A Loba

Um conto erótico de Fabio N.M
Categoria: Heterossexual
Contém 11654 palavras
Data: 11/02/2026 18:19:12

— Conto inspirado na música de Alcione —

PARTE I — A GATA

Acordo antes do despertador tocar.

É sempre assim. Meu corpo aprendeu a acordar às cinco e meia, mesmo nos dias em que Ricardo programa o alarme para as seis. Abro os olhos no escuro e fico alguns segundos ouvindo a respiração dele ao meu lado — pesada, regular, tranquila. A mão dele repousa no meu quadril, mesmo durante o sono. Território marcado.

Me levanto devagar para não acordá-lo. Meus pés descalços encontram o piso frio do quarto e sigo até o banheiro com a precisão de quem faz isso há anos. Não acendo a luz. Não preciso. Conheço cada centímetro desta casa.

No espelho embaçado da madrugada, meu rosto é uma sombra. Prendo o cabelo, lavo o rosto, escovo os dentes. A rotina me acalma. Sempre acalmou. Há algo reconfortante em saber exatamente o que vem a seguir.

Desço para a cozinha enquanto a cidade ainda dorme. A cafeteira italiana está onde sempre deixo — ao lado do fogão, limpa, pronta para ser usada. Encho o compartimento de baixo com água filtrada, coloco o pó no filtro (duas colheres cheias, ele gosta forte), rosqueio as partes com cuidado. O ritual matinal tem seus gestos sagrados.

Enquanto o café sobe com aquele chiado baixo e reconfortante, preparo o resto. Duas fatias de pão integral na sanduicheira. Manteiga sem sal. Geleia de morango, a que ele prefere. Suco de laranja espremido na hora — nunca de caixinha, ele diz que sente a diferença. Coloco tudo na bandeja de madeira clara que ganhamos de casamento, aquela com detalhes entalhados nas bordas.

Subo de volta com a bandeja equilibrada nas mãos. Ricardo ainda dorme. Coloco tudo na mesinha ao lado da cama dele e abro as cortinas devagar, deixando a primeira luz do dia entrar com delicadeza. Ele se mexe, resmungando algo incompreensível.

— Bom dia, meu rei — sussurro, sentando na beirada da cama.

Ele abre os olhos, demora alguns segundos para me focar. Então sorri. Aquele sorriso que me conquistou oito anos atrás, quando eu tinha vinte e quatro e achava que sabia tudo sobre amor.

— Bom dia, Isa. — A voz ainda rouca de sono. — Você é perfeita, sabia?

Sorrio de volta. Ele diz isso quase todo dia. Eu nunca canso de ouvir.

Ricardo se senta, apoia as costas na cabeceira, aceita a xícara que eu ofereço. Bebe o primeiro gole, fecha os olhos, suspira satisfeito.

— Ninguém faz café como você.

— É só café, amor.

— Não é só café. — Ele me puxa pela cintura, me traz para perto. Seu cheiro matinal, mistura de sono e colônia já quase imperceptível da noite anterior. — É amor. Você coloca amor em tudo que faz pra mim.

Apoio a cabeça no ombro dele. A mão dele sobe pelas minhas costas, devagar, desenhando a curva da minha coluna por cima do roupão.

— Hoje vou chegar tarde — ele avisa, a boca perto da minha orelha. — Reunião com cliente novo. Provavelmente só depois das nove.

— Tudo bem. Deixo seu jantar pronto.

— Você é incrível. — Ele beija minha testa, depois meus lábios. Um beijo rápido, casual, de quem tem pressa. — Tenho que tomar banho. Vai ser um dia corrido.

Eu me afasto para dar espaço. Ele se levanta, estica os braços, caminha até o banheiro. Antes de fechar a porta, olha para trás.

— Isa?

— Sim?

— Te amo.

— Também te amo.

A porta fecha. Ouço o chuveiro abrir. Fico ali, sentada na cama ainda quente dele, olhando para a bandeja do café que ele mal tocou. Uma mordida no pão. Metade da xícara. O suco intacto.

Não tem problema. Eu termino. Nunca gostei de desperdiçar.

O dia escorre pelas minhas mãos com a textura familiar de todos os outros dias.

Arrumo a cama assim que Ricardo sai para o trabalho — lençóis esticados, travesseiros batidos, colcha alisada até não restar uma única ruga. Recolho as toalhas úmidas do banheiro, coloco para lavar. Passo pano na cozinha, organizo a sala, rego as plantas da varanda. A orquídea branca está florescendo de novo. Fico alguns minutos só olhando para ela, para a delicadeza das pétalas, a curva perfeita do caule.

Às dez, saio para o mercado. A lista está na geladeira, presa com um ímã em forma de coração que compramos em Búzios, na última viagem. Alface, tomate, peito de frango, alho, cebola, azeite extravirgem. Ricardo gosta de comer bem. Diz que voltar para casa e encontrar comida quente na mesa faz ele se sentir cuidado.

Na fila do caixa, uma mulher na minha frente discute o preço de um produto. O gerente vem, constrangido, tenta resolver. Eu espero em silêncio, olhando para as revistas expostas ao lado. Capas coloridas, promessas de dietas milagrosas, dicas para apimentar o casamento, receitas para impressionar.

Como manter seu homem interessado.

Pego a revista, folheio distraída. Lingerie, velas perfumadas, surpresas na cama. Leio por cima, divertida com a superficialidade. Como se precisasse de revista para saber como agradar meu marido.

Volto para casa com as sacolas pesadas. Guardo tudo nos lugares certos — cada coisa tem seu lugar, e eu conheço todos eles.

À tarde, vou para a academia. Três vezes por semana, sempre no mesmo horário. Esteira, musculação leve, alongamento. Cumprimento as mesmas pessoas, troco as mesmas frases educadas sobre o calor, o trânsito, os planos para o fim de semana. Ninguém aqui me conhece de verdade. Ninguém precisa.

No vestiário, tiro a roupa suada e fico alguns segundos em frente ao espelho. Meu corpo aos trinta e dois ainda é generoso — curvas que Ricardo adora traçar com as mãos quando está por cima de mim, seios fartos que transbordam entre seus dedos, quadris largos que ele agarra quando me vira de costas. A pele bronzeada natural, suave, que ele diz ser viciante ao toque. Cintura que afina o suficiente para criar aquele contraste que faz os olhos dele brilharem. Coxas torneadas, firmes da academia, mas macias onde ele gosta de afundar os dedos.

Passo a mão pela lateral do corpo, sentindo a curva. Não é vaidade. É consciência. Sei o que tenho. Sei o efeito que causo quando caminho até ele só de calcinha, quando arqueio as costas na hora certa, quando deixo o cabelo cair sobre os seios nus. Ricardo me disse uma vez, enquanto me tocava depois do sexo, que meu corpo foi feito para ser saboreado devagar. Que cada curva pede uma atenção diferente. Que ele poderia passar horas apenas me explorando.

Você é minha obra de arte, Isa. Minha obsessão.

Sorrio para o reflexo. Cuido de mim porque ele merece. Porque gosto de vê-lo perder o controle quando me deseja.

Chego em casa às cinco e meia. Tenho tempo de sobra. Tomo banho demorado, deixo a água quente escorrer pelo corpo, massageio creme perfumado na pele ainda úmida — da base do pescoço até os tornozelos, com atenção especial nas coxas, na barriga, nos seios. Ricardo adora quando estou macia assim, cheirosa, preparada para ele.

Seco o cabelo, deixo as ondas caírem soltas sobre os ombros. Escolho uma roupa confortável mas arrumada — ele não gosta quando eu fico de moletom o dia todo. Vestido leve, decote que insinua sem revelar demais, nada de salto dentro de casa. A calcinha, escolho com mais cuidado. Renda preta. Ele sempre nota.

Na cozinha, começo o jantar. Frango grelhado com ervas, salada verde, arroz integral. Deixo tudo no forno em temperatura baixa para manter quente. Às nove e pouco, ouço a chave na porta.

Ricardo entra cansado. Gravata afrouxada, cabelo levemente bagunçado, expressão exausta.

— Oi, amor — ele joga a pasta no sofá, vem até a cozinha. — Desculpa o atraso. Reunião se estendeu mais que eu esperava.

— Sem problema. Seu jantar está pronto.

Ele me abraça por trás enquanto eu arrumo os pratos. A mão dele desliza pela minha cintura, desce até meu quadril, aperta de leve.

— Você cheira bem — murmura contra meu pescoço.

— Tomei banho há pouco.

— Foi pra mim?

Sorrio, me viro nos braços dele.

— Sempre é pra você.

Ele me beija. Devagar dessa vez, com intenção. A mão dele sobe pelas minhas costas, desce de novo, me puxa para mais perto. Sinto o corpo dele reagindo, a pressão crescente contra minha barriga.

— Depois do jantar — ele sussurra contra meus lábios — eu quero você.

— Eu também quero você.

Não é mentira. Nunca foi. Oito anos juntos e ainda sinto esse arrepio quando ele me toca desse jeito, quando a voz dele fica rouca de desejo. Ainda gosto de me sentir desejada.

Jantamos na mesa da cozinha. Ele conta sobre o cliente novo, sobre a apresentação que teve que fazer, sobre o colega que disse algo engraçado na reunião. Eu escuto, faço as perguntas certas, rio nos momentos certos. Ele termina o prato, elogia a comida, aceita repetir a salada.

— Você está linda hoje — ele comenta, me olhando por cima do garfo.

— Hoje?

— Sempre. Mas hoje tem algo diferente.

— Não tem nada diferente.

— Tem. Seus olhos... estão brilhando.

Desvio o olhar, levanto para buscar água. Quando volto, ele já está se levantando da mesa, vindo na minha direção.

— Deixa isso pra depois — ele pega minha mão, entrelaça nossos dedos. — Vem.

Ele me guia até o quarto. A urgência dele é diferente hoje, mais intensa. Me encosta na parede antes mesmo de acender a luz, beija meu pescoço, morde de leve. Suas mãos já estão subindo pela minha coxa, levantando o vestido.

— Ricardo...

— Shh. Eu sei. Eu sei o que você quer.

Será que sabe?

Ele me leva para a cama, mas não me deita ainda. Fica de pé na minha frente, me olhando com aquela intensidade que conheço bem. Os dedos dele encontram a barra do meu vestido, sobem devagar, arrastando o tecido pela minha pele. Levanto os braços e deixo que ele tire. O vestido cai no chão.

— Caralho — ele murmura, os olhos percorrendo meu corpo. — Você sabia que eu ia querer você hoje.

A calcinha de renda preta. Nenhum sutiã.

— Sempre sei.

Ele sorri, aquele sorriso de canto de boca que significa problemas deliciosos. Me puxa pela cintura, as mãos grandes cobrindo minha pele nua, descendo pelas costas até agarrar minha bunda com força. Me beija de novo, mais urgente agora, a língua invadindo minha boca enquanto me pressiona contra ele.

Eu desfaço o nó da gravata, abro os botões da camisa um por um. Ele não tem paciência — termina de tirar a camisa de uma vez, joga longe, volta a me tocar. A boca dele desce pelo meu pescoço, chega aos meus seios. Ele pega um deles com a mão, aperta, leva o mamilo à boca e suga com força.

Eu arquejo, afundo os dedos no cabelo dele.

— Assim — sussurro. — Continua.

Ele morde de leve, depois suga de novo, a língua circulando o bico endurecido. A mão livre desce pela minha barriga, desliza por dentro da calcinha. Os dedos dele me encontram molhada.

— Porra, Isa — ele geme contra minha pele. — Você já está pronta pra mim.

Sempre estou.

Ele me empurra para a cama, me deita com cuidado mas com urgência. Tira o resto da roupa dele, a cueca caindo junto com a calça. O pau dele já está duro, pesado. Eu abro as pernas, convidativa. Ele se ajoelha na cama, puxa minha calcinha devagar, como se estivesse desembrulhando um presente.

Quando estou completamente nua, ele para. Só olha. As mãos dele deslizam pelas minhas coxas, sobem pela minha barriga, cobrem meus seios. Ele se debruça sobre mim, o peso do corpo dele me afundando no colchão.

— Você é perfeita demais — ele murmura, beijando meu pescoço, meu ombro, descendo. — Eu não mereço você.

Será?

A boca dele continua descendo. Lambe entre meus seios, morde a lateral da minha costela, beija minha barriga. Quando chega entre minhas pernas, olha para cima, procurando meus olhos.

— Quero sentir você gozar na minha boca primeiro.

Não é pedido. É aviso.

A língua dele me encontra e eu fecho os olhos, afundo a cabeça no travesseiro. Ele sabe exatamente o que fazer — pressão certa, ritmo certo, variando entre lamber devagar e sugar com força. Os dedos dele entram em mim, dois de uma vez, curvando para tocar onde me faz gemer alto.

Eu me entrego. Deixo que ele me leve para onde quiser. As mãos dele seguram minhas coxas abertas, me mantêm no lugar enquanto trabalha. Eu mexo os quadris, procurando mais pressão, mais ritmo, mais tudo.

— Ricardo... assim... não para...

Ele não para. Aumenta o ritmo dos dedos, suga meu clitóris com mais força, e eu me quebro. O orgasmo explode, quente e intenso, me fazendo contrair ao redor dos dedos dele. Eu gemo o nome dele, as mãos agarrando os lençóis, o corpo inteiro tenso antes de relaxar.

Ele sobe de volta, beijando meu corpo no caminho. Quando chega à minha boca, eu provo de mim mesma nos lábios dele.

— Agora eu quero você — ele sussurra, rouco.

Ele entra em mim de uma vez, forte, me preenchendo completamente. Eu envolvo as pernas ao redor da cintura dele, puxo ele para mais fundo. Ele estabelece um ritmo firme, segurando meus quadris, me usando para seu próprio prazer.

E eu amo. Amo a sensação de ser desejada assim, de ser necessária, de ser dele.

— Vira — ele ordena, saindo de mim.

Eu viro de bruços, levanto os quadris, fico de quatro. Ele agarra minha bunda com as duas mãos, aperta forte, afasta para olhar. Então entra de novo, mais fundo nessa posição.

— Porra — ele geme, começando a se mover. — Você é perfeita assim.

As mãos dele sobem pelas minhas costas, descem de novo, agarram meus quadris para me puxar contra ele a cada estocada. Eu baixo o peito no colchão, arqueio mais as costas, dou a ele o ângulo que eu sei que ele ama.

— Isa... não vou aguentar muito...

— Goza pra mim — sussurro, olhando para trás. — Quero sentir.

Isso o destrói. Ele acelera, as estocadas ficando irregulares, mais urgentes. Afunda os dedos na minha pele com força, geme meu nome uma, duas vezes, e então se enterra fundo dentro de mim, o corpo inteiro tenso enquanto goza.

Ficamos assim por alguns segundos — ele ainda dentro de mim, respiração pesada, suor grudando nossa pele. Depois ele sai devagar, se deixa cair ao meu lado na cama.

Eu me viro, deito de costas. Ele puxa meu corpo para perto, a mão voltando ao lugar de sempre — meu quadril.

— Você me mata, sabia? — ele murmura, ainda tentando recuperar o fôlego. — Cada vez é melhor que a anterior.

Sorrio no escuro.

— Bom saber.

— Eu te amo — ele diz, beijando minha testa.

— Eu também te amo.

— Você é minha, né? Só minha.

— Só sua.

— Sempre?

— Sempre.

Ele suspira, satisfeito. Em poucos minutos, adormece.

Eu fico acordada mais um pouco, olhando para o teto, sentindo o peso do braço dele sobre mim, o calor do corpo dele ainda impregnado na minha pele. Há algo reconfortante nisso. Na previsibilidade. Na certeza de que amanhã será exatamente igual a hoje. E depois de amanhã também.

Fecho os olhos.

Durmo tranquila.

Na manhã seguinte, acordo antes do despertador de novo.

A rotina se repete, passo por passo. Café, torrada, suco. Bandeja, cortinas, beijo de bom dia. Ricardo sai para o trabalho às sete e quinze, como sempre. Arrumo a casa, vou ao mercado, volto.

É quando vejo.

Um pedaço de papel caído no chão da sala, perto da pasta que Ricardo jogou no sofá ontem à noite. Um papel branco, dobrado ao meio. Pego sem pensar, apenas por hábito de manter a casa em ordem.

Quando abro, as letras se organizam em algo que demora alguns segundos para fazer sentido:

JOALHERIA SANTORINI

COLAR EM OURO BRANCO 18K COM ÁGUA-MARINHA

VALOR: R$ 5.000,00

FORMA DE PAGAMENTO: CARTÃO DE CRÉDITO FINAL 4738

A data no topo: dois meses atrás.

Leio de novo.

E de novo.

Cinco mil reais.

Água-marinha.

Final 4738 — nosso cartão conjunto. O cartão que eu também uso.

Meu aniversário foi há cinco meses. Nosso aniversário de casamento, há sete. Natal já passou. Não tem nenhuma data comemorativa entre esse dia e hoje.

Fico parada ali, no meio da sala, segurando o papel.

Ouro branco. Água-marinha.

Eu não uso ouro branco. Prefiro ouro amarelo, sempre preferi. Ricardo sabe disso.

E eu não tenho nenhum colar novo.

O papel balança levemente na minha mão. Não sei se é o vento ou se sou eu tremendo.

Coloco a nota fiscal em cima da mesa de centro, com cuidado, como se fosse explodir se eu soltar de uma vez.

Cinco mil reais em um colar que não é meu.

Sento no sofá. Olho para o papel. Olho para a sala perfeitamente arrumada. Olho para a cozinha, onde o café dele ainda está na cafeteira.

Então pego o celular.

Abro o Instagram.

E começo a procurar.

PARTE II — A FISSURA

O perfil dele está aberto. Sempre esteve.

Ricardo não tem nada a esconder, nunca teve. Ou pelo menos é isso que eu sempre acreditei. Ele posta fotos do trabalho, almoços com clientes, drinks com colegas. Às vezes me marca em fotos de nós dois — jantares, viagens, momentos banais que ele transforma em declarações públicas de amor.

“Minha rainha. Meu porto seguro. O amor da minha vida.”

Rolo o feed dele para baixo. Devagar. Cada foto é uma pequena janela para os dias que passou longe de mim. Reuniões. Escritório. Um café com o logotipo da empresa no fundo. Ele sorrindo ao lado de três colegas que reconheço.

Continuo rolando.

Duas semanas atrás.

A foto é casual. Ricardo em uma mesa de bar, camisa social com as mangas dobradas, copo de cerveja pela metade. A legenda diz apenas: “Sexta-feira merecida depois de semana pesada.” Três corações. Um emoji de cerveja.

Mas não é ele que prende minha atenção.

É a mulher ao fundo.

Ela está levemente desfocada, mas dá para ver. Cabelo loiro, ondulado, caindo sobre os ombros nus. Sorriso largo. E no pescoço dela, capturando a luz do bar de um jeito que é quase proposital, um colar.

Ouro branco.

Uma pedra azul-esverdeada que brilha mesmo através da qualidade média da foto.

Água-marinha.

Meus dedos congelam na tela.

Dou zoom. A imagem fica granulada, mas é inconfundível. O design delicado da corrente, a pedra oval engastada em ouro branco, o brilho específico da água-marinha — exatamente como descrito na nota fiscal que está na mesa ao meu lado.

R$ 5.000,00.

Dois meses atrás ele comprou.

Duas semanas atrás ela estava usando.

Volto para a foto. Olho para o rosto dela de novo. Bonita. Jovem. Talvez uns vinte e cinco, vinte e seis anos. O tipo de mulher que chama atenção quando entra em um lugar — não pela vulgaridade, mas pela confiança, pela vivacidade, pelo brilho nos olhos.

Olho para Ricardo na foto. Ele não está olhando para a câmera. Está olhando para o lado, sorrindo para algo ou alguém fora do quadro. O ângulo do corpo dele, a inclinação da cabeça — ele está virado na direção dela.

Meu estômago se revira.

Fecho o Instagram. Abro de novo. Volto para a foto. Talvez eu tenha visto errado. Talvez seja outro colar. Talvez seja só coincidência.

Mas não é.

Eu sei que não é.

Levanto do sofá, as pernas bambas. Vou até a cozinha, encho um copo d'água, bebo tudo de uma vez. A água desce gelada, mas não apaga o gosto amargo que tomou conta da minha boca.

Volto para a sala. Pego a nota fiscal de novo. Leio cada linha, cada detalhe, como se fosse encontrar algo diferente dessa vez.

COLAR EM OURO BRANCO 18K COM ÁGUA-MARINHA.

Cinco mil reais.

Para ela.

Para uma mulher que sorri ao fundo das fotos dele, usando no pescoço o que meu marido comprou com nosso dinheiro.

Sento de novo no sofá. Não sei por quanto tempo fico ali, apenas segurando o papel, olhando para a tela do celular, tentando processar.

A confusão vem primeiro. Aquela sensação de estar lendo palavras em uma língua que deveria conhecer, mas que de repente não fazem mais sentido. Ricardo me ama. Ele disse ontem à noite. Disse depois de gozar dentro de mim, enquanto me segurava como se eu fosse desaparecer. “Você é minha, né? Só minha. Sempre.”

A confusão dá lugar à suspeita.

Talvez seja uma colega. Um presente de agradecimento por um projeto. Uma amiga que faz aniversário e ele contribuiu com outros para comprar o presente. Talvez…

Mas cinco mil reais?

Sozinho?

No nosso cartão?

Sem me falar nada?

A suspeita endurece. Transforma-se em algo mais pesado, mais denso. Algo que cresce no meu peito e aperta.

Pego o celular de novo. Volto para o perfil dele. Examino cada foto das últimas semanas. Procuro ela. Procuro qualquer sinal.

Rolo para baixo, passando pela foto onde a vi pela primeira vez. Continuo. Três semanas atrás. Um mês. Seis semanas.

Encontro mais duas fotos onde ela aparece.

Na primeira, de um mês atrás, ela aparece em um evento corporativo. Vestido azul-marinho, cabelo preso. O pescoço está nu.

Na segunda, de seis semanas atrás, outro happy hour. Ela está mais ao fundo ainda, quase fora do quadro. Usa uma blusa preta, decote discreto. O pescoço continua nu. Sem colar.

Volto para a foto de duas semanas atrás.

O colar está lá. Reluzente. Impossível de ignorar.

Ele comprou dois meses atrás.

Ela começou a usar há duas semanas.

Quanto tempo ele esperou para dar? Por quê esperou? Qual foi a ocasião? Que mentira ele contou para justificar um presente tão caro?

As perguntas queimam na minha garganta, mas não tenho respostas.

Só tenho certeza.

Certeza de que aquele colar não é coincidência.

Certeza de que ela não é só uma colega.

Certeza de que tudo o que eu construí nos últimos oito anos está rachando.

***

Passo o resto do dia em modo automático.

Arrumo a cama que deitamos juntos ontem. Lavo os lençóis que ainda cheiram a nós dois, a sexo, a suor. Coloco na máquina, adiciono sabão em pó, aperto os botões certos. A máquina roda, barulhenta e indiferente.

Limpo a cozinha. Lavo a louça do café da manhã. Guardo. Seco. Organizo.

Rego as plantas.

A orquídea branca continua florida, linda, perfeita.

Tenho vontade de arrancá-la do vaso.

Não arranco.

Vou para a academia no horário de sempre. Subo na esteira, configuro o ritmo, começo a correr. Meu corpo obedece ao comando automático — um pé na frente do outro, respiração controlada, braços se movimentando no tempo certo.

Mas minha cabeça está longe.

“Ouro branco. Água-marinha. R$ 5.000,00. O sorriso dela. O colar no pescoço dela. Ricardo olhando na direção dela.”

Corro mais rápido. Meu coração acelera. Suor escorre pela minha testa, pelas minhas costas. Continuo. Mais rápido. Como se pudesse fugir dos pensamentos. Como se pudesse deixá-los para trás na esteira.

Não consigo.

Quando termino, estou exausta. Não do exercício. De outra coisa.

No vestiário, tiro a roupa e entro no chuveiro. A água quente cai sobre mim e eu fecho os olhos, apoio as mãos na parede fria. Por um momento, apenas existo. Água. Calor. Silêncio.

Então a raiva chega.

Não aos poucos. De uma vez. Como uma onda que quebra e me cobre inteira.

Ele me tocou ontem. Me beijou. Me fodeu. Disse que eu era dele. Que era perfeita. Que ele não merecia.

“Eu não mereço você.”

Com qual das duas ele estava falando?

A raiva queima. Sobe pela minha garganta, aperta meu peito, faz minhas mãos tremerem. Eu quero gritar. Quero socar a parede. Quero ligar para ele agora e perguntar sobre o colar, sobre a loira, sobre as mentiras.

Mas não faço nada disso.

Fecho o chuveiro. Me seco. Me visto. Prendo o cabelo.

Olho para meu reflexo no espelho embaçado.

A mesma mulher de sempre. Bonita. Arrumada. Controlada.

Por fora.

***

Chego em casa mais cedo que o normal. Não quero estar aqui, mas não sei para onde ir.

Sento no sofá. Pego o celular. Olho para a foto de novo.

E de novo.

E de novo.

Examino cada detalhe. O ângulo do corpo dela. A forma como ela segura a taça de vinho. O jeito que o colar descansa exatamente no meio do decote.

Ela sabe o que está fazendo.

E ele também.

Penso em confrontá-lo. Ensaio as palavras na minha cabeça.

"Ricardo, achei uma nota fiscal. Um colar de cinco mil reais. Você pode me explicar?"

Calma. Direta. Racional.

Ou talvez:

"Quem é ela? A loira das suas fotos. A que está usando o colar que você comprou."

Mais agressiva. Acusatória.

Ou simplesmente:

"Você está me traindo?"

Crua. Sem rodeios.

Ensaio todas. Imagino as respostas dele. As desculpas. As justificativas. Ou pior — a confirmação.

Mas no fundo, eu já sei.

Eu não vou confrontar.

Não ainda.

Talvez nunca.

Porque confrontar significa ouvir a verdade. E a verdade vai quebrar algo que não sei se quero ver quebrado. Vai transformar a suspeita em certeza. Vai tirar a última gota de esperança de que talvez, só talvez, eu esteja errada.

E eu não estou errada.

Eu sei que não estou.

***

Ricardo chega em casa no horário normal. Sete e meia.

Eu estou na cozinha, preparando o jantar. Macarrão ao alho e óleo, o que ele gosta quando quer algo leve. Salada. Vinho branco gelado.

— Oi, amor — ele entra, joga a pasta no lugar de sempre, vem me beijar.

Eu deixo. Viro o rosto levemente para que o beijo pegue mais a bochecha que os lábios.

Se ele percebe, não demonstra.

— Que cheiro bom — ele comenta, olhando para a panela. — Estava com saudade de uma comida caseira decente.

“Estava comendo o quê? Quem estava cozinhando pra você?”

— O dia foi bom? — pergunto, mexendo o macarrão.

— Cansativo. Reunião atrás de reunião. Mas produtivo.

— Que bom.

Ele abre a geladeira, pega uma cerveja, bebe um longo gole.

— E o seu? — pergunta, quase como obrigação.

— Normal. Academia, mercado, casa.

— A rotina.

— A rotina.

Ele sorri, mas não está realmente prestando atenção. Pega o celular, rola alguma coisa. Ri de algo que vê. Manda uma mensagem. Guarda o celular.

Quero arrancar aquele telefone da mão dele. Quero ver com quem ele está falando. O que está rindo. Que mensagem é tão importante.

Mas não faço nada.

Sirvo o jantar. Sentamos. Comemos.

Ele fala sobre o trabalho. Eu faço as perguntas de sempre. Ele responde. Eu escuto sem escutar de verdade.

Quando terminamos, ele se levanta, estica.

— Vou tomar um banho rápido.

— Tudo bem.

Ele sai. Ouço a porta do banheiro fechar, a água abrir.

Fico sozinha na cozinha.

Olho para o prato dele. Metade do macarrão ainda lá. A salada intocada.

Antes, isso me incomodaria. Eu perguntaria se estava ruim, se ele queria outra coisa.

Agora, só olho.

E sinto a raiva crescer de novo.

***

Aquela noite, ele não me toca.

Deita ao meu lado, murmura um "boa noite" distraído, vira de costas.

Em cinco minutos, está dormindo.

Eu fico acordada. Olhando para o teto. Ouvindo a respiração dele. Sentindo o peso da presença dele ao meu lado, mas a ausência de tudo mais.

Pego o celular. A luz da tela ilumina o quarto escuro. Abro o Instagram de novo.

Vou direto para a foto.

A loira. O colar. Ricardo olhando na direção dela.

Dou zoom no rosto dela. Ela é bonita de um jeito que eu costumava ser quando tinha vinte e poucos anos. Antes de me casar. Antes de me transformar em esposa. Em dona de casa. Em… isso.

Olho para meus próprios seios sob o pijama de algodão. Para minhas mãos, ainda macias, mas marcadas de tanto limpar, cozinhar, cuidar.

Olho para Ricardo dormindo ao meu lado.

“Você é minha, né? Só minha.”

Fecho o Instagram.

Mas não fecho os olhos.

***

Nos dias seguintes, viro detetive da minha própria vida.

Observo. Presto atenção. Procuro sinais.

Ricardo sai mais cedo. Volta mais tarde. Sempre com desculpas razoáveis — reuniões, clientes, demandas de último minuto.

Ele mexe mais no celular. Sorri para a tela quando acha que não estou vendo. Às vezes ri sozinho. Quando percebe que estou olhando, guarda rápido, como se não fosse nada.

No sexo, quando acontece — porque ainda acontece, duas vezes naquela semana — ele está presente mas ausente. O corpo dele responde. O pau dele fica duro. Ele me fode com a eficiência de quem conhece o caminho. Mas os olhos… os olhos estão longe.

Eu me pergunto se quando ele está dentro de mim, está pensando em estar dentro dela.

A raiva vira outra coisa. Mais fria. Mais densa.

Tristeza profunda que se instala no meu peito como uma pedra.

Eu dei tudo. Cada parte de mim. Cada hora do meu dia. Cada gesto, cada cuidado, cada entrega. Me tornei a esposa perfeita. E não foi suficiente.

***

É numa quinta-feira que eu tomo a decisão.

Estou no banheiro, sozinha, olhando para meu reflexo no espelho. A mesma mulher de sempre. Bonita. Cuidada. Vazia.

Quando foi que eu me perdi? Quando foi que Isadora virou apenas a esposa do Ricardo?

Penso em todas as vezes que desci do meu salto. Que fiz o que deu prazer a ele, não a mim. Que anulei vontades, desejos, pedaços de quem eu era.

Por amor. Ou pelo menos era isso que eu achava. Mas amor não é isso. Amor não deixa você vazia. Amor não te trai. Amor não compra colar de cinco mil reais para outra mulher.

Saio do banheiro. Vou até o quarto. Abro o armário.

No fundo, guardadas em sacolas que não abro há anos, estão minhas roupas de antes. Antes do casamento. Antes de me tornar dona de casa. Antes de me transformar em esposa modelo.

Pego um vestido. Preto. Justo. Decote profundo. Tecido que abraça cada curva.

Visto.

Olho no espelho.

A mulher que me olha de volta é familiar e estranha ao mesmo tempo.

Eu estava aqui o tempo todo.

Só tinha esquecido.

Tiro o vestido. Guardo de novo. Mas não nas sacolas do fundo.

Deixo pendurado, visível, esperando.

Volto para a sala. Pego o celular.

Não abro o Instagram do Ricardo dessa vez.

Abro meus próprios contatos. Números de amigas que parei de ver. Convites que recusei. Eventos que não fui porque preferi ficar em casa, esperando por ele.

Mando mensagem para Júlia, minha amiga da faculdade.

🗨️ISADORA: "Oi, Ju. Faz tempo. Você está livre amanhã à tarde? Queria tomar um café."

A resposta vem em segundos.

🗨️JÚLIA: "ISA! Que saudade! Óbvio! Que horas?"

Sorrio.

Algo está mudando.

Eu estou mudando. E Ricardo não faz ideia.

***

Na sexta-feira, saio de casa depois do almoço.

Visto o vestido preto. Salto médio. Batom vermelho — um tom que não uso há anos.

Ricardo já foi para o trabalho. Deixei tudo arrumado, como sempre. Mas não deixei o jantar pronto.

Pela primeira vez em oito anos, ele vai ter que se virar.

Encontro Júlia num café no bairro vizinho. Ela me abraça forte, me olha de cima a baixo.

— Caramba, Isa. Você está… diferente.

— Diferente como?

— Não sei. Mais… intensa.

Sorrimos. Pedimos café. Conversamos.

Ela conta sobre o trabalho, sobre o namorado novo, sobre a vida que continua acontecendo lá fora enquanto eu estava trancada na minha bolha doméstica.

Eu escuto com atenção. E sinto algo despertar. Curiosidade. Vontade. Fome de viver.

— E você? — Júlia pergunta. — Como estão as coisas com o Ricardo?

Hesito.

Poderia mentir. Dizer que está tudo ótimo. Que somos felizes. Que o casamento é perfeito.

Mas não digo nada disso.

— Acho que ele está me traindo — falo, e as palavras saem mais fáceis do que imaginei.

Júlia congela, a xícara para no meio do movimento.

— O quê?

Conto. A nota fiscal. O colar. A foto. A loira.

Júlia escuta em silêncio. Quando termino, ela pega minha mão.

— Isa… você vai confrontar ele?

— Não.

— Não?

— Não — repito, e tenho certeza disso agora. — Não vou dar a ele a satisfação. Não vou dar a ele o poder de escolher. De decidir. De me explicar ou me convencer.

— Então o que você vai fazer?

Olho para ela. Sorrio. Um sorriso que não é doce. Não é dengoso. É outra coisa.

— Vou viver — respondo. — Vou lembrar quem eu sou. E se ele pisou na bola… bem, chumbo trocado não dói.

Júlia me olha. Então sorri também.

— Precisando de alguma coisa, me avisa.

— Vou avisar.

Saímos do café duas horas depois. Júlia me abraça de novo.

— É bom ter você de volta, Isa.

— É bom estar de volta.

Volto para casa caminhando. Devagar. Sentindo o sol na pele, o vento no cabelo.

Passo em frente a uma galeria de arte. As portas estão abertas. Há uma exposição acontecendo.

Entro.

É pequena. Intimista. Fotografias em preto e branco nas paredes. Retratos. Paisagens. Momentos capturados.

Caminho entre as fotos, apreciando.

— Gostou?

A voz vem de trás de mim.

Me viro.

Um homem. Alto. Cabelo escuro levemente bagunçado. Olhos verdes que me olham com interesse genuíno.

— Gostei — respondo. — São suas?

Ele sorri.

— Algumas. Sou Leonardo. Fotógrafo. E você?

— Isadora.

Ele estende a mão. Eu aperto.

O toque dura mais do que deveria.

— Prazer, Isadora.

— O prazer é meu.

Conversamos. Sobre as fotos. Sobre arte. Sobre a cidade. Sobre nada e tudo ao mesmo tempo. Ele não pergunta se sou casada. Eu não menciono que sou.

Quando saio da galeria, uma hora depois, tenho o cartão dele no bolso.

Leonardo Cruz — Fotógrafo

E um convite para voltar quando quiser.

Volto para casa com algo diferente no peito. Não é culpa. Não é medo. É possibilidade.

E pela primeira vez em muito tempo, me sinto viva.

PARTE III — A LOBA

Acordo na segunda-feira com uma sensação diferente. Antecipação.

Ricardo já saiu para o trabalho quando me levanto. Deixou a xícara de café pela metade na pia — ele tem feito isso nos últimos dias, como se nem a rotina matinal que construí com tanto cuidado fosse mais importante.

Lavo a xícara. Guardo. Limpo a cozinha.

Mas hoje, não demoro.

Subo para o quarto, abro o armário. O vestido preto continua ali, pendurado. Pego ele. Pego também uma blusa de seda bordô que não uso há anos, uma calça jeans escura que marca a curva do quadril e da bunda.

Escolho lingerie diferente. Não a de algodão que uso normalmente. Conjunto de renda preta — sutiã que levanta e junta, calcinha cavada que corta as coxas no lugar certo.

Visto a calça. A blusa. Me olho no espelho.

Essa mulher é diferente da que acordava às cinco e meia para fazer café.

Solto o cabelo. Passo maquiagem — não muito, mas o suficiente. Rímel. Batom rosado, discreto mas presente.

Pego a bolsa. O cartão de Leonardo está lá, onde deixei na sexta.

Leonardo Cruz — Fotógrafo

No verso, escrito à mão: A galeria está sempre aberta. E eu também.

Saio de casa às duas da tarde.

Nem penso em deixar jantar pronto.

***

A galeria está vazia quando chego.

As mesmas fotografias nas paredes. A mesma luz suave entrando pelas janelas altas. Mas hoje parece diferente. Mais íntimo. Mais carregado de possibilidades.

— Voltou.

A voz dele vem do fundo. Leonardo sai de trás de uma cortina, câmera pendurada no pescoço, sorriso no rosto.

— Disse que voltaria — respondo.

— Disse. Mas as pessoas dizem muita coisa.

— Eu não sou "as pessoas".

Ele se aproxima devagar, as mãos nos bolsos da calça jeans escura. A camisa branca está com os dois primeiros botões abertos. Cabelo bagunçado de propósito. Olhos verdes me examinando sem pressa.

— Percebi — ele diz, parando na minha frente. — Tem algo diferente em você hoje.

— Diferente como?

— Não sei. Mais... presente. Como se tivesse mudado algo.

Eu sorrio. Ele não sabe o quanto está certo.

— Talvez eu tenha.

Ficamos ali, parados, nos olhando. A tensão é palpável. Não é desconfortável. É elétrica.

— Quer ver o resto da exposição? — ele pergunta, mas o tom sugere que não está falando só de fotografias.

— Quero ver tudo.

Ele sorri. Aquele sorriso de canto de boca que promete problemas deliciosos.

Caminhamos pela galeria. Ele explica cada foto — a técnica, a luz, o momento capturado. Eu escuto, mas estou mais atenta à proximidade dele, ao cheiro dele — algo amadeirado, masculino, completamente diferente de Ricardo.

Paramos em frente a uma foto de uma mulher. Costas nuas, cabelo solto caindo em ondas, luz batendo na curva da coluna. É sensual sem ser vulgar. Íntimo sem ser explícito.

— Essa é minha favorita — ele comenta.

— Por quê?

— Porque captura algo que as pessoas escondem. Vulnerabilidade. Desejo. A coragem de se mostrar sem máscaras.

Olho para a foto. Para a mulher sem rosto, apenas corpo e luz.

— Você fotografa isso? Vulnerabilidade?

— Tento. Quando encontro alguém corajoso o suficiente para me mostrar.

Me viro para ele.

— Você acha que eu sou corajosa?

Leonardo me olha fixamente. Não do jeito que Ricardo olha — casual, distraído, como quem já sabe o que vai encontrar. Mas como quem está descobrindo.

— Acho que você está aprendendo a ser.

A frase me atinge de um jeito inesperado. Porque é verdade. Eu estou aprendendo.

— E você? — pergunto. — Você é corajoso?

— Depende do que você considera coragem.

— Ir atrás do que quer, mesmo sabendo que pode complicar.

Ele sorri de novo. Se aproxima. Um passo. Só um. Mas é o suficiente para que eu sinta o calor dele.

— Nesse caso — ele diz, a voz baixa — eu sou muito corajoso.

Meu coração acelera.

— Bom saber.

Ficamos assim. Perto. Não nos tocando, mas quase. A tensão cresce, densa, quente.

— Isadora — ele murmura meu nome como se estivesse provando. — Você sabe que é casada, né?

A pergunta me pega de surpresa. Não porque ele perguntou, mas porque eu esperava que não importasse.

— Eu sei.

— E você está aqui mesmo assim.

— Estou.

— Por quê?

A pergunta é simples. A resposta, não.

Penso em Ricardo. No colar. Na loira. Nas mentiras. Na forma como me tornei invisível no meu próprio casamento.

Penso em mim. Em quem eu era. Em quem me tornei. Em quem quero ser.

— Porque eu mereço — respondo, e é a verdade mais crua que já disse. — Eu mereço ser vista. Ser desejada. Ser escolhida.

Leonardo me olha por um longo momento. Então levanta a mão, devagar, e toca meu rosto. Apenas os dedos na minha bochecha. Leve. Mas queima.

— Você é vista, Isadora — ele sussurra. — Desde que entrou aqui na sexta, eu não consigo parar de ver você.

E então ele me beija.

Não é um beijo gentil.

É urgente, faminto, como se ele tivesse esperado por isso tanto quanto eu.

As mãos dele afundam no meu cabelo, me puxam para mais perto. A boca dele é quente, insistente, a língua invadindo sem pedir permissão. Eu abro para ele. Me entrego. Beijo de volta com a mesma fome.

Ele me empurra contra a parede, entre duas fotografias. O corpo dele pressiona o meu, duro, quente. Eu sinto tudo — o peito largo, a ereção crescendo contra minha barriga, as mãos descendo pelas minhas costas até agarrar minha bunda.

Eu gemo contra a boca dele.

Isso o quebra.

Leonardo me pega pela cintura, me levanta. Eu envolvo as pernas ao redor dele, os braços no pescoço dele. Ele me carrega pela galeria, atravessa a cortina do fundo, entra em um espaço que parece ser metade escritório, metade estúdio.

Me coloca em cima de uma mesa. Fica de pé entre minhas pernas. Me beija de novo, com mais força, mais urgência. As mãos dele sobem pela minha blusa, tocam minha pele, encontram o sutiã de renda.

— Porra — ele murmura contra meus lábios. — Você veio preparada.

— Eu vim decidida.

Ele sorri. Puxa minha blusa para cima. Eu levanto os braços, deixo que tire. A blusa cai no chão. Ele olha para mim — sutiã de renda preta, seios transbordando, respiração acelerada.

— Você é linda demais — ele diz, quase como acusação.

— Então me toca.

Ele obedece.

As mãos dele cobrem meus seios, apertam, massageiam por cima da renda. Ele abaixa as alças, puxa o sutiã para baixo, expõe meus mamilos já endurecidos. Abaixa a cabeça e suga um deles, forte.

Eu arquejo, jogo a cabeça para trás, afundo os dedos no cabelo dele.

— Leonardo…

Ele morde. Suga o outro seio. As mãos dele descem pela minha barriga, abrem o botão da minha calça, descem o zíper.

— Levanta — ele ordena.

Eu levanto os quadris. Ele puxa a calça para baixo, junto com a calcinha, tudo de uma vez. Eu fico ali, sentada na mesa, nua da cintura para baixo, o sutiã pendurado abaixo dos seios.

Leonardo dá um passo para trás. Só olha.

— Caralho — ele murmura. — Você é perfeita.

Mas não é o mesmo "perfeita" que Ricardo diz. Não é possessivo. Não é como quem já sabe. É como quem está descobrindo. Como quem tem fome.

Ele se ajoelha.

Eu entendo o que vem antes que aconteça. Ele puxa meus quadris para a beirada da mesa, abre minhas pernas, coloca elas sobre os ombros dele.

E então sua boca me encontra.

Eu grito.

Não é delicado. Não é exploratório. É voraz. A língua dele me lambe inteira, circula meu clitóris, suga com força. Os dedos dele entram em mim — dois, três, curvando para tocar onde me faz ver estrelas.

— Leonardo… porra… não para…

Ele não para. Aumenta o ritmo. A pressão. Eu agarro a beirada da mesa, os quadris se movendo sozinhos, procurando mais, sempre mais.

O orgasmo vem rápido, violento. Eu me quebro, gritando o nome dele, o corpo inteiro tremendo. Ele não para mesmo enquanto eu gozo, prolongando, me fazendo sentir cada segundo.

Quando finalmente me solta, estou destruída.

Ele se levanta, limpa a boca com as costas da mão. Os olhos dele estão escuros, famintos.

— Agora eu quero você — ele diz, a voz rouca.

Ele tira a própria roupa. Camisa voando para o lado. Calça caindo. Cueca junto.

E então eu vejo.

Ele é grande. Grosso. Duro.

Diferente de Ricardo. Mais. Em todos os sentidos.

Ele volta para mim, me puxa para a beirada da mesa. Posiciona na minha entrada. Me olha nos olhos.

— Tem certeza?

Essa é a última chance de voltar atrás. De manter alguma ilusão de fidelidade. De continuar sendo a esposa perfeita.

Mas eu não quero mais ser perfeita.

Eu quero ser Eu.

— Tenho — respondo.

E ele entra.

É diferente.

Completamente diferente.

Leonardo me preenche de um jeito que doi e queima e é bom demais. Ele se enterra até o fundo, espera um segundo para eu me ajustar, então começa a se mover.

Forte. Profundo. Sem gentileza.

Eu me agarro nele, as unhas arranhando as costas dele. Ele agarra meus quadris com força, me usa, me fode com uma intensidade que me faz esquecer tudo — Ricardo, o colar, a traição, a dor.

Só existe isso. Esse momento. Esse homem. Esse prazer.

— Porra, Isadora — ele geme no meu ouvido. — Você é apertada demais… quente demais…

Eu não respondo. Não consigo. Só gemo, arqueio, aceito tudo que ele dá.

Ele muda o ângulo, me puxa mais para a beirada, segura minhas pernas abertas. Assim ele vai mais fundo. Muito mais fundo.

Eu grito.

— Assim? — ele pergunta, acelerando. — Você gosta assim?

— Sim… porra… sim…

— Diz que é minha — ele ordena, a voz dura. — Diz.

E eu digo. Mesmo sabendo que é mentira. Mesmo sabendo que sou casada. Mesmo sabendo que isso é errado em todos os sentidos possíveis.

— Sou sua — eu gemo. — Nesse momento, eu sou toda sua.

Isso o destrói.

Ele acelera, as estocadas ficando irregulares, mais urgentes. Eu sinto o segundo orgasmo chegando, mais forte que o primeiro.

— Vou gozar — ele avisa, a voz tensa. — Onde você quer?

— Dentro — eu respondo sem pensar. — Goza dentro de mim.

Leonardo geme alto, se enterra fundo, e eu sinto ele pulsando dentro de mim, enchendo, quente e molhado e real demais.

O orgasmo dele dispara o meu. Eu me quebro de novo, mais intenso dessa vez, o corpo inteiro convulsionando ao redor dele.

Ficamos assim por um longo momento. Ele ainda dentro de mim. Respirações pesadas. Suor grudando nossa pele.

Então ele se afasta devagar, sai de mim. Eu sinto o gozo dele escorrendo.

A realidade começa a voltar.

“O que eu fiz?”

Mas junto com a pergunta vem outra sensação.

“Chumbo trocado não dói.”

Leonardo me olha. Há preocupação no rosto dele.

— Você está bem?

— Estou.

— Tem certeza? Você ficou quieta de repente.

Me levanto da mesa, as pernas bambas. Procuro minha roupa. Ele se abaixa, pega a calcinha, a calça, me entrega com cuidado.

— Eu estou bem — repito, me vestindo. — Melhor que bem, na verdade.

— Não parece.

Termino de me vestir. Arrumo o cabelo. Me viro para ele.

— Eu precisava disso — digo, e é verdade. — Não de você, especificamente. Embora você tenha sido… perfeito. Mas eu precisava lembrar que sou mais que esposa. Mais que dona de casa. Mais que a mulher que espera em casa enquanto o marido…

Paro. Não termino a frase.

Leonardo se aproxima. Já está vestido também. Toca meu rosto com delicadeza.

— Enquanto o marido o quê?

— Nada — minto. — Esquece.

— Isadora…

— Eu tenho que ir.

— Quando eu vou ver você de novo?

A pergunta me pega desprevenida. Eu não tinha pensado nisso. Não tinha pensado em "de novo". Eu só queria... o quê? Vingança? Justiça? Lembrar quem eu era?

Mas olho para ele, para os olhos verdes, para o jeito que me olha como se eu importasse, e sei que quero mais.

— Amanhã — respondo. — Mesma hora?

Ele sorri.

— Eu vou estar aqui.

Me beija de novo. Devagar dessa vez. Quase doce.

Então saio.

***

Chego em casa às cinco e meia.

Vou direto para o banheiro, tomo banho demorado. Lavo cada centímetro de pele, cada evidência do que fiz. Mas não consigo lavar a sensação.

A culpa que eu esperava sentir não vem.

No lugar dela, algo diferente. Poder.

Me visto, seco o cabelo, coloco uma roupa confortável. Vou para a cozinha.

Dessa vez, preparo jantar.

Não porque tenho que fazer. Mas porque escolho fazer.

É diferente.

Ricardo chega às sete e meia.

— Oi, amor — ele beija minha testa, casual. — Que cheiro bom.

— Fiz frango — digo, servindo os pratos.

Jantamos. Ele conta sobre o dia. Eu escuto. Mas há uma distância agora. Como se estivesse assistindo a vida de outra pessoa.

Ele não percebe.

É claro que não percebe.

Depois do jantar, ele vem para perto, as mãos na minha cintura.

— Você está diferente hoje — ele murmura contra meu pescoço.

“Se você soubesse.”

— Diferente como?

— Não sei. Mais… relaxada. Como se tivesse tido um dia bom.

— Tive — respondo, e não é mentira.

Ele sorri. Me beija. A mão dele desce, aperta minha bunda.

— Vem pra cama — ele sussurra.

E eu vou.

Porque posso. Porque escolho. Porque agora sei que meu corpo não pertence só a ele. Pertence a mim.

***

Na cama, Ricardo me toca como sempre faz.

Mas é diferente agora. Porque eu sei a diferença. Sei como outro homem me toca. Como outra boca me beija. Como outro pau me preenche.

E quando Ricardo entra em mim, me fode com o ritmo familiar de oito anos de casamento, eu fecho os olhos.

E penso em Leonardo.

***

Os dias seguintes se transformam em uma rotina paralela.

De manhã, sou a esposa. Café pronto. Casa arrumada. Sorriso no rosto.

À tarde, sou outra pessoa. Isadora. Não a esposa do Ricardo. Apenas Isadora.

Encontro Leonardo todos os dias.

Na terça, ele me fotografa. Eu, seminua, a luz batendo na minha pele. Ele diz que sou a musa que procurava. Eu digo que ele é o desejo que eu tinha esquecido.

Transamos no chão do estúdio, entre tripés e lentes. Ele me fode de quatro, as mãos agarrando meus quadris com força, dizendo que eu sou dele. E naquelas horas, eu sou.

Na quarta, vamos para um motel.

Não foi planejado. Saímos da galeria para tomar café e ele me olhou de um jeito que fez meu corpo inteiro responder. Entramos no primeiro motel que encontramos.

Ele me joga na cama, arranca minha roupa com pressa, me devora. Me faz gozar três vezes antes de gozar dentro de mim de novo.

Depois, deitados lado a lado, ele acaricia meu cabelo.

— Eu não deveria estar fazendo isso — ele diz, mas não parece arrependido.

— Nós dois não deveríamos.

— Você se arrepende?

Olho para ele. Penso.

— Não — respondo, e é verdade. — E você?

— Nunca.

Na quinta, acontece algo diferente.

Estamos no estúdio dele. Eu sentada no sofá velho que ele tem lá, vestida apenas com a camisa dele. Ele está revelando fotos em preto e branco — imagens de mim que ele tirou ontem.

Olho para aquelas fotos e não reconheço a mulher nelas.

Ela é sensual. Confiante. Livre.

Ela não está esperando por ninguém. Não está servindo. Não está se anulando.

Ela é.

— O que você está pensando? — Leonardo pergunta, vindo se sentar ao meu lado.

— Que eu não sabia que podia ser assim.

— Como?

— Eu mesma.

Ele me olha por um longo momento. Então pega meu rosto com as duas mãos.

— Isadora, eu preciso falar uma coisa.

Meu coração acelera. Não sei se quero ouvir.

— Fala.

— Eu sei que você é casada. Eu sei que isso é… complicado. Mas eu não consigo parar de pensar em você. Mesmo quando você vai embora. Mesmo sabendo que você volta pra ele.

Fico em silêncio.

— Eu não estou pedindo nada — ele continua. — Não estou pedindo pra você deixar ele. Eu só… preciso que você saiba. Isso não é só sexo pra mim. Não mais.

A sinceridade dele me desestabiliza.

Porque para mim, no começo, era só vingança. Era chumbo trocado. Era me provar que ainda posso ser desejada.

Mas em algum momento, sem eu perceber, virou outra coisa.

— Leonardo…

— Você não precisa falar nada — ele me interrompe. — Só precisava que você soubesse.

Ele me beija. Devagar. Como se estivesse memorizando.

E pela primeira vez, quando transo com ele, não é sobre Ricardo.

É sobre nós.

***

Na sexta à noite, algo muda.

Estou em casa, preparando jantar. Ricardo está no sofá, mexendo no celular. Ele ri de algo na tela.

— O que foi? — pergunto, quase automático.

Ele levanta os olhos, surpreso que eu tenha perguntado.

— Nada. Só um meme que o pessoal mandou no grupo.

Mas eu vi. Por um segundo, antes dele bloquear a tela, eu vi.

Não era o grupo do trabalho.

Era uma conversa privada.

Com um nome feminino no topo.

“Camila.”

A loira do colar tem nome agora.

Sinto a raiva voltar. Mas é diferente dessa vez. Não queima como antes. É mais fria. Mais calculada.

Porque eu não sou mais a mulher que descobriu a traição e ficou em casa chorando.

Eu sou a mulher que fez a mesma coisa.

E que gostou.

— Isa? — Ricardo me chama. — Você está bem?

— Estou ótima — respondo, e dessa vez é verdade.

Naquela noite, quando ele me toca, eu deixo. Mas não fecho os olhos pensando em Leonardo. Deixo os olhos abertos. Olhando para Ricardo. Pensando:

“Você não sabe. E eu nunca vou contar.”

E a sensação que vem é estranha. É uma espécie de paz sombria.

Eu dei a ele oito anos de fidelidade. De dedicação. De amor incondicional.

E ele me deu uma nota fiscal de cinco mil reais em um colar para outra mulher.

Agora estamos quites.

Mas a loba que acordei dentro de mim não quer parar.

***

No sábado pela manhã, Ricardo acorda com uma mensagem.

— Droga — ele murmura, olhando para o celular. — Vou ter que ir pro escritório. Problema com um cliente.

— No sábado?

— Eu sei, amor. Desculpa. Volto logo.

Ele se levanta, toma banho rápido, se veste.

Antes de sair, me beija.

— Você é a melhor esposa do mundo, sabia?

Sorrio.

— Eu sei.

Quando a porta fecha atrás dele, pego meu celular. Mando mensagem para Leonardo.

"Ele saiu. Vem aqui?"

A resposta vem em segundos.

"Endereço?"

Mando.

"Chego em vinte minutos."

Corro para o quarto. Troco de roupa. Lingerie bonita. Vestido solto. Deixo o cabelo solto.

Quando a campainha toca, meu coração está acelerado. Não de medo. De excitação.

Abro a porta.

Leonardo está ali, jeans escuro, camiseta branca, aquele sorriso no rosto.

— Isso é perigoso — ele diz, mas está entrando mesmo assim.

— Eu sei.

Fecho a porta atrás dele.

Ele me olha. Olha para a casa. Para a sala perfeitamente arrumada. Para as fotos de mim e Ricardo nas paredes.

— Aqui é onde você vive com ele.

— É.

— E você me trouxe aqui.

— Trouxe.

Ele vem para perto. Me encosta na porta que acabei de fechar.

— Por quê?

Olho nos olhos dele.

— Porque sou dona dessa casa também. E eu quero você nela.

Algo no olhar dele muda. Fica mais escuro. Mais intenso.

— Você tem certeza?

— Absoluta.

Ele me beija. Com fome. Com urgência. Como se quisesse me marcar.

Me leva para o sofá — o mesmo sofá onde sento com Ricardo toda noite. Me deita ali. Tira minha roupa peça por peça.

E me fode.

Ali.

Na casa que divido com meu marido. No sofá onde assistimos filmes juntos. E é o sexo mais intenso que já tivemos.

Porque não é só prazer. É transgressão. É poder. É liberdade.

Depois, deitados no chão da sala, nus, suados, ele acaricia meu cabelo.

— Isadora, o que estamos fazendo?

— Não sei — admito. — Mas não quero parar.

— E se ele descobrir?

— Não vai descobrir.

— Como você sabe?

— Porque ele não está prestando atenção.

Leonardo fica em silêncio por um momento.

— E se eu quiser mais? — ele pergunta, a voz baixa. — Mais que isso. Mais que encontros escondidos. Mais que ser o outro.

A pergunta me desestabiliza. Porque eu não tinha pensado nisso. Não tinha pensado no que vem depois. No fim do jogo.

— Eu não sei, Leonardo.

— Tudo bem — ele diz, me puxando para mais perto. — Mas pensa. Porque eu já pensei. E eu te quero. Toda você. Não só esses pedaços roubados.

Antes que eu possa responder, meu celular vibra.

É Ricardo.

"Vai demorar mais do que eu pensava. Almoço por aqui mesmo. Beijo."

Mostro a mensagem para Leonardo.

— Temos mais tempo — ele diz, sorrindo.

— Temos.

E ele me fode de novo.

Dessa vez no meu quarto.

Na minha cama.

Onde durmo com Ricardo toda noite.

E quando ele goza dentro de mim, gritando meu nome, eu sinto algo se soltar completamente.

Não sou mais a gata.Sou a loba. E a loba não tem medo.

PARTE IV — O SILÊNCIO

As semanas seguintes se dissolvem em uma espécie de equilíbrio perigoso.

De manhã, acordo ao lado de Ricardo. Preparo café. Arrumo a casa. Sorrio quando ele me beija antes de sair.

À tarde, me encontro com Leonardo. Na galeria. Em motéis. Às vezes, quando Ricardo avisa que vai chegar tarde, na minha própria casa.

À noite, volto a ser esposa. Preparo jantar. Converso sobre o dia dele. Transo quando ele quer.

Dois mundos. Duas versões de mim. Coexistindo.

E estranhamente, funciona.

Ricardo não suspeita de nada. Pelo contrário — ele está mais presente, mais atencioso. Como se o fato de eu estar diferente o tivesse despertado de alguma forma.

— Você está radiante ultimamente — ele comenta uma noite, passando a mão pelo meu rosto. — Fez algo diferente?

— Só estou feliz — respondo.

Ele sorri, satisfeito, como se minha felicidade fosse resultado dele. E talvez seja. Só não do jeito que ele imagina.

***

É em uma terça-feira, quase um mês depois do primeiro encontro com Leonardo, que algo muda.

Estou na galeria, deitada no sofá do estúdio, só de calcinha, enquanto Leonardo edita fotos no computador. Fotos minhas. Sempre fotos minhas.

— Isa — ele chama, sem tirar os olhos da tela.

— Hm?

— Vem ver isso.

Me levanto, vou até ele. Na tela, uma sequência de imagens minhas. Preto e branco. Luz e sombra. Meu corpo em ângulos diferentes, expressões diferentes.

Mas todas têm algo em comum.

Nos meus olhos, há algo selvagem. Algo livre.

— É pra uma exposição — ele explica. — Quero mostrar essas fotos. Mas só se você deixar.

Olho para as imagens. Para a mulher nelas.

— Ninguém vai saber que sou eu?

— Não mostro seu rosto completo em nenhuma. Mas é você. Sua essência. Sua força.

Hesito.

Expor essas fotos é perigoso. É tornar público algo que deveria ser secreto. É deixar que o mundo veja quem eu me tornei.

Mas também é libertador.

— Pode mostrar — decido.

Leonardo se vira na cadeira, me puxa para o colo dele.

— Tem certeza?

— Tenho. Quando vai ser?

— Daqui a três semanas. Sexta à noite. Vai ser aqui mesmo, na galeria.

— Vou estar lá.

— Mesmo se seu marido quiser vir junto?

A pergunta me pega de surpresa.

Porque não tinha pensado nisso. Em como explicaria a Ricardo minha presença em uma exposição de fotografia. Em como reagiria se ele reconhecesse algo nas fotos — uma curva, uma marca, um gesto.

— Vou dar um jeito — respondo, mas a dúvida já está plantada.

Leonardo me olha por um longo momento. Então beija minha testa.

— Eu te amo — ele diz, simples assim.

E o mundo congela.

Porque essa é a primeira vez que ele diz essas palavras. E elas mudam tudo.

— Leonardo…

— Não precisa falar de volta — ele me interrompe. — Eu sei que é complicado. Eu sei que você tem uma vida com ele. Mas eu precisava que você soubesse. Eu te amo. E não é só desejo. Não é só sexo. É você. Toda você.

Fico em silêncio. Porque não sei o que dizer.

Eu gosto dele. Gosto muito. Talvez até ame, de alguma forma. Mas será que é amor de verdade? Ou é só a emoção de ser vista? De ser desejada? De ser livre?

— Eu não sei o que sinto — admito, e é a verdade mais honesta que posso dar. — Mas eu sei que não quero que isso acabe.

— Então não acabe.

— Mas também não sei se consigo te dar o que você quer.

— O que eu quero é você. Do jeito que for possível.

Ele me beija. Devagar. Com ternura que não tinha antes.

E pela primeira vez, sinto algo parecido com culpa.

Não por Ricardo. Por Leonardo.

Porque ele merece mais do que pedaços roubados. Mais do que encontros escondidos. Mais do que ser o outro. Mas não sei se consigo dar mais.

***

Naquela noite, em casa, Ricardo está estranho. Mais quieto. Mais distante. Mexendo no celular com frequência.

— Está tudo bem? — pergunto, servindo o jantar.

— Sim, sim. Só cansado.

Mas não é só cansaço. Há algo mais. Uma tensão que não estava lá antes.

Jantamos em silêncio. Ele mal toca na comida.

Depois do jantar, ele vai para o quarto. Toma banho demorado. Quando sai, tem uma toalha na cintura e o celular na mão.

— Isa, eu preciso te contar uma coisa.

Meu coração dispara.

“Ele sabe. De alguma forma, ele descobriu.”

— O quê?

Ele hesita. Passa a mão pelo cabelo molhado.

— Eu… consegui uma promoção. No trabalho. É uma ótima oportunidade. Mas vai exigir mais de mim. Mais viagens. Mais tempo fora.

Levo alguns segundos para processar.

Não é sobre mim. Não é sobre Leonardo. É sobre trabalho.

O alívio vem primeiro. Depois, outra coisa.

Raiva.

Porque mesmo agora, mesmo nesse momento que ele acha importante, é sobre ele. Sobre a carreira dele. Sobre o que ele quer.

— Que bom — digo, e a voz sai mais fria do que pretendo.

Ele percebe.

— Você não parece feliz.

— Estou feliz por você. Mas você mal está aqui já. Como vai ficar com mais viagens?

— Eu sei que vai ser difícil. Mas é temporário. E o salário vai aumentar bastante. Vamos poder fazer aquela viagem que você quer. Reformar a casa. Ter uma vida melhor.

“Vida melhor pra quem?”

Mas não falo isso. Porque aprendi a não falar.

— Tudo bem — respondo. — Se é o que você quer.

— É o que eu preciso — ele corrige. — Pra dar a você a vida que merece.

E então ele me abraça. Como se eu devesse estar grata. Como se ele estivesse fazendo tudo isso por mim.

Quando na verdade, nunca me perguntou o que eu quero.

***

Na sexta seguinte, acontece algo que não espero.

Estou na galeria com Leonardo, deitada no chão do estúdio depois de mais um encontro intenso, quando meu celular toca.

É Júlia.

— Oi, Ju.

— Isa! Quanto tempo! Tá sumida.

— Desculpa, estive ocupada.

— Ocupada com o quê? — ela ri. — Ou melhor, com quem?

Olho para Leonardo. Ele está me observando, curioso.

— Posso te ligar depois?

— Na verdade, não. Eu tô passando aí perto. Vamos tomar um café rápido? Faz séculos que não te vejo direito.

Hesito. Porque Júlia é esperta. Ela vai perceber que algo mudou. Ela sempre percebe.

Mas também sinto falta dela. Da amiga. Da normalidade.

— Tudo bem. Me encontra no café da esquina em vinte minutos?

— Fechado!

Desligo. Leonardo está me vestindo com aquele sorriso no rosto.

— Vai encontrar a amiga? A que sabe de mim?

— Ela não sabe de você. Sabe que eu… que eu descobri sobre o Ricardo. Mas não sabe o resto.

— Vai contar?

— Não sei.

Ele termina de abotoar minha blusa, me puxa para um beijo.

— Seja o que for que você decidir, eu vou estar aqui quando voltar.

***

Júlia está no café quando chego. Ela me abraça forte, me examina de cima a baixo.

— Caramba, Isa. Você está… diferente.

— Todo mundo diz isso ultimamente.

— Porque é verdade. Você está… como eu digo isso… radiante? Mas também tem algo nos seus olhos. Como se você tivesse um segredo.

Sento na frente dela. A garçonete vem, pedimos café.

— E aí? — Júlia pergunta, se inclinando para frente. — Como você está? Depois daquela história toda do colar…

— Eu estou bem.

— Bem? Só bem?

— Bem.

Ela me olha por um longo momento.

— Isadora, eu te conheço há mais de dez anos. Eu sei quando você está escondendo algo.

E é como se uma represa se rompesse.

Conto tudo.

Leonardo. Os encontros. O sexo. A sensação de estar viva de novo. A culpa que não sinto. O amor dele. Minha confusão.

Júlia escuta em silêncio. Quando termino, ela fica alguns segundos só me olhando.

— Uau — é tudo que ela diz.

— Eu sei. É loucura.

— Não. Não é loucura. É… esperado? Ele te traiu. Você está dando o troco.

— Mas não é só troco mais — admito. — No começo era. Mas agora… eu não sei o que é.

— Você ama esse fotógrafo?

A pergunta me paralisa.

— Eu não sei.

— E o Ricardo? Você ainda ama ele?

Outra pergunta impossível.

— Eu amei. Por muito tempo. Mas agora… eu não sei se o que sinto é amor ou só costume. Ou medo de ficar sozinha. Ou…

— Ou você já foi embora emocionalmente mas ainda não admitiu — Júlia completa.

As palavras me atingem com força. Porque é exatamente isso. Eu já fui embora. Só ainda não saí de casa.

— O que eu faço, Ju?

Ela pega minha mão.

— Você precisa decidir. Porque não dá pra ficar nesse meio termo pra sempre. Uma hora alguém vai se machucar. E provavelmente vai ser você.

Ela está certa. Eu sei que está. Mas ainda não sei qual decisão tomar.

***

Naquela noite, Ricardo chega em casa mais cedo.

Ele está de bom humor. Traz flores. Um buquê grande de rosas vermelhas.

— Pra você — ele diz, me entregando. — Porque você é incrível e eu não falo isso o suficiente.

Pego as flores. Lindas. Caras. Vazias.

— Obrigada.

— E tem outra coisa — ele continua, animado. — Lembra que eu te falei de uma exposição de arte que vai rolar sexta que vem? Um colega do trabalho me convidou. Pensei que a gente podia ir junto. Fazer um programa diferente.

Meu sangue congela.

— Exposição de arte?

— É. De fotografia. Num lugar pequeno, intimista. Vai ser legal. Você topa?

“Não. Não pode ser.”

— Onde é?

— Uma galeria ali perto do centro. Esqueci o nome. Deixa eu ver…

Ele pega o celular, procura. E quando mostra a tela, eu vejo.

Galeria Leonardo Cruz — Exposição "Metamorfose"

É a exposição dele. A exposição com minhas fotos. E Ricardo quer ir. Comigo.

— Então? — ele pergunta, sorridente. — Você topa?

Tenho dois segundos para decidir.

Posso inventar uma desculpa. Dizer que não posso. Que tenho compromisso. Que não me sinto bem. Ou posso ir. E enfrentar.

— Topo — ouço minha própria voz dizer.

Ricardo sorri.

— Ótimo! Vai ser divertido.

E eu penso: Divertido não é exatamente a palavra que eu usaria.

***

Os dias até a exposição passam em uma espécie de tensão surreal.

Eu conto para Leonardo que Ricardo vai estar lá.

Ele fica pálido.

— Sério?

— Sério. Um colega dele conhece você, o convidou. E ele quer ir comigo.

— Porra, Isa. O que a gente faz?

— Nada. A gente age normal. Ele não vai reconhecer as fotos. E mesmo que desconfie, não tem como ter certeza.

— E se ele perceber alguma coisa? A forma como eu olho pra você? A forma como você me olha?

— A gente vai ter cuidado.

Leonardo passa a mão pelo rosto, claramente nervoso.

— Isso é loucura.

— Eu sei.

— Mas você não vai cancelar, né?

— Não.

Ele me olha. Então sorri. Aquele sorriso perigoso.

— Você é louca. E eu amo isso em você.

***

Sexta-feira chega.

Escolho minha roupa com cuidado. Vestido preto, simples mas elegante. Salto médio. Cabelo solto. Maquiagem discreta.

Ricardo está animado. Coloca uma camisa social que eu mesma passei, aquele perfume que sempre usou.

— Você está linda — ele diz quando saímos.

— Obrigada.

No caminho, ele fala sobre o colega, sobre como é importante esse networking, sobre como essas exposições pequenas são boas para fazer contatos.

Eu escuto sem escutar. Meu coração está acelerado.

Quando chegamos na galeria, já tem gente. Não muita, mas o suficiente para criar um burburinho agradável.

E então eu o vejo. Leonardo.

Do outro lado da galeria, conversando com algumas pessoas. Ele me vê também. Por uma fração de segundo, nossos olhos se encontram.

E eu vejo tudo ali. O desejo. A tensão. O medo. Então ele desvia o olhar, volta para a conversa.

— Vem — Ricardo pega minha mão, me guia para dentro.

Começamos a olhar as fotos. E são lindas.

Cada uma é uma obra de arte. Luz. Sombra. Curvas. Emoção.

Paramos em frente a uma foto específica. Meu corpo de costas, a luz batendo na curva da coluna, o cabelo caindo em ondas.

Ricardo olha por um longo momento.

— Essa é incrível — ele comenta. — Tem algo nela… não sei. Algo familiar.

Meu coração quase para.

— Familiar como?

— Não sei explicar. A forma do corpo. Sei lá. Me lembra você.

“Porque é eu.”

— Acho que todo corpo feminino se parece um pouco — digo, tentando soar casual.

Ele ri.

— Talvez. Mas você é mais bonita.

E então ele me beija. Ali. Na frente da foto de mim que outro homem tirou.

Quando nos separamos, olho para o lado.

Leonardo está olhando.

E a expressão no rosto dele é devastadora.

***

A noite continua.

Ricardo circula, conversa com pessoas, apresenta a "esposa linda" para quem quer ouvir.

Eu sorrio. Aperto mãos. Faço comentários educados sobre as fotos. E o tempo todo, sinto Leonardo me observando. Em um momento, Ricardo vai ao banheiro.

Leonardo se aproxima.

— Você está bem? — ele pergunta, a voz baixa.

— Estou.

— Mentira.

— Leonardo…

— Ver você com ele está me matando.

— Eu sei. Mas você sabia que isso podia acontecer.

— Saber e ver são coisas diferentes.

Antes que eu possa responder, Ricardo volta.

— Leonardo? — ele estende a mão. — Ricardo. Colega do Marcos. Parabéns pela exposição. Está incrível.

Leonardo aperta a mão dele.

— Obrigado. Prazer em conhecer.

— Essa é minha esposa, Isadora.

Leonardo olha para mim. Nossos olhos se encontram.

— Prazer — ele diz, e sua voz está controlada, mas eu conheço aquela tensão.

— O prazer é meu — respondo, e as palavras têm outro significado.

Os três ficamos ali. Um triângulo invisível. Ricardo nem percebe que está no meio de dois mundos que não deveriam se encontrar.

— Sua obra é muito íntima — Ricardo comenta. — Você fotografa modelos profissionais?

— Às vezes — Leonardo responde, me olhando. — Às vezes fotografo musas. Mulheres que me inspiram.

— Deve ser difícil encontrar a musa certa.

— É. Mas quando você encontra… — ele para, me olha diretamente — … você sabe. É impossível não reconhecer.

Ricardo ri, alheio à tensão.

— Bem, você tem sorte. Essas fotos são lindas. Principalmente aquela ali de costas. Algo nela me fascinou.

Leonardo sorri. Um sorriso que só eu entendo.

— É minha favorita também.

E então Marcos aparece, chama Ricardo para apresentar outras pessoas.

Fico sozinha com Leonardo por alguns segundos.

— Você é um idiota — sussurro.

— E você é covarde — ele responde, mas não há raiva. Só tristeza.

Então ele se afasta.

E eu fico ali, no meio da galeria, cercada de fotos minhas, ao lado do meu marido, longe do homem que me ama.

E pela primeira vez, sinto o peso do que construí.

***

Voltamos para casa em silêncio.

Ricardo está de bom humor. Fala sobre a exposição, sobre os contatos que fez, sobre como foi bom sair junto comigo.

— A gente devia fazer isso mais vezes — ele diz, pegando minha mão. — Sair. Fazer coisas diferentes.

— É — concordo, sem energia.

Em casa, ele me puxa para o quarto.

Quer transar. E eu deixo. Porque é isso que esposas fazem. Mas enquanto ele está dentro de mim, enquanto geme meu nome, enquanto me fode com o ritmo familiar, eu olho para o teto.

E penso em Leonardo. Na dor no rosto dele. No amor dele. Na escolha que ainda não fiz.

***

Na manhã seguinte, acordo mais cedo que o normal.

Ricardo dorme ao meu lado, a mão no meu quadril como sempre. Mas algo mudou.

Ontem à noite, vendo os três juntos — eu, Ricardo, Leonardo — percebi algo. Não posso continuar assim. Não porque é errado. Não porque é perigoso. Mas porque não é justo.

Não é justo com Leonardo, que me ama e merece alguém que possa amá-lo completamente.

Não é justo com Ricardo, que merece saber que o casamento acabou emocionalmente, mesmo que ele não saiba por quê.

E não é justo comigo, que mereço saber quem sou quando não sou definida por nenhum dos dois.

Me levanto devagar. Vou até a janela. Olho para a cidade acordando.

E pela primeira vez em muito tempo, não sei o que vem a seguir. Mas sei uma coisa:

A loba que despertei dentro de mim não vai mais voltar para a jaula.

Mesmo que isso signifique perder tudo.

Mesmo que isso signifique ficar sozinha.

Porque ser loba sozinha é melhor do que ser gata presa.

E eu finalmente entendi isso.

Pego o celular. Abro o WhatsApp. Fico olhando para o nome de Leonardo na lista de contatos.

Meus dedos pairam sobre o teclado. Mas não escrevo nada. Ainda não. Porque primeiro, preciso descobrir quem eu sou sem nenhum dos dois.

E só então posso decidir o que vem depois.

[FIM]

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Foto de perfil de Fabio N.MFabio N.MContos: 150Seguidores: 167Seguindo: 53Mensagem Segredos para uma boa história: 1) Personagens bem construídos com papéis e personalidades bem definidas qualidades e defeitos (ninguém gosta de Mary Sue ou Gary Stu); 2) Conflitos: "A quer B, mas C o impede" sendo aplicado a conflitos internos e externos; 3) Ambientação sensorial, descrevendo onde estão seus personagens, o que estão vendo ou sentindo.

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EPÍLOGO — (Narrado por Ricardo)

Às vezes eu olho pra minha mulher e não a reconheço mais.

Não de um jeito ruim, necessariamente. Ela está diferente — mais intensa, mais presente em alguns momentos, mais distante em outros. Como se tivesse acordado de um sono longo. Como se tivesse encontrado algo que estava perdido.

Eu gostei das mudanças, no começo. Achei que era só ela cuidando mais de si mesma. Academia. Roupas novas. Aquele brilho nos olhos que não via há tempos.

Até achei sexy.

Mas hoje à noite, jantando macarrão à carbonara — aquele que ela faz perfeitamente —, algo muda.

Estou contando sobre o trabalho. Sobre como Seu Serafim, o porteiro mais antigo do prédio, finalmente terminou o tratamento de quimioterapia. Como os médicos estão otimistas. Como a família dele está esperançosa.

— Graças a Deus — digo, tomando um gole de vinho. — Por um tempo, achei que ele não ia conseguir. Tratamento caríssimo, sabe? A família não tinha condição. Foi tenso.

Isa está quieta, mexendo a comida no prato.

— Mas deu certo no final — continuo. — A rifa que a gente organizou no escritório arrecadou bem. Pagou boa parte do tratamento.

Ela para de mexer no garfo.

— Rifa? — a voz sai estranha, tensa.

— É. Coisa simples. Organizei lá por abril, não lembro direito. O Seu Serafim tinha acabado de receber o diagnóstico. Câncer raro, tratamento experimental, um absurdo de caro. A família tava desesperada.

Olho pra ela. Isa está pálida.

— Você tá bem? — pergunto.

— Continua — ela sussurra. — Conta a história.

Acho a reação estranha, mas continuo.

— A gente fez uma vaquinha primeiro, mas não ia dar. Não ia chegar nem perto do que precisava. Aí eu pensei: rifa. Mas tinha que ser algo que valesse a pena, sabe? Pra galera comprar bilhete, tinha que ter um prêmio de verdade. Não podia ser besteira.

O garfo cai da mão dela. Bate no prato com um barulho seco.

— Isa?

Ela não olha pra mim. Só fica ali, parada, olhando pro prato.

— Eu pedi pro Marcos me ajudar — continuo, começando a ficar preocupado. — Disse pra ele ir numa joalheria boa e comprar algo bonito. Dei o cartão conjunto, falei pra gastar até cinco, seis mil se fosse preciso. Quanto mais caro, melhor. Ele voltou com um colar lindo. Ouro branco, uma pedra azul — água-marinha, acho. Muito bonito mesmo. Cinco mil reais redondos.

Isa levanta os olhos pra mim.

E o que vejo ali me assusta. Não consigo decifrar a expressão. Parece choque. Parece dor. Parece algo quebrando.

— A Camila do financeiro ganhou — termino, sem entender a reação dela. — Moça nova, simpática. Ela ficou radiante. Nunca tinha ganhado nada na vida, coitada. Postou foto no Instagram, toda feliz com o colar. Foi legal ver.

Silêncio absoluto.

Isa só me olha. Imóvel.

— Amor? — chamo, começando a ficar realmente preocupado. — Você conhece a Camila?

— Não — ela finalmente responde, e a voz sai rouca. — Eu... não.

— Então por que você tá tão... estranha?

Ela pisca. Balança a cabeça levemente, como se tentasse despertar de um sonho.

— Nada. Desculpa. É só que... eu não sabia dessa história. Você nunca me contou.

— Não? — penso. Será que não contei mesmo? — Ah, deve ser porque eu não gosto de ficar falando de coisa do trabalho em casa. E também não queria parecer que tava me vangloriando, sabe? De ter ajudado. Foi só... o certo a fazer.

Ela assente. Mas continua pálida.

— Você tem certeza que tá bem? — insisto. — Você ficou branca.

— Estou bem — ela mente. Eu sei que é mentira. Mas não insisto.

— Tá bom. Se você diz.

Voltamos a comer em silêncio.

Mas o clima mudou. Há algo pesado no ar. Algo que não estava ali antes.

Olho pra ela algumas vezes. Ela está olhando pro prato, mas não está comendo. Só mexendo a comida de um lado pro outro. O rosto ainda pálido. As mãos tremendo levemente.

— Isa...

— Eu não tô com fome — ela me interrompe, levantando da mesa abruptamente. — Desculpa. Acho que vou tomar um banho.

Ela sai antes que eu possa responder.

Fico ali, sozinho na mesa, olhando pro prato dela ainda cheio.

E me pergunto o que foi aquilo.

O que eu disse que a afetou tanto.

Mas não consigo entender.

Termino de jantar sozinho. Levo os pratos pra pia. Lavo. Guardo.

Ouço o chuveiro ligado no andar de cima.

E só posso esperar que, seja lá o que for, ela me conte quando estiver pronta.

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