comecei a dar gritinhos, expressão genuína e espontânea de prazer.
Mas quando vi que isto o excitava, comecei gritar ainda mais.
Ele correspondeu socando mais forte!
Até que gozamos juntos!
Quase sem fôlego, nos abraçamos e ficamos juntinhos, nossas pernas entrelaçadas.
Estava sentindo o peito do Gabriel subir e descer embaixo da minha bochecha. Meu dedo desenhava linhas distraídas na pele dele, enquanto aproveitávamos o silêncio que parecia nos envolver como um cobertor.
Ele engoliu em seco de repente.
— Celeste… — a voz dele sai baixa, um pouco trêmula.
Levantei o rosto para olhar nos olhos dele.
— Eu acho que eu… — ele começou, respirando fundo, claramente tentando organizar coragem e sentimento ao mesmo tempo — eu acho que estou me apaixonando por você. Talvez ... Eu só…
Não deixei ele terminar.
Segurei o rosto dele com as duas mãos e o beijei. Um beijo calmo, demorado, sem pressa de acabar. Um beijo que dizia tudo o que não foi colocado em palavras..
Quando me afastei, foi só o suficiente para nossos narizes ainda se tocarem, eu encostei minha testa na dele e ele sussurrou:
— Seu beijo me calou a voz ... mas eu adorei!
Ri baixinho, reconhecendo a referência.
— “O silêncio é eu te amo” — completei, fazendo menção à música.
Acariciei o rosto dele.
— Às vezes, o que a gente sente é grande demais pra caber numa frase bonita. Mas cabe aqui — disse, tocando de leve os lábios dele com os meus outra vez.
Ele não tentou terminar a declaração. Não precisava.
Eu me aninhei de novo no peito dele, e ficamos ali, abraçados, deixando que o silêncio falasse por nós.
Porque, naquele momento, ele realmente dizia tudo.
Poucos dias depois, meu pai anunciou que iríamos embora.
Não houve preparação para a notícia. Ela caiu sobre mim já como algo definitivo, sem espaço para ser discutido. São Paulo veio para minha vida como destino imposto.
Lembro-me de ter ido até a praia naquela mesma tarde para me despedir dela, os pés afundando na areia, o peito apertado por uma dor incômoda.
Prometi a Gabriel que voltaria.
Disse que aquilo não era um adeus, apenas um intervalo. Que a cidade grande não me tomaria dele. Ele me olhou em silêncio, como se já soubesse que algumas promessas nascem frágeis, mesmo quando são sinceras. Ainda assim, acreditou. Ou fingiu acreditar por amor.
Pode crer, eu viajei contra a vontade.
A vida seguiu. Os anos passaram. Um ano se empilhou sobre o outro com pressa demais.
Foram diversos homens na minha vida, a maioria uns babacas. Minha vida sexual foi muito ativa, uma verdadeira loucura. Mas nunca ninguém chegou perto de me satisfazer como Gabriel.
O casamento com o Paulo foi muito bom no início, mas só no início.
Vieram as brigas, os abusos, a denúncia por violência doméstica ...
Mas isso era passado. E agora, só agora, eu estava ali outra vez.
Trinta e cinco anos depois. Mais tempo do que eu jamais imaginei permitir. O retorno que eu jurara fazer jovem e confiante só acontecia agora, tardio e silencioso
Enquanto estava perdida naquelas lembranças, ouvi uma voz:
— Celeste, vem de volta para o futuro que ainda há pra nós!
Aquele chamado me tirou das lembranças de 1991, voltei para 2026
Vila dos Pescadores — 2026
O mar estava diante de mim outra vez, repetindo seu movimento eterno. A árvore permanecia ali.
Olhei em direção à voz, era um homem caminhando em minha direção, seria o Gabriel?
O cabelo estava mais claro, o corpo outro — marcado por anos que não me pertenceram.
O medo veio primeiro.
Eu podia vê-lo?
Ou aquilo era apenas a memória, vestida de carne?
Fiquei imóvel. O vento atravessou meu corpo sem pedir licença, como vinha fazendo desde que eu chegara. E, naquele instante, compreendi o que eu evitava desde o início.
Eu não estava ali como antes.
Eu estava ali porque não estava mais em lugar nenhum.
Morri em São Paulo.
Meu corpo ficou lá, preso às ferragens daquele carro de luxo.
O que voltou foi o que nunca soube partir.
A promessa me trouxe de volta.
Dei um passo à frente, insegura, temendo que ele me atravessasse como se eu fosse só ar. Mas Gabriel parou. Lentamente, levantou o rosto. Nossos olhares se cruzaram.
E ele me viu.
— É você Gabriel?
— Sim sou eu, o mesmo que te amou! — Disse olhando como se atravessasse a minha alma — Não me diga que esqueceu!
O mar suspendeu o fôlego. Meu peito doeu como se ainda houvesse um coração ali.
— Então você consegue me ver… e me escutar? — perguntei, a voz trêmula. — Eu estou aqui só em espírito. Eu sei… faz tanto tempo que te deixei. Fui embora chorando de saudade. Mesmo longe, eu não me conformei. Viajei contra a minha vontade.
— Eu te vejo — disse ele, com doçura. — Te vejo como alguém real. E te escuto. Sei que tudo já mudou, tanta coisa se perdeu ... mas eu sou o mesmo que te quis, lembra da primeira vez que fizemos amor?
— Foi o teu amor que me chamou e eu regressei — respondi. — Estava lembrando do nosso casamento… da nossa primeira vez. Foi tudo tão bonito!
Gabriel fechou os olhos, como quem recolhe o passado no peito.
— Sim, foi nosso instante mais bonito. Coisas do passado são alegres — murmurou — quando devolvem à memória quem a gente ama.
Minha vida em São Paulo teve altos e baixos. “Quem de nós dois terá sido mais feliz?” pensei comigo mesma.
As lembranças vieram de forma brusca: o carro, a noite, o álcool, os remédios, o impacto. Depois, o nada. Um limbo frio, sem chão, sem tempo, sem nome. Mas mesmo ali, na escuridão mais funda, havia algo.
— Era o teu olhar — Exclamei. — A tua luz me guiava. Teu riso era minha estrela-guia. Sempre foi.
Ele me olhou, os olhos marejados:
— Celeste, várias vezes me senti sozinho… — disse, com a voz quebrada. — Mas, em cada solidão que eu suportei, eu desejei este reencontro.
Abriu os braços, como se me chamasse.
— Reencontro com teu corpo-abrigo.
Sorri. E, pela primeira vez desde que deixei o mundo dos vivos, senti inteireza. O vento passou mais forte, trazendo sal, memória e eternidade. O mar murmurou como testemunha antiga. A árvore inclinou seus galhos, guardiã silenciosa daquele instante.
O tempo parou.
Ou talvez tenha, enfim, aprendido a respeitar o amor.
Então percebi.
O vento também atravessava o corpo de Gabriel.
Aprendi que o Amor só dói para quem não volta atras. E Amor agora era tudo que eu tinha para dar, depois era só pedir mais!
E assim ficamos.
Apenas juntos.
No mesmo caminho.
Na mesma viagem.
E quando o vento passou por nós dois — ele não soou como ausência.
Soou como música, uma música que falava sobre sonhos e sobre o sentimento que inventou nós dois!
FIM
