Conspiração 10.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 7481 palavras
Data: 14/02/2026 14:10:03
Última revisão: 14/02/2026 15:01:32

No presente:

Me levantei devagar, calcei o chinelo e desci sem fazer barulho. Meus pais estavam ocupados, cada um no seu canto. Aproveitei e saí pela porta dos fundos. Caminhei pelo jardim. O cheiro de terra molhada, o barulho distante da rua, o mesmo quintal onde eu brinquei quando criança. Tudo parecia no lugar. Menos eu.

Procurei um ponto mais afastado, perto do muro, onde ninguém pudesse me ouvir. Peguei o celular, respirei fundo e fiz a ligação. Mateus, meu braço direito, atendeu rápido demais. Como se estivesse esperando.

— Sou eu — disse, direto. — Preciso que venha até aqui.

Houve um breve silêncio do outro lado.

— Como você está?

— Vivo. Fora da cela. O resto a gente resolve.

Parei por um segundo, escolhendo as palavras.

— Traga tudo. Tudo mesmo. O que você conseguiu levantar desde o dia em que fui preso. Relatórios, arquivos, anotações, nomes … não deixe passar nada.

— Certo. — Ele respondeu, sério. — Quando?

— Hoje. O quanto antes. Agora, se possível.

— Entendi.

Encerrei a ligação antes que ele dissesse mais alguma coisa. Guardei o celular no bolso e fiquei ali, olhando para o jardim escuro, sentindo o peso da decisão se acomodar dentro de mim. Até ali, eu tinha sido levado pelos acontecimentos. Reagido. Sobrevivido. A partir daquele momento, não mais. Era hora de ser ativo. Agente direto da minha própria investigação.

Eu ainda respondia a um processo. Ainda tinha gente querendo me ver cair. Ainda havia verdades mal contadas, versões distorcidas convenientemente, peças fora do lugar. Mas, desde que tudo começou, eu não estava mais apenas tentando sair do fundo do poço. Eu estava pronto para descobrir quem tinha me empurrado.

Continuando:

Mateus chegou quarenta minutos depois. Pontual como sempre. Não tocou a campainha. Mandou mensagem. Eu mesmo fui até o portão lateral. Ele estava com uma mochila preta nas costas e uma pasta grossa debaixo do braço, o rosto sério demais.

— Trouxe tudo o que consegui juntar. — Ele disse, baixo, antes mesmo de eu perguntar.

Assenti e fiz sinal para entrarmos pelos fundos. Não queria plateia. Não queria curiosos. Meus pais estavam na sala. Mariana ainda dormia no meu quarto de infância. Seguimos para o fundo do quintal, um galpão antigo, escritório/oficina do meu pai, um cômodo pequeno que ele usava para guardar ferramentas e documentos antigos. Fechei a porta.

Mateus largou a mochila sobre a mesa e começou a retirar envelopes, cópias, um pen drive, um caderno de anotações e o meu notebook profissional.

— Eu fiz backup de tudo antes de qualquer coisa. — Ele explicou. — A polícia levou o seu computador de mesa da agência, mas eu tinha cópias na nuvem. Comecei a cruzar algumas informações por conta própria.

Senti um misto de orgulho e alívio. Eu tinha escolhido bem meu braço direito.

— Começa do início. — Pedi.

Ele abriu o caderno.

— No dia da prisão, a denúncia anônima foi formalizada às 19:45h. A reação foi rápida demais … incomum.

— Incomum quanto?

— Muito! Rápida demais para a forma como eles costumam agir.

Aquilo já me incomodava desde o começo.

— Continua.

— A faca era da sua casa, mas tem uma coisa estranha.

Meu corpo ficou atento.

— Fala.

— O laudo preliminar diz que não havia digitais completas. Só vestígios parciais no cabo. Nada conclusivo.

Eu fechei os olhos por um segundo.

— Nada anormal.

Mateus completou:

— Na denúncia a informação é diferente. Sua digital consta completa, não parcial. Isso já dá margem para discussão.

Mateus puxou outra folha.

— Tem mais. O vizinho do 602 disse ter ouvido uma discussão masculina pouco antes dos gritos. Mas não soube identificar as vozes.

— Masculina?

— Foi o que ele declarou.

Meu peito apertou.

— Mariana estava em casa naquele horário.

— Sim. Mas o depoimento dela fala que estava dormindo, o que não parece ser mentira.

Eu respirei fundo.

— E as câmeras?

Mateus balançou a cabeça.

— É o que a gente já sabe. Todas te colocam na cena do crime, nos horários certos.

Comecei a andar pelo pequeno cômodo, com as mãos na cintura.

— E o porteiro?

— Disse que você entrou às 19h e alguma coisa, por aí. Sozinho.

— E antes?

— Antes, nada registrado.

Nada registrado. Eu parei.

— E visitantes?

Mateus hesitou.

— Oficialmente, nenhum.

“Oficialmente”. O peso daquela palavra ficou suspenso no ar.

— E extraoficialmente? — Perguntei, encarando-o.

Ele respirou fundo.

— O zelador comentou comigo, em off, que um “amigo seu” passou lá mais cedo naquele dia. Disse que era alguém que frequentava o prédio com certa regularidade.

Meu estômago virou.

— Nome?

— Ele não anotou. Disse que já o conhecia. Que era próximo.

“Próximo?” Meu silêncio foi resposta suficiente para Mateus entender a direção dos meus pensamentos.

— Eu não estou acusando ninguém. — Ele disse, rápido. — Só estou dizendo que tem coisa mal explicada.

Eu encarei os papéis espalhados sobre a mesa. A prisão rápida. As digitais inconclusivas. As câmeras que mentiam. A discussão masculina. O visitante “próximo”. Não havia peças fora do lugar, o que não é comum. Tudo era perfeito demais.

— Tem mais alguma coisa? — Perguntei.

Mateus hesitou de novo.

— Tem uma movimentação bancária estranha na conta da vítima três dias antes do crime. Um depósito alto, vindo de uma empresa de fachada.

— E?

— Essa empresa já apareceu em dois casos antigos seus, da época da polícia.

Eu senti o chão mudar.

— Casos de quê?

— Corrupção interna na corporação. Desvio de verba pública.

Meu passado policial piscou diante de mim como um alerta vermelho. Então não era só pessoal. Talvez nunca tenha sido. Fiquei em silêncio por alguns segundos, absorvendo tudo. Até ali, eu tinha acreditado que estava pagando por erros emocionais. Por traições. Por orgulho. Por escolhas erradas. Mas aquilo tinha cheiro de algo maior. Muito maior.

— Mateus ... — Falei, por fim. — A partir de agora, tudo o que você descobrir, só fala comigo. Nada por mensagem. Nada por e-mail. Só pessoalmente.

— Entendi.

— E começa a levantar tudo sobre essa empresa. Donos, sócios, contratos, ligações políticas.

Ele assentiu.

Quando ele terminou de guardar as folhas na mochila, eu o acompanhei até o portão novamente. Conversamos mais um pouco e Mateus logo foi embora. Eu fechei o portão sem dizer mais nada e voltei para o cômodo dos fundos. Fiquei alguns segundos encarando a fechadura, como se esperasse que alguém a girasse do lado de fora outra vez.

Mateus tinha deixado meu notebook profissional sobre a mesa, o mesmo que eu usava nos casos mais delicados. Era seguro, criptografado, isolado da rede doméstica.

Eu o Abri. A tela azulada iluminou o ambiente escuro. Digitei minha senha. Acessei a nuvem onde estavam arquivadas todas as cópias das gravações do dia do crime. Câmeras da rua. Câmeras do corredor. Câmeras do quarteirão vizinho. Registros de horário do condomínio …

Eu já tinha visto tudo aquilo antes. Várias vezes. No interrogatório. No processo. No silêncio da cela. Mas agora eu estava olhando como investigador. Não como acusado.

A linha do tempo, nas câmeras, era clara:

19:07h — meu carro entrou na rua.

19:12h — eu entrei no estacionamento do prédio.

19:28h — entrei no apartamento.

As imagens eram limpas. Ângulos corretos. Sem falhas aparentes. Sem cortes bruscos. Perfeitas demais. Pausei o vídeo. Eu não tinha chegado às 19:12h. Naquele dia, eu saí do trabalho perto das 19:40h. Eu tinha certeza. Lembro da ligação que fiz ainda no estacionamento, procurando alguma floricultura aberta. Lembro do trânsito mais pesado que o normal. Lembro da música que estava tocando. Cheguei em casa por volta das 20h.

Voltei alguns segundos na gravação. Observei quadro a quadro. Nada. Nenhuma sombra estranha. Nenhuma distorção visível. Nenhuma edição grosseira. Se aquilo era uma montagem, era uma montagem perfeita.

Peguei o celular e liguei para alguém que eu não acionava havia meses.

— Preciso da sua ajuda. — Disse, assim que ele atendeu.

Do outro lado da linha, silêncio atento. Expliquei rápido. Enviei os arquivos criptografados. Pedi uma análise profunda de metadados, compressão, trilhas ocultas, qualquer indício de manipulação digital.

— Se tiver sido alterado, eu encontro. — Sérgio, o perito, respondeu.

Desliguei. Agora era esperar. Voltei para a mesa. A pasta física que Mateus trouxe estava aberta. Relatórios internos. Anotações que ele fez enquanto eu estava preso. Comecei a folhear. Nada saltava aos olhos. Eu voltei os olhos para a tela. Desde que tudo começou, eu não estava tentando provar que era inocente apenas, estava tentando provar que aquilo era uma conspiração. Alguém pensava ser inteligente o bastante para quase não deixar rastro. Quase!

Abri o aplicativo do condomínio. Eu raramente usava aquilo além do básico. Mas, naquele momento, qualquer fonte era uma possibilidade. Avisos do síndico. Reservas de salão. Comunicados de manutenção. Mas o sistema era completo demais para ser ignorado: Controle de acesso. Escala de funcionários. Registros de troca de turno. Cobertura de plantão. Relatórios internos da administração … se alguém teve acesso legítimo às câmeras, podendo manipular imagens, o rastro começaria ali.

Entrei na aba de segurança. Escalas da semana do homicídio. Passei os olhos com calma. Nome por nome. Turno por turno. Até que um detalhe quase invisível me fez parar: cobertura extraordinária. Um funcionário que não fazia parte da escala fixa daquele dia assumiu o plantão da noite. Precisamente às dezoito horas. Substituição de última hora. Justificativa: atestado médico do titular. Data: exatamente o dia do crime. Meu maxilar travou. Poderia ser coincidência. Mas coincidências não costumam alinhar horários com tanta precisão.

Cliquei no nome dele. Perfil simples. Contratação recente. Sem histórico disciplinar. Sem reclamações formais. Limpo demais. Abri o navegador no notebook profissional. Se alguém mexeu nas câmeras, não foi por impulso. Foi com preparação. Eu não podia sair de casa, estava ainda sob investigação. Não pisaria na rua. Não levantaria suspeita. Mas eu sabia investigar à distância.

Nas próximas horas, mergulhei na equipe inteira. Portaria. Vigilância. Manutenção. Redes sociais abertas. Perfis de parentes. Fotos marcadas. Comentários antigos. Mudanças súbitas de padrão de consumo … Quando você passa anos analisando mentiras, aprende a identificar prosperidade repentina.

Dois dias se passaram assim. Mariana acreditava que eu estava reorganizando documentos do processo. Meus pais pensavam que eu tentava retomar a rotina. Na verdade, eu estava desmontando vidas digitais. E então encontrei. Não nele diretamente. Mas na irmã. Uma foto recente. Legenda banal. Fundo de garagem … uma moto nova. Modelo que não combinava com salário de porteiro. Desci a timeline. Um computador gamer de última geração aparecia numa foto de aniversário do sobrinho, três dias após o crime. Outro post. Selfie no espelho. Celular novo. O modelo mais caro da marca da maçã. Ampliei a imagem. Reflexo do visor ainda com película. Compra recente.

Voltei ao perfil dele. Discreto demais. Quase apagado. Mas a vida ao redor gritava. Aquilo não era aumento salarial. Era pagamento anormal. Senti meu estômago apertar. Se ele cobriu o plantão naquele dia … se alguém com credencial deu acesso ao sistema … se houve manipulação nas imagens … então, eu não estava lidando com um erro. Eu estava lidando com alguém que pagou para montar um cenário.

Fechei os olhos por um instante. Meu instinto não gritava. Ele rugia. E quando aquilo acontece, quase sempre está certo. Abri uma nova pasta no notebook. Nomeei: “Portaria – Cobertura”. Salvei prints. Links. Datas. Valores estimados dos bens. Se fosse suborno, o dinheiro não tinha ido para a conta. Tinha ido para a vaidade. E vaidade sempre deixa rastro.

Encostei na cadeira. O perito ainda não tinha respondido. Mas, finalmente, eu tinha algo concreto. Uma segunda pista a seguir, além da empresa que Mateus já estava investigando. Alguém recebeu para abrir uma porta invisível. A pergunta agora não era mais se houve manipulação. Era quem tinha dinheiro e interesse suficiente para pagar por ela. E essa resposta não estava na portaria. Estava acima.

Dois dias depois de eu identificar o nome do funcionário, liguei para Mateus.

— Preciso que você faça algo por mim. E precisa parecer que não está fazendo nada.

Ele não perguntou “o quê”. Perguntou “quanto tempo eu tenho”. Expliquei tudo. A cobertura no plantão. Os bens incompatíveis. A possibilidade de manipulação nas imagens.

— Você quer que eu converse com ele?

— Não. — Respondi firme. — Você quer que ele converse com você … sem saber que está conversando.

Mateus entendeu. Ele sempre entendia. Foram três dias. Três dias em que eu mal dormi. O perito ainda não tinha fechado o laudo completo. Apenas adiantou que havia indícios de inconsistência nos metadados das gravações. Nada grosseiro. Nada amador. Alteração limpa. Profissional. No fim da terceira noite, Mateus apareceu na casa dos meus pais. Entrou direto. Sem formalidade. Tirou o paletó. Se sentou. Ficou alguns segundos em silêncio … eu conhecia aquele silêncio.

— Fala.

Ele respirou fundo.

— O porteiro pediu demissão três dias depois do crime.

Eu não pisquei.

— Motivo?

— Proposta melhor. Empresa de segurança privada.

— Qual empresa?

Ele deslizou o celular pela mesa e eu olhei o nome. Senti o sangue descer frio pela espinha. A empresa pertencia a um grupo que já tinha sido citado numa investigação antiga da época que eu era policial. Um grupo ligado a contratos públicos superfaturados para o departamento de polícia. Um grupo que tinha um nome que eu conhecia muito bem.

— Isso não é coincidência, Mateus.

— Não.

Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Tem mais.

Claro que tinha.

— A empresa é formalmente registrada em nome de um laranja. Mas quem realmente manda … é o mesmo Coronel que você entregou para a corregedoria naquela época.

Eu fechei os olhos por um segundo. O passado não morre. Ele espera.

— Ele perdeu contratos. Perdeu influência. Te culpou publicamente.

— Eu me lembro. — Respondi, mas para ganhar tempo.

Eu lembrava das ameaças veladas. Dos processos administrativos. Da tentativa de me desmoralizar. Mas ele não tinha conseguido. Até agora.

— E tem mais uma coisa. — Mateus continuou. — O porteiro não só foi contratado. Ele recebeu um “bônus de contratação”.

— Quanto?

Ele disse o valor. Era suficiente para comprar a moto, o computador, o celular e ainda fazer uma pequena poupança. Era pagamento por um plantão específico. O plantão que fodeu a minha vida.

Fiquei de pé. Andei até a janela. A rua parecia tranquila demais para o que estava acontecendo dentro da minha cabeça.

— Naquela época, você sabia onde estava se metendo? — Mateus disse baixo. — Você mexeu com gente grande. Gente que não aceita perder.

Eu respirei fundo.

— E essa gente não arma homicídio por impulso. Nem se preocupa com pequenos rastros deixados. Precisamos ir além.

— Eu ainda tenho algumas pistas a seguir. Não deve demorar. — Mateus concluiu.

Mateus abriu uma outra pasta.

— Eu fui além do porteiro. — Ele continuou.

Meu olhar voltou para ele.

— O dono da empresa esteve no condomínio dois dias antes do crime.

Meu coração pulou uma batida.

— Visitando quem?

Mateus sustentou meu olhar.

— Orçamento para melhoria de monitoramento integrado, mas que não passou de uma proposta.

— Mas ele chegou a mexer no sistema? — Perguntei, ansioso.

— Os técnicos passaram quase duas horas na sala do monitor, mas estavam acompanhados por algum supervisor da empresa de vigilância. O orçamento nunca foi aprovado. Nunca existiu assembleia para aquilo. Não há registro contábil.

Eu nem sabia o que dizer. As coincidências se somavam.

— E piora … — Mateus me olhou constrangido.

— Piora? Como assim? O que você quer dizer? — O interrompi.

Mateus abaixou a cabeça, preocupado com o que tinha para dizer.

— Desembucha, caralho! — Acabei perdendo a paciência, mas logo me recompus. — Foi mal, me desculpa. Para com o suspense, fala direto.

— Naquela mesma noite … — Ele continuou, mas com receio. — Ele se reuniu com uma pessoa conhecida.

— Quem, porra? Quer me matar do coração?

— O Bruno. — Mateus disse, sem me olhar nos olhos.

— Bruno? Meu sócio? Meu amigo? Seu outro patrão? — Perguntei, apenas para a informação colar na mente.

— Sim! O nosso Bruno.

— Entendi … — Falei, me sentindo derrotado.

Desde que voltei para casa, algo fez sentido de um jeito perigoso: se aquele desgraçado corrupto do passado queria vingança … se precisava de um bode expiatório … Bruno tinha acesso à minha casa … as imagens foram manipuladas … então, eu não estava diante de uma conspiração isolada, mas de uma possível traição calculada. Eu era vítima de uma articulação cruel.

Mateus me observava.

— Ricardo … isso está ficando grande demais.

Voltei a me sentar.

— Não! — Respondi, tentando me acalmar. — Está ficando claro.

Pela primeira vez, eu tinha: um funcionário comprado. Uma empresa ligada ao meu passado. Uma vingança com motivo. Uma conexão direta com alguém próximo a mim. Mas ainda faltava a peça principal, além da motivação concreta para me incriminar naquele homicídio específico: por que Bruno, se culpado, resolveu me trair?

Olhei para Mateus.

— Agora a gente para de investigar o condomínio.

Ele franziu a testa.

— Então o que fazemos?

Eu o encarei.

— A gente investiga o Bruno.

Mateus me encarou finalmente. Eu sabia que, para ele, a ideia de investigar um dos patrões não era uma simples ordem jogada ao vento. É claro que ele ficaria em conflito.

— Eu entendo o seu receio. Mas você precisa fazer uma escolha agora. Ou está comigo, ou não.

Do jeito que ele me olhava, eu podia imaginar o conflito ético e moral que ele vivia naquele momento.

— Ou … eu posso parar de pedir sua ajuda aqui, e você volta ao seu roteiro normal do dia a dia. Não vou prejudicá-lo ou exigir lealdade cega. Estamos juntos há um bom tempo já. — Falei para tentar acalmá-lo.

— Não é isso, chefe ... — Ele hesitou por um segundo. — Tudo bem. Eu faço.

Ele se levantou, decidido a cumprir meu pedido.

— Volto quando tiver novas informações. — Ele deu dois tapinhas camaradas no meu ombro. — Aguenta firme.

Mateus já estava menos tenso quando foi embora. Lealdade e respeito se conquistam. Não é uma obrigação exigida com o cargo.

A possibilidade de o Bruno estar envolvido não me atingiu como um soco. Foi pior. Foi como um peso lento, ocupando um espaço que antes era de confiança. Porque ninguém arma uma conspiração daquele tamanho, uma traição repentina, sem que ganhe algo de muito valor.

Eu não podia reagir como amigo. Ou como sócio. Se havia algo ali, eu precisava agir como investigador. Então, liguei para o meu advogado.

— Eu preciso das cópias integrais dos depoimentos. Todos. Inclusive os colhidos enquanto eu estava preso.

— Você ainda não viu?

— Não oficialmente.

Ele disse que enviaria tudo digitalizado e quando o e-mail chegou, senti o estômago apertar. Abri a pasta. Eram vários depoimentos, uma investigação bem conduzida. Funcionários do condomínio. Vizinhos. Equipe técnica e policiais que responderam à ocorrência. E lá estava: Bruno Almeida.

Respirei antes de abrir. O depoimento era técnico. Objetivo. Ele confirmava que eu trabalhei normalmente naquele dia, mas não tinha muitas informações a dar, já que ele saiu do escritório logo após o almoço. Comentava que eu parecia tenso. Sobrecarregado. Nada que me incriminasse diretamente. Mas também nada que me defendesse com firmeza. Era um texto neutro demais para quem me conhecia por toda uma vida.

O próximo depoimento prendeu minha atenção. Mariana, minha esposa. Cliquei. Dados básicos. Estado civil. Tempo de casamento. Passei os olhos até chegar ao trecho da tarde.

“Por volta das 16h30, recebi a visita de Bruno Almeida em minha residência. Ele permaneceu no local por aproximadamente quarenta minutos”.

Parei. Voltei uma linha. Li de novo. Ela tinha colocado Bruno lá. Oficialmente. No papel. No inquérito. Segui lendo, mais devagar:

“Bruno esteve na residência para conversar, o que sempre fazia, inclusive tendo liberação de entrada direta no condomínio”.

Nada além disso. Sem detalhes excessivos. Sem dramatização. Objetivo. Mas o horário me prendeu: 16h30. Quarenta minutos presente. Isso colocou Bruno saindo por volta das 17h10.

Me recostei na cadeira. Minha mente começou a organizar os blocos. Bruno esteve no apartamento naquela tarde. Estava documentado. Não era suposição. Então por que, em todo esse tempo, eu nunca tomei conhecimento daquilo?

Mariana encerrava o depoimento afirmando que, após a saída de Bruno, permaneceu sozinha no apartamento. Nenhum outro visitante. Nenhum barulho incomum. Nada. Formalmente, estava tudo limpo. Limpo demais.

Fechei o documento. Eu não estava apenas tentando provar minha inocência. Eu estava começando a perceber que talvez tivesse ignorado peças fundamentais … justamente porque confiava demais nas pessoas envolvidas. E confiança, eu sabia melhor do que ninguém, era o melhor álibi que alguém poderia ter.

Encontrei Mariana na sala, sentada no sofá. Ela estava mexendo no celular, mas o olhar não estava ali. Meus pais tinham ido à igreja e aquele era o momento perfeito para conseguir respostas.

— Mari … a gente pode conversar um pouco?

Ela levantou os olhos. Cansados. Mas confiantes.

— Claro.

Me sentei ao lado dela, deixando uma distância pequena. Não queria que parecesse interrogatório. Queria que parecesse … cuidado. Segurei suas mãos.

— Pode parecer estranho … e eu sei que você não gosta de revisitar aquilo. Eu também não gosto. Mas eu preciso que você me fale de novo sobre o dia em que tudo aconteceu no nosso apartamento.

Ela respirou fundo. O corpo já reagindo antes da mente.

— Eu já contei tudo …

— Eu sei. E eu acredito em você. — Mantive o tom baixo. — Isso é para mim. Não para a polícia.

Ela assentiu.

— Eu acordei com o barulho … gritos, pancadas na porta. Eu ainda estava meio aérea, sonolenta … tudo parecia um pesadelo. Eu demorei alguns segundos para entender que era real.

Eu balancei a cabeça, ouvindo.

— Não, antes disso …

Ela franziu a testa.

— Como assim?

— Antes de você acordar. Ou melhor, antes de ir dormir. Quero entender o seu dia. Desde o começo.

Ela piscou, organizando a memória.

— Eu fui trabalhar normalmente …

— Você ficou até que horas no trabalho?

Ela hesitou um segundo.

— Eu … eu saí mais cedo.

— Por quê?

— Eu não estava me sentindo bem. Tontura. Enjoo. Achei melhor ir ao médico.

Mantive o olhar fixo, mas neutro.

— Você não me contou isso. Então posso acreditar que não foi nada sério. — Mantive o tom carinhoso. — Que horas você chegou em casa?

— Acho que umas três e meia … quase quatro.

Peguei o celular devagar, como quem consulta algo casual.

— No seu depoimento você disse que o Bruno esteve lá por volta das quatro e meia da tarde, correto?

Ela ficou imóvel por um segundo.

— Sim … ele passou lá.

— Como ele soube que você estava em casa?

— Eu … eu devo ter contado. Acho que nós nos falamos por mensagem.

— Por mensagem?

— Sim.

— Você que chamou ou ele que apareceu?

O silêncio durou mais do que deveria.

— Ele meio que apareceu, sei lá …

Eu assenti lentamente.

— E sobre o que vocês conversaram? Algo que eu precise saber?

Ela mordeu o lábio, nervosa.

— Não é incomum o Bruno ir em casa. Ele sempre ia. Com você lá ou sem.

— Ele ficou quanto tempo?

— Uns quarenta minutos. Talvez mais, talvez menos.

— E sobre o que vocês conversaram? Por favor, é importante.

— Sobre você … sobre nós … sobre nosso aniversário de casamento … sobre o trabalho … sobre … — ela não completou a frase.

Ela parecia querer confessar alguma coisa, mas eu não forcei. Queria honestidade, não podia parecer desconfiança, acusação.

— Foi uma semana complicada … — Ela continuou. — Você estava diferente, Ricardo. Fechado. Ele também percebeu. Não que você estivesse distante, zangado ou coisa assim. Você só parecia muito focado em algo no trabalho.

Eu segurei a reação, precisava ir mais além.

— E depois que ele saiu?

— Eu me deitei. Eu estava cansada. Muito cansada. Apaguei.

— Você trancou a porta?

— Eu não. — Ela disse, direta. — Bruno viu que eu não estava bem e me ajudou a ir para o quarto. Ele se despediu, me falou para descansar e se foi.

— Tem certeza?

Ela me encarou, desconfortável.

— Você está achando que eu fiz alguma coisa?

Eu apertei a mão dela.

— Eu estou achando que perdi detalhes. E detalhes, agora, são tudo o que eu tenho.

A sala ficou em silêncio. Ela desviou o olhar.

— Mas … tem algo que você precisa saber …

Eu acariciei suas mãos, a encorajando.

— Você sabe que pode ser honesta comigo, Mari. Nós já passamos por muita coisa … coisa ruim, para mantermos segredos do outro agora.

Ela me olhou com um certo receio, uma ansiedade crescente e soltou:

— Eu saí mais cedo do trabalho naquele dia, depois do almoço para ser mais exata, porque estava me sentindo estranha desde cedo. Achei que fosse alguma coisa errada comigo … enjoo, tontura … fui quase por impulso ao médico.

— E?

Ela engoliu seco.

— E não tinha nada de errado comigo. — Ela pausou a fala, respirou fundo e então soltou: — Eu estou grávida, Ricardo.

O ar desapareceu dos meus pulmões. Não falei nada de imediato. Só a encarei, tentando encaixar aquela informação em meio ao caos dos últimos meses.

— Grávida … — Repeti, baixo.

— Eu descobri naquele dia. Antes de tudo acontecer. Eu ia contar naquela noite… Era para ser o seu presente de aniversário de casamento …

Eu não sabia o que falar, mas ela continuou.

— E o Bruno apareceu, brincando, perguntando se ia ter festa …

— E você contou para ele … — Minha voz finalmente voltou.

— Sim! — Ela confirmou. — Eu precisava contar para alguém. Eu estava nervosa, confusa … você tinha saído cedo, achei que tinha esquecido a data, e eu não queria te preocupar antes de ter certeza.

Eu continuei olhando para ela.

— E depois?

— Depois eu comecei a passar mal de novo. Ele me trouxe um copo com água. Disse que eu devia descansar antes de pensar em qualquer coisa, já que eu queria preparar um jantar mais romântico para comemorar nosso dia e dar a notícia.

Ela respirou novamente antes de continuar.

— Eu me deitei, Bruno saiu … e eu apaguei. Saí do ar mesmo…

Ela fechou os olhos por um instante.

— Quando acordei … quando saí do quarto, você já estava algemado, sendo levado … e tinha aquele homem morto no nosso corredor …

A sala ficou pequena demais para tudo aquilo. Eu respirei fundo. “Grávida. Bruno presente. Sonolência. Horários que não fechavam”. Eu não via mentira nos olhos dela. Via medo. E talvez arrependimento.

— Por que você não me contou antes? — Perguntei, ainda carinhoso.

A voz dela falhou.

— Porque no meio de tudo aquilo … parecia pequeno. Você … nós tínhamos coisas muito mais importantes para nos preocupar …

Ali não havia conspiração. Havia culpa. Havia silêncio acumulado. E talvez o erro de confiar na pessoa errada.

— Você acredita que o Bruno teve a ousadia de me perguntar se o filho era dele? — Ela disse, avaliando minha reação.

Mariana percebeu minha hesitação.

— Você é o meu marido, o único homem com quem eu me relaciono sem proteção. Só você, ninguém mais.

Eu precisava dizer alguma coisa, qualquer coisa.

— Esse é o problema de se viver um estilo de vida alternativo. Preservativos também falham, também podem ser manipulados …

Mariana emburrou a cara de vez:

— Você não ficou nem um pouco feliz com a notícia? Talvez eu tenha feito certo em não contar … — Ela resmungou.

Abracei minha esposa como há muito não fazia.

— Desculpa! Minha mente estava em outra rotação … ainda está investigando tudo. Mas isso … isso muda tudo.

Foi a primeira vez, em muito tempo, que eu sorri genuinamente.

— Nós vamos ser pais … Nossa! Meus pais vão pirar com a notícia …

Fomos interrompidos pelo toque do celular no meu bolso. Eu ainda estava com Mariana nos braços. Olhei o nome na tela e meu coração disparou. Era o Sérgio, o perito. O timing quase me fez rir.

— Eu preciso atender. — Disse, soltando Mariana.

Ela assentiu, enxugando os olhos. Saí da sala em direção ao quintal, fechando a porta com cuidado. Só então atendi.

— Fala, Sérgio.

Do outro lado, a voz dele estava diferente. Técnica. Contida.

— Acabei de enviar meu parecer. Está no seu e-mail.

Coloquei a ligação no viva-voz e busquei o arquivo, fazendo uma primeira leitura mais ansiosa. Ele começou a explicar:

— Não foi uma ação simples. — Ele disse. — Não é uma edição de vídeo convencional.

— Então o que é?

— É substituição de sequência com preservação estrutural. As imagens não foram alteradas naquele ponto específico. Elas foram reconstruídas. O que aparece como sendo você chegando ao prédio, na verdade, é um trecho substituído, retirado de outro dia. O padrão de compressão, para quem sabe o que faz, é claro. Cada gravação tem um “ruído digital” próprio do dia, da iluminação, da taxa de fluxo do sistema. Essas imagens aqui têm assinatura compatível com outra data arquivada no servidor.

— Outra data? Quando?

— Três semanas antes do crime.

— Coincidência? — Perguntei.

— Não. Seleção. Quem fez isso buscou imagens suas em horários próximos, com a mesma roupa, corte de cabelo compatível, iluminação equivalente … depois sincronizou com o log do sistema, ajustando o carimbo de data para bater com o dia do homicídio.

Senti um frio percorrer a espinha.

— Isso é possível sem deixar rastro?

— Para um usuário comum, não. Para alguém com acesso administrativo ao servidor e conhecimento técnico avançado … sim.

— Tem mais uma coisa — Sérgio continuou. — As imagens externas, da entrada de veículos, também apresentam inconsistência de fluxo. Frames repetidos em ciclos quase imperceptíveis. É como se alguém tivesse “preenchido” o intervalo para evitar lacunas.

Preenchido. Não editado. “Preenchido”.

— Então sou eu, mas não naquele dia, naquele horário? — Falei, mais para mim do que para ele.

— Tecnicamente, o que eu posso afirmar é que as gravações apresentadas como prova não são todas originais do dia do fato. São composições.

Respirei fundo.

— Você consegue formalizar isso?

Do outro lado, o silêncio veio antes da resposta.

— Não. — Eu já sabia que ele diria aquilo. — Essa análise não tem valor processual. Não foi determinada pelo juiz, não houve cadeia de custódia oficial, não foi feita com espelhamento autorizado do servidor. É um laudo técnico particular. Serve para orientar sua estratégia. Mas não derruba a prova nos autos.

A verdade estava ali. Eu sabia. Ele sabia. Mas para a Justiça aquilo ainda era apenas uma opinião.

— Se você quiser levar isso adiante, vai precisar que seu advogado requeira perícia judicial formal. — Ele concluiu. — E isso vai levantar suspeitas. Quem manipulou vai saber que você descobriu.

Fiquei olhando para a imagem congelada na tela. Eu entrando no prédio. Um eu fabricado, de outro momento.

— Obrigado, Sérgio.

— Ricardo … isso foi profissional. É coisa de quem sabe o que faz. É construção.

Nos despedimos, agradeci e desliguei. Fechei o arquivo devagar. Agora eu tinha certeza. Eu estava enfrentando alguém que planejou cada detalhe para que eu parecesse culpado. E essa pessoa acreditava que tinha feito um trabalho perfeito.

Ouviu passos atrás de mim. Era Mariana.

— Tudo bem? Alguma novidade? — Ela estava curiosa e preocupada.

— Poderia ser pior, mas pelo menos já existe uma pequena luz no fim do túnel.

Ela sorriu, mas meio confusa e sem jeito.

— Vem. — Eu a abracei novamente. — Acho que está na hora de a gente ter aquele jantar de aniversário. E não somente por nós dois, concorda?

A cozinha virou nosso território neutro naquela noite. Nada de tensão, nada de interrogatório. Só panelas, risadas tímidas e uma tentativa honesta de normalidade. Mariana cortava os legumes enquanto eu mexia o molho. De vez em quando nossas mãos se encostavam de propósito. Pequenos gestos que diziam mais do que qualquer discurso.

Não era um jantar sofisticado. Era simbólico.

Quando estávamos terminando de arrumar a mesa, meus pais chegaram. A notícia da gravidez foi dada ali mesmo, entre risadas e lágrimas. Minha mãe chorou como se estivesse esperando por aquilo há anos. Meu pai me abraçou com força — o tipo de abraço que mistura orgulho e pedido silencioso para que eu não estrague tudo de novo.

Depois do jantar, improvisamos uma sessão de cinema na sala. Um filme qualquer, escolhido mais para preencher o silêncio do que para prestar atenção. Mariana estava encostada em mim no sofá. Em alguns momentos, eu sentia a respiração dela desacelerar, tranquila, como se finalmente tivesse encontrado um ponto de apoio.

Naquela noite, quando fomos para o quarto, não houve pressa. Não houve culpa. Não houve comparação com ninguém. Houve reconexão. Fizemos amor calmo e carinhoso. Não houve juras de amor ou promessas que não seriam cumpridas, não éramos mais assim. Houve entendimento e vontade de seguir em frente.

Mais tarde, deitado ao lado dela, ouvindo sua respiração se tornar profunda, satisfeita, o corpo relaxado, a mão pousada sobre meu peito como quem reivindica um território antigo, memórias voltaram a inundar minha mente.

O teto do quarto da casa dos meus pais sempre teve a mesma pequena rachadura no canto esquerdo. Eu costumava encará-la quando era adolescente, imaginando o futuro. Nunca pensei que estaria ali de novo, adulto, casado, investigado por homicídio … prestes a ser pai.

A vida não segue uma linha reta. Eu sabia melhor do que ninguém.

{…}

Sete anos atrás:

Voltei, em pensamento, ao dia em que deixei nosso apartamento após aquela conversa definitiva, cheia de acusações e revelações da Mariana.

Naquela época, eu era um homem movido pelo orgulho, jamais permitiria que pisassem em mim, independentemente do motivo. Traí, fui traído e decidi que seguiria em frente sozinho.

Depois do colapso, a confissão dela, minha reação visceral e o silêncio fúnebre que se instalou na casa, eu simplesmente saí. Não bati a porta, nem fiz escândalo. Apenas arrumei uma mala pequena, peguei algumas roupas, meu notebook pessoal e parti.

Nos primeiros dias, na casa dos meus pais, a sensação era de força. Quase de superioridade. Logo aluguei uma quitinete mobiliada no centro: pequena, funcional e absolutamente impessoal. Tinha paredes brancas, cheiro de desinfetante barato e um silêncio que, estranhamente, parecia me respeitar. Era exatamente o que eu julgava querer.

Mariana ligou nos dias seguintes. Não atendi. Bruno também enviou mensagens após a ruptura da sociedade. Um texto prolixo, tentando "explicar" o inexplicável. Dizia que nunca teve a intenção de me magoar, que as coisas "simplesmente aconteceram". Eu o bloqueei sem terminar a leitura.

Durante as primeiras semanas, a ofensiva foi constante: ligações, mensagens, e-mails. Eu respondia com uma frieza cortante ou simplesmente ignorava. Precisava provar a mim mesmo que era autossuficiente. Mas seguir em frente é um exercício hercúleo quando você decide renunciar a tudo simultaneamente.

Eu deixei a agência. No papel, a saída foi amigável. Bruno tornou-se o único proprietário. Fizemos um acordo e saí com o mínimo que me era devido, nada que garantisse estabilidade a longo prazo. Foi uma decisão baseada puramente no ego. Eu não queria dividir clientes, não queria dividir o espaço, não queria sequer dividir o mesmo ar que ele.

Contudo, ao sair, deixei para trás a equipe, a estrutura, o banco de dados e a tecnologia que eu ajudei a construir. Sem a agência, eu era apenas um investigador de boa reputação munido de um notebook e de uma câmera de alta resolução — que parcelei a perder de vista.

Passei a aceitar casos pequenos. Traições conjugais compunham a maior parte da agenda. Esposas desconfiadas, maridos inseguros, noivos paranoicos. Eu passava horas confinado no carro, fotografando flagrantes em motéis de quinta categoria, abraços em estacionamentos de shoppings e beijos furtivos em bares escuros. Era uma ironia cruel: o detetive traidor/traído documentando a infidelidade alheia.

Os pagamentos eram modestos. Alguns clientes atrasavam, outros tentavam barganhar descontos após eu já ter entregado provas suficientes para implodir um casamento. Também peguei investigações corporativas menores — furtos de mercadoria ou sócios ocultando faturamento. Nada que exigisse genialidade.

Sem equipe, eu era o exército de um homem só: vigilância, relatório, edição de vídeo e entrega. Às vezes errava o ângulo da câmera; às vezes perdia o timing por ter que manobrar o carro, ajustar o equipamento e observar o alvo ao mesmo tempo. Sentia falta da estrutura. Sentia falta do Mateus organizando o caos dos dados. Sentia falta até das discussões com o Bruno, embora odiasse admitir.

As noites eram o pior momento. Eu tentava me convencer de que estava "desfrutando da liberdade". Era mentira. Pedia comida por aplicativo quase todas as noites. O lixo acumulava-se rápido demais para alguém que pretendia ter a vida sob controle. A televisão ficava ligada até de madrugada, servindo mais como ruído branco para preencher o vazio do que por entretenimento. Dormia mal. A cama parecia um deserto.

O celular vibrava ocasionalmente com mensagens da Mariana. Eu as lia, mas não respondia. Em outras noites, ela não enviava nada, e o silêncio da solidão doía mais do que as palavras.

Bruno também tentou contato, mesmo bloqueado. Primeiro com desculpas esfarrapadas por e-mail, depois com uma postura defensiva, justificando-se antes mesmo de ser acusado. Eu permanecia em silêncio. Estava ferido demais para qualquer diálogo. Mas havia algo que me corroía mais do que a traição: a sensação de ser substituível. De ter sido meramente conveniente.

Trabalhando sozinho, percebi uma verdade amarga: eu sempre fui o pilar técnico da dupla. O metódico, o obsessivo. Bruno era o carisma, o comercial, o administrador. Mas os casos complexos … aqueles eram meus. Ali, editando fotos de um marido infiel, eu me dava conta de que havia jogado fora não apenas um casamento, mas a minha própria criação profissional.

Mariana não desistia. Às vezes aparecia no meu prédio. O porteiro interfonava e eu ordenava que dissesse que eu não estava. Ela deixava mensagens de voz longas. Não implorava, não dramatizava; apenas dizia que queria conversar, que as coisas não precisavam terminar daquela forma sórdida. Eu me mantinha irredutível. Não por convicção, mas por teimosia.

O orgulho sustenta um homem por algum tempo, mas não o alimenta. Enquanto eu fingia progredir, a realidade batia à porta: eu estava sobrevivendo mal. Sem estrutura, sem sono, com dinheiro escasso e sem uma direção clara.

Consultei dois advogados para entender minhas opções no divórcio. Ambos foram pragmáticos:

— Divórcio litigioso é caro.

— Haverá partilha de bens.

— Honorários elevados.

— Tempo. Muito tempo.

Saí dos escritórios com orçamentos que me provocaram risos de incredulidade. O financiamento do nosso apartamento continuava vencendo. O banco não se sensibiliza com adultério. Meu nome estava na escritura, no contrato e na dívida. Meus novos casos não cobriam o custo de manter dois imóveis.

Fiz as contas na mesa da quitinete alugada. Planilha aberta, boletos vencendo, cartões no limite. O orgulho é um luxo caro. O divórcio, ainda mais. Foi por desespero — e não por saudade ou amor — que aceitei encontrá-la.

Fui ao nosso apartamento. Ela abriu a porta como se estivesse esperando há horas. Sem maquiagem, sem armaduras. Apenas exausta. Continuava muito bonita, sempre foi.

Entrei sem cumprimentá-la fisicamente e fui direto ao ponto:

— Falei com advogados.

Ela fechou a porta com lentidão.

— Eu também.

— Não dá … — Eu disse, arremessando a pasta com os orçamentos sobre a mesa. — Não agora.

— Eu sei. — Ela suspirou.

Eu não queria discutir sentimentos, queria resolver a logística.

— O financiamento e as contas não param. Eu não consigo manter dois lugares, e você também não.

— Não quero te destruir financeiramente, Ricardo.

— Não se trata de destruição. É matemática.

— Poderíamos tentar terapia … — Ela arriscou. — Conversar de verdade. Você poderia tentar entender o que eu estou vivendo, o que descobri sobre mim …

— Eu não quero entender. — Cortei. — Não quero conhecer novos estilos de vida, nem experimentar nada.

A palavra saiu seca, quase cortante.

— Então o que você quer? — Ela perguntou com os olhos marejados.

— Quero que sobrevivamos a isso financeiramente. Cada um na sua. Quando for possível pagar um divórcio sem implodir tudo, formalizamos.

Ela ficou em silêncio. O discurso ideológico deu lugar à realidade nua.

— Minha avó se foi, eu não tenho mais ninguém. — Ela disse, mais baixo. — Se você concordar, eu quero ficar aqui. Não tenho para onde ir e já dividimos os custos. Poderíamos até … ser colegas de quarto. Seria melhor para os dois.

Eu soltei uma gargalhada feia.

— Colegas de quarto? — Disparei, a voz carregada de veneno. — Pra eu ver minha ex-esposa puta, marmita de casal, trazendo seu casal de amantes para dentro da minha casa e esfregando na minha cara?

O insulto ficou suspenso no ar, pesado e irremediável. Ela empalideceu, mas não gritou.

— Você pode me odiar, mas não precisa me ofender. — Ela disse, com uma dignidade que me incomodou. — Você não é vítima aqui, Ricardo. E eu nunca trouxe ninguém para nossa casa. Não faria isso agora.

— E você acha que isso muda algo?

— Muda para mim.

Aquela frase me desarmou.

— Fica no apartamento. — Eu disse, enfim, massageando o rosto tomado pelo cansaço. — Eu vou continuar pagando a minha parte. O financiamento já está no fim, não faz sentido entregarmos agora. Vamos viver cada um a sua vida, sem interferências, sem cobranças e sem contato … até que possamos resolver isso definitivamente.

— Está bem. — Ela disse apenas.

Simples assim. Sem abraços ou promessas. Apenas dois adultos quebrados firmando um armistício financeiro. Saí de lá me sentindo menor do que quando entrei. Não era o amor que nos unia, eram os boletos.

Tentei manter a quitinete alugada por teimosia pura, pagando uma conta e meia de luz, água e internet — Mariana precisava arcar com a parte dela, e eu não cederia um centavo além do combinado. Era um esforço financeiro absurdo, duas vidas sendo sustentadas por um homem só, mas era a prova de que eu não precisava voltar atrás.

Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo. Até o dia em que meu pai ligou.

— Sua mãe passou mal. Foi um AVC. Forte. — A palavra ecoou como um disparo seco.

AVC. Não houve preparação. Não houve suspeita anterior. Apenas um colapso repentino durante o café da manhã. Eu dirigi até o hospital sem lembrar do trajeto. O médico falava em termos técnicos — acidente vascular isquêmico extenso, necessidade de intervenção rápida, risco nas primeiras quarenta e oito horas, possível comprometimento motor do lado esquerdo — mas tudo parecia distante. Eu só conseguia pensar em uma coisa: minha mãe, que sempre foi a fortaleza da família, estava agora deitada numa UTI.

Quando virei o corredor em direção à sala de espera, vi todo mundo ali. Meu pai estava sentado, mãos entrelaçadas, olhar fixo no chão. Parecia menor. Envelhecido em questão de horas. Um ou outro parente presente, e logo atrás, Mariana e Bruno. Próximos demais.

Passei por eles como se fossem invisíveis. Não era raiva. Era incapacidade. Eu não tinha espaço emocional para mais nada além daquele medo bruto que esmagava meu peito.

Quando entrei no quarto e vi minha mãe pálida, entubada, ligada a monitores que apitavam em ritmos impessoais, entendi que existiam problemas muito maiores que meu orgulho, meu casamento fracassado ou qualquer teoria de traição.

Saí minutos depois, ainda atordoado. Eles continuavam ali. Mariana estava com os olhos vermelhos. Bruno falava baixo com meu pai, tentando organizar alguma coisa burocrática. Eu passei direto outra vez.

O neurologista explicou que o atendimento rápido evitou um dano ainda maior. Haveria sequelas. Provavelmente dificuldades motoras. Talvez a fala comprometida. Seria um processo longo de reabilitação. Meses. Quem sabe mais.

Eu sabia, naquele instante, que não conseguiria atravessar aquilo sozinho.

— Posso ficar com ela amanhã cedo, se você precisar resolver alguma coisa. — Mariana se ofereceu, a voz firme apesar do cansaço.

Eu ia recusar por reflexo. Mas lembrei que elas tinham uma relação que sempre me pareceu mais forte do que a minha própria com minha mãe. Minha mãe a tratava como filha. E não fazia ideia do caos que existia entre nós.

— Faz o que quiser. — Respondi, seco.

Bruno tentou se aproximar.

— Ricardo, eu …

— Agora não. — Levantei a mão. Não era discussão. Era limite.

A conta simplesmente não fechava mais. UTI, exames, fisioterapia, medicações caras. E o aluguel da quitinete que eu insistia em chamar de independência. Rescindi o contrato em silêncio e entreguei as chaves alguns dias depois. Doeu. Aquele lugar era o símbolo de que eu ainda tinha controle sobre alguma coisa. Eu não tinha.

Voltei para a casa dos meus pais com o orgulho esfarelado. Minha mãe saiu da UTI e recebeu alta uma semana depois.

Mariana passou a ser presença constante. Meu pai comentou que ela conseguiu uma licença sem remuneração no trabalho. Três meses. Talvez mais, se necessário. Ela organizava horários de fisioterapia, anotava perguntas para os médicos, pesquisava protocolos de reabilitação neurológica. Conhecia enfermeiros pelo nome. Aprendeu a ajudar minha mãe a movimentar o braço afetado com cuidado, paciência e uma delicadeza que me desmontava.

Meu pai, exausto, aceitava tudo com gratidão. Eu fingia indiferença.

Nos corredores do hospital, éramos tratados como um casal unido enfrentando a adversidade. Em casa, éramos o filho e a nora exemplares.

A convivência é perigosa. Ela corrói certezas que a gente jurava inabaláveis. Eu a via sorrir para minha mãe durante os exercícios de fala. Às vezes, a encontrava no quintal, chorando em silêncio antes de voltar para dentro com o rosto recomposto. Ela não estava ali por conveniência. Não havia vantagem naquela rotina exaustiva. Ela estava ali porque se importava.

Uma noite, encontrei-a na cozinha, apoiada na pia, olhando para o nada.

— Você deveria ir descansar. — Eu disse.

Ela ergueu os olhos, cansada.

— Eu estou descansando. Estar aqui é o que faz sentido agora.

— Digo, deveria ir para casa.

— Eu estou em casa. — Ela disse com convicção.

A frase ficou entre nós. Eu não respondi. Sabia que as conversas difíceis viriam. Sobre traição. Sobre escolhas. Sobre o estilo de vida. Mas naquele momento, tudo girava em torno da recuperação de uma mulher que lutava para reaprender a mexer a própria mão, para voltar a falar normalmente.

Coexistíamos como dois sobreviventes dividindo a mesma trincheira. E aquela proximidade forçada não era neutra. Estava preparando o terreno.

Mas, por enquanto, o silêncio era a única trégua possível. Porque existem dores que reorganizam prioridades, e deixam o resto esperando, quieto, até que a guerra maior passe.

Continua…

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Comentários

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O capítulo mais esclarecedor até agora, para mim o tipo de relacionamento dos dois era meio óbvio, eu tinha uma pequena dúvida da participação da Mariana, no capítulo anterior eu já imaginava que ela não tinha nada a ver e nesse isso ficou mais claro. (Posso estar errado)

Se o que eu estou pensando for verdade, Bruno é realmente um cara mau e Mariana apenas uma mulher que errou em suas escolhas, assim como Ricardo. Não vejo Mariana como uma pessoa má, nem Ricardo, mas os dois erraram feio nas suas escolhas, na minha humilde opinião. Porém se Bruno está mesmo envolvido, aí ele não só errou nas escolhas, mas também é um cara de mau, que não mete esforços para conseguir o que quer

Porém acho que teremos alguns surpresas ainda e falta algumas partes do passado para serem contadas, a história está em aberto e está ótima por sinal 🤩

Provavelmente eu seja o único que torce pelo casal, mas pelo que li até aqui, estou torcendo para que no fim eles fiquem juntos 🤷🏻‍♂️

Ótimo capítulo 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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Muito trama excepcional os fatos se revelando , como disse em um capítulos anteriores parece um suspense de escritores famosos mas feito por um excelente escritor Lukinha

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E digo mais o Beto do Mark deveria contratar o Ricardo em vez do Zico com Sara rrsss

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Ninguém entende a mulherada.

Quando trai sempre tem uma razão, ou é pra sentir viva , ou é pq o marido nao dava atenção e por ai vai .

Acredito q se a esposa tivesse se abrido de verdade a relação poderia estar forte mesmo com a traição

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Então foram os boletos que fizeram eles ficarem juntos de novo.

Triste.

Real.

Ela tinha mais parceiros. Ricardo sabia.

Era um casamento não por interesse nem por amor. Por dividas.

Realidade crua...

Toca fundo na alma.

Mas o Bruno continuava ressentido para aceitar a armação? Essa ponta segue solta. Mas pelo pouco elucidado, o caminho para ele ficou livre.

Ele não tinha do que reclamar.

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Tem mais do que apenas os boletos. É que essa parte da história ficou muito grande e eu precisei dividir. Na próxima trarei mais detalhes e esclarecimentos.

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Então seria interessante não demorar muito para publicar “a continuação” !!! 👍👍👍

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Pretendo postar na segunda.

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Pra que deixar pra segunda o que podemos ler hoje???

Kkkkk ótimo conto Lukinha

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Muito bom. Pelo jeito Ricardo aceitou o novo estilo de vida, pois ela disse que só com ele q ela faz sem preservativo.

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Excelente Lukinha! Lerei com calma, mas acho que alguns mistérios devem começar a se desvendar

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Cada vez mais eu fico impressionada com a qualidade dos textos do Lukinha.

Na profundidade exata para dar elegância e fluência ao texto.

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