Verão no Sítio (Capítulo 3)

Da série Verão no Sítio
Um conto erótico de Hot♡
Categoria: Homossexual
Contém 1305 palavras
Data: 02/02/2026 09:01:29
Assuntos: Gay, Homossexual

“Confissões”

A casa estava silenciosa demais para o gosto de Tiago. Só o zumbido distante de um grilo teimoso no pomar, o tique-taque lento de um relógio de parede na sala e, de vez em quando, o ranger da madeira velha se acomodando na noite. Ele estava deitado na cama de casal, lençol azul-marinho puxado até a cintura, braços atrás da cabeça, encarando o teto de vigas expostas. A janela aberta deixava entrar uma brisa morna que balançava levemente a cortina fina.

Ele ainda sentia o corpo pesado do orgasmo no chuveiro. Não era cansaço — era o tipo de moleza que vem depois de algo proibido, quando o cérebro tenta convencer o corpo de que tudo foi só imaginação.

Mas não foi.

O nome de Daniel ainda ecoava na cabeça dele como uma música que não sai. Ele virou de lado, abraçando o travesseiro, e tentou se concentrar na respiração. Inspirar contando até quatro. Segurar. Expirar contando até seis. A técnica que a psicóloga tinha ensinado na última consulta, meses atrás, quando o término com Lucas deixou ele acordando de madrugada com o peito apertado.

Funcionou por uns trinta segundos. Depois ele ouviu um barulho baixo vindo do quarto ao lado: o estalo de uma cama, um suspiro longo, o som de alguém se virando. Daniel também não dormia.

Tiago sentiu um arrepio subir pela nuca. Imaginou Daniel deitado de bruços, sem camisa, lençol embolado na cintura, músculos das costas se movendo a cada respiração. Imaginou o cheiro dele — suor limpo, sabonete, um resto de fumaça da churrasqueira. Imaginou se aproximar da porta, bater de leve, entrar no escuro e…

Parou.

“Para, caralho.”

Ele se sentou na cama, passou as mãos no rosto. O quarto estava escuro, só a luz fraca da lua entrando pela janela. Olhou o relógio no celular: 11:57. Tinha chegado fazia menos de seis horas e já estava assim.

Resolveu levantar. Talvez um copo d’água ajudasse. Ou talvez só precisasse andar pela casa, sentir o chão frio nos pés, lembrar que era real, que aquilo era só um sítio, só um primo, só um lugar de descanso.

Abriu a porta devagar. O corredor estava iluminado apenas pela luz da geladeira que vazava pela cozinha. Passos leves, descalço. Chegou na sala e parou.

Daniel estava lá.

Sentado no sofá velho de couro, sem camisa, só de calça de moletom cinza que pendia baixa nos quadris. Pernas abertas, cotovelos nos joelhos, cabeça baixa, olhando para o chão como se estivesse resolvendo um problema matemático impossível. A luz amarelada da cozinha batia no ombro largo dele, destacando cada relevo dos músculos. O peito subia e descia devagar. Sem barba, sem pelos no tronco — só a pele clara, lisa, e uma trilha fina e aparada que começava no umbigo e desaparecia dentro da calça.

Tiago ficou parado na sombra do corredor, coração na garganta. Não conseguia se mexer.

Daniel ergueu o rosto de repente, como se tivesse sentido o olhar. Os olhos castanhos encontraram os de Tiago no escuro. Por um segundo nenhum dos dois falou.

Depois Daniel sorriu — um sorriso pequeno, cansado, mas quente.

— Não consegue dormir?

Tiago engoliu em seco. A voz saiu rouca.

— Não. E tu?

— Também não. — Daniel deu um tapinha no sofá ao lado dele. — Vem aqui. O silêncio lá fora tá gritando.

Tiago hesitou dois segundos. Depois andou até o sofá e sentou, mantendo uma distância segura. O couro estava quente onde Daniel tinha estado. Ele sentiu o calor subir pela coxa nua.

Daniel se recostou, braços abertos no encosto do sofá, ocupando espaço como sempre fazia. O movimento fez os músculos do peito flexionarem de leve.

— Lembra quando a gente era moleque e ficava acordado até de madrugada assistindo filme de terror na casa da vó? — perguntou Daniel, voz baixa, quase sussurrada.

Tiago riu nervoso.

— Lembro. Tu me convencia que o Freddy Krueger era só um cara com luva de unha postiça e depois eu ficava uma semana sem dormir.

— E tu chorava no meu colo — completou Daniel, olhando para ele de lado. — Eu gostava disso. De te proteger.

O ar ficou mais denso. Tiago sentiu a pele arrepiar.

— Tu sempre foi o corajoso da dupla — murmurou.

Daniel deu de ombros, mas o gesto não foi casual.

— Nem sempre. Tinha coisas que eu tinha medo também.

— Tipo o quê?

Daniel demorou para responder. Olhou para as próprias mãos, dedos entrelaçados.

— De falar o que eu sentia. De admitir que nem tudo era como eu fingia que era.

Tiago sentiu um frio na barriga. Não era medo exatamente. Era expectativa.

— E agora? — perguntou, voz quase sumindo.

Daniel virou o rosto devagar. Os olhos dele estavam escuros, pupilas dilatadas.

— Agora eu ainda tenho medo. Mas tô cansado de fingir.

Silêncio longo. Só a respiração dos dois, sincronizando sem querer.

Daniel esticou a mão devagar, como se desse tempo para Tiago recuar. Os dedos tocaram o antebraço dele — pele quente contra pele quente. Não era um carinho inocente. Era intencional.

Tiago não recuou.

— Daniel… — começou, mas a voz falhou.

— Eu sei — Daniel cortou, suave. — Eu sei que a gente não devia. Que a família ia surtar. Que é errado pra caralho em teoria. Mas eu tô aqui há anos sozinho, depois da morte dos meus pais… pensando em você mais do que eu deveria. E tu apareceu hoje com essa cara de quem tá perdido, e… porra, Tiago. Eu não consigo mais fingir que não sinto.

Tiago sentiu os olhos arderem. Não de tristeza. De alívio, talvez. De terror misturado com desejo.

— Eu também penso em você — confessou, voz tremendo. — Faz tempo. Antes mesmo do Lucas. Eu tentava esquecer, mas…

Daniel se aproximou mais um pouco. A distância entre eles agora era de poucos centímetros. Tiago sentia o calor do corpo dele, o cheiro de sabonete e pele limpa.

— Então a gente não precisa fingir esses dias — Daniel murmurou. — Só esses dez dias. Depois a gente vê o que faz. Mas agora… agora eu só quero te olhar. Te tocar. Se tu quiser.

Tiago fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, Daniel ainda estava lá, esperando. Sem pressionar. Sem forçar.

Ele assentiu devagar.

Daniel sorriu — um sorriso pequeno, quase tímido, que contrastava com o corpo grande e confiante.

A mão dele subiu do antebraço até o ombro de Tiago, depois desceu até a nuca. Dedos fortes, mas gentis, massageando de leve. Tiago deixou a cabeça pender para trás, um suspiro escapando.

Daniel se inclinou. Não para beijar. Ainda não. Só encostou a testa na dele. Narizes roçando. Respiração misturando.

— Tu é tão lindo, sabia? — sussurrou Daniel. — Sempre foi. Eu só não podia dizer.

Tiago sentiu uma lágrima escorrer. Não de tristeza. De excesso de tudo.

— Tu também — respondeu, voz embargada.

Eles ficaram assim por longos minutos. Testas coladas, respirando o mesmo ar. Mãos se encontrando no colo um do outro. Dedos entrelaçando.

Não houve beijo ainda. Não houve pressa.

Só o reconhecimento silencioso de que algo tinha mudado. De que a linha que eles fingiam não existir tinha sido cruzada — não com violência, mas com cuidado.

Quando finalmente se afastaram, Daniel passou o polegar na bochecha de Tiago, limpando a lágrima.

— Vai dormir agora — disse, voz rouca. — Amanhã a gente conversa direito. Sem pressa.

Tiago assentiu.

— Tá.

Daniel se levantou primeiro, estendeu a mão. Tiago pegou. Foi puxado para um abraço apertado, rosto no peito largo de Daniel. Ouviu o coração dele batendo forte, quase tão rápido quanto o seu.

— Boa noite, priminho — Daniel murmurou no cabelo dele.

— Boa noite…

Tiago voltou para o quarto com as pernas bambas. Deitou na cama. O corpo ainda quente do toque. O cheiro de Daniel impregnado na camiseta.

Ele não se masturbou de novo.

Não precisava.

O que tinha acontecido na sala era mais intenso do que qualquer orgasmo solitário.

E, pela primeira vez em muito tempo, ele adormeceu sorrindo.

Continua…

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