Eu, Joana, tava ali deitada de costas, tentando pegar no sono de qualquer jeito, mas o calor tava de matar. O corpo inteiro grudava no lençol fino, o suor escorrendo devagar pela espinha, pingando no colchão. O ventilador girava preguiçoso lá em cima, só espalhando o ar quente, e aquela luz amarela forte da lâmpada pelada batia direto na minha cara, mesmo eu virada pro outro lado. Parecia farol de caminhão na BR, não dava pra ignorar.
Graça tava do meu lado, como sempre, com o caderno aberto no colo, riscando papel com a caneta. Toda noite era a mesma ladainha: eu pedia pra apagar, ela dizia que precisava estudar mais um pouquinho. Eu já tava acostumada, mas naquela noite o cansaço tava batendo forte. Tinha lavado roupa o dia inteiro no tanque, ajudado na roça do seu Zé, carregado balde de água da cacimba… meu corpo tava pedindo trégua.
— Ôxe, Graça, apaga essa luz, menina! Tá me cegando aqui, viu? — eu resmunguei, voz arrastada.
— Eu ainda não terminei o continente africano, Joana. Só mais um tiquinho, vai. Dez minutinho só.
— Dez minutinho? Tu diz isso toda noite e aí vira hora. Eu tô morta, rapaz. Meu corpo tá pedindo cama, não claridade de sol do meio-dia.
Ela bufou baixinho, continuou escrevendo. Eu me remexi, tentando achar uma posição que não doesse tanto as costas. O colchão afundou um pouco mais perto dela. Meu braço roçou na perna nua dela, sem querer. A pele dela tava quente, macia, úmida de suor. Foi só um toque bobo, mas eu senti um arrepio subir pelo braço. Estranho. Não era frio, era… outra coisa. Um calorzinho diferente que subiu pelo peito.
— Se tu apagar agora, eu te pago um mingau de milho com canela amanhã na venda do Zé — tentei negociar, voz mais mole.
— Mingau não paga minha nota, mana. Eu preciso passar nessa prova, senão adeus sonho de fazer Enem e sair daqui.
Silêncio. Só o riscar da caneta e o grilo lá fora cantando sem parar.
Eu estiquei o braço devagar, procurando o interruptor atrás da cabeceira. Foi quando ela segurou meu pulso no ar. Os dedos dela quentes, firmes, segurando ali. Meu coração deu um pulo esquisito. Ela não soltou logo. O polegar dela começou a fazer um carinho miúdo na parte de dentro do meu braço, onde a pele é fininha. Foi devagar, quase sem querer. Eu não puxei a mão. Deixei. O toque era gostoso, quente, e eu senti meu corpo relaxar um pouquinho, mesmo com o calor todo.
— Tu é teimosa que nem jumento, sabia? — falei, mas sem raiva. Saiu mais rouco do que eu queria.
— E tu é preguiçosa que nem gata no telhado quente.
Ela soltou meu pulso, mas a mão caiu devagar na minha barriga, por cima da camisola. O tecido fino tava grudado na pele suada. A palma dela descansou ali, quente, pesada. Eu senti a respiração dela mudar, ficar mais funda. Meu umbigo subia e descia debaixo da mão dela. Era familiar, mas de repente parecia… perigoso. Gostoso demais.
Eu virei o rosto devagar. Nossos olhos se encontraram na luz amarela. O olhar dela tava diferente. Mais escuro, mais quieto. Meu estômago revirou. Eu me cheguei mais perto, o nariz quase encostando no dela. Senti o hálito quente dela — doce, com cheirinho de pasta de dente e um restinho de café que ela tomou na cozinha. Meu corpo inteiro arrepiou, mas eu não recuei.
O beijo veio devagarinho. Os lábios dela eram quentinhos, macios, um pouco pegajosos do suor. Quando ela abriu a boca, eu entrei com a língua, lenta, explorando. O gosto era dela: saliva doce, salgada, familiar. Eu fechei os olhos e deixei acontecer. Não pensei em nada. Só senti o calor subindo, o latejar começando lá embaixo.
A mão dela subiu por baixo da minha camisola, sentindo a pele da barriga, subindo até o peito. Quando ela tocou meu seio, o bico já tava durinho, roçando na palma. Ela apertou de leve, e eu soltei um suspiro rouco na boca dela. O som vibrou entre nós. Meu corpo reagiu sozinho: as costas arquearam, empurrando mais contra a mão dela.
Depois tudo acelerou. Eu desci a mão pela coxa dela, apertando forte, cravando os dedos na carne macia. Ela abriu as pernas sem hesitar. Eu rasguei a calcinha pro lado com um puxão e enfiei dois dedos fundo, de uma vez. Ela arfou alto, o corpo se contraindo em volta de mim. Era apertado, molhado, quente demais. Eu forcei mais, curvando os dedos pra cima, batendo forte naquele ponto que eu sabia que fazia ela tremer. Ela cravou as unhas nas minhas costas, arranhando fundo, marcando a pele. A dor misturada ao prazer só me fez mexer mais rápido, mais forte.
Ela quis retribuir. Desceu a mão, encontrou eu encharcada, quente. Enfiou três dedos de uma vez, sentindo tudo apertar em volta. Mexeu rápido, fundo, o polegar esfregando com pressão. Eu mordi o ombro dela pra não gritar alto, o corpo arqueando contra o dela.
A gente se beijava com desespero, dentes batendo, línguas brigando, saliva escorrendo. Eu mordi o pescoço dela forte, chupando depois, deixando marca. Ela mordeu de volta meu ombro.
Quando ela gozou, foi violento: o corpo travou, as pernas fecharam em torno da minha mão, apertando meus dedos enquanto tremia inteira. Ela mordeu meu ombro pra abafar o grito, lágrimas escorrendo. Eu não parei — continuei mexendo, forçando, prolongando até ela ficar mole, ofegante.
Logo depois eu vim. Senti as paredes apertarem forte em volta dos dedos dela, pulsando rápido, o corpo convulsionando. Enterrei o rosto no pescoço dela, mordendo de novo, unhas cravando nas costas enquanto gozava com força, o líquido quente escorrendo pelos dedos dela e pingando no lençol.
Depois, ficamos ali, suadas até o osso, coladas, ofegantes. O cheiro nosso — suor, sexo, sabonete de coco — impregnado no quarto inteiro. Meu coração ainda batia descompassado contra o peito dela.
Eu falei primeiro, voz rouca, quase rindo:
— Agora apaga essa luz danada, vai… tô acabada, oxente.
Ela riu baixinho, o corpo ainda tremendo. Esticou o braço devagar e clicou o interruptor.
A escuridão caiu quente, macia. Eu me virei de lado, puxei ela pra perto, perna sobre perna, braço em volta da cintura dela. Senti o peito dela subir e descer contra o meu.
O caderno caiu no chão com um barulhinho seco.
Naquela noite, eu não queria mais dormir sozinha.
Eu só queria ela ali, grudada em mim. Como se sempre tivesse sido assim. E, no fundo, talvez sempre tenha sido.