O envelope pardo caído no chão da entrada da república parecia pesar toneladas sob a luz fria do corredor. O nome "MARTINA" estava escrito ali com uma caligrafia clássica, daquelas aprendidas em colégios de elite ou de freiras, com traços firmes, impiedosos e uma pressão da caneta que quase rasgava o papel. Era o tipo de escrita que exalava ordem e punição. Quando ela o abriu, o silêncio no corredor do segundo andar tornou-se absoluto, interrompendo o som do arrastar de móveis. Eu e Caio paramos o que estávamos fazendo, as caixas de mudança ainda abertas e pilhas de livros pelo chão, para observar o rosto dela empalidecer até atingir o tom do mármore.
A carta não era um pedido de desculpas, mas um testamento de ódio purista. O pai dela, com o orgulho ferido e o ego autoritário, descobrira a sua partida e, com uma frieza cirúrgica, decidira cortar todos os laços, financeiros e emocionais. As palavras pulavam do papel como lâminas: "Já que você escolheu ser sapatona ou namorar viados — nem eu sei o que você é com esse tipo de gente —, que viva essa libertinagem por conta própria. Não me procure. Se precisar de algo, vá atrás da puta da sua mãe". Martina deixou o papel escorregar por entre os dedos trêmulos. Uma única lágrima solitária percorreu seu rosto, mas ela não desabou; havia uma dignidade nova na sua dor.
— Eu já esperava algo assim — ela disse, com a voz firme que ecoou pelo andar vazio. — No fundo, eu já estava preparada para ser livre de verdade. O preço da minha alma só foi um pouco mais alto do que eu imaginei, mas eu pagaria de novo.
Os meses que se seguiram foram marcados por um salto temporal que transformou a nossa república em um verdadeiro refúgio de paz. As férias de julho chegaram com o inverno paranaense mais rigoroso dos últimos anos, e nós três nos fechamos naquele segundo andar como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. Criamos uma rotina doméstica deliciosa e caótica: as meninas que moravam embaixo agora eram nossas aliadas e subiam para tomar café, Dona Ester aparecia para fofocar sobre a vizinhança, e a nossa intimidade floresceu de forma orgânica. Eu raramente dormia no meu quarto no térreo; estava sempre com um dos dois no andar de cima. Muitas noites, terminávamos os três jogados na cama de casal da Martina, envoltos em edredons pesados, assistindo a clássicos do cinema ou conversando sobre o futuro até que o sol aparecesse. Entre o Caio e a Martina, o clima permanecia estritamente fraternal e de um respeito profundo, mas o carinho entre eles era imenso, unidos pelo amor que ambos sentiam por mim.
Com a volta às aulas, o Caio deu seus primeiros passos reais na carreira de Cinema. Ele começou a viajar frequentemente a trabalho como câmera e auxiliar de direção de imagem em comerciais e documentários. Ele ganhava o suficiente para um começo de carreira promissor, e sempre que voltava dessas viagens, a saudade explodia em nossas noites a dois. Nossas relações já não tinham mais papéis definidos ou roteiros de quem mandava em quem; entregávamo-nos apenas ao feeling um do outro, explorando cada centímetro de pele com uma urgência renovada.
Meu corpo era o registro vivo dessa nova fase. Meu cabelo rosa tinha "explodido" em crescimento, descendo pelas costas em ondas vibrantes, graças às vitaminas que eu tomava religiosamente para fortalecer as unhas e os fios. Agora, o rosa era minha marca registrada, usado em tranças elaboradas que a Martina fazia ou em coques altos que deixavam meu pescoço exposto. Martina, finalmente livre da repressão estética do pai, liberou sua própria feminilidade: ela começou a usar maquiagens artísticas, cuidava das unhas com esmaltes que antes eram proibidos e explorava um guarda-roupa que misturava a sua essência "muleca" com toques de sofisticação que ela agora usava por prazer, e não por obrigação.
Em uma noite particularmente fria, com o vento assobiando nas frestas das janelas de madeira e o Caio fora em uma gravação no litoral, eu e Martina estávamos sentados no sofázinho de centro do nosso andar privativo. Eu usava um pijaminha de cetim rosa chiclete que ela me emprestara de sua coleção secreta. O conjunto era clássico e imensamente delicado: uma camisa de botões de manga curta com gola entalhada e shorts curtos que deixavam minhas pernas, cobertas pela meia-calça, à mostra. O brilho acetinado do tecido refletia a luz baixa das velas que acendemos, realçando as bordas com um acabamento em debrum preto contrastante. O toque era incrivelmente macio, deslizando pela minha pele como um carinho contínuo.
Estávamos abraçados sob um cobertor, sentindo o calor um do outro e o aroma do vinho barato que dividíamos, quando Martina quebrou o silêncio com uma pergunta que pairava no ar há semanas. — Você acha que ele se sentiria traído... ou convidado... se soubesse que eu ando sonhando com o que acontece entre vocês dois quando eu não estou por perto? — ela perguntou, a voz baixa, quase um segredo compartilhado.
Aquela pergunta disparou uma descarga elétrica em meu sistema. Meu cérebro, estimulado pela liberdade que agora vivíamos, começou a linkar todas as peças do quebra-cabeça. A imagem dos dois juntos comigo — de poder unir a "Pérola" delicada que eu era com a Martina ao "menininho" devoto que eu era com o Caio — me deixou instantaneamente excitado. Eu queria a fusão total, sem segredos, sem divisões. A demora para eu responder, perdido naquela fantasia, fez com que Martina notasse a reação física óbvia sob o tecido fino e revelador do cetim rosa. Ela sentiu o volume subindo contra sua coxa e, com um sorriso enigmático de quem já sabia o que eu desejava, abaixou-se levemente, saindo do abraço.
Com uma lentidão provocante, ela abriu os botões da camisa e retirou o pijama, vendo meu pênis em riste, pulsando de antecipação sob a luz âmbar. Ela entendeu aquilo como o sinal verde definitivo para romper a última barreira. Martina se posicionou entre minhas pernas, seus cabelos loiros caindo sobre meu colo, e começou a me chupar deliciosamente. Era uma técnica que misturava a fome da saudade com a empolgação da descoberta daquele novo desejo compartilhado que agora nos envolvia. O prazer era tão intenso, tão agudo, que eu soube naquele instante: os próximos passos do nosso trio seriam monumentais e mudariam a história daquela república para sempre.
Discretamente, enquanto ela trabalhava com a boca e eu perdia o fôlego, peguei meu celular na mesa de centro. Mirei a câmera nela, capturando o contraste perfeito entre a pele dela, o brilho do meu pijama de cetim rosa e a entrega absoluta da cena. Tirei uma foto — um registro "x1" cru e carregado de eletricidade — e encaminhei para o Caio no WhatsApp com as mãos trêmulas. "Nós duas temos surpresas para quando você voltar, meu gigante. Prepare-se."
O celular de Martina, jogado no sofá ao nosso lado, vibrou quase instantaneamente com uma notificação. Era uma mensagem de áudio. Eu parei os movimentos dela por um segundo, o coração batendo na garganta, e dei o play. A voz do Caio saiu pelos alto-falantes rouca, mais profunda do que o normal, carregada de um desejo que parecia ser capaz de atravessar a tela e incendiar o quarto: — Eu acabei de ver a foto, Nick... e por Deus, eu espero que vocês ainda estejam exatamente assim amanhã à noite... porque eu cancelei a diária de amanhã e já estou pegando a estrada agora mesmo. Não comecem o show principal sem mim.
O som do áudio termina e o silêncio volta, mas agora é um silêncio carregado de promessas. Martina me olha com os olhos brilhando de malícia e vitória, voltando ao que estava fazendo com ainda mais fervor. Enquanto isso, ouço o barulho da chuva começando a apertar lá fora e imagino o farol do carro do Caio cortando a escuridão da serra em nossa direção. O que faremos quando aquele gigante atravessar a porta e encontrar nós dois mergulhados no guarda-roupa e nos desejos da Martina?
